domingo, 4 de outubro de 2026

Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos, novo livro de Renato Melo

 

Renato Melo lançou recentemente seu novo livro, Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos.

Andarilho do verso e sua persistência, Renato Melo é um poeta de onde já não se pode tornar atrás: e com isso significa que está lançado com suas todas forças no oceano do verbo, entregue a seu risco e sua sina; alcançou mesmo um status, raro como ave que ronda a extinção, em que esperamos seu próximo livro, com expectativa alegre. Sua poesia, como jaz patente neste Aqueles que cantam, é toda uma psicanálise, uma expedição cartográfica sobre as trilhas da alma e suas bagagens. 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Letramento, AQUI. E você pode conhecer mais do trabalho de Renato em seu perfil no Instagram, AQUI.

Os seguintes versos, extraídos da obra, dão conta de sua fluência:


ENSINE ISSO AOS MENINOS

 

Conhecer as coisas, as garças, as graças

conhecer as riquezas do mundo em côvados

o curso das estrelas

em seu número, peso e ferida.

Será mesmo que a ignorância é uma bênção?

Importa proteger os filhos

das próprias palavras

mostrar o mundo

todos os lamentos

sua melancolia num espelho

e ainda em parto o cheiro da chuva

ao ponto de fazer tremer

as pálpebras dos meninos.

 

Ante os tremores do universo

aqueles que cantam zombam dos relâmpagos,

tal melodia nos enche de confiança.

Bom que seja assim, ensine isso a eles.

Que iluminados resistam a toda maligna intenção

ainda que permitir o milagre

seja algo que doa.


EXATIDÃO

 

Por isso falo com Deus, oferto tudo

o senso crítico, rude.

Oferto tudo, ferramentas e talentos

enxada, machado exangue.

Oferto tudo, as flores murchas do jardim

as belas, as bobas, a minha comunhão

sob o sol. Oferto tudo

falo com Deus enquanto frio

perante o rio sob os olhares tensos

desta minha (in)questionável

lucidez.

 


SOLIDÃO DE PESCADOR

 

Se a verdade não fosse tão estreita,

o Anjo da morte nem existiria.

Incapaz de se conter, o corpo é vasto

qualquer insurgência faz de seu rastro um abismo

acendendo desolações

por onde cair.

 

Neste céu nublado, solidão de pescador

o transgressor indigente assombrado vaga:

 

— "Afasta-te de mim, meu Senhor!"

 

Seu olhar abalado prefere a fuga, o fogo.

Faz sentido sua comiseração.

Ante a encarnação da indulgência, não há nada

mais nobre que se possa ansiar.

 

Da sinceridade Deus se agrada, Ele vê

a carne despojada em longa anunciação

ansiando por uma aurora ainda

não vertida. Nua expectação exprime:

 

— Que é o homem longe da Fonte?

 

Antes que o galo cante, é melhor se reaver.

Pode ser que a dor da traição se torne

insuportável — o Cristo até que perdoa.

Muitas vezes o homem a si mesmo, não.

 

A carne é bem fraca!



AMOR ERRADO

 

Saber se amar é uma astúcia, requer insurgência.

O resto do mundo prefere fingir

que não faz falta.

 

É indizível o amor errado e num quarto escuro

todo prazer é ateu — a não ser, é claro

que se converta em poesia ou coisa bela sem culpa.

 

Acreditar que vale tudo me adoece

amor não é metástase, nem brinquedo, nem suicídio

coletivo.


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