terça-feira, 28 de outubro de 2014

SALMO 137 EM LINGUAGEM MODERNA





Pusemo-nos a chorar sobre nós mesmos
Os nossos vestidos rasgaram-se, entretanto
Nos ramos as harpas entrelaçavam folhas
Nos salgueiros o amor com as feridas
Nas margens do Quebar, o quanto
Peso pode ter o pranto ?
No microscópio as lágrimas, a angústia
Hoje dos hebreus à luz da física quântica.


 28-10-2014


© J.T.Parreira


 

sábado, 25 de outubro de 2014

UM CAFÉ EPICURISTA

um poema auto-aniversário

sentado com a água do rio por tecto
à escuta de um sabor, que me chegue
um veludo agreste talvez novo
um perfume furtado à árvore
por pássaros de passagem

assim sentado bebo um café,
com o descuido por mastro, epicurista
sapiente de muito pouco, muito menos
de contar os minutos pelo relógio
— pois nem sei se existe tempo

o café que bebo epicurista é o que tenho
de certo ou só pontos de luz que saltam
e nem sequer o café pois, epicurista, é ele que me bebe
bebe-me de rosto frio, quando
o sol deste lado se levanta à beira da dor
que passa no enlace da chávena

Rui Miguel Duarte
17/10/14

sábado, 18 de outubro de 2014

Primeira Carta aos Coríntios, 13



Conheço as línguas dos homens. São físicas
descrições de sons e sentidos, desdobram-se
em cores para pintar o mundo.  São frias
se vêm do norte, do sul se vêm com fogo.
Com as suas línguas
de metal celeste, conheço os anjos.
Mas será como ter os ouvidos tapados
com silêncio, se não tiver amor
Conheço a maneira de transportar os montes
e os mistérios que posso esconder
entre os meus lábios, e no espelho
que é a profecia,  posso ver o futuro. Nada será
se não tiver amor. E ainda que conheça a cor
do dinheiro e os pobres
que se alegram comigo, o que importa
se não exercitar na alma o gozo do amor.

17-10-2014


©  J.T.Parreira 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Trem de Tropas, poema de Karl Shapiro


Trem de Tropas

Tradução de Sammis Reachers e Jorge Pinheiro

À nossa passagem a cidade se detém. Os trabalhadores
Levantam seus braços untados e nos saúdam e sorriem.
As crianças gritam como no circo. Os homens de negócios
Observam-nos esperançosos e prosseguem seu caminho medido.
E há mulheres de pé na porta estupefata de suas casas
Que se movem mais suavemente e parecem pedir nosso regresso,
como se uma lágrima que cegara o curso da guerra
Pudesse dissolver de uma vez nosso aço em seu doce desejo.

Fruto do mundo, ai, todos agrupados
pendurados como de uma cornucópia
em total camaradagem, com as caras amontoadas
Para pulverizar a cidade com assobios e olhares lascivos.
Uma garrafa se rompe nos postes
e uns olhos se fixam na rosa sorridente de uma dama,
Esticados como um elástico e estalam e beliscam
a boca desejosa do sabor de um beijo.

E através de horríveis continentes e dias,
nos arrastamos decididos, sujos e ligeiramente bêbados,
os bons maus rapazes de circunstância e azar,
cujos capacetes como cubos golpeiam a parede nua
de onde se retorcem os cadáveres de nossas mochilas
ao lado dos fuzis que só se parecem consigo mesmos.
E a distância se encolhe como um cinto apertado aperta o ombro e o mantém firme.

Eis um baralho de cartas; você que reparte,
dá-me sorte, um par de touros,
a sorte do novato, o valete zarolho
Ouros e copas são vermelhos, mas as espadas são negras e espadas são espadas e paus são trevos-negros
Mas saque-me trunfos, recordações de paz. Isso exige razão e aritmética,
a sorte também viaja e nem todos regressam

Os trens levam aos barcos e os barcos à morte ou aos trens, e os trens à morte ou aos caminhões, e os caminhões à morte, ou os caminhões conduzem à marcha, a marcha à morte ou a sobrevivência que é nossa única esperança;
e a morte nos devolve aos caminhões e aos trens e aos barcos, porém a vida leva à marcha, oh bandeira!, finalmente
o lugar da vida encontrado depois dos trens e da morte -

Brilhante anoitecer das nações depois da guerra.

Do livro SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: Uma Antologia Poética (Organização e edição de Sammis Reachers, 2014).

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A MORTE NA TORRE GIRATÓRIA DO B-24


Poema de Randall Jarrell
(From The Complete Poems by Randall Jarrell, Copyright © 1969)
 

Do ventre da minha mãe caí no Estado,
E dobrado num útero de acrílico até meu blusão molhado congelou.
A trinta mil pés da terra, perdi o sonho da vida,
Acordei com a anti aérea e o pesadelo dos caças.
Quando morri lavaram-me para fora da torre com a mangueira.

Versão minha  © J.T.Parreira  

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Antologia de poemas da Segunda Guerra Mundial em livro gratuito


Sofro da estranha mania de organizar antologias.  Já são mais de dez. Some-se a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu.
     Eis esboçado então o cenário para que eu volte à carga em minha maltrapilha sina de tapa-buracos das mal a(r)madas estantes de poesia: a esta altura do ano da graça de 2014, decorridos 69 anos do fim do maior conflito bélico e da maior exibição de atrocidades que a humanidade já vivenciou, não lhe parece, amigo leitor, de espantar que não exista uma antologia de poetas ou poemas da Segunda Guerra em nossa bibliografia lusófona, neste caso mais culposa e especificamente na brasileira (pois afinal Portugal manteve-se ‘neutro’ no conflito)? Tal lacuna sempre me pareceu digna de nota. Nos EUA tais antologias de guerra são comuns – você poderá contar com umas duas dezenas delas, de variados alcances e focalizações editoriais.
     Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos na guerra. Sejam war poets “clássicos” (soldados-poetas que participaram em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares), sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores, que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas a acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros.
Esta é uma antologia breve – são apenas 134 páginas, mas que oferecem um significativo panorama de grande valor literário e histórico da riquíssima poesia produzida no período da SGM, ao abarcar em suas páginas grandes poetas de 17 diferentes nacionalidades.

Autores antologiados:
Bertolt Brecht (ALE) - Abgar Renault (BRA) - Carlos Drummond de Andrade (BRA) - Cecília Meireles (BRA) - Murilo Mendes (BRA) - Vinícius de Moraes (BRA) - Pablo Neruda (CHI) - Ivan Goran Kovacic (CRO) - Vladimir Nazor (CRO) - Archibald MacLeish (EUA) - Dudley Randall (EUA) - John Ciardi (EUA) - Karl Shapiro (EUA) - Randall Jarell (EUA) - Stanley Kunitz (EUA) - T. S. Eliot (EUA/ING) - Louis Aragon (FRA) - Paul Eluárd (FRA) - Pierre Emmanuel (FRA) - René Char (FRA) - Giorgos Seferis (GRE) - Odisséas Elýtis (GRE) - Tasos Leivaditis (GRE) - Gerrit Kouwenaar (HOL) - Jan Campert (HOL) - Gyula Illyés (HUN) - István Vas (HUN) - János Pilinszky (HUN) - Miklós Radnóti (HUN) - Dylan Thomas (ING) - Edith Sitwell (ING) - Keith Douglas (ING) - W.H. Auden (ING/EUA) - Giuseppe Ungareti (ITA) - Primo Levi (ITA) - Salvatore Quasímodo (ITA) - Sadako Kurihara (JAP) - Tamiki Hara (JAP) - Hirsh Glick (LIT) - Czeslaw Milosz (POL) - Zbigniew Herbert (POL) - Paul Celan (ROM) – Jaroslav Seifert (TCH) - Margarita Aliguer (URSS) - Marina Tzvietáieva (URSS) - Mikhaíl Dúdine (URSS) - Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS) - Pável Antokólski (URSS) - Siemión Gudzenko (URSS)

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Buscando manter-me fiel ao meu princípio de produzir e disponibilizar bons livros, sempre gratuitamente, galgo mais um degrau em minha quixotesca empresa, mas ciente das dificuldades de divulgação que um trabalho de outsider assim encontra, principalmente através dos canais estabelecidos. Por isso, conto com cada um de vocês, leitores desta obra, para divulgá-la, republicá-la e passá-la adiante. A cultura é uma ação: precisa de agentes. Colabore!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

LÁZARO À PORTA DO RICO VISTO POR GUSTAV MOREAU



Deixa que venha o cão da ternura
e amacie as tuas feridas, a rosa
de carne que aguentará mais um inverno
Deixa que venham as migalhas, gotas de pão
come como as aves com o rosto virado para
o chão, não tens outro lugar, até que o céu envie
os anjos, eles vêm adiante dos pés de Deus
para amaciar o caminho, deixa que venham
para te carregar na doce imensa
rosa das suas mãos.

18-09-2014

© João Tomaz Parreira
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