sábado, 2 de janeiro de 2021

ACORDANDO NU, de Michael Lee: O tocante poema de um ex-alcoólatra

 


ACORDANDO NU

 

Estou em uma festa quando uma criança me pergunta:

"Ei, você quer beber, mano?"

Oh, não, obrigado, eu não bebo mais

Isso é uma porcaria

Otário, trouxa, fraco

Às vezes devo ser chato - então sou chato

As festas que geralmente vou consistem de café e sentimentos

Algumas vezes por semana, nós sentamos em um círculo

e tentamos reconstituir nossas vidas.

Não nos lembramos delas tão claramente.

 

Além disso, uma vez, quando pesava apenas 60 quilos,

matei uma garrafa de Jack Daniel's em trinta minutos.

Na manhã seguinte, acordei nu no banco de trás do meu carro

Com o gosto de vômito subindo até a garganta.

 

Sou alérgico ao álcool.

Toda vez que bebo eu acabo algemado

cago no carpete da sala e, em seguida, chuto uma porta.

Até hoje eu coloquei três gatos em uma mochila,

um cachorro em um armário

Não me chame de chato, senhor

 

Uma vez, eu esqueci onde era minha casa

Fui escoltado por estranhos

Estava com um pacote de biscoitos, um guarda-chuva 

e completamente nu

Mas uma vez eu soquei o meu melhor amigo

tão forte que quebrei o nariz dele

E uma vez eu tomei mais comprimidos que eu consigo lembrar

E aceitei que estaria morto em uma hora

 

Não se atreva a me chamar de fraco

Eu engoli mais litros de arrependimento

do que o sangue que você é capaz

de bombear no seu corpo.

 

Não diga ao meu pai que ele era ‘chato’

ao olhar o seu único filho nos olhos

e perguntar-lhe se ele bebeu mais uma vez.

Você não será bem-vindo nesta casa.

 

Não diga a minha mãe que eu sou fraco

Ela não vai conseguir conter as lágrimas

ao lembrar-se de quando ‘passeava’ pela ala psiquiátrica

Para ver seu próprio filho algemado

a uma cama na sala de emergência.

Ela passou quatro anos orando pela minha sobriedade,

E você não vai tirar isso dela.

 

Se for me dar uma dose (tiro), é melhor ter um gatilho envolvido

A vez que me senti mais forte foi quando 

eu disse “não” pra bebida pela primeira vez

Eu disse não, todas as manhãs desde 29 de setembro de 2008

Eu digo não dezoito vezes antes do café da manhã

Um para cada passo necessário para ir do meu quarto até a geladeira

Eu digo não dez vezes antes de trabalhar

Uma para cada outdoor que me diz que eu era mais forte quando bebia

Eu disse não mais vezes do que posso contar

Uma vez pra cada noite que minha família ficava acordada 

tentando não imaginar a minha lápide

Você me faz a pergunta

Eu não ouço as palavras que você está dizendo

Escuto você me perguntar: você quer morrer, Michael?

Não, eu não quero mais morrer.

 

Michael Lee

Trad. Sammis Reachers e Erick Mendes

Poema do livro GRATUITO A Cadeia Alcoólica - Frases, Poemas e pequenas narrativas sobre o alcoolismo. 

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Dois poemas de Teresinka Pereira

 


MERCADO DE POESIA

 

Letras em púrpura

lírica destilada

em riso e pranto,

sabor de fruta fresca

e cheiro de folhas ao vento.

Sobre o balcão

os poemas são essências

de uma linguagem perdida

de tinta em silêncio.

Não pulsam, mas ardem

enquanto o olho do poeta

no canto do mercado

parece um punhal de pedra

esperando o comprador.

 

 

 

TRABALHO DE POETA

 

Estou em uma selva de nervos.

Dizem que o estresse

vem do trabalho excessivo,

vem de dormir a manhã inteira

e de levantar-me ao meio dia

descansada e triunfante

para viver a palavra

que se detém em outros lábios.

 

Mas, não. O trabalho do poeta

embora seja como

um poço sem fundo,

é também como um tango

bem ou mal cantado

que padece nos círculos espaciais.

 

Minha dor não vem do trabalho:

ao contrário, meu trabalho

vem da dor, do verso de pedra

que faz explodir o horror

enquanto espero a vida

começar outra vez.


Fonte: Pavilhão Literário Singrando Horizontes


domingo, 22 de novembro de 2020

PEQUENA AMÉRICA, um poema de Pablo Neruda

 


Pequena América

Quando vejo a forma
da América no mapa,
amor, é a ti que eu vejo:
as alturas do cobre em tua cabeça,
os teus peitos, trigo e neve,
a tua cintura delgada,
velozes rios que palpitam, doces
colinas e prados
e no frio do sul teus pés completam
a sua geografia de ouro duplicado.

Amor, se te toco,
minhas mãos não percorrem
apenas as tuas delícias,
mas ramos e terras, frutos e água,
a primavera que eu amo,
a lua do deserto, o peito
das pombas selvagens,
a suavidade das pedras polidas
pelas águas do mar ou dos rios
e a vermelha espessura
dos matagais onde
a sede e a fome espreitam.
E assim a minha extensa pátria me recebe,
pequena América, em teu corpo.

Mais ainda: quando te vejo reclinada,
em tua pele eu vejo, em tua cor de aveia,
a nacionalidade do meu carinho.
Porque dos teus ombros
fita-me, inundado de escuro suor,
o cortador de cana
de Cuba abrasadora,
e através da tua garganta
pescadores que tiritam
nas húmidas casas do litoral
cantam-me o seu segredo.
E assim ao longo do teu corpo,
pequena América adorada,
as terras e os povos
interrompem meus beijos
e a tua beleza, então,
não só ateia o fogo
que entre nós arde sem cessar,
mas com teu amor me está chamando
e através da tua vida
me oferece a vida que me falta
e ao sabor do teu amor junta-se o barro,
o beijo da terra que me aguarda.

Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão".

terça-feira, 10 de novembro de 2020

"Excessos Milenares", versão em português do premiado livro de Dennis Ávila, em download gratuito

 


Prezados leitores, temos satisfação de oferecer, em download gratuito, a versão em português do livro "Los excessos millenarios", livro pelo qual o poeta hondurenho-costarriquenho Dennis Ávila Vargas obteve o prestigioso Prêmio Internacional de Poesia em sua VII Edição, entregue durante os Encontros de Poetas Ibero-Americanos em Salamanca, na Espanha.

O texto a seguir foi escrito pelo poeta A. P. Alencart, coordenador literário do prêmio.

Salamanca é uma ponte poética reconhecida com a América Latina. Isso inclui - em pé de igualdade - Portugal e aquele país-continente chamado Brasil. Um prémio como o Prémio Internacional de Poesia ‘Pilar Fernández Labrador’, que não atribui nenhum Euro, sabe premiar quem confia na sua credibilidade e prestígio.

Outro dos vários ‘prêmios’ deste prestigioso prêmio de Salamanca, é a tradução do livro vencedor para a língua de Camões, Pessoa, Jorge Amado ou José de Alencar, este último um dos grandes romancistas do romantismo brasileiro. Cito porque tenho a honra de fazer parte dessa linhagem nordestina.

Pois bem, não existe uma pandemia que mitigue ou frustre o que é oferecido nas bases da convocação. Agora apresentamos o livro com a tradução de “Los excessos millenarios”, de Dennis Ávila. Foi protagonizada por Leonam Cunha, jovem poeta brasileiro (nordestino do estado do Rio Grande do Norte), advogado e aluno de doutorado na Universidade de Salamanca.

O prólogo do livro traz a assinatura de Álvaro Alves de Faria, um dos mais notáveis ​​poetas da atualidade no Brasil e que Salamanca homenageou há treze anos.

A pintura da capa do livro, pelo segundo ano consecutivo, é do artista cubano-espanhol Luis Cabrera Hernández, professor da Escola de Gravura da Casa de la Moneda de España. Um mestre nessas lutas.

O livro saiu com o selo editorial do Centro de Estudos Ibéricos e Americanos de Salamanca (CEIAS) e, para além de uma edição em papel de tiragem limitada, possui esta versão digital que pode ser descarregada gratuitamente de qualquer parte do mundo. A edição espanhola foi editada pelo Conselho Provincial de Salamanca, em cuidadosa edição.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A PAZ INQUIETA, um poema de Pedro Casaldáliga


 A paz inquieta

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta
Que denuncia a PAZ dos cemitérios
E a PAZ dos lucros fartos.

Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ!
A PAZ que nos sacode
Com a urgência do Reino.
A PAZ que nos invade,
Com o vento do Espírito,
A rotina e o medo,
O sossego das praias
E a oração de refúgio.
A PAZ das armas rotas
Na derrota das armas.
A PAZ do pão da fome de justiça,
A PAZ da liberdade conquistada,
A PAZ que se faz “nossa”
Sem cercas nem fronteiras,
Que é tanto “Shalom” como “Salam”,
Perdão, retorno, abraço…
Dá-nos a tua PAZ,
Essa PAZ marginal que soletra em Belém
E agoniza na Cruz
E triunfa na Páscoa.

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta,
Que não nos deixa em PAZ!


terça-feira, 20 de outubro de 2020

REFORMA PROTESTANTE: Livro gratuito reúne citações de Martinho Lutero

 


        Há poucos anos comemoramos nada menos que quinhentos anos de Reforma Protestante. Assim, redondos, perfeitos. Quinhentos anos depois, devemos ter e manter por mote capital o lema proposto pelo reformador holandês Gisbertus Voetius (1589-1676): “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (“A Igreja é reformada e está sempre se reformando”). A frase significa que a obra da Reforma não está concluída, mas persevera ou deve perseverar em seu avanço em direção à verdade e à vivência de um cristianismo a cada dia mais bíblico (há quem utilize o termo apostólico, perfeitamente válido) e equilibrado.

        Se a Reforma representou um retorno ou reaproximação à verdade, tal verdade deve ser comunicada com urgência e ímpeto; ímpeto maior do que o daqueles que comunicam o engano, cada vez maior, em cada vez mais variadas formas. Cremos que a Reforma é um movimento engendrado em Deus, peça de perfeito encaixe dentro de seu Kairós, seu tempo; movimento que aponta para conserto dos agentes e engajamento na ação, ou seja, reerguimento da Igreja e/para o cumprimento da Grande Comissão. Assim, a Reforma é um prenúncio da volta do Rei, e um movimento fundamental de seu glorioso retorno.

      No Brasil atual, as mais diversas instituições, sejam eclesiásticas, para-eclesiásticas ou seculares, realizam eventos e  publicações em celebração e memória à vida e obra de Lutero. Digno de nota são os esforços da Igreja de Confissão Luterana do Brasil, de cujo site coligimos mais de metade das frases aqui veiculadas, bem como o texto das 95 Teses.

      Este breve e-book, em sua humildade, simplicidade e gratuidade, vem somar-se ao volume de realizações em comemoração ao 503º aniversário da Reforma Protestante. E proporcionar a todos um singelo aprofundamento no pensamento daquele que, apoiado nos ombros de gigantes, verdadeiramente deflagrou a Reforma ensaiada por muitos, dos quais diversos pagaram a ousadia com sua própria vida.

Sammis Reachers, editor

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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

PAX, um poema de D. H. Lawrence


 Pax


Tudo o que importa é estar em paz com o Deus vivo,
ser uma criatura na morada do Deus da vida.

Como um gato dormindo na cadeira
em paz, tão em paz,
de bem com o dono da casa, com a dona,
em casa, à vontade, na casa dos vivos,
dormindo junto à lareira, bocejando ao pé do fogo.

Dormindo junto à lareira do mundo vivo,
bocejando no lar ao pé do fogo da vida,
sentindo a presença do Deus vivo
como uma imensa segurança,
profunda calma no coração,
uma presença,
como a do dono da casa, sentado à mesa
na plenitude de seu ser,
na morada da vida.

Em: “Últimos poemas” (1932)
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