quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O SEGREDO, poema de Charles Bukowski


 

Não se incomode, ninguém tem

a mulher mais bela, não é verdade, e

 

ninguém tem qualquer estranho e

escondido poder, ninguém é

excepcional ou maravilhoso ou

mágico,  apenas parecem ser

é  tudo uma fraude, cada um com a sua,

não compre nem acredite.

o  mundo está cheio de

biliões  de pessoas cujas vidas

e mortes são inúteis e

quando uma dessas se distingue 

e a luz da história  brilha

iluminando-a, esqueça, não é

o que parece, é só

outra ficção para enganar tolos

novamente.

 

não há super-homens, não há

mulheres formosas.

pelo menos você pode morrer

com

esta verdade

esta é a sua única

vitória.

 

©  Versão minha-J.T.Parreira

sábado, 16 de agosto de 2014

(Con)Descendência


(Con)Descendência

O amanhã trará outros poetas
munidos de novas ferramentas & aparatos

mas moídos pela mesma
porcaria de melancolia

como gado morto é moído
para salsichas

homens sendo mortos e
depois nomeados: poetas

moídos para livros, como gado degolado.

16/08/2014

Sammis Reachers

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O LAGO DOS CISNES




A alma imortal quando dança no vento
Não condiz com as dores
nos dedos em pontas graciosas
Nem com as sapatilhas de ballet
Apertadas cor de rosa.

31-07-2014


© João Tomaz Parreira  

domingo, 27 de julho de 2014

Portões de Esparta


Portões de Esparta

Portões de Esparta
estradas sulcadas
marcadas pelo arrastar de despojos

volto sem Orestes, Lísias e Aracturo:
há espartanos, sementes de tua expansão, ó Portão
enterrados por toda a Ilíria

Portões de Esparta,
                                     braços de minha Mãe
é tão bom repetir essa palavra proibida,
                                                                              ‘Mãe’

tem misericórdia de mim

Veja, mãe,
um ateniense me deu esta lira
Sim,eu tenciono tocá-la,
se algum dos escravos puder me ensinar

Me perdoe também
por retornar tão limpo,
banhei-me no Eurotas
e lavei-me do sangue da campanha

Ao ver do promontório a curva de teu pórtico
lembrei-me dos rostos dos sessenta e oito que matei
e seus olhos repetiram-se diante de mim
como num oráculo, e vi os cem olhos de Argo
me olhando dentro

Você, que sempre preferiu uma ferida a um abraço,
você não tem outro olhar
que não estes dois pratos fundos de desprezo?

Em Cólquida, comi larvas
com neve e lembrei-me
da senhora e sua sopa negra

- Mamãe Esparta!!!

Sempre quis gritar isso
Tenha calma
Dissolva a ira,
Não estapeie meu rosto, senhora
sou um homem agora
e trago meu corpo mapeado
de cicatrizes, e todas elas
são inscrições de teu nome,
tatuagens do Hades

Se não filho, que sou-lhe, cidadela severa?
Um tipo de herói, um tipo
heroico de besta?

Sim, lembro perfeitamente,
“a ternura não te salvará na guerra”,
“mas a força de teu braço,
sustentando o escudo contra
a multidão de golpes”

Sim, eles sustentaram
seu filhote de lobo sobreviveu
à Guerra, esse oceano onde o sumo
de todas as veias deságua


2
Portões de Esparta
gravidez de lâminas
aborto coletivo do medo

Bom dia Esparta
clangor, troca de suores
bom dia

adestramento todo o dia,
bom dia noite nua e fria,
golpes sucessivos

bom dia espada,
escudo meu esquife,
mortalha de bronze

excelente dia ó sopa
negra e imunda,
fome mascarada
massacrada

Boa viagem soldado
volte com ouro e glória
ou sobre seu escudo


3.
Mãe, eu sei que esse nome lhe causa engulhos,
mas assim prefiro e de seu ódio assumo o risco
mãe, minha gélida-furibunda-única-mãe
eu queria não mais combater, mãe
queria lavrar como os que me ensinaste a desprezar,
amar lentamente a mulher que as Parcas me derem
sem partidas, sem despedaçamentos
vamos matar os persas e depois parar
parar de viver para matar
vamos lavrar, mãe
e viver longos anos


4.
Degreda-me então?!

Adeus meus amigos, adeus
Portões de Esparta:
tentáculos da Hidra
partam meu escudo,
harpias devorem-me enquanto parto
para que eu não use
a vergonha por cavalo

Ares, deus da cidade
Envie Nêmesis, envie
retaliação
Ares deus da guerra Ares
deus do caos abrangente
mova sua estátua, venha
até o pó venha
punir minha blasfêmia,
emudecer com seu grito

 bestial a minha fruição de paz

Sammis Reachers

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PIQUENIQUE NO ÉDEN - Novo livro de J.T.Parreira para download


Uma vez mais, cabe-me a satisfatória tarefa de editar uma obra do poeta lusitano J.T.Parreira, em quem encontro um amigo e um mestre nos meandros da Poesia. Mas como apresentar o poeta para aqueles que porventura ainda não o conheçam? Preciso dizer que Parreira é o poeta das finas texturas e da metáfora de ouro, a voz incessante e incensória de nossa melhor poesia cristã, que, de sua Aveiro atlântica, é como um Davi(d) que dispara tesouros de sua rica aljava, tendo por arco a lira, e por seta a palavra.

     Neste Piquenique no Éden, o leitor faceará palavras esmeradas que, em sua morfologia de pedestal, de câmara sacra, de pluma e lâmina, rodopiam em suave dança, em círculos concêntricos em torno à Palavra, o Cristo, o Verbo Encarnado: aqui podemos palmilhar com Ele rompendo as brumas em direção a Emaús, ou melhor, em direção a Ele mesmo; e receber de Suas mãos o pão que sacia a alma, e receber de Seu coração o sacrifício que nos traz a paz.

     Em muitos dos poemas que compõem este singelo opúsculo, somos ainda convidados/constrangidos a lamentar, na dor de Jó, nos muitos abismos de Jonas, na dura sina do indivíduo judeu e da nação Israel, a tristeza de termos deixado um dia o Jardim, como se fossemos membros amputados do corpo da infância, abortados-quando-prestes, quando prestes a nos firmarmos na instância/estação da Felicidade. Aquela Felicidade sempiterna que a redentora Palavra, que subiu e desceu daquela cruz, nos assegura que será novamente, e será para sempre.
Sammis Reachers
Para baixar o livro pelo 4Shared, CLIQUE AQUI.
Para baixar pelo Scribd, ou ler online, CLIQUE AQUI.

Caso não consiga realizar o download, solicite-me o envio por e-mail:sammisreachers@ig.com.br

quarta-feira, 23 de julho de 2014

TESTEMUNHO



“Miserável homem que eu sou”
Paulo de Tarso

Sei coisas terríveis sobre mim, de antes
Do meio caminho abandonado, coisas
Que estão dentro da minha memória
E secariam o meu coração, se não fossem
As costas de Deus, atrás das quais tudo cai
No esquecimento
Coisas que me levariam pela terra dentro
Com vergonha
Miserável homem que fui, repousando na lei
Guarda de cegos, farol a riscar as trevas
Sei tantas coisas terríveis a meu respeito
A que mais dói
Ter fechado os ouvidos ao último silêncio
Dolorido de Estevão.

23-07-2014

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

DEVASTAÇÃO


"And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief"
“E a árvore morte não dá abrigo, nem alívio vem do grilo”
T. S. Eliot, de "Waste Land", secção I v. 23


as árvores escondem o que há de cinza
avessas ao vulgo, ao desenfado profano
só lhes dava o sol, de manhã,
e têm frio
(quanto mais lhes dá mais frio têm)

não procures indagar para onde
te eleva o voo da locusta
para onde a mancha dos grilos
que do céu galopa sobre a terra
eles não adivinharão nada do mistério
do dia e da noite,
ou o marulhar potente do exército de pedras

só um vento vermelho
que te descascam as folhas até à solidão
até ao vazio das palavras

o que vês do alto da tua copa
é o oceano seco que tuas raízes jorram
roídas

ainda que o fruto minta, mente
o rio do olvido vem reclamar
os fardos das árvores: que dispam
os seus troncos
assim entoarás louvores à nuvem que
passa

Rui Miguel Duarte
15/07/14
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...