segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Três poemas de Anne Perrier




Teu nome me basta
O livro está morto a página está morta
Devorados pelo fogo
Deus
Feche a porta
Apague meus olhos
Tudo está dito

* * * *

A flor
Não a veremos
Virá
A morte e sua profundidade
E esta carne explodirá
De medo
Brilhará
De repente de eterno resplendor


* * * *

Lentamente
Como quem forja uma flor
Ensine-me
As três letras humildes
Do sim

Tradução de Sammis Reachers

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru



Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru

Os desertos enganam,
Mas só no mar está
A paz que nada interrompe

A fluição que vocifera
Em ritmados uivos, silvos
                                          Laivos
Da noite primordial.

Do caos fundamental
Transemerge o mar:
Torre deitada em seu abraço de encastelar.

Kraken, Caribde, meu tio Geraldo Xereta
Ausências que a praia transtraz, à maneira
De Rosa, Guimarães,
Conchas desfeitas,
Calcário sobre crostas oceânicas de basalto
Infância de meus sobrinhos,
Após a minha
E Abraão e Caim e Adão

O planeta feito de água de seres
Feitos de água
                               Esgoelando-se por solidez.

Cada homem é a coleção de seus processos

Daquele pico
Pode-se esculpir as estrelas
E que são os aglomerados de galáxias,
Senão matéria escura desbastada
Até adquirir forma?
Células-tronco primeiras
De Jeová, esculpidas pelo sopro
Do Espírito que tudo navega?

Venha poder palraz,
Derrube Meru no oceano,
Dissolva os entes e seus ícones
Na recriação.

Sammis Reachers

*Publicado originalmente na revista Ensaios de Geografia, da Universidade Federal Fluminense.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ALFREDO PÉREZ ALENCART: A POESIA COMO MISSÃO


Álvaro Alves de Faria
https://revistacaliban.net/

Há poetas que têm um tema permanente desenvolvido em sua poesia, sempre voltado à vida do homem e à solidariedade entre as pessoas. Em praticamente todos os poemas da obra de poetas assim encontra-se sempre esse sinal que acaba por determinar toda uma trajetória de vida e na Literatura. É o caso do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart, professor na Universidade de Salamanca, Espanha.
Seu livro “Encumbra tu corazón” foi publicado na Itália com o título “Innalza il tuo cuore”, tradução do poeta italiano Beppe Costa, que tem uma obra poética significativa na Itália. Com ilustrações do pintor Miguel Elias, de Salamanca, e apresentação do poeta e romancista italiano Gianni Darconza, docente de Literatura e Cultura Espanhola e de Literatura Comparada da Universitá degli Studi di Urbano Carlo Bo, este livro é feito de poemas de bela elaboração literária e uma mensagem que fala ao homem e ao mundo que o cerca, atualmente um universo em que as saídas são poucas.
Alfredo Pérez Alencart é autor de vasta obra poética, como livros sempre lembrados, como “Madre Selva” (2002), Hombres Trabajando” (2007), “Cartografia de las revelaiones” (2011), “Los éxodos, los exílios” (2015), “Ante el mar, callé” (2017), e muitos outros publicados em vários países. Uma poesia marcante num tempo em que quase tudo é efêmero e se perde no imenso vazio que representa quase tudo nos dias que correm coberto de uma brutalidade que se alastra.
De início, o poeta faz um alerta ao seu leitor: “Digamos/ que habitamos uma terra ardente/chamada Poesia”. Sim, talvez seja possível sonhar com um violino amoroso, com suas notas ouvidas em todo mundo. E que palavras sejam o sol de nossas vidas. Pensemos que no princípio era a Poesia que nos nutria e nos alcançava e que assim passavam os tempos e as marcas dos milênios. No entanto, fiquemos apenas no sonho. O que já é muito porque, hoje, até o sonho está perdido entre os desencantamentos.
Gianni Darconza observa que a poesia de Alencart pode ser considerada religiosa, espiritual, no sentido mais profundo da palavra, frente ao materialismo dominante num mundo cada vez mais adverso. Um mundo de portas fechadas. Onde quase tudo desaparece numa imensa nuvem de infortúnios. Darconza lembra o poeta Antonio Machado, para assinalar que “aquele que fala sempre sozinho um dia haverá de falar com Deus”. Esta poesia faz com que as pessoas olhem para dentro de si mesmas, para o coração, em busca do espírito eterno das coisas.
O poema que dá título ao livro, “Eleva teu coração”, traduzido para o português por David de Medeiros Leite, especialmente para esta matéria, leva-nos a esse instante de solidariedade, em que o poeta fala ao homem com a palavra de um sentimento atualmente difícil de existir, já que o mundo se transforma a todo o momento, sempre para pior. Surge então uma voz, como se o poeta fosse, na verdade, um profeta a falar nos desertos da alma, como se assim fosse a sua missão, equivale dizer, a missão da poesia a serviço do homem e da vida quase sempre envolvidos na escuridão de um tempo de perversidades.
Eleva teu coração
e deixe que sinta
crucificações.
Também o sentir
é uma espada rebelde,
se necessário.
Engrandecê-lo distante
do entorno da fama
e do esquadrão dos malvados.
Mas exposto estará
o dia do pesar
ou se treme de desejos.
Engrandece teu coração
para que o mundo
não despreze
teus ruídos velozes.
O poeta Alfredo Pérez Alencart diz em um dos poemas que pujantes são os desejos quando navegamos pelo amor. Mas em todas as tardes surgem os náufragos. No entanto, é preciso seguir em busca de um mundo melhor, em que se possa encontrar a palavra da fé. Essa palavra em que o poeta se debruça a clamar essa paz desejada pelos homens. O poeta lembra das almas feridas. E sempre existirão almas feridas. Diz que enquanto um olho desperta, o outro deseja adormecer magnetizado diante da vida. E é essa vida que se procura, plena em si mesma, grandiosa como deve ser. O poema “Onde estão os outros?”, que lembram essas feridas, além das ingratidões e das súplicas de todos os dias:
Me falaste do futuro
porque sabias
o que aconteceria na realidade.
A gratidão
dos lábios costuma
minguar depressa
e as súplicas
abrem caminho
às ingratidões.
Como poucos são
os que voltam atrás,
amanhã
tampouco virão a ti
os nove que faltam.
Eu sou
quem agora repete
o ato agradecido
do leproso estrangeiro.
São passagens bíblicas lembradas por um poeta que não esquece o milagre e volta para agradecer. O que não esquece. Aquele que está sempre voltado à bem-aventurança com um gosto terno e abrangente. Aquele que não esquece a solidariedade entre os homens, o que semeia e, portanto, tem o direito de colher o que semeou, tecendo pontes até o coração do outro, sem romper as gerações: “A vida lhe seduz/ apenas amparada nas Palavras/ que guardam na memória/ de estrelas e vozes amadas”. O poeta Alencart sabe que nunca nenhum almanaque mostrará a grandeza do amor, aquele que cresce e ressuscita nas manhãs dele mesmo ou dos que ainda estão por vir. Aqueles que devem chegar a essa embarcação que atravessa o mar, aqueles que jogam a rede nas águas e têm os peixes necessários para viver.
O poeta italiano Bepe Costa relata nesta obra a trajetória de Alfredo Pérez Alencart, que nasceu em Porto Maldonado, no Peru, em 1962, observando que os poemas de Alencart são um misericordioso olhar para os que estão marginalizados diante das palavras de silêncio que pesa sobre eles. Um poeta de sensibilidade aguda, agradecido a quem lhe deu a vida. Um poeta da palavra. Da vida a ser vivida. Poucos são os autores — poetas ou escritores — que atualmente se assemelham a ele, especialmente no que diz respeito ao humanismo e à esperança, pela qual luta a cada minuto de seu tempo.
Em um pequeno livro publicado em São Paulo, Brasil, “Onde estão os outros”, em 2019, Alfredo Perez Alencart afirmou que a poesia repara a existência. A poesia é reflexão, o ofício dos que resistem. O poeta sabe o que diz com sua palavra. Está correto. Dos que resistem como ele, diante e dentro de um mundo que perdeu os seus valores, cada vez mais distante da humanidade. Ao longo dos anos, Alencart construiu uma obra de profunda solidariedade, de generosidade, em busca de uma espiritualidade cada vez mais ausente. A poesia é a busca do que se perdeu, uma peregrinação entre as palavras para encontrar a mensagem necessária. O poeta não deseja a liberdade numa cerimônia solene, repleta de aplausos. Não. Deseja, sim, a liberdade que está dentro do próprio homem. E assim vai à memória de si mesmo, para uma poesia coletiva, como afirma em seu poema Recuerdos”:
A outros desesperam
os calendários rápidos
e as emboscadas
em seus corpos,
em seus rostos.
Eu não desapareço
porque valorizo recordações,
portos de onde saí
e onde cheguei.
Parentes e amigos
encarnados nos abraços,
momentos
que mostram eternos.
Que ninguém me culpe
pela paixão
com que repito
o que sempre lembro.
Este “Encumbra tu corazón” é a palavra de um poeta caminhante com a fé dos que andam pelos desertos. Num tempo em que o perdão desapareceu da paisagem existencial, dando lugar aos ferimentos cada vez mais fundos. A poesia de Alencart, ao lado de sua Jaqueline, caminha entre as pedras com as sandálias dos que tem a palavra como o apelo fundamental para a vida. A mensagem está viva, não desapareceu um mar de descrença. Alencart observa que “o tempo não envelhece o silêncio dos inocentes”. Refere-se aos que foram e ainda são marginalizados por um sistema que pertence a apenas alguns. É um livro que enaltece a vida. E também a Poesia. Uma poesia em defesa do homem. Essa poesia a ser cultivada sempre pelos grandes poetas necessários ao mundo. Assim é a poesia de Alfredo Pérez Alencart, traduzido para mais de 50 idiomas. Uma palavra aos que necessitam ouvir.
(*) Jornalista, poeta e escritor — São Paulo, Brasil

sábado, 15 de agosto de 2020

O que é um menino? Um texto cativante




Os meninos se apresentam em tamanho, peso e cores sortidas. Encontram-se por toda a parte, em cima, em baixo, dentro, fora, trepados, pendurados, caindo, correndo, saltando. As mães os adoram, as meninas os detestam, as irmãs e os irmãos mais velhos os toleram, os adultos os ignoram e o céu os protege. Um menino é a verdade de cara suja, a sabedoria de cabelo esgadelhado, a esperança de calças caindo. Tem o apetite do cavalo, a digestão do avestruz, a energia da bomba atômica, a curiosidade do mico, os pulmões de um ditador, a imaginação de Júlio Verne, a timidez da violeta, a audácia da mola, o entusiasmo do buscapé e tem cinco polidáctilos em cada mão, quando pratica suas reinações. Adora os doces, os canivetes, as serras, o Natal e a Páscoa; admira os reis e os livros de figuras coloridas; gosta do guri do vizinho, do ar livre, da água, dos animais grandes, do papai, dos automóveis e dos trens, dos domingos, das bombas e traques. Abomina as visitas, o catecismo, a escola, os livros sem figuras, as lições de música, as gravatas, os casacos, os barbeiros, as meninas, os adultos e a hora de dormir.
Levanta cedo e está sempre atrasado à hora das refeições. Nos seus bolsos há sempre um canivete enferrujado, uma fruta verde mordida, um pedaço de barbante, dois botões e algumas bolinhas de gude, um estilingue, um pedaço de substância desconhecida e um objeto raro, que lhe é precioso por 24 horas. É uma criatura mágica. Você pode fechar-lhe a porta do seu quarto de ferramentas mas não a do seu coração... Pode expulsá-lo do seu escritório mas não do seu pensamento. Toda a sua importância e a sua autoridade se desmoronam diante dele, que é o seu carcereiro, seu chefe, seu amo... Ele, um despótico e ruidoso mandãozinho!... Mas quando você volta para casa, à noite, de esperanças e ambições despedaçadas, ele pode compô-las num instante com as suas palavrinhas mágicas: "OH! — PAPAI!".
Autor Desconhecido

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O NÃO NASCIDO, poema de G. K. Chesterton


O NÃO NASCIDO
Se as árvores fossem altas e a relva curta
Como num conto louco
Se aqui e além um mar fosse azul
Quebrando uma monótona palidez                                       

Se um fogo fixo pairasse no ar
Para me aquecer ao longo de todo o dia
Se um cabelo farto e verde crescesse em grandes colinas
Eu saberia o que fazer

Encontro-me na escuridão; sonhando que existem
Grandes olhos frios ou bondosos
E ruas sinuosas e portas mudas
E homens vivos para além (delas)

Que venham as nuvens da tempestade: é melhor uma hora,
E que se vão para chorar e lutar,
Do que todas as eras em que reino
Nos impérios da noite.

Penso que se me dessem licença
Para neste mundo aparecer
Eu seria bom ao longo de todo o dia
Em que eu estivesse neste mundo encantado

Não ouviriam de mim uma palavra
De egoísmo ou de escárnio
Se eu ao menos pudesse encontrar a porta,
Se eu ao menos tivesse nascido. 
Tradução  António Campos e Anália Carmo

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Antologia do Cordel Evangélico: Literatura de Cordel em livro gratuito

 

Mais que um simples estilo literário popular, o cordel é uma riqueza cultural ímpar de nossa nação. E digo nação e não apenas Nordeste, pois a sagacidade, a criatividade, a alegria e o humor do cordel têm atingido todas as regiões do Brasil, levado num primeiro momento pela mão de bravos migrantes, e depois ganhando vida própria em contextos e pelas mãos de atores não nordestinos. Não em vão o cordel foi reconhecido no ano de 2018 como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A miríade de temas que o gracioso cordel abarca com inaudita liberdade faz dele um veículo de comunicação poderosíssimo, e uma ferramenta pedagógica de primeira ordem.
Esta seleta vem antologiar os versos de um panteão de autores cuja criatividade é insuflada pela sua fé – fé naquele nazareno cabra arretado que, com sua vida e seu sacrifício, proporcionou salvação gratuita para qualquer pessoa que nEle crer.
Em nosso país cristão, é natural que a fé atinja e repercuta por todas as artes, notadamente as populares. A fé protestante/evangélica, que representa um retorno aos valores bíblicos e apostólicos de inícios do cristianismo, é abraçada por cada vez mais pessoas por este Brasil de Deus, pessoas ávidas por um relacionamento mais próximo ao Redentor, e uma fé mais atuante e vívida. Foi o que aconteceu, em algum momento, com cada um dos poetas aqui antologiados. Se sua excelência artística permite a todos eles transitarem com desembaraço por qualquer tema a que se proponham, sendo tal característica um dos fundamentos de um verdadeiro cordelista, eles também falam com idêntica ou quiçá maior galhardia de temas da fé cristã que os move e sustenta. Compartilhar alguns desses verdadeiros tesouros do cordel é o singelo objetivo desta obra.
Este é um livro gratuito – um presente a você, leitor – e desde já lhe convidamos a compartilhá-lo de todas as maneiras ao seu alcance.

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sábado, 18 de julho de 2020

DESENHO, um poema de Cecília Meireles

Paul Gauguin
Desenho
Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores me entrelaçavam.
 
Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.
 
Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.
 
Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.
 
Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.
 
E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.
 
Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes!  aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

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