terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Palavras Crianças no Jardim de Aula, novo livro de Pedro Marcos Pereira Lima


O escritor e poeta Pedro Marcos Pereira Lima acaba de nos brindar com sua mais nova obra. Palavras Crianças no Jardim de Aula, uma publicação da Editora Scortecci (selo Pingo de Letra) reúne poemas de incentivo à leitura de interesse geral, mas focadas notadamente no público infantojuvenil.

"O gosto pela leitura pode surgir através da poesia, desta forma aumenta o interesse em escrever. A poesia mexe com o imaginário dos jovens, das crianças, e dos adultos que ainda carregam a infância dentro de si levando-nos a expressar vontades, descobrindo que se pode brincar com as palavras.
aqui
poesia quer
contar histórias
que são das palavras
que vão se contando

mas não é só a história
em si que conta
é o contar

que não se calcula na contagem
quando o "o" troca-se por "a"
e contar vira cantar
de fantasias e realidades..."


O livro possui 60 páginas e custa R$ 30,00.
Interessados em adquirir a obra, entrem em contato pelo e-mail: pemarc@ig.com.br

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

AS VINHAS DA IRA




Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O IRMÃO DO PRÓDIGO







A música põe as sombras dos que dançam
nas paredes, a alegria
da casa com todos os enfeites para a festa
Alguém detém no limiar da porta os passos
ouviu a música e as danças
é o outro filho, estava ali quem era bom
e previsível, as suas mãos jamais desperdiçaram
e nunca tivera um cabrito sequer para alegrar-se
com os  amigos. O pródigo é o outro
Aquele sem vã glória, que tem só o regresso
a casa nos seus olhos.

13-12-2016

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A PINTURA COMO SOCIOLOGIA









As viciosas meninas de Avignon, os olhos
desmesuradamente ovais, indiferentes
à figura nua em véu subtil,  provocam
as meninas de Velásquez, estas            
são observadas mais do que observam, estão
como melancólicas e belas
naturezas-mortas.


(Reescrito em 05-12-2016)


© João Tomaz Parreira

sábado, 3 de dezembro de 2016

HIROXIMA






“Toda a manhã, a manhã escureceu”
Sylvia Plath

Dias depois os homens saberiam
Que ninguém ressuscitou em Hiroxima
As cinzas sem forma, nem memória
Do que foram corpos, só sombras
Pelo chão , nem sequer Lázaros
Mendigos à porta da riqueza
Mas não havia portas
Onde bater um grito, um pedido de refúgio
Não havia casas onde guardar as lágrimas
E as meditações partidas de Buda
Deus foi magoado no céu e já não põe as mãos
Feridas no lume pelos homens.

03-12-2016
© João Tomaz Parreira



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

COMENTÁRIO À “BÍBLIA SAGRADA - SONETOS”, DE AURORA TONDELA



« A Bíblia transcrita em paráfrases poéticas é, de per se, uma tarefa que além da inspiração para o trabalho poético, requer uma leitura sistemática, prolongada e atenta das Sagradas Escrituras. Em sonetos, então ainda mais se acentua o grau de dificuldade da empresa.
O que a poeta Aurora Tondela levou a cabo é um paradigma único de como a linguagem bíblica, na sua grande intensidade, é poética. Podemos dispensar, embora seja sempre bom em termos de crítica literária ter presente, os  Harold Bloom e George Steiner, que se debruçaram sobre os autores fundacionais de alguns livros da Bíblia Sagrada e da sua linguagem comunicacional divinamente inspirada, isto é, os autores e o seu texto bíblicos.
Trabalhos literários soberanamente criativos, porque inspirados nas Sagradas Escrituras, designadamente nos livros poéticos, tem apelado e sido um doce apetite para poetas de todas as  linguagens.
Por exemplo, no início da década de 70, lá longe no tempo e no espaço, o poeta evangélico brasileiro, o clássico Jonathas Braga, escreveu todo um “Milagre do Amor” em verso, baseado no livro bíblico de Rute.
Hoje, já em meados da segunda década do século XXI, a poeta cristã Aurora Tondela empreendeu e continua o seu labor quase de Hércules com estes sonetos, belíssimos, clássicos, de belo recorte petrarquiano, sáfico, camoniano, o que quisermos. A Bíblia em Sonetos é, antes de mais e em duas palavras, um Itinerário Espiritual de longo alcance.

© João Tomaz Parreira
Poeta Cristão Evangélico »



A criação do Céu e da Terra

No princípio era o caos, profundo abismo,
trevas e solidão que se diria
buraco negro de um medonho sismo
de uma terra desértica e vazia.

Sobre esse inexpressivo irrealismo,
sobre essa imensidão de letargia,
as águas sem marés e sem lirismo
não tinham mais que sombras de agonia.

E Deus criou assim a terra e os céus;
sobre eles em surdina se movia
como vento envolvido em estranhos véus.

Em paleta de cor e de harmonia,
com doce voz solene disse Deus:
Faça-se luz! E foi primeiro dia.

Aurora Tondela

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mia Couto: A Escrita Exige Sempre a Poesia



Sou escritor e cientista. Vejo as duas atividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura. 

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo. 

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano. 

Mia Couto, in 'Pensatempos.' 

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