terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Segundo Éden - A ambição de Caim


O Segundo Éden


 “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto, qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.” Gn 4.15

      O povo arisia possuía 36 palavras para ‘Paz’. Trinta e seis peças de rica sinonímia, e não eram essas aproximações chulas como em português poderíamos apor, por exemplo, ‘paz’ e ‘serenidade’. Eram como gradações, matizes, como especificações sutis do mesmo conceito poderoso, cores de um caudaloso arco-íris.
      A estranha existência de tantas palavras para a rara paz decorre do fato de que, de todos os povos da terra, mesmo entre os povos primordiais, os arisianos foram os que herdaram e lograram guardar com maior fidelidade e por mais tempo o idioma raaisiaar, o primeiro idioma humano, falado pelo pai Adão.
      Eram também, de toda a Dispersão anterior à torre de Babel, os que ficaram morando mais próximos do vácuo que outrora fora o Éden.
      Foram varridos da existência por Caim, pai do caos, durante as campanhas de cainização promovidas pelo primogênito do pai Adão. Campanhas essas onde ele exterminava todos os homens adultos e jovens das tribos e povoados que encontrava, bem como todas as crianças de ambos os sexos, e por fim copulava com todas as fêmeas em idade fértil disponíveis, deixando-as à própria sorte, muitas delas grávidas devido ao estupro. Pois o objetivo do ceifeiro do caos era criar uma raça imperial cainiana, exterminando a descendência de todos os seus demais irmãos. E deitar assim mais uma ofensa a Deus. Caim encontrara um formidável aliado, o primeiro Caim, ser espiritual que prometeu-lhe uma noite, no deserto de Azaar, compartilhar com ele o domínio do mundo, e disse-lhe que sua descendência alcançaria vastidão como a das estrelas do céu.

      O tempo foi propício a Caim; a marca em seu rosto livrava-o de seus inimigos, tal o horror que provocava. Ele ainda estava vivo para combater diretamente os bisnetos de seus irmãos mais jovens, atravessando gerações com seu ódio.
      Apenas seis arisianos haviam sobrevivido ao ataque dos chacais de Caim. Naquela noite do massacre, fugiram para Eridu e depois para Babilônia, terminando por fixarem-se em Shir, povoamento que depois deu origem a Larsa. Levavam consigo a sinistra invenção arisiana: o primeiro alfabeto, grafado no primeiro pergaminho.
      De Larsa rumaram para as montanhas de Elam, onde, por décadas, planejaram uma forma de refrear ou deter a insânia cainiana. Como os demais sob o céu, temiam profundamente a maldição que Caim levava por coroa, e ninguém, ainda que lhe fosse possível, ousava assassinar o Assassino.
      Levaram cem anos para conceber seu plano.
      Cinco sobreviventes espalharam-se pelo Orbe. Três tinham a missão de trazer sementes de toda boa planta que encontrassem, o que fizeram com fartura. Os outros dois foram encarregados de empresa mais sutil: deveriam ir em busca de plantas que gerassem frutos venenosos.
      Plantaram então, no vácuo do que fora Éden, um jardim. Muito menor que o original, e inferior em tudo ao primeiro; mas, no pequeno declive onde realizaram seu verdejante engodo, foi a maior beleza alcançada até ali por mãos de barro. Os homens conheciam a agricultura de subsistência, mas era a primeira vez depois do Éden que conheciam um jardim: uma ambientação não apenas utilitária, mas fundamentalmente estética, naquele exercício primevo de paisagismo.
      Aguardaram outras dezenas de anos; os homens viviam então satisfatoriamente, o tédio que mata tantos homens hoje era então apenas uma sombra, uma intuição.
      No propício tempo fizeram correr entre andarilhos e mercadores a lenda de que, a leste de Tigor, restara um verdejante resquício do Éden. E apenas para alguns seletos, deram a conhecer outro fato (lenda dentro da lenda): a Árvore da Vida subsistira em tal restolho do Jardim, e era agora guardada apenas por mãos de barro umidificado, mãos de homens.
      Luas depois um emissário de Caim e seu pequeno séquito foram dar pelas bordas daquele grande horto. Ao partir, o emissário levava uma auspiciosa confirmação, e um secreto convite para o segundo dos homens e o primeiro imperador.
      O líder dos arisianos, Zaeoun, era um homem de exceção. Sabia que o aliado de Caim, o Grão Satanaz, enxergava em quase todos os lugares, como que ao mesmo tempo, e fatalmente alertaria Caim sobre o engodo; aprouve-lhe então a temerária empresa de usar as armas de Satanaz contra Satanaz.
      No dia do encontro com Caim, circundando o imperador com sutilezas, alertou para que a posse da vida eterna despertaria ciúmes no príncipe deste Mundo. Caim espantara-se de que o ancião tivesse conhecimento da existência de Satanaz; pois um dos itens do tratado entre ele e Caim era que Caim jamais revelasse a sua existência, que deveria ser desacreditada por todos os meios entre os povos conquistados, e Caim até então julgava estar alcançando amplo sucesso em sua campanha de desinformação.
      Tal fato então contribuiu para a abertura das defesas de Caim, e o ancião cresceu em seu conceito.
      – Ele lhe dirá certamente que os frutos da árvore serão sem efeito; talvez diga que são venenosos, ou que é na verdade a árvore do conhecimento do Bem e do Mal; comê-lo, neste caso, será como errar duas vezes, e você será transformado num demônio, uma sombra, um sem-mãos como ele e os seus. Não importa o que ele dirá, é o príncipe da mentira e enganou teu pai Adão. Tentará demovê-lo de alcançar a vida eterna e tornar-se o Príncipe de Todas as Coisas Criadas, sobrepujando em poder até a ele mesmo.
      Mas o ancião temeu a maldição de Deus; precisava contar a verdade para o Assassino.
      – Comer os frutos da Árvore da Vida é certamente morrer; morrerás e a um tempo ressuscitarás. Renascido, não poderá nunca ser morto novamente, seja por homem, seja por anjo. A imortalidade que almejas, terá então sido alcançada, e não terá fim.
      O ancião sabia uma única coisa sobre a alma humana, um único basilar conhecimento, e tal conhecimento lhe bastava para conhecer e prever os homens em toda a sua sina: o sonho de todo homem é voltar ao Jardim. Ele os atrai como um seio ou um sol; os homens que sequer jamais ouviram falar que houve um dia um Jardim, um Lar, são-lhe igualmente escravos: onde e quando quer que nasçam, vivam, estejam, trazem em si a inadequação do estrangeiro, o horror surdo da alteridade; sabem que isto o que é, ou seja, a Realidade, simplesmente não-era-pra-ser. Não sabem por que, não sabem como ou para onde voltar, mas intuem que houve um lugar, um Porto-de-não-mares, Fixo, de onde ninguém deveria ter partido.
      Caim era só um homem.
      Dispuseram na mesa quatro frutos, oriundos dos ‘quatro cantos da terra’.
      – Estas são as quatro frutas que apressam a imortalidade; oriundas dos quatro braços da Árvore, recolhidas nos quatro cantos do grande Éden. Elas matam e fazem que não mais se morra.
      – Satanaz diz que morrerei e irei ter com o Deus de meu pai -, disse Caim.
      – Claro que terás com o Deus, pois assim como Satanaz, Caim será também um deus. E liberto serás da opressora subalternidade ao demônio. Tornando-se um seu igual, poderás compartilhar seu incandescente destino.
      Caim-O-Arguto, como também era conhecido, tornara-se um homem de rituais e encantos, aprendendo as artes negras que seu Mestre lhe insuflara. Assentado na mesa, o sedento e sagaz imperador fez um pedido, ou ordenou:
      – Exijo um sacrifício. Eis dispostos os quatro frutos sobre a mesa, vindos dos quatro braços ou formas da Árvore, sitos nos quatro cantos do grande Éden; eia, sacrifique-me quatro de seus homens, dispondo cada corpo numa das quatro direções, onde estão os quatro braços da grande Árvore.
      Os seis últimos arisianos vivos, cujo viver era conspirar pela morte do Imperador, entreolharam-se em pesaroso e tenso silêncio.  Todos abaixaram os olhos. Ainda um derradeiro sacrifício seria necessário.
      – Está bem – disse um dos arisianos. – Para que nosso Imperador viva, morreremos com prazer.
      Sem esperar por mais palavras, os quatro mais velhos abaixo do líder posicionaram-se ao redor da mesa, sob o olhar pesaroso do mais jovem. O ancião lhes fez um sinal com a mão direita, uma despedida. Sacaram suas adagas, e de um a um, autoimolaram-se.
      – Você possui homens de grande coragem, Zaeoun. Seriam bons generais em meu exército.
      – Sim, meu senhor. Eles compreendem perfeitamente a importância universal daquilo pelo que estão sacrificando-se, e é com prazer que deitam suas vidas na pira do holocausto.
      Entre os quatro cadáveres, Caim comeu com sofreguidão as quatro frutas. A Árvore que ele julgava perdida, do Jardim que ele julgava findo, ei-la mastigada, possuída, explodindo em sinistros sabores em sua boca.
      O Assassino caiu em estertores, e gritava e sorria, urrando como um chacal, morrendo para não mais morrer.
      O ancião observava-o, com olhar cansado, sem denotar alegria ou ira, tristeza ou mesmo paz. Era uma expressão de exaustão e algum horror.
      – Comeste das frutas do grande Éden, a grande terra que o Senhor nos confiou. Agora morres, e irás ter com teu Deus. E serás imortal para sempre, e arderás incendiado em luz, aprisionado nas chamas, aguardando o Juízo que há de vir sobre tudo.

*   *  *


      O paradeiro e destino do sexto e mais jovem dos arisianos (este é um dos que buscaram os venenosos frutos), nunca se soube, senão que partira tornando a ser navegante, ensinando as artes do mar por onde fosse, e silenciando sobre tudo que vivera. O ancião Zaeoun, o de tantos nomes e a quem em vindouros anos Abraão, no deserto, chamaria de Melquisedeque, persistiu em seu trabalho de Jardineiro, guardando a memória do único Deus.

Sammis Reachers


domingo, 11 de setembro de 2016

11 de Setembro - Daniel Oudshoorn


Daniel Oudshoorn


Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

AS PESSOAS NUM POETA NEO-REALISTA




Quarenta figuras humanas perpassam, ou melhor habitam, na poesia de Manuel da Fonseca. Quem fez o inventário foi o escritor e crítico ilhavense Mário Sacramento, no seu quase clássico “Há uma estética Neo-Realista?(1968:80).
Enquanto que palavras recorrentes na poesia de um autor se consubstanciam semântica e metaforicamente, vocábulos que vêm da matéria e do que é imaterial, ilidindo mesmo sujeito e objecto, por exemplo os da poética de Eugénio de Andrade, outros poetas informam sobre pessoas com nomes e existência concreta.

Podemos enumerar uma breve lista de palavras eugenianas: 
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada. (vd. “As mesmas teclas de Eugénio de Andrade”, in Blog Poeta Salutor (2010: 11/3)

Vejamos, por outro lado,  o que concerne ao poeta e romancista do neo-realismo e do “Novo Cancioneiro”, Manuel da Fonseca.
E por aqui eis-nos chegados à dialética da personagem, do sujeito poético, do nome, da actividade, do local de origem, das figuras humanas que estão nos Poemas Completos do poeta de Santiago do Cacém, falecido em 1993.

Maria Campaniça, Jacinto Baleizão, Zé Cardo, Toino, Rosa Charneca, Francisco Charrua, Zé Jacinto, Marianita, Zé Gaio, Julinho da ourivesaria, Zé Limão, Manuel da Água, e Mariazinha Santos;  malteses, vagabundos, mendigos, campaniços, guardas,  o coro de empregados da Câmara, António Valmorim, a Nena de Montes  Velhos,  o Terceiro Oficial de Finanças, entre outros nomes e vidas.

No poemário “Planície”, de 1941, no início da década fértil para a poesia neo-realista, embora o poeta José Gomes Ferreira tenha afirmado que “o social não era a característica principal da poesia do Novo Cancioneiro” (a Memória das Palavras), a verdade é que MdF traduz essa particularidade representativa das problemáticas humanas e sociais, do campesinato e da urbanidade, da seara e da fábrica, logo para o início daquele volume de poemas.

Um local: Cerromaior, que é também título do primeiro romance do poeta, é um lugar inventado que contém, no entanto, as realidades e as gentes, doutros lugares autênticos do vasto Baixo Alentejo – e.g. Cercal -, área predominante, senão mesmo exclusiva na poética do autor.
Depois, o lugar começa a revelar particularismos da vila, como tipicamente alentejana, o “Largo” de onde partem todos os “caminhos”, o “Largo” que era “o centro do mundo”, onde estão os “guardas” com a lei, mais adiante o “montado” genuíno, o “vagabundo rasgado”; ou a aldeia com “nove casas, / duas ruas, / no meio das ruas / um largo”, o “monte”. O tópos é fundamental na poética de Fonseca, como os Alentejo, “Beja, Cercal. Em alguns casos, especificamente, noutros como metonímia.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de “Seara de Vento” é também recorrente na dimensão, por vezes, trágica dos nomes.

Na poesia ( como na prosa: conto e romance), “Manuel da Fonseca continua a existir com a sua frescura inicial e a sua energia, a sua capacidade de comover e seduzir” – escreveu  Mário Dionísio, há quase cinquenta anos.


30-08-2016


© João Tomaz Parreira 

domingo, 28 de agosto de 2016

Três poemas de Marly de Oliveira



Pior que o cão é sua fúria

Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.


Perdi a capacidade de assombro

Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.


CERCO DA PRIMAVERA

5.

Molhava os cabelos negros
nas águas da noite, quando
cheio de sombra acendeste
uns olhos cor de limão,
iluminando o silêncio
com o simples tocar de mão.

Um rumor de vinho claro,
de bocas e mãos unidas
e um cheiro de mel e flor,
rasparam, ai, como espada,
meu corpo cheio de noite
e o teu, perdido de amor.

Por certo que não queria,
mas tinha a cintura e jeito
ao teu abraço achegados,
e na sombra relumbrava
a água verde dos teus olhos
nos meus cabelos molhados.

Tremores de vento e lua
encabritavam-me o sangue,
e penas de sal e fogo
talavam o silêncio escuro,
ferindo nossas cadeiras
e amarfanhando o chão duro.

Em frio e fogo de amor
apenas luz se alongaram
curvados talhes desnudos.
E nas sombras o silêncio
agitava como franjas
seus longos braços agudos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Descobrimento, poema de Mário de Andrade

Salvador Dali 
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A ÁRVORE


(Brueghel o Velho e Rubens)




Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DISCURSO SOBRE A ÁGUA VIVA

(Alonso Cano)


Quero nomear-te e a única coisa que sei
Do teu nome é o meio-dia e o peso
Do sol sobre a ânfora
Do teu corpo, sobre a tua cabeça
Como um lençol de luz, quando procuras
Apenas  a sombra
A única coisa que sei, quando te nomeio
Formosa mulher de Samaria
É a força nas tuas mãos quando levantas a água
É a antiga submissão de fêmea
Que canta o cântico plangente da sua vida.


05-07-2016
© João Tomaz Parreira 



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