quarta-feira, 20 de junho de 2018

“A RESSURREIÇÃO DE CRISTO E AS MULHERES NO TÚMULO”, de FRA ANGELICO




Deixem aqui os vossos temores, aqui apenas

Estão os lençóis que cobriram a morte

Ele tinha-vos dito recentemente

Guardem os vossos bálsamos, são suaves

Agora os caminhos de Jesus sobre as nuvens

O que os vossos olhos não contemplam

É o só princípio da luz ao fundo da eternidade

Vejam aqui na luz solar o túmulo, deixem aqui

As vossas lágrimas arrumadas sobre o pano

Que lhe cobriu a cabeça, esqueçam as ligaduras

No chão, não procurem mais aqui a vida

No lugar dos mortos.


19/06/2018

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Criança e a Infância em 150 Citações - E-book gratuito


Estão reunidas neste e-book uma série de citações, oriundas de autores, épocas e contextos os mais díspares, com o singelo objetivo de enriquecer nossa reflexão sobre a criança e a infância, este momento ímpar e fundacional de nossas vidas.
Um oferta do blog Oásis da Educação Inclusiva para você ler e compartilhar.

Mantido por Valdenice Gomes de Andrade, Pedagoga e Especialista em Avaliação Educacional e da Aprendizagem, o blog Oásis existe desde 2012 com o objetivo de divulgar, discutir e fomentar a causa da educação, com foco especial na educação inclusiva, além de temas humanitários.

Para baixar o e-book pelo Google Drive, CLIQUE AQUI

quarta-feira, 13 de junho de 2018

ESTA VIDA DE CÃO



(Angelo Cordeschi, "Waiting for the train") 




Que mais pode um cão fazer senão deitar

No silêncio das linhas os seus olhos, o amor

Reveste-lhe o faro e alguém que espera

Como um irmão maior há-de tomar forma

Enquanto o horizonte não começa

A mover-se, o cão aquece a pedra

Com o coração tranquilo e dorme

Não quer nada em troca pelo seu amor total

A sua língua saberá quem vai descer

Dos ferros ruidosos do comboio.


13/06/2018

© João Tomaz Parreira

terça-feira, 5 de junho de 2018

ÍTACA, poema de Konstantinos Kaváfis


Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Poseidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 


Tradução de José Paulo Paz
In O Quarteto de Alexandria 


quinta-feira, 31 de maio de 2018

POESIA E ARTES PLÁSTICAS NO INSTITUTO DE CRISTIANISMO CONTEMPORÂNEO. LISBOA

Sombras da memória: olhares sobre o Holocausto


/https://iccontemporaneo.wordpress.com/2018/05/30/sombras-da-memoria-olhares-sobre-o-holocausto/

"MARCHA"
Na marcha final para estes olhos escuros
Que se arrastavam como os pés, a morte.
Não é um caminho de fugitivos, nem houve tempo
Para subirem a casa do Senhor, são um rebanho
Uma fila de olhos sem regresso que caminha
Os corações devem ter-se derretido a cada passo
Mentindo desesperadamente
Sempre um novo horizonte. Não haverá
Ninguém para despejar a areia dos seus sapatos.
07/03/2018
© João Tomaz Parreira 


terça-feira, 22 de maio de 2018

AS PREGAS


“se eu tão-somente tocar na borda do seu manto, sararei”
Ev. Mateus 9:21

O meu manto tem muitas pregas
uma para deter o teu sangue,
que na torrente com que jorra
lava de ti gota a gota as cores
e os músculos do coração
outra guarda as lágrimas
que a dor, ao castigar
a tua persistente negação
sem uma vara a que se amparar,
te deixou como tristíssimo refrigério
há uma outra para dilatar o som
dos teus clamores e fazê-los voar
por sobre os montes, em busca
do socorro, até quem a ele será sensível,
até quem a ele atenderá
assim nos céus como na terra
há uma prega no meu manto
que é uma tenda para dormires
os teus Invernos, ela é o calor
da casa, o lume fluido
dos serões em festa na família,
enquanto o frio vai caindo lá fora
se me tocares nesta prega
limparás a vergonha, não mais poderão
continuar a dizer que és aquela
impura que corre sangue
e que tudo mancha à passagem do teu manto
Rui Miguel Duarte
29/04/18

Sobre Poesia, texto de Vinícius de Moraes


SOBRE POESIA

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária. 

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução. 

Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. 

O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court. 

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída. 

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.


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