domingo, 22 de maio de 2016

VIAGEM




Não nos ajoelhamos nas margens
do Mar, mas nossos joelhos tremiam
com o chão pela cavalgada dos egípcios
O que seria de nós diante
das vagas fechadas do Mar Vermelho
se a vara de Moisés não esculpisse
nas águas moles dois muros de vidro.

Até hoje
nunca nos ajoelhamos
nem no Muro das Lamentações
nem à entrada das câmaras da morte
onde uma água falsa nos removeria
a vida.  

03-08-2015

©  João Tomaz Parreira 

domingo, 15 de maio de 2016

O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros


O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros

terça-feira, 26 de abril de 2016

UM SALMO

(Eduard Bendemann, Berlim, 1832)



“Ah Todo o cais é uma saudade de pedra”
Álvaro de Campos

Como outrora os hebreus, ele à beira do Quebar, um afluente
Da sua alma eram os olhos, olhavam
E transferiam-se como água para a corrente
Saudosos de repousar sob a brisa dos lírios
Sentada ela desentrançava o cabelo e oferecia
Aos pássaros o seu brilho de ouro, natural
Era a saudade, que ao mínimo silêncio estremecia
Nas sombras do correr das nuvens pelo chão.
25-04-2016
© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A Siesta


A Siesta
É uma alegria para mim ouvir soar o relógio: Eu vejo que passou mais uma hora de minha vida, eu acredito que estou um pouco mais perto de ver Deus.” - Teresa de Ávila

Tive um sonho esta tarde. Meus sonhos da siesta, 
do após o almoço, são sempre tristes, materialistas,
renitentes lembranças exageradas de problemas
nos quais desejo não pensar.
Mas esse foi diferente:
Eu assistia, num desses cemitérios de subúrbio,
a um funeral, o meu próprio.
Seguia avançando com o féretro, uma mãe chorando &
duas dúzias de pessoas cansadas do dia, e tudo era paz
e algum tédio, mas ao chegar à sepultura
choquei-me com o que li escrito em minha lápide:

Lançado para além da muralha.”

Foi a coisa mais linda e perfeita que já li na morte ou na vida,
o sonho de maior completude que já pude.

terça-feira, 19 de abril de 2016

TRAVESSIA DO MAR VERMELHO



O que nos movia para a margem
do mar vermelho, o desejo com asas
tranquilas e os olhos com a doce lágrima 
da liberdade,
mesmo sob a febre do deserto? Movia-nos
uma terra que não conhecíamos, ainda
perto do egipto e com os cascos dos cavalos
egípcios a partirem o silêncio sagrado do chão
montadas e cavaleiros confiantes
na perseguição. O que movia um povo,
cujo censo estava nas estrelas, multidão escondida
para a margem do mar? A esperança juvenil dos velhos,
o útero das mulheres jovens
para darem à luz no leite e no mel
da terra prometida?

19-04-2016
© João Tomaz Parreira

(Frédèric Schopin, 1805-1880, Bristol Museum)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

À MESA COM O PRÓDIGO





Já estava sentado à mesa, com os olhos
Do meu pai a verterem alegria, o vinho
Dos odres novos a brilhar no banquete
O bezerro a sair do remoinho das chamas
Depois de anos a andar sem sandálias
E com vestes festivas e um vestígio
Real no dedo, apontava a saudade
Do meu coração para a porta, esperava
Que entrasse com o sol crepuscular
O meu irmão, nos meus olhos
Eu dizia palavras de amor, enquanto
O silêncio da porta deixava passar
A lua plena.

13-04-2016


© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O tempo é a imagem de algo...

Aión, um dos deuses do tempo
Fábio Ribas

“Quando fores me visitar, eu já terei viajado”. Estou me dirigindo num discurso no tempo presente a alguém, que, eu sei, no futuro, irá visitar-me. Contudo, ao visitar-me naquele futuro, este tempo será lá, então, um tempo presente e guardará também em si um tempo passado, que será o fato da minha ausência agora anunciada, do nosso desencontro num momento ainda por vir: um passado que, assim como o futuro, ainda não ocorreu e quem sabe se ocorrerá ou não?

  Outras nuances entre o tempo e a linguagem, entre o tempo e a língua portuguesa, especificamente, são as riquezas, que a educação moderna sonega aos nossos alunos, dos pretéritos mais que perfeitos, do futuro do pretérito e do pretérito do subjuntivo. Um pretérito mais que perfeito que nos revela que todo passado pode ocultar um tempo ainda mais anterior (ou interior). Um futuro do passado que pode expressar essa frustração humana diante de um tempo que jamais se realizará. E, enfim, um tempo em que o passado é um desejo que aponta para um futuro incerto. Tudo isso reflete o texto de Gênesis 1: 28, que é o mandato recebido por Deus para que dominássemos sobre toda a natureza. E o tempo faz parte da natureza criada. E o homem luta contra o tempo para dominá-lo por meio da linguagem também. Assim como Deus ordenou o caos pelo poder da sua Palavra, a criatura humana reflete esse mesmo modelo. O tempo deve ser dominado pela palavra humana. É possível?

Poderíamos criar uma geração de filósofos e teólogos se existissem mais professores verdadeiramente preparados na arte da Filosofia da Gramática. Outros casos que me ocorrem é o do famigerado gerundismo que parece tentar esticar ad infinitum o tempo presente, para que o futuro nunca chegue na maioria dos departamentos públicos. O que demonstra também que professores bem treinados poderiam usar do ensino da gramática para explorar as doenças mais profundas da falta de caráter da depravada alma brasileira expressa pela língua e propor tratamento pelo uso saudável da correta locução verbal em tempo não esquivo. 

E se quisermos ampliar esse rol de divertimentos linguísticos veremos que tempo e espaço acabam sendo moldados pela cosmovisão e a língua revela/domina essa realidade para nós. É o que ocorre com as palavras “machar” e “temol”, que, em hebraico, respectivamente, significam “futuro” e “passado”. O lúdico linguístico, porém, está no fato de que “machar” significa também “atrás” e “temol”, por sua vez, significa “à frente”. Portanto, o futuro está “atrás” e o passado “à frente”, porque o passado está claro diante dos nossos olhos, mas o futuro oculta-se em algum lugar ou de alguma maneira, atrás de algo que nos impede de discerni-lo. Ainda na língua hebraica, quem não se lembra da repetição do sábado e do ano do jubileu? O tempo é cíclico. O tempo está sempre retornando (diferente da nossa cosmovisão de tempo linear). É o “shanah” hebraico. Mas é uma repetição singular, única, jamais igual ao que já houvera, um “eterno retorno do irrepetível”. Quem sabe não seria por uma característica como essa que Mircea Eliade afirmou existirem línguas em que o tempo futuro não existe? 

De qualquer maneira, o tempo e a sua relação com a linguagem não poderia escapar dos estudos da nossa Bibliotheca, uma vez que, para Platão (em o Timeu), o tempo é a imagem móvel da eternidade. Nesta definição platônica, três palavras precisam de uma atenção especial: “tempo”, “imagem” e “eternidade”. Pois, se como vimos no artigo “O mundo é a imagem de algo”, aqui também Platão nos surpreende com o tempo sendo uma imagem de algo, a saber, da eternidade. Contudo, nada pode ser tão rapidamente apresentado, pois que os conceitos originais estão em grego e as palavras nos revelarão segredos: O tempo (crónos) é a imagem (mímesis) da eternidade (aión). É preciso tempo para fazer como Krónos, devorando nossos filhos, as palavras, até que elas façam parte de nós e, depois de serem vomitadas, possam herdar a vida eterna. 


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