domingo, 5 de julho de 2015

EURÍDICE






 “De pé nas lages da entrada do Hades
Orfeu curva-se a uma rajada de vento” 
 -Czeslaw Milosz



foi o amor um perigo mortal, tanto como foi belo
Orfeu estar de novo defronte do rosto de Eurídice,
depois de vencer o vento, ninguém pode
nem os deuses podem contra o amor
pensava Orfeu.

ousou assim entrar na morte e trazer a amada
amaciando o coração do Hades,
com os cristais do portal da vida quase à mão.

mas como a morte tem os seus caminhos,
foi o desejo que fez Orfeu perder-se
a olhar para trás, e assim perder para sempre
o objecto do amor.   


23-06-2015

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ÁGUAS VIVAS Volume 4 - Antologia de Poesia Evangélica em ebook gratuito


      Dois anos se passaram desde o último volume de Águas Vivas, já seis anos desde o volume inaugural. Antologia poética bianual que almeja reunir e proclamar textos de significativos poetas evangélicos da atualidade, Águas Vivas nasceu e manteve-se sempre sob o signo da diversidade, reunindo poetas jovens, iniciantes de voz promissora a outros já experimentados e consagrados; autores oriundos dos mais diversos rincões do Brasil, e ainda de Portugal, e de diferentes filiações denominacionais.
      Este quarto volume vem confirmar a vocação pela pluralidade de Águas Vivas: Temos aqui jovens poetas de riquíssima expressão como Patrícia Costa, Marvin Cross, Maria Isabel Gonçalves e Luciano dos Anjos, ao lado de vozes experientes expressas pela força lírica e devocional de Rosa Leme e Romilda Gomes, o doce sotaque cordelístico de Roberto Celestino e a poesia francamente social de J.F.Aguiar.
      Paul Celan costumava dizer que “a poesia é uma espécie de regresso a casa.” Outro grande poeta, o espanhol Pedro Salinas, referia a poesia como “uma aventura [rumo] ao absoluto.” Pois esse singelo e aprazível exercício rumo ao Absoluto, onde, por maneiras multifacetadas, cada autor (re)constrói sua trilha e funda(menta) sua singularidade, é o que você encontrará aqui, amigo leitor. E pensar que a poesia, há ainda quem o diga, ‘não tem função’. Mas, sintetizando as opiniões dos referidos poetas, acreditamos que, ao contrário, a ela cabe a função mais nobre: lembrar-nos do Absoluto, sendo a um tempo a ferramenta e o memorial; aproximar-nos de Deus, grande porto de conturbada saída e de graciosa chegada da aventura humana; enfim mapear, com sua cartografia do inefável, nosso retorno ao Lar uma vez perdido.
      É sempre com renovada alegria e senso de dever cumprido que trazemos até você, amigo leitor, um pouco da ótima poesia cristã produzida atualmente por nossos irmãos, que têm no verso a expressão de suas almas, a extensão de sua fé.

Sammis Reachers

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sexta-feira, 26 de junho de 2015

O QUARTO





um quarto, um pequeno quadrado
do mundo, uma cama, uma mesa,
o vazio
fundo de duas cadeiras, detalhes
do silêncio contra a luz externa
da janela. invisível o cheiro
das tintas com que traz
para casa o sol dos girassóis.
Um quarto muito pequeno, em algum lugar
cabe a alma de Van Gogh.

25-06-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 14 de junho de 2015

A RESPIGADORA NUM POEMA DO VELHO TESTAMENTO

     
 

Ao contrário do que escreve o poeta John Keats (1795-1821), na célebre Ode a
um Rouxinol sobre Rute, atribuindo-lhe um coração triste “quando recordava o
seu lar e chorava diante das searas dum país estrangeiro”,  a verdade é que
esse pathos nostálgico da saudade se transformou em ânimo para aceitar a
vida nova em terra estranha e um trabalho humilde que, aparentemente, a
secundarizava.

No livro bíblico de Rute, canonicamente colocado entre Juízes e os I e II livros
de Samuel, o profeta que poderia ter sido rei numa teocracia, a diegese é um
relato que tem a força da emocionalidade e do profético, da beleza dos
 sentimentos à necessiadade da afirmação messiânica no meio de um povo
 israelita,   governado por Deus através de juízes, que o próprio Senhor suscitou ( Juízes, 2,16)
 Em síntese, escreve um comentarista da Bíblia Sagrada JFA, da Editora Vida
 Nova, “O livro de Rute descreve a direcção providencial de Deus na vida de
 uma família israelita.”

Tal narrativa de vida não deixa de ter a poética – no sentido aristotélico que
 determina que sentimos deleite perante o que lemos - a valorizar os
 acontecimentos e a conferir-lhe uma estética que é o Belo na vida de Rute e o
 que esta representa na genealogia do rei teocrático David, cuja linhagem vai
 até Jesus.

OS VERSOS DA ODE DE JOHN KEATS

A celebrada Ode tão cheia de melancolia do canto do rouxinol, que o poeta
 romântico inglês escreveu em 1820,  traduz uma visão da vida humana
transitória não isenta de sofrimento e de amargura, em contraste com o alegre
 e despreocupado canto do rouxinol.
 Esse  canto “pleno e calmo” da ave de Keats, no espaço textual da ode,
 aparece com uma equiparação, que o embeleza pelo oposto,  entre a tristeza
 do poeta perante a velhice, a mortalidade, o desejo de voar para fora do mundo
 e a imaginada tristeza que o poeta inglês pensa ver no semblante e na alma de
 Rute. Ele supõe que esta mulher da Bíblia, ao encontrar-se perante uma gente
 e uma terra estranhas, sofre da melancolia da saudade.

Os versos, repetindo-os, são os seguintes: “O espírito triste de Ruth, quando
 recordava o seu lar / e chorava diante das searas dum país estrangeiro.”
 (“Poesia Romântica Inglesa (Byron,Shelley,Keats)”, Inova, 1977, pág.88)
 A expressão da natural tristeza e saudade que acompanha quem sai da sua
 terra para outra estranha, no caso de Rute, não é contudo mostrada como tal
 nas Belas-Artes do Clássico e do Barroco. Por exemplo nas telas a óleo de
 Nicolas Poussin (1664) e de Barent Fabricius (1660), ambas revelando o
 encontro feliz entre Boaz e Rute.

O DEVASTADOR CAPÍTULO 1 DO LIVRO

O que se iniciou como  tragédia, não era senão o começo do Plano divino.A
 partir de um simples e pequeno núcleo familiar,  sem importância social aos
 olhos humanos, Deus iria agir universalmente na História.
 É, literariamente, uma saga familiar cuja narrativa se exprime num estilo
 poético, dolorosamente poético, apontando de igual modo para uma história de
 idealidade e de nobreza de carácter.
 “Não me instes para que te deixe, e me afaste de ao pé de ti; porque aonde
 quer que tu fores irei eu”( 1,16).
 A dialogia (a estrutura de diálogo) que se percebe  nesta resposta de Rute à
 sua sogra Noemi, desenvolve-se com qualidade visivelmente de poesia:  “ e
 onde quer que pousares à noite ali pousarei eu”; como a própria menção do
 estado converso de Rute ao Deus de Israel, é feita numa frase lapidar,
 metacultural, metahistórica, numa expressividade idiomática antiga: “o teu povo
 é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.

A narrativa descritiva da chegada de Noemi e Rute a Belém é em si mesma um
quadro em que a fraternidade, a alegria do reencontro fraterno resolve o
 problema da saudade que estaria nos olhos interiores dos familiares e vizinhos,
 que agora eclodia em alegria comovida: “ entrando elas em Belém, toda a
 cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi?”, (1,19)
 Noemi, que é ainda a figura central da diegese, ciente do drama que vivera,
 usa uma metáfora entre a imaginação e a realidade, ao declarar: “Não me
 chameis Noemi (i.é. agradável); chamai-me Mara; porque grande amargura me
 tem dado o Todo-poderoso”, (1,20)
 
A CENTRALIDADE DE UMA PERSONAGEM REAL

O facto de se considerar um livro canónico, integrando as Sagradas Escrituras
 veterotestamentárias, de ser mesmo um livro da liturgia judaica durante a festa
 do Pentecostes, tal não invalida que possa ser tratado como uma das mais
 belas peças literárias da Bíblia Sagrada.
 Assim, Rute é uma heroína em consequência da tragédia inicial que reverte em
 beleza e bênção.

Rute diante do que parece ser uma adversidade, adopta, pragmaticamente,
um modo de sobrevivência que só pode ser o sentimento e o bálsamo de Deus
a trabalhar no seu espírito.
No nosso século, com os instrumentos de análise do texto literário, lemos as
expressões do pensamento do puro amor -.ágape,  / sem sexismo ou
machismo prevalecente, uma antecipação  do romantismo, como um valor
imortal  no remotíssimo século XIII a.C.
Deixa-me colher espigas” disse Rute a Boaz. Este responde:”Não ouves filha
minha? Não vás colher a outro campo, nem tão pouco passes daqui.(…)Os
teus olhos estarão atentos no campo que segarem(…), não dei ordem aos
moços, que te não toquem? Tendo tu sede, vai aos vasos, e bebe do que os
moços tirarem” ( 2, 8-9)
Então ela caiu sobre o seu rosto, e se inclinou à terra” (2,10). Baixou os olhos,
por certo ruborizada. É poesia porque tem estrutura de verso e é simbólico de
uma atitude de respeito bem oriental. “Por que achei graça aos teus olhos”. Por
seu lado, é um expressivo exemplo de lirismo que embeleza a humildade, não
a subserviência.  Um dos grandes poetas evangélicos clássicos brasileiros,
Jonathas Braga, escreve em “O Milagre do Amor” (poema longo sobre o livro
de Rute, de 1969): “Quem é essa criatura angelical que cisma / e a luz do seu
olhar sobre outro olhar abisma?”
Assim é o Livro bíblico de Rute: um quadro luminoso da gratidão, do apego aos
mais velhos e do amor com A maiúsculo. 
                                                                                         © João Tomaz Parreira
                                                                                                                                                           








quinta-feira, 21 de maio de 2015

NOTÍCIA DO CERCO DE BIZÂNCIO



Assim foi que, estando a cidade sitiada,
Mais do que os baluartes guarnecidos,
Era urgente distinguir o sexo
Dos anjos, a forma exuberante
Das suas asas, se o seu corpo
É o da mulher jovem com um busto fresco
Ou o do mancebo com músculos rectilíneos.
Assim foi
Quando era preciso que rezassem com os joelhos
Dobrados, os monges discutiam
Com a harpa do sexo escondida nas cabeças.

20-05-2015

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 20 de maio de 2015

GRÃNADAS - Livro de Sammis Reachers


Este é um livro sobre nada, sobre (grã)nadas. Um livro inócuo, zoação, caleidoscópico construto de pueris provocações. Exercícios imag(in)éticos, artesanias de sampling, repetições do que há um século já foi novo debaixo do sol. Vilanias com versos, vilanias por versos. Conversos, perversos: cordatos estupros. 

Minha última iniciativa em poesia experimental foi no livrinho CONTÉM: ARMAS PESADAS, no já distante ano de 2012. Este(as) Grãnadas é uma retomada da inquietação criativa, com seus pequenos exercícios anti-tédio, balões de ensaio sem maiores pretensões além de romper a estática que por vezes domina seja o poeta, seja o ato poético e a poesia. Um livro eminentemente visual, feito de fotos, concretismos, colagens e samplings os mais diversos. Nada para ser explicado: apenas visto. Desde o índice até as diversas folhas de rosto (e títulos/autores), temos aqui uma brincadeira com o conceito de livro, uma libertinagem.

Para ler online ou realizar o download pelo site Scribd, CLIQUE AQUI.
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*Por tratar-se de um livro composto por muitas imagens, o arquivo possui 30 megas.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

ELA





“E a costela que Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher”
Gn 2,23


Ela  tem a força das minhas costelas
E a forma do meu corpo por dentro
Ela não conheceu o barro
De onde eu vim
Ela saiu da minha concha
O seu perfume sobe e desce ainda
No meu sangue
Até que a morte cale o coração
O coração reconhece-a,  é ela
O verão no meu corpo envelhecido
Que acordou do sono, ela é agora osso
Dos meus ossos, carne da minha carne
Ela é a fonte do meu riso.


23-04-2015

© João Tomaz Parreira
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