quinta-feira, 21 de julho de 2016

A ÁRVORE


(Brueghel o Velho e Rubens)




Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DISCURSO SOBRE A ÁGUA VIVA

(Alonso Cano)


Quero nomear-te e a única coisa que sei
Do teu nome é o meio-dia e o peso
Do sol sobre a ânfora
Do teu corpo, sobre a tua cabeça
Como um lençol de luz, quando procuras
Apenas  a sombra
A única coisa que sei, quando te nomeio
Formosa mulher de Samaria
É a força nas tuas mãos quando levantas a água
É a antiga submissão de fêmea
Que canta o cântico plangente da sua vida.


05-07-2016
© João Tomaz Parreira 



quarta-feira, 22 de junho de 2016

DESCRITIVO DO AMOR NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS


A sombra do meu amado faz arder os meus olhos.
As suas mãos perfumadas no meu rosto
São a água matinal, nos meus cabelos
O paladar dos cachos de uvas o tornam ébrio.
A chama do seu amor faz arder
As sombras. As maçãs na sua boca
São minhas, são meu alimento. A minha beleza
De jovem Sulamita o constrange, não sabe
Onde pôr a sua mão direita.
Enquanto a sua mão esquerda é um fogo
Debaixo da minha cabeça. Todos os meus ossos
Tremem com o açúcar da sua voz.

20-06-2016
© João Tomaz Parreira

https://ovelhaperdida.wordpress.com/2016/06/21/descritivo-do-amor-no-cantico-dos-canticos-inedito-de-joao-tomaz-parreira/ 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Fratria, poema de Jorge Wanderley

Bruegel, The Land of Cockayne

Fratria

Ontem na rua, eu os vi, amontoados,
e casuais, nos trapos, na fuligem
que invadia suas peles e nas úlceras
e curativos e nos lábios rotos
por socos e escorbuto; amontoados
e naturais, passando ora a garrafa
ora um pão seco e eram homens
e eram mulheres, que falavam,
que se entendiam,
e um deles mais que os outros
pontificava, e maximoso dava o tom
de uma filosofia já perdida
e mágica e infalível
a julgar pela voz com que falava.

Conversavam, os cinco ou seis, talvez,
indistinguíveis, todos, forma igual,
e iguais murmúrios e grunhidos.

Mas um deles
ergueu a cabeça e me encarou.

"Fui reconhecido", pensei comigo,
enquanto me afastava na direção da
multidão.

Ele me encarou como se perguntasse
"Que faz você aí, no meio dos limpos?
No meio dos brancos? No meio dos outros?"
E concluísse: "Você sabe que seu lugar é aqui."

Do livro O Agente Infiltrado (1999, Bertrand Brasil).

domingo, 22 de maio de 2016

VIAGEM




Não nos ajoelhamos nas margens
do Mar, mas nossos joelhos tremiam
com o chão pela cavalgada dos egípcios
O que seria de nós diante
das vagas fechadas do Mar Vermelho
se a vara de Moisés não esculpisse
nas águas moles dois muros de vidro.

Até hoje
nunca nos ajoelhamos
nem no Muro das Lamentações
nem à entrada das câmaras da morte
onde uma água falsa nos removeria
a vida.  

03-08-2015

©  João Tomaz Parreira 

domingo, 15 de maio de 2016

O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros


O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Manoel de Barros

terça-feira, 26 de abril de 2016

UM SALMO

(Eduard Bendemann, Berlim, 1832)



“Ah Todo o cais é uma saudade de pedra”
Álvaro de Campos

Como outrora os hebreus, ele à beira do Quebar, um afluente
Da sua alma eram os olhos, olhavam
E transferiam-se como água para a corrente
Saudosos de repousar sob a brisa dos lírios
Sentada ela desentrançava o cabelo e oferecia
Aos pássaros o seu brilho de ouro, natural
Era a saudade, que ao mínimo silêncio estremecia
Nas sombras do correr das nuvens pelo chão.
25-04-2016
© João Tomaz Parreira

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