Em agosto, o poeta, escritor e editor Geovane Fernandes Monteiro lançou seu terceiro livro, o pungente Gestos do Nada (Litteralux, 94 páginas).
A
crueza da vida é inimiga do verso que a revela, a vocifera: dos porões do dia,
da alma e suas catacumbas, o poeta debulha as cismas, peneira medos e (re)funda
à frio tudo em sua forja. Faz a palavra – via-vivência – arder até luz. Este Os
Gestos do Nada é fagulha na corda tênsil da existência, ensaio sobre o salto e
sua negação, emerso da quietude etérea/densa do reino do verbo. Nesse domínio
expandido, entre a paz e a disrupção, o poeta é a síntese do que somos e do que
estamos: libelo de uma psiquê singular e coletiva, aqui Geovane, o homem,
entrega, com hábil fartura, humanidade.
O livro pode ser adquirido diretamente com o autor, através de seu perfil no Instagram: @geovane.fernandesmonteiro , ou no site da Editora Litteralux.
Três poemas da obra:
O
encontro
aguardo
informações
sobre o que
cometi
entre
alheias suposições
espalho
eventos dos vazios
latências
arejadas por suor
beijos de
novela
em ausências
superestimadas
plasmam meus
blecautes
ganhei o que
não quis?
qual a
geografia dos erros?
esgotei o
que há?
ao pé do
infinito
nada atingir
senão
realizar?
errei o alvo
das saudades
por onde
pessoas se cruzam
para haver
caminhos
e os corpos
se enlaçam
esgotando as
palavras
das palavras
Às 0h
Disparam os
relógios
a rota dos
ponteiros acompanha sua inércia
nada se
mantém em datas
jet lag nas
recreações me traz
as 24 horas
ponteiros
quebrados
no horário
de Brasília
envelhecem
juntas a bomba-relógio
e minhas
mãos supersônicas
por entre o
chão parado das auroras
ao tempo
perdido
não sei da
hora certa nesta vida agendada
com suas
vésperas
relojoeiros
empurram o ponteiro parado —
giram os
relógios
vive o
futuro a própria inexistência
corpos
celestes
surdos
despertadores
meus apelos
em desuso
mas a vida
útil
na soma dos
dentes que caem
ante os
relógios decorativos
em espera
menti às datas memoradas
e do sóbrio
cálculo vêm os calendários
extensão de
paredes
a vida entre
o atraso e o adiantamento
ajusta o
relógio
Mensagem
Meu corpo a
corpo
alegria
fugitiva de alegria
sem confusão
de dores
durante meu
tamanho
aonde a
saúde me guia
tenho a
companhia de mensagens
na
experiência do arrastar da carne
povoando-me
desprevenida
nos alcances
de esquecimentos
a um
desencadear
prévias de
sol e de lua
migrações
terrenas
na penúltima
querência
percorro
isto ou aquilo
e em dias
comigo
meu nome
perdido na idade
meu
desdobrar em alerta vertebrado
no todo de
ventre me inaugura
por entre
crenças e descrenças
o exercício
do corpo
que é fé
pois não há
senão ele
de existindo
sou uma
resposta

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