CASAMENTO
Ei, coisinha de luz
É vero: não há parentes em nosso casamento.
Duas madrinhas, suas amigas, é isso
Somos dois pobretões já passados da idade
Autistas penitentes
E aqui estamos, contra as expectativas dos que nos detestam
Mas temos um amigo em Nazaré, você o conhece melhor que eu
Ele despediu à revelia alguns convites por aí
E se esse dia está estranhamente mais iluminado, mais quente e branco
É que há estrelas jornadeando para assistir nosso enlace
Os insetos de dezoito quintais, do que é redondeza, se somam e assomam
Pelo teu sorriso de ninfa nubente
Não há muitos amigos, mas olhe para aquela nuvem a poente, a mais fofa:
Anjos daquela falange que restaura ossos quebrados das crianças
– Alguns a quem infernizei na infância –
Lá estão, estranhos anjos que quanto mais sorriem, mais refulgem
Amigos em nome do AMIGO
Sim, tão poucos os humanos, eu sei
Mas temos anjos e insetos e estrelas e
Num dos muitos apartamentos de face ao cartório
Numa das janelas desse um dos muitos apartamentos, um gato
Um gato SRD resgatado de sob a roda de um Porsche
Representa o a nós dois mui caro
Conclave Imperial dos Gatos
E honra nosso casamento
Que mais dois maltrapilhos quase quarentões poderiam querer da vida,
Menina que amo como uma romã que arrebenta?
(Para aquela coisinha de luz que vez por outra diz, "você nunca
mais me escreveu um poema")

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