Salmo
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Quando as madressilvas se calarem nas sebes
e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,
quando a neblina impenetrável me apagar a vista,
anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,
quando o cetro das sombras me ferir a fronte,
Senhor! Não tenha sido em vão a minha vida,
mas que nas praças eu deixe murmurando
um pensamento de brandura;
ou pelos campos que povoei de frondes perdulárias,
possa ficar cantando, como um lótus na corrente,
a asa meiga de um gesto de bondade.
Ao pé da serra,
onde as águias pousam nos meus ombros,
dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz:
dá-me forças, Coração de nuvem,
para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça;
dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó pura Primavera,
para que eu dessedente os lábios
na Cascata de teu Nome.
Poupa a esta sede a esponja de vinagre;
desviando a taça e o fel de minha boca.
Derrama sobre mim o Teu clarão
para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade,
e recoberto pelo manto que me concedeste,
possa eu dormir tranquilo junto à Face irrevelada,
alheio para nunca mais, ao escárnio do momento
imperecível.
In Revista AMPLITUDE #8.

Nenhum comentário:
Postar um comentário