quarta-feira, 29 de julho de 2026

Salmo, poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos

 


Salmo

 

Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

Quando as madressilvas se calarem nas sebes

e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,

quando a neblina impenetrável me apagar a vista,

anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,

quando o cetro das sombras me ferir a fronte,

Senhor! Não tenha sido em vão a minha vida,

mas que nas praças eu deixe murmurando

um pensamento de brandura;

ou pelos campos que povoei de frondes perdulárias,

possa ficar cantando, como um lótus na corrente,

a asa meiga de um gesto de bondade.

 

Ao pé da serra,

onde as águias pousam nos meus ombros,

dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz:

dá-me forças, Coração de nuvem,

para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça;

dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó pura Primavera,

para que eu dessedente os lábios

na Cascata de teu Nome.

 

Poupa a esta sede a esponja de vinagre;

desviando a taça e o fel de minha boca.

Derrama sobre mim o Teu clarão

para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade,

e recoberto pelo manto que me concedeste,

possa eu dormir tranquilo junto à Face irrevelada,

alheio para nunca mais, ao escárnio do momento imperecível.


In Revista AMPLITUDE #8.


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