segunda-feira, 1 de junho de 2026

Oração Secreta, um poema de Henriqueta Lisboa

 


Oração Secreta

 

Senhor, perdoa-me que eu não Te procure

nos Teus dias de abundância e de púrpura.

Perdoa que eu não esteja presente

aos Teus rituais de luz e incenso.

Perdoa que eu não me associe à turba

quando és aclamado nas praças públicas.

E que nunca tenha sido

porta-estandarte das Tuas insígnias.

 

Não é que me envergonhe de Ti, Senhor...

Foste Tu mesmo que me deste esse pudor

por todas as coisas que se oferecem à claridade.

Não sei cantar em altas vozes.

Não sei expandir-me em gestos largos e notórios.

Não sei utilizar-me das coisas fulgurantes

e só compreendo o amor humildemente, às escondidas,

amar em silêncio, como as monjas...

da penumbra, como os que amam sem esperança...

com extremas delicadezas,

como se o meu amor estivesse para morrer...

 

Na tristeza e na obscuridade,

quando os homens se distraírem de Ti,

e se forem para a faina ou a volúpia diária,

deixando os Teus templos vazios,

então, Senhor,

minha hora será chegada.

Entrarei devagarinho no Teu santuário,

acenderei de mãos trêmulas a lâmpada de óleo

e sentar-me-ei no chão, junto ao Teu tabernáculo, imersa em

pensamentos inefáveis...

Não rezarei, talvez, Senhor,

 

Meus lábios não sabem pronunciar em vão

aquelas fórmulas

que o tempo desfigurou na minha imaginação,

Meus lábios ficarão imóveis.

Não haverá em todo o meu ser

tanto abandono,

tanta adoração nos meus olhos,

tanta afinidade da minha atitude com o Teu ambiente,

que sentirás meu coração bater

dentro de Tuas mãos,

 

Serei então feliz, feliz docemente,

como uma enamorada tímida

a quem se adivinha.


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