quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Sammis Reachers: Retrospectiva editorial 2022

 


2022 finda e é tempo de realizarmos a nossa tradicional retrospectiva editorial. A comparar-se com outros anos, este 2022 foi um ciclo mais humilde em termos de publicações de livros. Após os muitos lançamentos e republicações de livros físicos e eletrônicos do ano passado, neste ano fiquei mais dedicado ao trabalho de leituras e pesquisa para uma nova antologia de frases, frases focadas em diversos aspectos da Missão, obra a ser lançada em formato impresso em 2023. Ainda assim, publicamos alguns dos já habituais e-books de frases, e também publicações autorais ou individuais, com destaque para o pequeno livro impresso (meu primeiro livro de bolso) Sabenças & Sentenças da Missão

Na seara da mobilização missionária, os cartazes de frases missionárias ilustrados na técnica lettering obtiveram boa acolhida.

No mais, pudemos participar de diversos concursos literários com nossos poemas e contos, e estivemos presentes em diversas antologias deles resultantes, além de revistas literárias de todo o Brasil.

Vamos dar uma olhada sobre alguns trabalhos e inserções deste ano de 2022:


No segundo dia de janeiro publicamos o pequeno e-book Prêmio Nobel de Literatura em Frases, que traz uma citação de cada um dos vencedores do Prêmio, desde seu início em 1901, até o vencedor de 2021. Confira AQUI.



Em janeiro a Revista Estrofe publicou sua primeira edição, desdobrada em dois volumes: Um de submissões livres, e outro focado n'A Arte de Relembrar. Em ambas estamos presentes, com poemas e um conto. Acesse: https://issuu.com/revistaestrofe




Em janeiro-fevereiro a Revista Reviragita Literária, cuja semente nasceu pelo trabalho de uma saudosa amiga, Cecília Fidelli, publicou meu poema Carta aos Cães em sua edição #5. Confira aqui: https://issuu.com/poetaalternativo/docs/reviragita_literaria-5




Entre janeiro e fevereiro transformei meu poema Cantiga das Crianças Fruteiras numa espécie de fanzine ou folder ilustrado. O poema apresenta nomes de frutas brasileiras, a maioria desconhecida pelo cidadão médio. Baixe o seu AQUI.




Em fevereiro publicamos uma pequena série de marcadores de página para imprimir. São marcadores belamente ilustrados, e focados em missões e edificação cristã. Confira e baixe os seus aqui: http://veredasmissionarias.blogspot.com/2022/02/marcadores-de-pagina-coloridos-com.html




Ainda em fevereiro, o poeta e professor Daniel Glaydson Ribeiro narrou, em vídeo de seu canal Linguagem e Poesia no Youtube, a nossa antologia Poesia em 500 Citações. Uma magnífica forma de democratizar a literatura! Confira aqui: https://www.youtube.com/watch?v=NRmFYKfHWnE




Em maio participamos da tradicional Folhinha Poética, elaborada anualmente pelo Jorge Carlos Amaral de Oliveira, o folclórico multiartista e ativista cultural Mané do Café. AQUI.




Em julho publicamos, pelo blog Veredas Missionárias, uma belíssima série de 13 cartazes/imagens com frases de impacto para mobilização missionária. Os cartazes foram ilustrados profissionalmente no estilo lettering, bastante bonito e comunicativo. Confire e baixe aqui: http://veredasmissionarias.blogspot.com/2022/07/cartazes-para-mobilizacao-missionaria.html




Em julho também publicamos, em versão impressa e virtual, o livro de bolso Sabenças e Sentenças da Missão: Frases e Provocações Missionais de Sammis Reachers. Como o título informa, trata-se de uma antologia de frases de minha autoria. Você pode fazer o download gratuito do livrinho AQUI.




Em meados do ano fomos selecionados para participar da antologia de contos QUEM SERÁ PELA FAVELA?, da editora Dando a Letra, com nosso conto Na Véspera de Um Dia Santo Numa Cidade Fulminante.  AQUI.




Participamos também do livro Poesia Minimalista, iniciativa da galera descolada & caprichosa do Toma Aí Um Poema. AQUI.




Em agosto o poema Carta aos Cães foi selecionado para compor a antologia Meu Bicho É o Bicho, da Pé de Jambo editora. Confira AQUI.




Em agosto ainda, o poema Na Morte em que fui Manuel Bandeira recebeu  menção honrosa no Primeiro Festival de Poesia de Betim, fazendo parte da Revista Cujo, publicada com os selecionados no concurso.




Em setembro participamos, ainda que de maneira abreviada, pela primeira vez da FISG - Feira Integrada de São Gonçalo, evento literário e artístico que ocupou, por três dias, diversas salas do Shopping Partage, em, claro, São Gonçalo.

Para o evento, preparei uma publicação especial, o livrete Estranho Horror na Senzala da Fazenda Colubandê e outros contos gonçalenses, reunindo sete contos de variados gêneros que possuem por teatro de ações o município de São Gonçalo.

Posteriormente, transformei a publicação em e-book, disponível na Amazon, AQUI.




Em novembro, a revista gaúcha Sepé publicou cinco de meus poemas.




Em dezembro, a Revista Mar De Lá, em seu número #03, publicou meu poema Rio BonitoAQUI.




Ainda em dezembro, publiquei um pequeno e-book metaliterário, a antologia METAMÁXIMAS, reunindo uma coleção de citações sobre... Citações, ora pois. AQUI.



E, em véspera de Natal, foi divulgado o resultado do 1º Ekopolis - Prêmio Tilden Santiago de Ecologia e Política, no qual ficamos com o segundo lugar, na categoria Poesia. AQUI.




Em termos autorais, durante todo o ano publiquei contos e crônicas no Jornal Daki, e também artigos na Revista Muito Além dos Videogames.




O fanzine Samizdat teve duas edições ao longo do ano, a #4 e a #5 (Especial Missões). Você pode baixar todas as edições AQUI.


*     *     *

Que o ano de 2023 possa trazer boas surpresas e novas publicações para divertir, surpreender, informar, entreter e edificar ao máximo de leitores possível, pois a democratização do conhecimento é uma de nossas bandeiras fundacionais, bandeira sob a qual esperamos tombar lutando.

Seu apoio e suas orações são o que nos mantêm em movimento. Não deixe de interceder por nossa vida e trabalho!


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

01/01/2023: O Atentado do Vírus 'Desfiltrador'

 


Eugene Kaspersky, pai do antivírus homônimo e tido ou havido como especialista maior do mundo das seguranças e salvaguardas do universo virtual, asseverou que o vírus partiu de uma cidadezinha chinesa, isolada em pó e fama nas franjas do deserto de Gobi, onde o governo chino, aquele dos olhos cada vez maiores, mantém uma de suas bases hacker.

O Times, não o de Londres, o New York, publicou relato de seu maior jornalista, dois Pulitzers naquele lombo branco e fora de moda, dando notícia de que tal descalabro cibernético partiu de uma IA (inteligência artificial) criada nos laboratórios da NSA (National Security Agency, uma das quatrocentas e doze agências de espionagem norte-americanas, ou quatrocentas e treze, a contar com a ABIN), IA que tomou “vida própria” e praticou ações “em benefício da humana espécie”, antes de ser silenciada dos mainframes. A NSA, claro, nega o fato, como nega qualquer fato.

E eis o fato: No dia 01 de janeiro de 2023 um vírus blended threats (tipo de vírus que é na verdade um coquetel de diversos códigos maliciosos, que operam em conjunto), vindo sabe-se lá de onde, aplicou o maior golpe ou ataque virtual já efetivado na história da internet. Milhões de pessoas tiveram quase 8,4 bilhão de fotos instantaneamente “desfiltradas”. Sim, ridiculice das impraticabilidades, ciber-porralouquice: Fotos publicitárias de repente perderam seu glamour falseabundo, instaladas já nos próprios anúncios virtuais veiculados por suas agências; anúncios culinários foram dos mais prejudicados, e a lambada de vara de cilício/silício (você escolhe, afinal o lombo também é seu) não poupou do universal McDonalds à nossa Giraffa’s, magoando ainda, numa igualação de classes jamais sonhada por Marx ou Bakunin, os altos mestres da culinária: No mesmo dia 01, apenas quatro horas depois da deflagração do vírus, nada menos que seis altos cozinheiros listados no topo do Guia Michelin suicidaram-se. E duro golpe se abateu, igualmente, sobre o comércio de corpos humanos, o virtual e agora globalizado meretrício: Milhares de books fotográficos (ou menus) foram literalmente deflorados de suas fantasias photoshopadas.

Uma impossibilidade completa e ilógica, mas aconteceu.

A desgraça, aí iniciada, seguiu penetrando os motéis e chats de que é feita a micro história: Namoros virtuais, dos rascunhados aos já prestes (aqueles já com passagens compradas, pois janeiro é período de férias!) foram repentinamente suspensos pela sub-reptícia revelação da face verdadeira de muchachos, muchachas e sambarilovis que valiam-se de filtros, às vezes em sua carga máxima, para diluir rugas, dinamitar estrias, clarear dentes, encobrir olheiras, harmonizar enfim a despojada/renegada naturalidade de suas faces e corpitchos.

Grandes artistas viram o pedestal ruir de sob seus pés de pégaso ou gazela; fotógrafos afamados foram lançados de volta ao lugar-comum do populacho Iphonizado.

O Instagram, criação espetaculosa do brasileiro Mike Krieger e seu sócio Kevin Systrom, hoje em posse do decadente Mark Zuckerberg, o repetidor de caras e camisas, lançou as ações da META num nimbo mais profundo que a Deep Web, ao perder num único dia setenta milhões de usuários.

PCs, laptops, aparelhos móveis: o vírus, que já está sendo chamado de RSW (Reality Shock Wave, ou onda de choque de realidade), tomou e manietou aparelhos até daqueles que jamais utilizaram um programa de fotos ou tratamento de imagens. Soturno aguarda, fênix de código binário, com seus cacetetes e espadas verdadificadores afiados, pronto para desmascarar a primeira tentativa de falseio.

E pensar que o vírus, dormente há meses segundo o velho Kaspersky, foi acionado por um gatilho singelo, que seu cruel programador havia preparado: Quando da utilização dos filtros por mais de quinhentos milhões de usuários ao mesmo tempo. Culpa dos festejos de Reveillon.

Moral da notícia, fictícia como um filtro Clarendon (aquele primeiro, o mais bonito) do Instagram: Viva mais, fotografe menos. E se for filtrar, filtre a água e as amizades, pois os tempos são liquidamente maus, photoshopadamente #fúteis.

 Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).




quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

METAMÁXIMAS - Uma reunião das melhores citações sobre... Citações, aforismos e máximas

 


Máxima. Sintetização de um pensamento na melhor das formas, forma que ocupe o mínimo espaço. Poderíamos assim, tacanhamente, definir o termo que é tema desta antologia.

Reunimos aqui uma inusitada seleção de definições – ou máximas – sobre elas próprias, as máximas. E vá lá: Aforismos, sentenças, provérbios, ditos e ditados, primos quaisquer dessa grande família das Citações, aqui se auto enquadram – pois você não acha justo que os carregadores de piano possam, dia qualquer, sentar-se na banqueta e arriscar uma sonata?

Academicamente, uma literatura que fale de si própria é sempre metaliteratura, daí o hibridismo de nosso título superlativo, Metamáximas.

Que este breve compilado alimente a fruição daqueles que, assim como eu, são amantes das citações.

O e-book está disponível na Amazon (AQUI) e na Google Play (AQUI).



sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Carne e alma preta na cidade: a poesia de Pedro Marcos Pereira Lima

 


O poeta paulistano Pedro Marcos Pereira Lima é graduado em Letras, e autor dos livros Casas com Asas, No Tempo da Poesia e Palavras Crianças no Jardim de Aula.

Em sua nova obra, Pisando na Grama, o autor reúne novos e antigos poemas de sua lavra pulsante.

Marcos é carne e alma preta na cidade, irmanando-se nas dores, palavra comprometida com a dor e a vida.

Fiel a seu ofício, o autor arranca versos da insipidez da pedra, do cinzento da cidade e suas nuances, do corriqueiro que navega o dia a dia. Melhor, versos empresta, atento ao que vai sob a superfície.

E, metaliteralizando ela, a sexta arte, obtém palavra pura, poesia em ares, libertação das cadeias.

Publicado pela Desconcertos Editora, o livro pode ser adquirido AQUI.

 

Com vocês, alguns versos de Pedro Marcos Pereira Lima.


NEGRURA

                  Ao Edson Cruz,

            pelo livro Negrura

 

negrura é

agrura né?

 

palavra aguda

na grade gruda

 

por um fio

de fio em fio

 

a tessitura

da escritura

 

vai sendo escrita

na voz que grita

 

livro encarnado

de negro retrato

 

na cor das cores

a face das dores

 

o corte da cor

na coroa da corte

 

saltando da fala

da negra senzala

 

voz expandida

além da língua

 

esboça a pintura

com toda tintura

 

da dura negrura

 

 

PERGUNTA

 

por que a cor do humano

é desacordo

para a convivência?

 

 

ARQUEOLOGIA

 

do fundo de um poço

desenterro um osso

esquecido há milênios —

puxando o soneto:

 

encontro um esqueleto

roído de devaneios

o pescoço envolto

num colar, por amuleto

 

da pirâmide geométrica

dos grandes grãos de pedra

o sol espraia sombras

 

de retintos faraós

que desde sempre tombam

extintos da memória

 

 *

 

esses

que levaram

nas costas

as pedras

degraus acima —

eram deuses?...

astronautas?...

 

escravos

eram esses

 

 

LAR

 

nesse tempo cotidiano

da cidade habitada

de abandono

 

o acolhimento

encontre um espaço

nesse cimento

 

na criança ou velho

de toda idade

pelos becos da cidade

 

onde pouse

um lugar de luz

resplandeça

 

acordem os sonâmbulos

a fé ouse

o amor apareça

 

 

DIÁLOGO MONÓLOGO

 

ruídos do silêncio

falam mais do que penso —

a mudez dispenso

 

palavras amam-se

mas cuidado —

palavras tramam

 

o que é essência

pode ser excrescência

esse som enviesado

 

***

 

mas, nenhum conflito:

a barriga da alma

abriga

o corpo do espírito



SONANTE

 

deixo que os sons

me apurem os ouvidos –

 cantos de galos

e bem-te-vis em acordes

 

que os sonhos

que te mordem

te acordem

 

aqui e ali arrumo

os enganos

nos quais tropeço

e meço os danos

 

alguém me dizia:

fantasia é ilusão

utopia é esperança

 

com razão:

a poesia

é uma

criança de rua

 

e dela fisgo a inspiração

e recolho

seus sonhos mendigos

 

e trago

para que escutem

suas vozes

em risos ruidosas


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Na morte em que fui Manoel Bandeira, poema de Sammis Reachers

 


Na morte em que fui Manoel Bandeira

 

Brincando de cabra-cega

Nas ruas de Tróia

Expus meu coração à intempérie:

 

Sakura solar, nênia de plástico,

Lótus anárquica

Encontrei-a e a perdi

Num (p)único mês

 

Que outro (re)curso contra aquele lábio,

Aquele olhar eluardiano?

 

Meu pétreo ódio pela poesia

Essa maldição dos tísicos

Ei-lo no pódio-coração litografado:

Tatuagem interna, Tebas de Anfíon,

Chuva de flechas, Heitor despedaçado.

 

Publicado originalmente na Revista Cujo #1.


sábado, 29 de outubro de 2022

Sobre a Derme de Agora - A poesia de Bernard Coutinho


Se aprochegue. Seja bem-vindo a uma poesia feita de mínimos, feita do que a poesia é feita: do imponderável que habita no instante, no detalhe. Desse imponderável arquitetural que erige a vida. De tal verve suave é a escrita de Bernard Coutinho, neste Sobre a Derme de Agora.

Poeta, músico, professor, Bernard coleciona insights e constrói, em seus versos, temporalidades próprias, luminosas. Em sua dança, leminskiana, gullariana, marginal, o poeta avança para além do alumbramento e não se furta ao cruel do dia a dia, à dor e a miséria que desconstroem o que é humano. Atento, desnuda a injustiça e irmana-se aos que sofrem seu peso.

O livro pode ser adquirido no site da Editora Haikai, AQUI.

Confira alguns poemas do livro:


Imperativos

 

Fale menos

Falhe baixo

 

sobre nada

em somatória

 

Vá direto

sem ter direito

 

Vá direito

em coisa errada

 

Faça ao vivo

Não grave nunca

 

Nunca é começo

da morte lenta

 

Vida arrebenta

cordas à faca

 

Acorde o corpo

é madrugada

 

Fermente o pico

do tempo vago

 

Dê argumento

ao vagabundo

 

De peito aberto

fechando tudo

 

tudificando

a palhaçada

 

tudificando

o picadeiro

 

sacaneando

o trapezista

 

alforriando

todo artista

 

dando calote

em pipoqueiro

 

oferecendo

ao trapezista

outra forma geométrica

de enxergar a vida

uma nova acrobacia

pra chamar de sua

uma nova lona

uma nova lua

 

Que o céu se arrebente

ao vê-lo de cima

 

Que o seu ponto de vista

seja o mundo inteiro



Inominável

 

na minha cabeça

habita um ruído

remédios, passes, porres

nada disso faz passar

não é dor,

é ruído

uma dor sem corpo

no corpo da gente

 

  

Dizeres

 

Há quem diga que dizer é coisa de desocupado

por isso, escrevo

 

Nem digo que o faço para não ter de me

desocupar à toa.

 

 

Tez

 

   Tentei

 tentar de

 tudo mas

toda vez que

           tento

                 tonto fico

 

Tratei de

    ter paz

trazendo comigo o

   tempo que vivia

              tentando

 

tanto faz se

    tanto fiz

 

                       Tentei

 

 

 

Renque

 

A cada par de passos dessa gente, nessa rua, os olhos da minha pele enxergam grupelhos em busca de dezenas de fins.

Os da direita gozam de direitos, mas no meio do bolo há um ou dois cumprindo ordens. Eles não sentem fome, mas vontade de comer. Fome é ofensa, quase metafísica. Querem comer vinte pãezinhos quentes e no ponto (nem muito moreno nem muito molinho). Eles querem, eles comem.

Os que cumprem ordens têm a missão de comer com os olhos, e bem rápido, porque Casa Grande não pode esperar.

Os da esquerda nem o cheiro sentem. Não é nojo, desfeita nem anosmia. É fome mesmo e não vontade de comer. Os daqui não fazem fila, preferem desfilar a ausência. Não têm pão, não há paz.

A paisagem escraviza a visão destes. Não podem fechar as cortinas, porque janela não há. Há paredes para uma janela ser parida, mas isso é coisa de poeta... 

No real (e na real), aquela estrutura não presta. Apertando os olhos com os passos, não pude deixar de reparar na fila da frente. Os que saem da padaria costumam engrossá-la. Vão ao 24h para garantir o riso do dia. Com senha e cartão, o coração se enche de graça, mas tudo é pago.

Os da esquerda sabem disso

Os da esquerda querem isso?

Eu, não.

Daria minha carne para ver aqueles desfilados

famintos de fome

Daria minha carne para vê-los fartos, comidos,

enfileirados

Trocaria pão por poesia

sem atravessá-los, sem trocá-los de lado.






domingo, 16 de outubro de 2022

A exposição dos sóis: A poesia de Julia Lemos



Em seu mais recente livro, a autora Julia Lemos convida o leitor a um café na aconchegante, atlântica e fluvial Recife, a de concreto e a de sentimento. Ainda mesmerizados pela noite e a cidade, arrojados somos numa ponte aérea (etérea?), e aportamos (poisamos?) em Portugal, lugar da morna solidão da poeta e das paisagens azuis e ancestrais. A seguir, transcendentes na transcendência, somos lançados de encontro ao Luminoso, numa sequência de poemas sacros, feridos de sequiosa suavidade. Ao fim, a poeta, fiel ao seu ofício, transcorre o elogio daqueles poetas outros que lhe inundaram o peito. 

Destes compartimentos é feito A exposição dos sóis (Penalux, 2017), magnífica obra em que o amor, flor de todas as estações, percorre seu périplo em versos intimistas, de maturidade e langor, e a poesia, lugar central dos criados à imagem do Verbo, recebe sua celebração.

Para aqueles que desejam adquirir o livro, podem entrar em contato com autora através de seu perfil de Facebook (AQUI).

Abaixo, selecionamos alguns poemas do livro.


MANGA DOCE ROSA

 

Cidade soturna, silenciosa

mas se você quiser há barris de tangerinas

folharais de acerolas ingás de veludo,

jambos vestidos do cetim mais rubro.

Ainda outros tricotados em feltro rosa - claro.

 

O sol viajando desde Singapura

projeta-se ardente

sobre lama e musgo.

 

Semimadames pouco vestidas

acima e abaixo da cintura

serpenteiam sobre

calçadas bordadas de miçangas.

 

De um guapo suco de manga

ouço os pregões como as únicas vozes

líricas possíveis;

 

Nas ruas bonitas da cidade

a vida parece abstrata, enferma e longa.

No centro velho do Recife, desde há séculos

a alegria torna a vida tão intensa quanto curta.

 

 

O OFÍCIO

 

Escrevo pelos que estando à frente da batalha

tiveram medo.

 

Carrego comigo a voz daqueles que se

viram impedidos.

 

Escrevo afinal pelos distraídos,

os ausentes, os perdidos.

 

Acredito que um poema se faça necessário

naquela tarde em que as certezas se esvaem todas

e pelas rimas pode-se ver a história por outro prisma.

 

Ordinariamente escrevo com alegria,

minhas palavras não murcham como as flores

diante da tristeza.

 

Escrevo sobrepondo outra página

num desfecho que parecia irreversível.



COMO O PROFETA

 

Fez-se tarde.

e provida estou

do ouro desse dia.

 

Há prata,

que a noite

pulverizou por toda a casa.

 

Espero as visões

que virão me despertar

nesta madrugada,

quando Deus começar

a falar comigo.

 

Nessa hora,

as ataduras da servidão serão desfeitas

e cavalgarei sobre os altos da terra

quando Ele começar a falar comigo.



PALAVRA

Amigos me perguntam

o que é ser poeta.

 

Digo que é fazer

a reportagem do mistério,

 

romper o silêncio

além da exterioridade do dia

 

- que passa, 

requerendo da pedra

a palavra.

 


Danço 

na chuva 

de bambolê

e sapatilhas de vidro.




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