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sábado, 2 de março de 2019

Na Espanha, uma Rede Iberoamericana de Poetas e Críticos Literários Cristãos nasce: TIBERÍADES

Nasce TIBERÍADES, Rede Iberoamericana de Poetas 
e Críticos Literários Cristãos



Tiberíades procura constituir-se numa plataforma para a troca de informações e recursos literários para todos os poetas e críticos literários do cristianismo protestante de ambos os lados do Atlântico, e das línguas irmãs espanhol e português. Tem uma orientação absolutamente interdenominacional, não vai estabelecer qualquer taxa para aqueles que desejam aderir à rede e tem como objetivo fazer compreender, pelo exemplo, sobre a necessidade de compartilhar, por todos os meios e redes disponíveis, as realizações e esforços criativos dos seus membros, muitas vezes não divulgados ou mesmo invisíveis pelo seu entorno imediato.
Para isso, contará com uma página na Web que agregará informações constantes, dos membros que o desejarem e dos meios de comunicação que façam eco às atividades e propostas de TIBERÍADES.
Entre esses recursos estarão:
O atraente PREMIO REY DAVID DE POESÍA BÍBLICA IBEROAMERICANA, organizado por Tiberíades, a Sociedade Bíblica de Espanha e, previsivelmente, a Fundação RZ para o Diálogo entre Fé e Cultura. As bases do mesmo serão publicadas em meados de março.
BOLETIM TIBERÍADES, Informativo incorporado na web onde os membros podem estar atualizados dos Prêmios recebidos, livros publicados pelos sócios, apresentações dos mesmos, ensaios publicados em outras mídias, etc. Eles também poderão publicar seus ensaios, resenhas e divulgações.
O anuário "PABLO EN EL AERÓPAGO - Anuario de Poesía y Crítica Literaria", a ser publicado em formato PDF para ser baixado livremente e que terá como seu tema os seguintes textos de Atos 17.28: "Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’". Aqui todos os membros poderão publicar seus trabalhos, se assim merecerem. Caso contrário, serão orientados para melhorar a qualidade do que é oferecido.
REUNIÃO IBERO-AMERICANA DE POETAS E CRÍTICOS LITERÁRIOS CRISTÃOS, a ser celebrada com periodicidade BIENAL na cidade espanhola de Salamanca.
Para fins de publicação de livros, se contará com o selo editorial TIBERÍADES EDICIONES, para livros digitais de download gratuito e livros impressos sob demanda. Desta forma, pretendemos ter alguma renda para pagar as despesas da página e pouco mais.
TIBERÍADES, que terá sua sede física em Salamanca, a cidade de seu diretor, Alfredo Pérez Alencart ( alencart@tiberiades.org) , é uma iniciativa sem fins lucrativos e aceitará como membros todos aqueles que o solicitarem.
Para formalizar a incorporação como membro, basta escrever um e-mail para: info@tiberiades.org, indicando sua vontade. Nenhum dado será solicitado aos membros, que serão convidados a visitar a web periodicamente e enviar poemas, artigos e ensaios para serem publicados na web.


TIBERÍADES

Rede Ibero-Americana de Poetas e Críticos Literários Cristãos 

Conselho Diretor

Alfredo Pérez Alencart (Peru-Espanha) - diretorMarcelo Gatica (Chile) - ViceJuan Carlos Martin Cobano (Espanha) - Secretário - GeralIsabel Pavón - Secretário do Rei David Prize para Iberoamericano Bíblia Poesia

Conselho Consultivo Espanha

Juan Antonio Monroy 
Samuel Escobar 
Stuart Park 
Beatriz Garrido 
Noa Alarcón 
Máximo García 
Manuel Corral 
Asun Quintana 
Pedro Tarquis 
Gabino Fernández 
Daniel Jándula 
Leopoldo López Samprón
Conselho Consultivo Ibero-Americano

Carlos Nejar (Brasil) 
Luis Rivera Pagan (Puerto Rico) 
José Brissos-Lino (Portugal) 
Plutarco Bonilla (Costa Rica) 
Leopoldo Cervantes Ortiz (México) 
Luis Cruz-Villalobos (Chile) 
George Reyes (Equador) 
Meriam Bendayan (Peru) 
Gerardo Oberman (Argentina) 
Balam Rodrigo (México) 
Sammis Reachers (Brasil) 
Sergio Inestrosa (El Salvador) 
Daylins Rufin Pardo (Cuba)

domingo, 5 de agosto de 2018

ÁRVORE Uma Antologia Poética - Livro gratuito


        


        O termo grego ανθολογία (antologia), significa “coleção ou ramalhete de flores”. Daí o latim florilegium. O termo florilégio encaixa-se bem ao presente trabalho, onde procurou-se coligir poemas sobre a árvore, esse centro e pilar da hera.
        E foi sorvendo de outas antologias, e ainda de livros individuais, revistas e websites, que coligimos aqui este singelo ramalhete de poemas sobre a árvore. Adicionamos ao volume uma pequena seleção de frases sobre o tema, e, em arremate, publicamos o texto integral (vertida sua grafia ao português hodierno) do poema A Destruição das Florestas, do múltiplo Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806 – 1879). O poema, que veio à luz em 1845, é um significativo e precoce exemplo de consciência ambiental em nossa literatura.
        Uma antologia temática é uma chance sempre de a poesia penetrar em espaços outros que não os estritamente circunscritos aos apreciadores de poesia. Como antologista, confesso que prefiro, por motivos óbvios, trabalhar com temas ainda não contemplados, os quais infelizmente são muitos em nossa língua. Já assim fizemos em trabalhos como Segunda Guerra Mundial – Uma Antologia Poética; Breve Antologia da Poesia Cristã Universal e Amor, Esperança e Fé – Uma Antologia de Citações, só para citar alguns trabalhos. Assim, qual a vantagem (ou vantagens) de debruçarmo-nos, agora, sobre uma outra antologia da árvore, já que nossa literatura possui obras neste viés? Acreditamos em algumas. A primeira, é de ordem da amplitude espaço-temporal: a coleta de um número significativo de textos, abarcando autores, se em sua maioria brasileiros ou lusos, também de outras literaturas do globo, e alguns deles de produção posterior às seletas precedentes; a segunda, por suprimento de lacuna, visto que os predecessores são livros esgotados já de há boas décadas; e, por fim, nossa motivação principal: a democratização do conhecimento proporcionada por um livro que já nasce eletrônico e gratuito, o que permite um acesso fácil, amplo e permanente ao seu conteúdo. Afinal, em tempos em que “Meio Ambiente” alcançou o status de tema transversal a perpassar o ensino de todas as disciplinas escolares, auxiliar educadores em seu esforço para incutir o reconhecimento e a valorização deste ser áulico e basilar da Natureza, a árvore, naqueles corações sob sua jurisdição, torna-se nosso objetivo mais urgente.
        Além do elogio da árvore, presta-se aqui uma homenagem a nossos poetas de agora e de ontem, e de certa forma um serviço à literatura lusófona, pois toda antologia literária é antes de tudo isso - um serviço prestado a uma literatura e ao universo de seus usuários.
        Este é um livro gratuito. Como amante das árvores e da literatura, como professor e como antologista, é um prazer ofertar este livro a todos, com votos de que ele possa ser compartilhado livremente, para que alcance os fins a que se propõe.
                               
Sammis Reachers

Para baixar o livro (224 págs., em formato PDF) pelo Google Drive, CLIQUE AQUI.


domingo, 1 de julho de 2018

Namore uma pessoa que lê


     Encontre uma pessoa que lê. Namore uma pessoa que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Namore uma pessoa que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido consigo. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a que se alegra (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma pessoa cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas. Ela lê enquanto espera em um Café na rua. Entenda que, se ela diz que compreendeu ‘Ulisses’ de James Joyce, é só para parecer inteligente.
     É fácil namorar uma pessoa que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Cummings, Pessoa, Quintana, Drummond... Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma.  Essas pessoas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As pessoas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem.
     Se você encontrar uma pessoa que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo. Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype. Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
     Namore uma pessoa que lê porque você merece. Merece uma pessoa que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma pessoa que lê.

Adaptação ao texto original de Rosemarie Urquico.

http://www.gilbertogodoy.com.br

terça-feira, 22 de maio de 2018

Sobre Poesia, texto de Vinícius de Moraes


SOBRE POESIA

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária. 

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução. 

Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. 

O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court. 

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída. 

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.


domingo, 24 de setembro de 2017

Propiciação à Topofilia - Sammis Reachers

Jurujuba, Niterói, 2011. Sammis Reachers

Propiciação à Topofilia

“... espaços proibidos a forças adversas, espaços amados.”
Bachelard

espaços abertos
desertos
verdes semi-verdes
pelo vento municiados:

paraísos do possível

Éden desfeito ressonando fragmentário
ruído de fundo à espera no espaço
de quem lhe vibre à frequência:
um herdeiro para lugarizá-lo 

domingo, 27 de agosto de 2017

A PROBABILIDADE DE SER POEMA



«Eν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.»


Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze. A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider ( 1776-1848) no que concerne à autoria do Evangelho. 
Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral 
( in “Probabilia”).

Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.

Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.

É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus 
Filosofias gnósticas do Século I.

Estruturalmente, ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.
No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Biblia - Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.

De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética, reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.

No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος) Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.

“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”. Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.

Contudo, quer este verso inicial quer todo o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.

Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.


A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”. A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo. 

© J.T.Parreira

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Palavras Crianças no Jardim de Aula, novo livro de Pedro Marcos Pereira Lima


O escritor e poeta Pedro Marcos Pereira Lima acaba de nos brindar com sua mais nova obra. Palavras Crianças no Jardim de Aula, uma publicação da Editora Scortecci (selo Pingo de Letra) reúne poemas de incentivo à leitura de interesse geral, mas focadas notadamente no público infantojuvenil.

"O gosto pela leitura pode surgir através da poesia, desta forma aumenta o interesse em escrever. A poesia mexe com o imaginário dos jovens, das crianças, e dos adultos que ainda carregam a infância dentro de si levando-nos a expressar vontades, descobrindo que se pode brincar com as palavras.
aqui
poesia quer
contar histórias
que são das palavras
que vão se contando

mas não é só a história
em si que conta
é o contar

que não se calcula na contagem
quando o "o" troca-se por "a"
e contar vira cantar
de fantasias e realidades..."


O livro possui 60 páginas e custa R$ 30,00.
Interessados em adquirir a obra, entrem em contato pelo e-mail: pemarc@ig.com.br

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

AS VINHAS DA IRA




Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016
© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[ Ficção Evangélica ] - O Pequeno Livro dos Mortos, livro de contos de Sammis Reachers


O Pequeno Livro dos Mortos (Contos). 
Editora Letras e Versos, 2015. 
96 Págs.

    Seja bem-vindo a esta pequena jornada, amigo leitor. Aqui o humor, o terror, o conto de espionagem, a ficção científica, a fantasia borgeana e a crônica (sub)urbana, com seu traçado agridoce e enlameado de poesia e violência, são os vagões, os gêneros desse comboio, desse trem de memória e invenção de que valho-me para visitar e emoldurar meus mortos. Ficção e realidade interpenetradas, perdição e redenção amalgamadas num caudal de cores de inusitada composição, para falar dos muitos mortos que perdi e ganhei, amigos e não-amigos, reais e imaginários, e suas mortes físicas mas algumas vezes também espirituais. Mortos que precisam de uma voz, prontos para revelar suas histórias de crueza e beleza, e de um como que encantado desencanto.
    
     Um passeio pelas horas da verdade: momentos de encontros com (ou retornos para) o Cristo, ressurreições, chamados cumpridos; mas também desencontros, desvios e desdita. E o trem tragicômico dos mortos e vivos avança: há provocações sutil ou escancaradamente acondicionadas em cada vagão, como passageiros clandestinos. Prontos para abraçar e inquietar, com seu amor ou seu aço, aqueles que se aproximarem...

      A morte é o fato inelutável, a certeza primeva de todo homem - e que por isso mesmo deve ser refletida e ruminada, jamais encoberta, ‘esquecida’ - uma premência filosófica que levou Heidegger, talvez o maior filósofo do século XX, a definir o homem fundamentalmente como ser-para-a-morte.

      Mas ao pensarmos na morte, precisamos atentar para seu caráter duplo, para o fato de que, se cremos na mensagem cristã, há duas mortes possíveis: uma carnal, inevitável neste aqui-e-agora que vivenciamos, e uma espiritual e eterna, representada pelo afastamento de Deus, afastamento este perfeitamente evitável. Cabe sempre lembrar das palavras de Deus em Deuteronômio 30:19: Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente...”. Sim, eis a boa-nova, a raiz e o fundamento do cristianismo: a todo homem está franqueada a esperança de não passar pela segunda e verdadeira morte, e galgar à eternidade re-unido com Deus, esperança radical advinda na pessoa e pelo sacrifício vicário do Homem-Deus de Nazaré, Jesus Cristo, expressa em João 11:25,26: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?”

      No mais, para além de religiosidades (Cristo é uma pessoa, nunca uma religião) e do tema algo lúgubre da morte, eis aqui apenas um livro de ficções, que expressa uma cosmovisão, sim, mas não tem objetivos proselitistas de qualquer monta: se ele puder entretê-lo, amigo leitor, ao lhe permitir devanear, sorrir ou assustar-se, se emocionar e solidarizar, ou talvez, ainda que por meros milímetros, expandir sua forma de perceber, terá cumprido seu humilde papel de livro.

O livro custa apenas R$ 20,00 , já com as despesas de envio (Correio) incluídas. Para saber como adquirir, escreva para:sammisreachers@ig.com.br

domingo, 29 de novembro de 2015

Retorno a Porto das Caixas


Retorno a Porto das Caixas

Sou um escritor,
Um escandalizado pela palavra
E eles querem que eu seja claro e fluídico
E lhes traga paz

Sou um escritor,
Um amputado de útero
E eles esperam que eu corra,
Corra para apontar-lhes o caminho

Sou um escritor,
Um pretenso mestre do entalhe a frio em papel
Que entalha as dúvidas antes que elas me empalem, crucifiquem
E eles, os fiéis da fome, esperam que eu lhes traga os pães frescos das respostas

Sou um escritor,
Um capturado-enquanto-fugia
Pelo frio lá fora
E eles, ternos,
Esperam que eu os aqueça

Os não-escandalizados, os não-mutilados, os que não duvidam:


Eles, os que escaparam do frio.

Sammis Rechers

domingo, 2 de agosto de 2015

AMPLITUDE, Revista Cristã de Literatura e Artes para download



AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas.
      Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/intelectual entre nossos irmãos.
Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf.
      AMPLITUDE, revista cristã de literatura e artes, nasce como um espaço inter ou não-denominacional aberto à criação daqueles que por tanto tempo foram silenciados pela visão oblíqua e deturpada do velho status quo que via nas expressões artísticas algo menor, indigno ou mesmo inútil ao cristão ou à igreja.  Um fórum para os que tem-se visto alienados de veículos de expressão, de formas de publicar/expor/comunicar, de interagir entre pares, e para além dos pares.
      Esta revista nasce com dois anos de atraso, desde a gestação da ideia de uma revista dedicada fundamentalmente à nossa literatura, em conversações com o poeta e escritor lusitano J.T.Parreira. Porém, projetos outros impediram naquele momento a concretização da ideia.
      Como a focalização de nossas lentes recai fundamentalmente sobre a ficção e a poesia, esta edição inaugural chega com força total: são oito contos. Na poesia, contamos com nomes consagrados como o próprio J.T.Parreira, Israel Belo de Azevedo, Joanyr de Oliveira, Gióia Júnior e outros, aliados a novos nomes de excelente produção.
      O anglicano George Herbert, uma das figuras centrais dos assim chamados poetas metafísicos ingleses, inaugura a seção Jardim dos Clássicos.
      Marcelo Bittencourt apresenta sua história em quadrinhos Pobre Maria, encantando com seu texto e sua arte.
      Na seção de entrevistas, iniciamos com Veronica Brendler, idealizadora do Festival Nacional de Cinema Cristão.
      As artes plásticas são contempladas na seção Galeria, que abre suas portas com a obra de Rafaela Senfft, que também comparece com o artigo A arte moderna e a cosmovisão cristã.
      E vamos aos contos: O saudoso Joanyr de Oliveira, verdadeiro patrono da (boa) literatura evangélica, faz-se presente com o conto A Catequese ou Feliz 1953, onde o autor revisita os porões da ditadura brasileira, inspirado em eventos autobiográficos. J.T.Parreira comparece relatando sobre as crises ontológicas de Pedro, em Os Pronomes; e ainda o fino humor de Judson Canto em Uma mensagem imprópria; um singelo conto de Rosa Jurandir Braz, Você aceita esta Flor?; Célia Costa com o brevíssimo O que poderia ter sido, sobre o que poderia ter sido naquele Jardim de possibilidades; Margarete Solange Moraes com o pungente Filhos da Pobreza; este humilde escriba comparece com um conto de ficção científica, Degelo, ambientado em futuro(s) distópico(s); e Hêzaro Viana, fechando a edição com um forte e terno conto, Por Amor, em 12 páginas de ótima prosa.
      Confira ainda as seções: Notas Culturais, com pequenos flashes sobre o que rola na cena cultural cristã (e fora dela); Hot Spots, abarcando a cada edição citações da obra de um grande autor; Parlatorium, com citações diversas de autores de ontem e de hoje; e Resenhas, abarcando livros, música, cinema et al.

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Caso não consiga realizar o download, solicite o envio por e-mail: sammisreachers@ig.com.br

sábado, 19 de abril de 2014

Substituição, um poema de Elizabeth Barrett Browning


Substituição

Se uma adorada voz, que fora em vossa vida
Suavidade e som, de repente se esvai,
E se logo um silêncio impenetrável cai,
Qual súbito mal-estar  ou dor desconhecida –

Que esperança há? Que auxílio? E que música, ouvida,
O silêncio destrói? Nem da amizade o ai –
Nem da razão subtil a conta; não se vai
Ao som de violino ou de flauta gemida;

Nem canções de poeta e nem, de rouxinóis,
A voz, que vai subindo através dos ciprestes
Até a clara lua; e medo lhe não causa

Das esferas, o canto – ou dos anjos, nos sóis,
A voz que sobe a Deus; ó não, nenhuma destas!
Fala só Tu, ó Cristo, e preenche esta pausa.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Segunda Guerra Mundial: Carta do pracinha Dirceu para a jovem Marília


XXXX, Itália, janeiro de 44

A noite, como a morte, é uma carta de trás para a frente, Marília, uma carta que não se entende até que amanheça.

Marília, hoje avançamos sobre o monte xxxx. Não adianta eu escrever nomes e datas, a censura suprimirá essas informações, que de mais a mais pouco importam a uma menina de 17 anos numa cidade tão bonita como Niterói.

Não sei se lhe escreverei mais cartas, se há um amanhã com meu nome na lista ao final da fila de ração. Então, perdoe-me pela estranheza e extensão destas linhas aqui transcritas. Foram escritas em dias espaçados, sob influências diversas – mas todas apenas dimensões, fragmentações de você.

E então eu agora abertamente digo que te amo, amiga. Amo-te mais que tudo em minha vida, os poemas, os sambas, o Bangu, meus cães e a filosofia. Amo-te desde o primeiro dia que lhe vi ao lado de Michaela, e eu que pensava amá-la, mas depois percebi que não, que nada, que tudo em minha vida e na história de meu coração era aio e ensaio até você. Pois o coração de toda a beleza que pulula no Universo-aqui, no espasmo-agora, é você, Marília.
Sei da galanteria que o Marco lhe faz; sei que seu pai, não tão secretamente quanto ele pensa, faz gosto de tê-lo como genro. E sei também que você se agrada. Agora ele está aí ao teu lado, pois pode ver-te todos os dias, e eu estou aqui na Velha Bota, na cega neve, na arruinada madona que o Duce deflagou. Nesta disputa, se disputa havia, já perdi; se eu morrer e eu vou morrer, morrerei para que você possa ser feliz. Morrerei para não suportar, além do próprio peso da vida, a impossibilidade de você.
Tinha sonhos contigo, sonhos de casamento e roça, três crianças de quem eu, em secreto, adivinhava já os traços das faces. Terminaria o curso de Filosofia e iria dar aulas em alguma cidade pacata do interior do estado. Madalena ou Campos dos Goytacazes, talvez. Hoje queimo estes sonhos no altar da Guerra.
Tenho um pedido apenas: se em algum dia de tua vida de luz, sentiste algum afeto por mim, para além de nossa firme amizade, lhe rogo que nomeie teu primeiro filho com o meu nome; deixa-me estar próximo à tua lembrança enquanto você viver, pois sei que de mim a Guerra tudo requisita, como uma noiva voraz que quer o seu prometido e todo o dote, e ela nada poupará em seu holocausto.
Sei que falo coisas tristes e confusas demais e adultas demais para teu coraçãozinho principesco, mas preciso comunicar a alguém esta minha calma angústia, e é a você que comunico, pois você é mais que a pessoa que amo, é o próprio Universo onde habito, minha deusa lar, particular.

Na última carta você referiu lembrar-se de minha expressão antes da Declaração de Guerra, da forma como eu, durante as lições que lhe dava em sua casa, segurava o mapa da Europa nas mãos e quedava absorto por minutos silenciosos, ‘como se eu soubesse’. Marília, a História é um pano roto onde uma bruxa de candomblé lança búzios, búzios que dão sempre o mesmo resultado. Desde a invasão da Rússia, eu já sabia que o Brasil ingressaria na Guerra, eu sabia que haveria uma convocatória. Eu já treinava disparos, eu já sabia para onde fugir de ti, eu já sabia onde finalmente encontrá-la para sempre.

Escrevo este trecho de xxx. Mas todas as cidades por onde passei, Nápoles e Modena e Livorno, chamam-se você, todas as cidades da terra e do sol nomeiam-se secretamente Marília.

Aqui abraço a morte como se abraçasse você, menina. Nomeio a imperatriz-meretriz Morte com teu nome epifânico, e ela ganha ternura e sonho, cresce em intimidade sem perder a realeza. Vida ou Morte, Destino ou Acaso, como um grande Brahman dos hindus, escolhi ter você em tudo e como tudo, e que tudo a seja, foi a forma que encontrei para não perdê-la.

Nesta neve de menos 2 graus, lembro-me de nosso passeio na praia de Icaraí, sob o poder do carro de Hórus, o Sol que existe apenas para lhe dar um pedestal, Marília... Minha amiga, minha irmã, naquele dia, quando paramos em frente à Pedra do Índio e imprudentemente segurei a tua mão, não foi senão por amor!, amor que requereu-me um resgate, resgate cujo objeto é esta guerra e talvez a minha vida. Seja; amei-te e amo-te, e o Fuhrer ou a ciumenta Morte não hão de abalar isto, macular este mármore; ainda que implodam todos os mármores e monumentos da Itália, ainda que despedacem o céu em meu encalço e desçam comigo ao Sheol.

Aqui combatemos com fuzis M1 Garand americanos. Paralisados em nosso avanço, numa missão que a censura não permite nomear, peguei minha faca e com sua lâmina virgem risquei na coronha de meu fuzil o seu nome. E passaram a ter mais paixão e alcance os meus disparos. E se algum dia este fuzil passar a outras mãos, aquele que o empunhar saberá que há uma Marília no mundo, e há ou houve alguém que a amou – e isso é um rascunho de eternidade. Mesmo que eu morra um fuzil chamado Marília combaterá para livrar o país de Marília, a cidade de Marília e o coração de Marília.

Enfurnado no fundo de uma trincheira não há muito em que pensar. Amanhã, quando for matar tedescos (na carta de dezembro já lhe expliquei que aqui, por influência dos italianos, nós chamamos os alemães de tedescos), penso se matarei algum descendente de Schopenhauer, Hegel ou Kant. E será estanho assassiná-los, como ainda me espanta ter que combatê-los. E penso em meus livros de filosofia alemã em francês, que fim terão se eu morrer. Mamãe os queimará ou deitará fora? Diga-lhe para vendê-los no alfarrábio do senhor turco.
Se você lesse em francês ou tivesse intenção de aprender a língua, por certo deixaria tudo para ti. Mas não lhe apraz o aprendizado de línguas estrangeiras, e bem faz: elas é que devem estropiar-se para compreendê-la, ó pequena luz de tudo.
Você é o meu portentoso deus, o objeto de eleição de minha fé, raio e circunferência da religião que criei; aquilo que arbitrariamente sacralizo, meu lancinante talho na aorta da Realidade – platônicanarquica faca tomando o lugar do cosmocorpo que ela mata; mas o estranho deus dos judeus, do qual você tanto fala na última carta, talvez seja o único que realmente exista.

Nunca voltarei. Seja feliz com o Marco.

Meu último poema. Se eu pudesse, enfeixá-lo-ia para compor um livro, com todos os demais poemas dos quais você é a musa. Mas você os tem: livro dentro de um livro. Pois ao fim e ao cabo, todo deus é uma biblioteca. Mas não quero confundi-la.
Como sempre, nada como seus amados Bilac e Oliveira, mas mais para os franceses de que lhe falei. 
Adeus.


Batalha para alcançar Marília (poema 32)

Tuas palavras caíam no chão ribombantes
como granadas de sândalo:
eu avançava nu como quem sonha

Teus olhos congelavam o entorno, deusa:
moscas, sonhos, oxigênio
tudo era teu
ó mínimo-coração-do-mundo

A metralha tedesca cantarolava
mas seus atiradores e balas eram sombras
apresadas e impotentes na caverna platônica

Pois tu(a) é a Guerra, Minerva:
Tua boca era a bandeira a capturar, Marília, Valkíria,
como a piscina de hidromel sita no coração de Valhala
samadhi nirvana aniquilação íris de cada um
dos mil olhos de Brahman


Sammis Reachers

Do livro Poemas da Guerra de Inverno, segunda edição 

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