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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

César Vallejo: Pedra Negra Sobre Uma Pedra Branca



Pedra Negra Sobre Uma Pedra Branca

Eu morrerei em Paris, com aguaceiro,
um dia que não sei, mas já recordo.
Morrerei em Paris, talvez – não fujo
numa quinta de outono, igual à de hoje.

Quinta-feira há de ser. Hoje, que proso
estes versos e mal me tenho os úmeros,
é quinta, e, como nunca, hoje voltei
com todo o meu caminho a me ver só
Morreu César Vallejo, o que apanhava
de todos sem que nada fizesse;
lhe davam duro com um pau e duro

com a corda também; são testemunhas
as quintas-feiras, os meus ossos úmeros,
a solidão,as chuvas e os caminhos.

Tradução de Thiago de Mello

in Poetas da América de Canto Castelhano (Global, 2011)

sábado, 24 de novembro de 2012

Eduardo Galeano, da Função do Leitor (César Vallejo)

Galeano

A função do leitor/ 2 

Era o meio centenário da morte de César Vallejo, e houve celebrações. 

Na Espanha, Júlio Vélez organizou conferências, seminários, edições e uma exposição que oferecia imagens do poeta, sua terra, seu tempo e sua gente. 

Mas naqueles dias Júlio Vélez conheceu Jose Manuel Castanon; e então a homenagem inteira ficou capenga. 

Jose Manuel Castanon tinha sido capitão na guerra espanhola. Lutando ao lado de Franco, tinha perdido a mão e ganho algumas medalhas. 

Certa noite, pouco depois da guerra, o capitão descobriu, por acaso, um livro proibido. Chegou perto, leu um verso, leu dois versos, e não pôde mais se soltar. O capitão Castanon, herói do exército vencedor, passou a noite toda em claro, grudado no livro, lendo e relendo César Vallejo, poeta dos vencidos. E ao amanhecer daquela noite, renunciou ao exército e se negou a receber qualquer peseta do governo de Franco. 

Depois, foi preso; e partiu para o exílio.

Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços
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