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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

200 Citações sobre a Paz - Baixe o e-book gratuito


Vivemos em tempos de crescente agitação. A informação, surgindo de todos os lados, ganha ares de avalanche. A violência, seja urbana ou rural, física, simbólica ou virtual, toma os espaços e espalha tristeza e medo, quando não terror.
Neste cenário de acelerada e intensificada agitação e violência, onde encontrar a paz? Sobre que bases e com que ferramentas construí-la?
Neste breve livro, reunimos algumas percepções e pensamentos sobre a Paz, oriundas de pensadores, estadistas, escritores os mais diversos no tempo e no espaço.
O texto que encerra essa seleta demonstra como a paz que almejamos está ao alcance daquele que a busca, e pode, uma vez conquistada, ser irradiada para os outros.
Tenha uma boa leitura!

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

O tempo é a imagem de algo...

Aión, um dos deuses do tempo
Fábio Ribas

“Quando fores me visitar, eu já terei viajado”. Estou me dirigindo num discurso no tempo presente a alguém, que, eu sei, no futuro, irá visitar-me. Contudo, ao visitar-me naquele futuro, este tempo será lá, então, um tempo presente e guardará também em si um tempo passado, que será o fato da minha ausência agora anunciada, do nosso desencontro num momento ainda por vir: um passado que, assim como o futuro, ainda não ocorreu e quem sabe se ocorrerá ou não?

  Outras nuances entre o tempo e a linguagem, entre o tempo e a língua portuguesa, especificamente, são as riquezas, que a educação moderna sonega aos nossos alunos, dos pretéritos mais que perfeitos, do futuro do pretérito e do pretérito do subjuntivo. Um pretérito mais que perfeito que nos revela que todo passado pode ocultar um tempo ainda mais anterior (ou interior). Um futuro do passado que pode expressar essa frustração humana diante de um tempo que jamais se realizará. E, enfim, um tempo em que o passado é um desejo que aponta para um futuro incerto. Tudo isso reflete o texto de Gênesis 1: 28, que é o mandato recebido por Deus para que dominássemos sobre toda a natureza. E o tempo faz parte da natureza criada. E o homem luta contra o tempo para dominá-lo por meio da linguagem também. Assim como Deus ordenou o caos pelo poder da sua Palavra, a criatura humana reflete esse mesmo modelo. O tempo deve ser dominado pela palavra humana. É possível?

Poderíamos criar uma geração de filósofos e teólogos se existissem mais professores verdadeiramente preparados na arte da Filosofia da Gramática. Outros casos que me ocorrem é o do famigerado gerundismo que parece tentar esticar ad infinitum o tempo presente, para que o futuro nunca chegue na maioria dos departamentos públicos. O que demonstra também que professores bem treinados poderiam usar do ensino da gramática para explorar as doenças mais profundas da falta de caráter da depravada alma brasileira expressa pela língua e propor tratamento pelo uso saudável da correta locução verbal em tempo não esquivo. 

E se quisermos ampliar esse rol de divertimentos linguísticos veremos que tempo e espaço acabam sendo moldados pela cosmovisão e a língua revela/domina essa realidade para nós. É o que ocorre com as palavras “machar” e “temol”, que, em hebraico, respectivamente, significam “futuro” e “passado”. O lúdico linguístico, porém, está no fato de que “machar” significa também “atrás” e “temol”, por sua vez, significa “à frente”. Portanto, o futuro está “atrás” e o passado “à frente”, porque o passado está claro diante dos nossos olhos, mas o futuro oculta-se em algum lugar ou de alguma maneira, atrás de algo que nos impede de discerni-lo. Ainda na língua hebraica, quem não se lembra da repetição do sábado e do ano do jubileu? O tempo é cíclico. O tempo está sempre retornando (diferente da nossa cosmovisão de tempo linear). É o “shanah” hebraico. Mas é uma repetição singular, única, jamais igual ao que já houvera, um “eterno retorno do irrepetível”. Quem sabe não seria por uma característica como essa que Mircea Eliade afirmou existirem línguas em que o tempo futuro não existe? 

De qualquer maneira, o tempo e a sua relação com a linguagem não poderia escapar dos estudos da nossa Bibliotheca, uma vez que, para Platão (em o Timeu), o tempo é a imagem móvel da eternidade. Nesta definição platônica, três palavras precisam de uma atenção especial: “tempo”, “imagem” e “eternidade”. Pois, se como vimos no artigo “O mundo é a imagem de algo”, aqui também Platão nos surpreende com o tempo sendo uma imagem de algo, a saber, da eternidade. Contudo, nada pode ser tão rapidamente apresentado, pois que os conceitos originais estão em grego e as palavras nos revelarão segredos: O tempo (crónos) é a imagem (mímesis) da eternidade (aión). É preciso tempo para fazer como Krónos, devorando nossos filhos, as palavras, até que elas façam parte de nós e, depois de serem vomitadas, possam herdar a vida eterna. 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Luiz Felipe Pondé - Meu irmão Kierkegaard


QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.

Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer.

Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.

Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.


Luiz Felipe Pondé
Folha de S.Paulo, Ilustrada, 13 de junho de 2011

terça-feira, 18 de novembro de 2014

MIGALHAS FILOSÓFICAS PARA LIBERTAÇÃO


MIGALHAS FILOSÓFICAS PARA LIBERTAÇÃO[1]

                                                                                                                                                        
por  Júnior Fernandes[2]
                           

Se este mundo fosse isento de miséria e de dor, tornar-se-iam [os homens] a presa do tédio, e na medida que pudessem fugir a este mal, recairiam nas misérias, nos tormentos, nos sofrimentos.
Shopenhauer, Dores do mundo [3]



                Poderão alguns pensar pelo título desse fragmento que estarei a discorrer sobre uma peça de autoajuda ou que essas migalhas são pílulas panaceicas para anestesiar a dor do homem jogado e perdido no abismo do vazio do mundo. Não é este o caso. Queremos, apenas, tão-somente, apreciar algumas das belas passagens e exemplos que a filosofia nos dá como consolação para o homem melancólico dos tempos hodiernos, preocupado mais com suas vantagens e o instante de sua satisfação pessoal.

            Comecemos, então, por um fato ocorrido com o filósofo Zenão de Cicio (335-264 a.C.). Narra-nos Diógenes Laécio em Vida, Doutrinas e Sentenças dos Filósofos Ilustres que, quando foi a Zenão anunciado o naufrágio no qual tudo que possuía fora tragado pelo mar, teria dito: “a fortuna quer que eu filosofe sem nenhum embaraço”. A história da Filosofia dá-nos conta que Zenão depois do incidente e agora pobre, fundou o Estoicismo (gr.: Stoa), corrente filosófica que tinha como fórmula “suporta e renuncia” (sustine et abstine).  De igual modo, consola-te, pois, com o que não pode ser mudado, nem modificado.

            Outro personagem que nos traz uma consolação é Diógenes de Sinope (413-323 a.C.), o Cínico; este viveu uma vida de disciplina e aversão aos prazeres mundanos. Em seu tempo foi um zombador social; viveu isolado e resignadamente sem casa e dinheiro, portanto pobre e sem teto. Seus bens mais valiosos eram o tonel onde morava, um alforje e sua lanterna, usada para “procurar um homem no mundo”.  Sabe-se que quando Alexandre, o grande, ao se encontrar com Diógenes na ocasião de seu banho de sol, teria dito o imperador ao filósofo: “Não sabes quem sou?” Ao ser ignorado, Alexandre emendou: “Sou Alexandre, o grande. Pede-me, agora, o que queres”.  Diógenes respondeu: “Devolva o meu sol”. Por fim murmurou o imperador: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”. Assim – qual Diógenes – consola-te, pois, com o teu sol.

            Pode o leitor, precipitadamente, depois de ter lido até aqui, formular a conclusão de que queremos induzi-lo a apegar-se a um modus vivendi asceta ou estóico. Não é este o fim que nos move. Seria de nossa parte impossível esta pretensão. Esta impossibilidade é confirmada, com efeito, nos indícios do mundo em que vivemos, cada vez mais utilitarista e, conseqüentemente,  consumista.

            Em vista disso, acertadamente, Aldous Huxley, bem traduziu – já em sua época – esta indisposição do homem para com valores perenes ao perceber sua preocupação apenas com o imediato, por isso bem descreveu as aspirações deste homem moderno: “Dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões sobre liberdade e responsabilidade”[4]. Dessa maneira, Huxley sintetiza e anuncia como seria o admirável mundo novo, no qual o homem é vítima de seus próprios desejos. Diante disso, consola-te, pois, com os valores imateriais e perenes.
           
            A busca incontrolável pela diversão a qualquer preço, isto é, pelos prazeres sensuais, encaminham o ser humano a viver esteticamente, como um arquétipo de Don Juan desses novos tempos.

            Assim, nesse viver mergulhado apenas nas questões que lhe oferecem prazer, o homem vive, conforme Kierkegaard, o instante. Vale, tão-somente, o estágio estético da existência, que o move incessantemente na busca do prazer pelo prazer. Depois, quando tudo se esvai e, portanto, acaba, ei-lo então depressivo, melancólico e vazio. Surge aí o desespero,  pois o instante é fugaz e quando se vai deixa apenas um buraco e estrago no ser do homem. “Deserto e vazio. Deserto e vazio. E as trevas à beira do abismo”[5]; assim, com palavras do poeta T. S Eliot, assinalamos este momento. Consola-te, pois, com aquilo que não te consuma e nem leve ao desespero.
           
            Continuemos. Com Sócrates – o filósofo das ruas – surge a recomendação para o ato de refletir, isto é, filosofar. Diz ele: “uma vida sem reflexão não merece ser vivida”. Da mesma maneira, Sêneca (4 a.C.? – 65 d. C.), endossa a importância do ato reflexivo: “Vou dizer-te, então, o que me reconfortou; mas antes quero dizer-te que essas coisas em que encontro alento tiveram para mim a eficácia de um remédio; os bons auxílios transformaram-se em remédios, e qualquer coisa que eleve a alma aproveita também ao corpo. Os estudos foram minha salvação, devo agradecer à filosofia se consegui me levantar da cama, se me curei: a ela devo a vida, mesmo que essa seja a menor dívida que tenho com ela”[6].  Qual Sêneca e Sócrates, consola-te,  pois, com o pensar e o refletir sobre as coisas.

            Bem verdade é que o ser humano, consumido pela velocidade da vida e o progresso desenfreado, não tem tempo para refletir sobre a vida, isto é, pensar filosoficamente. Virou ele prisioneiro da própria teia que teceu, assim como o personagem principal de 1984, de George Orwell, o homem contemporâneo (ou pós-moderno) está sendo (ou foi) reduzido “a uma mera larva de homem, que vive uma vida desprovida de qualquer sentido”[7]. Sua existência limita-se à busca pelo sucesso e a vencer o outro. Se isto é verdade, devemos compará-lo a Sísifo, “condenado pelos deuses a carregar, nos Infernos, uma rocha para o alto de uma montanha, sem que esse trabalho jamais termine, porque, ao chegar ao topo, a rocha cai de suas mãos e volta a cair no vale”[8]. Como o personagem de Camus, o homem parece condenado a realizar um trabalho infernal, onde a busca pelo topo e primeiro lugar do podium tiram-lhe a liberdade e a felicidade. Consola-te, pois, em ser feliz e livre, mesmo que não tenha chegado ao cume do sucesso.

            Mas e a felicidade? Ah, a felicidade! Todos querem tê-la como fiel companheira. Mas isso não é possível. A condição humana indica que ser feliz é algo que depende de como estamos e sentimos em determinado momento. Assim, se somos, por exemplo, pegos de surpresa com a notícia da morte de alguém que amamos, mesmo vivenciando um grande momento de alegria, tudo muda. E ainda, se não somos capazes de se contentarmos com o que possuímos, somos infelizes por não possuir o desejado, e isso pode gerar até um sentimento de inveja. A respeito disso, vejamos como Madame du Chatelet tratou desse problema: “Um dos grandes segredos da felicidade consiste em moderar nossos desejos e amar as coisas que possuímos. [...] só somos felizes com desejos satisfeitos; portanto, só devemos permitir-nos desejar as coisas que pudermos obter sem excesso de cuidados e trabalhos, e este é um ponto sobre o qual muito podemos para nossa felicidade. Amar o que possuímos, saber desfrutá-lo, saborear as vantagens de nossa situação, não deter demasiado os olhos naqueles que nos parecem mais felizes [...] é a isso que devemos chamar de felicidade [...] Para desfrutá-la, é preciso curar ou prevenir uma doença de outro tipo, que se opõe totalmente a ela e que é muito comum: a inquietação”[9]. Assim, consola-te, pois, a manter o espírito sereno, livre das inquietações e perturbações da coisa desejada.

            Contentar-se com aquilo que está dentro de nossas possibilidades – eis o segredo do ser feliz. Entretanto o que se vê, nesses tempos de corrida incessante contra a morte, é a criação de uma felicidade superficial, forjada nas academias, nas vitrines dos shopping centers, nas cirurgias plásticas etc. A velhice é um fantasma de que todos têm medo. Por isso, ninguém mais quer envelhecer, pois isso significa marcar encontro com a morte. Assim, a busca ilimitada pelo bem-estar material aflige o homem de hoje.

            A felicidade artificial, portanto, substitui dia após dia a felicidade espiritual. E por que isso aconteceu? Segundo Giovanni Reale, isso “aconteceu porque a abundância dos bens materiais, em vez de preencher o homem, o esvaziou. Minou e, portanto, comprometeu sua consistência e densidade moral.”[10]

            Nesse sentido Platão, em Apologia de Sócrates, registra a receita de felicidade prescrita por seu mestre: “Estou tentando apenas convencer-vos, aos mais jovens e mais velhos, de que não deveis preocupar-vos com os corpos, com as riquezas ou com alguma outra coisa antes de vos preocupardes primeiramente com a alma, de forma que se torne o melhor possível,  afirmando que a virtude não nasce das riquezas, mas da própria virtude vêm, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto privados como públicos”[11]. As palavras do filósofo não estão insinuando que devamos ser descuidados com o nosso corpo, o teor delas tem conotação de que a matéria não deve prevalecer sobre o espírito.

            Por fim, resta-nos ainda falar sobre como devemos nos consolar diante do inevitável – a morte. Imagine, se fôssemos imortais; alguns iriam dizer que essa vida seria um tédio, outros iriam se achar deuses, outros tentariam inventar o suicídio etc. O certo é que iremos todos morrer: amanhã, ou depois de amanhã, ou quem sabe hoje. A respeito disso, é digno de registro este célebre fragmento de Schopenhauer: “[...] somos escravos do querer viver, que torna em nós a aparência ilusória de uma vontade individual. Lutamos selvagemente uns contra os outros para conquistar riquezas e honras que a morte logo nos arrancará. Somos escravos do desejo, deste desejo que é sempre sofrimento – sofrimento da necessidade enquanto não satisfeita, sofrimento do tédio quando podemos obter tudo o que desejamos. ‘A vida oscila, como um pêndulo, do sofrimento ao tédio’. Por outro lado a necessidade, a necessidade não cessa de renascer das cinzas e ‘a satisfação que o mundo pode dar aos nossos desejos assemelha-se à esmola hoje dada ao mendigo e que o faz viver o bastante para estar faminto amanhã”.

            Também, conhecedores da finitude humana, os imperadores romanos colocavam escravos nas bigas dos generais que triunfavam nas batalhas para recitarem a seguinte frase: memento mortale est – lembra-te que és mortal; era o antídoto da arrogância e orgulho. Noutras palavras poder-se-ia dizer como Salomão: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas – vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Ou como disse Schopenhauer: “Quão longa é noite do tempo sem limites comparada com o curto sonho da vida!”[12].
           
            Por fim, consola-te, pois ela há de vir. Sobre isso Montaigne diz que “não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu a servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento”[13].  Consola-te, pois...
  
BIBILIOGRAFIA

MORRA, Gianfranco. Filosofia para todos. Trad. Mário Pagotto Marsola. São Paulo: Paulus, 2001.
REALE, Giovanni. O Saber dos antigos – terapia para os tempos atuais. Trad. Silvana Cobucci Leite. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

SANTANA, Edilson. Filosofar é preciso. São Paulo: DPL editora, 2007.

SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo. Ediouro – (Coleção Universidade)


[1] Publicado na edição nº 20 da revista impressa e no portal de Filosofia Conhecimento Prático.
[2] Graduado em filosofia. Advogado. Prof. de filosofia na rede pública de ensino do DF. Autor dos livros O Sofrimento dos Filósofos e Trevas Trovões Trovas: escritos de uma noite escura (este, não publicado). Para citar o autor, use a referência: PIRES JR. J. Fernandes. Migalhas filosóficas para libertação. Disponível em: (referência ao sitio...). Acesso em: (data do acesso).
[3]  SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo, p. 127
[4]  Apud. REALE, Giovanni. O Saber dos antigos – terapia para os tempos atuais, p. 12
[5]  Apud REALE, Giovanni. Ibidem, p. 7
[6]  Apud, Idem, Ibidem, p. 16
[7]  Idem, p. 9 
[8]  REALE, Giovanni, Op. cit. p. 163
[9]  Apud SANTANA, Edilson. Filosofar é preciso, (epígrafes)
[10]  Op. cit, p. 94 
[11] Apud REALE, Giovanni. Ibidem, p. 7
[12] Dores do mundo, p. 128
[13] Apud MORRA, Gianfranco. Filosofia para todos, p. 81

sábado, 16 de março de 2013

Eric Voegelin e o Cristianismo


Paulo Cruz 





 O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido, que se tornou o Deus Conhecido por sua presença em Cristo; eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade. (Eric Voegelin)
Este artigo visa a apresentar um pequeno panorama das relações fundamentais entre a filosofia de Eric Voegelin e o cristianismo.

Perfil biográfico
Erich Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 03 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia (EUA), em 19 de janeiro de 1985. Douturou-se na Universidade de Viena em 1922 (foi aluno de Othmar Spann e Hans Kelsen; este último, jurista e redator da constituição de Viena; o primeiro, cientista social), e lá mesmo tornou-se professor associado de Ciência Política, na Faculdade de Direito, em 1929. Em 1938 foi demitido pelo governo nazista, por sua frontal oposição ao regime nacional-socialista e a Hitler. Suas quatro obras publicadas entre 1933 e 1938, onde, dentre outras coisas, denuncia a total falácia do conceito de raças[1], colocaram a Gestapoem seu encalço.
Foge para Suíça com sua esposa, Lissy Voegelin (1906 – 1996), e, de lá, para os Estados Unidos. Passa um ano lecionando no departamento de Ciência Política em Harvard e depois na Universidade do Alabama.
Em 1942, ingressa no corpo docente da Universidade Estadual da Louisiana, permanecendo até 1958, quando recebeu o convite para retornar à Alemanha e fundar o Instituto de Ciência Política da Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, ocupando a cadeira que um dia fora de Max Weber.
Em 1969 retorna definitivamente para os EUA, para o Instituto Hoover para o Estudo da Guerra, Revolução e Paz da Universidade de Stanford, lá permanecendo até sua morte, em 1985.

História e Realidade
Eric Voegelin afirma que o objetivo de sua obra é o que chamou de Filosofia da História, e tem suas origens na situação política que viveu [2]. Uma de suas principais reflexões dá-se no campo da linguagem. Afirma que, por influência das ideologias, a linguagem perverteu-se de tal forma, que é impossível ser usada para expressar a verdade da existência. Sendo assim, é necessário que o filósofo rompa com o círculo intelectual ideológico dominante e saia em busca de recuperar o sentido da realidade; e a melhor maneira de efetivar a retomada deste sentido é o contato com os pensadores do passado que ainda não o tinham perdido, ou que estavam preocupados em recuperá-lo. Tal façanha exige um trabalho árduo, de reconstrução das categorias fundamentais da existência, da experiência, da consciência e da realidade [3].
Segundo Voegelin, dentre as supressões da realidade operadas pelas ideologias – com o intuito de erigir falsos sistemas –, um item sempre excluído é a “experiência de tensão do homem em direção ao plano divino de sua existência” [4], e afirma que este comportamento é denunciado desde a filosofia antiga [5].

Ordem e História
Os volumes de “Ordem e História”, publicados pela Ed. Loyola
Ordem[6] é um termo recorrente na obra de Voegelin. Para ele, as experiências de ordem e desordem remontam ao mundo pré-histórico, e utiliza o termo alienação (αλλοτρίωσις), criado pelos estóicos – um estado de retirada do próprioeu [7] –, para retratar a desordem de nosso tempo. Se existir filosoficamente é ter consciência da humanidade do homem, a alienação é um afastamento dessa consciência.
Ordem e História é seu magnum opus, em cinco volumes, escrito com a finalidade de estudar os símbolos das experiências históricas do ser humano, desde o mundo antigo até a atualidade, e buscar a restauração da ordem da existência. O volume I trata das experiências de revelação no Oriente Próximo – do salto no ser dos antigos hebreus –, e do período dos profetas. Os volumes II e III tratam do período helenístico, e o volume III é dedicado, exclusivamente, a Platão e Aristóteles. Nos volumes IV e V, Voegelin rompe com o projeto
Em “Anamnese”, publicado pela É Realizações, encontramos o desenvolvimento da Filosofia da Consciência de Voegelin.
original e procura construir uma Filosofia da Consciência (e não mais uma Filosofia da História), pois passa a acreditar que o problema da ordem é um problema da consciência. No volume IV há uma interessante exegese cristã, a partir da análise da teologia do apóstolo Paulo.

Voegelin e o Cristianismo
O ponto culminante da pesquisa de Voegelin é sua exegese do cristianismo. Retomando a tradição filosófica desde Platão e Aristóteles, passando por teólogos patrísticos como Clemente de Alexandria e Irineu de Lião; visitando a escolástica de Tomás de Aquino até aportar na exegese histórico-crítica dos teólogos protestantes alemães, Voegelin afirma que o advento de Cristo é a realização dos mitos, das filosofias e das religiões antigas [8].
Na década de 1970, Voegelin proferiu uma palestra denominada Evangelho e Cultura, onde expõe suas ideias a respeito do tema de maneira singular. Inicia afirmando que se a “comunidade do evangelho (a εκκλησία του θεου) não se tivesse penetrado na cultura do tempo ao entrar em sua ‘vida da razão’, teria permanecido uma seita obscura e provavelmente desapareceria da história”[9]. Analisando, então, o que chama de realidade interina [10] – a μεταξύ de Platão –, afirma que a existência não é um fato, mas sim movimento perturbante da realidade interina em direção ao fundamento divino do ser.
Numa passagem magistral, Voegelin fala do momento preciso onde a filosofia grega e o Evangelho se encontraram na história, onde houve a canalização do processo de busca pelo fundamento divino do ser: é na passagem do evangelho de João, capítulo 12, quando um grupo de gregos se aproxima dos apóstolos Filipe e André (nomes gregos!) com o desejo de ver Jesus, ao que Jesus responde que esta é a hora do Filho do Homem ser glorificado [11]. Noutra passagem descreve (de maneira poética) o processo de tensão paradoxal entre o deus mítico da filosofia grega e o Deus cristão [12].
Por fim, Voegelin critica os danos que os caminhos que a própria teologia cristã e seu dogmatismo causaram a essa visão do movimento de busca e de interinidade das realidades humanas, dizendo que, quando a teologia viu narevelação algo pretensa e completamente novo, negligenciou (e contestou) a experiência do homem antigo [13], e que era preciso, como Tomás de Aquino, restabelecer a perspectiva de que o Cristo não é só o Cabeça da Igreja, mas sim, de toda humanidade.
Fazendo ligações e correlações entre a filosofia grega e a mensagem cristã, e afirmando categoricamente não só essa ligação, mas o cumprimento de uma pela outra, é que Voegelin pretende nos mostrar que, tendo o mesmo cerne noético do evangelho, a filosofia deve intervir nas experiências de teofania, a fim de entender e resgatar a realidade da existência em direção ao fundamento do ser.

Ainda há algo a considerar: Voegelin foi muito criticado por alguns contemporâneos seus, pelo fato de não ter manifestado, em nenhum momento, sua fé cristã. Muito pelo contrário, sua exegese ignora alguns dogmas cristãos tradicionais – como a ressurreição de Cristo, a parusia –, bem como o sentido de salvação, fundamental e imprescindível na teologia cristã. Porém, temos de compreender que a intenção de Voegelin não era dogmática; ele não pretendia criar uma doutrina cristã, mas, simplesmente, enquadrar sua análise do cristianismo no contexto de sua filosofia da ordem; e, de fato, para ele, o cristianismo é a culminância do processo de diferenciação[14] da revelação da realidade em direção ao Fundamento. No entanto, acusa a doutrina cristã de ter-se distanciado do drama histórico da revelação, descarrilando no gnosticismo[15], dando origem a ideologias revolucionárias – inclusive dentro do próprio seio do cristianismo.
O debate acerca dessas questões não está encerrado, e, também, o próprio Voegelin nunca se pretendeu unânime. Mas não podemos negar que estamos diante de um grande filósofo, e suas análises – bem como as de outros pensadores ao longo da História (alguns citados neste artigo) – das patologias existenciais de nosso tempo, nos fornecem elementos suficientes para que busquemos um caminho para a restauração da ordem do homem e da sociedade.
Paulo Cruz

Notas:
[1] O movimento nacional-socialista estava em franca ascensão, e, embora ainda não fosse possível antever sua chegada ao poder, o debate sobre as raças, o problema dos judeus e outras questões afins estavam muito presentes. O material se oferecia naturalmente à análise, e daí surgiram meus dois volumes sobre a questão da raça. A esse volumes incorporei também conhecimentos recém-adquiridos, e agora aprimorados, de teoria biológica. (VOEGELIN, Eric. 2008, p. 69, 70).
[2] “As motivações de minha obra, que culmina em uma filosofia da história, são simples. Elas têm origem na situação política. Qualquer pessoa bem informada e inteligente que, como eu, tenha testemunhado a história do século XX desde o fim da Primeira Guerra Mundial, se vê cercada, e mesmo asfixiada, pela maré montante da linguagem ideológica. (…) Por ser impossível reconhecer como debatedores os que se valem da um linguagem ideológica, é preciso torná-los objeto de investigação.” (Ibid., p. 139)
[3] Ibid., p. 143
[4] Ibid., p. 146
[5] “Renunciar ao plano divino significa recusar-se a reconhecer que sua existência é constitutiva da realidade do homem. Essa renúncia deliberada à experiência fundamental da realidade foi diagnosticada pelos estóicos como uma doença do espírito”. (Ibid., p. 148)
[6] “Ordem é a estrutura da realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e uma ordem não fabricada por ele; isto é, a ordem cósmica.” (Ibid., p. 117)
[7] “Na psicopatologia estóica, allotriosis é um estado de retirada do próprioeu, o qual se constitui pela tensão entre o homem e o plano divino da existência. Uma vez que, tanto na filosofia clássica quanto na estóica, o plano divino da existência é o logos, ou fonte de ordem neste mundo, a retirada doeu, constituído por essa força ordenadora, é um recuo da razão na existência”. (Ibid., p. 118)
[8] “O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido que se tornou o Deus Conhecido pela sua presença em Cristo, eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade”. (HENRIQUES, Mendo Castro. 2010, p. 180)
[9] VOEGELIN, Eric. 1988.
[10] “Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché).  A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta.  Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta”. (Ibid., 1988).
[11] “Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa.
Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus.
Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus.
E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (Jo 12: 20-23)
[12] “O Deus que brinca com o homem como um fantoche não é o Deus que se torna homem para salvar a vida, sofrendo a morte. O que gerou a narrativa salvífica da encarnação, morte e ressurreição divinas em resposta à questão da vida e da morte, é consideravelmente mais complexo do que a filosofia clássica; é mais rico devido ao fervor missionário do seu universalismo espiritual; é mais pobre pela sua negligência do controle noético; é mais amplo pelo seu apelo à humanidade inarticulada no homem comum, mais restrito devido à tendência contra a sabedoria articulada dos sábios; mais imponente através do seu tom imperial de autoridade divina; mais desequilibrado devido à sua ferocidade apocalíptica que conduz ao conflito com as condições da existência humana em sociedade; mais compacto devido à sua generosa absorção de extratos anteriores de imaginação mítica, especialmente devido à recepção da historiogênese israelita e à exuberância dos milagres operados; mais diferenciado através da experiência intensamente articulada da ação amoroso-divina na iluminação da existência pela verdade.” (Op. Cit., 1988)
[13] “Uma vez que a revelação (a diferenciação da consciência pneumática) tinha de ser algo completamente novo, que marcasse uma nova época na história, a presença, de forma compactada, do estrato pneumático no pensamento do homem primitivo foi negligenciada e mesmo contestada”. (Op. Cit. 2008, p. 160, 161)
[14] DIFERENCIAÇÃO: Processo pelo qual a verdade da existência é compreendida e articulada de um modo mais completo e profundo. Platão, por exemplo, diferencia a realidade transcendente como uma presença na alma denotada por termos como “noûs” e “helkein”. A compreensão mais compacta de transcendência nas sociedades cosmológicas compreendia o universal como um poder no cosmos. (FEDERICI, Michael P. 2011, p. 194)
[15] GNOSTICISMO: Ideologia que afirma o conhecimento absoluto da realidade. Segundo Voegelin, caracteriza o mundo moderno. É engendrado pela insatisfação com a estrutura da existência como ela é, pela crença de que uma nova ordem pode ser criada pela execução de um plano revolucionário de ação, baseado na gnose. A nova ordem representa uma transformação da natureza humana e da própria estrutura da existência. (Ibid., pp. 199, 200).
__________________________________________________________
Bibliografia:
FEDERICI, Michael P. Eric Voegelin – A restauração da ordem. São Paulo: É Realizações, 2011. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
HENRIQUES, Mendo Castro. A filosofia civil de Eric Voegelin. São Paulo: É Realizações, 2010.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado.
SANDOZ, Ellis. A revolução voegeliniana. São Paulo: É Realizações, 2010. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
VOEGELIN, Eric. Anamnese. São Paulo: É Realizações, 2009. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2008.  Tradução de Maria Inês de Carvalho.
VOEGELIN, Eric. Ordem e História (vols. I, II, III, IV, V). São Paulo: Loyola, 2010. Tradução:  Cecília Camargo Bartolotti (I, III), Luciana Pudenzi (II, V) e Edson Bini (IV).
VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. 1988. Disponível em: <http://www.franciscorazzo.com.br/?p=749>. Acesso em 22 de fevereiro de 2010. Tradução de Mendo Castro Henriques.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Ilha de Deleuze

'O Refúgio', Félix Nussbaum

Escrevi esta pequena série de poemas minimalistas inspirado pelo texto de Gilles Deleuze, 'Causas e Razões das Ilhas Desertas', publicado há poucos dias aqui mesmo neste blog (leia o texto AQUI).

A Ilha de Deleuze


I
Devoro a lua,
a lua devora-me:
quedamo-nos
ilhas,
fomes.


II
Deserta(da) Ilha,
refundação da Realidade:
re-realidade,
ilha transprimal


III
De antropoflorescer
quasimpossível, pedregoso,
pedral: 
rocha, rock, roca:
Ilha das Rocas,
Distância.


IV
Ovo Cósmico da anti-
candura, sequestro
de Ganimedes, 
Graal de chão:
não-Adão, Noé,
fato e mito e pai & status
da (re)fundação do Humano.


V
Ilha:
Supressão.


VI
Meu coração, mimodrama d'ilha,
pergaminho de sagas:
compartilho tua fome,
 - Inadequação.


VII
Ilha: face oculta
da lua, ilha.
Asa de água, quilha.
Ilha, quilha do homem:
Espada.

Ilha-deserta-ilha:

Espada-de-habitar.
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