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terça-feira, 22 de maio de 2018

Sobre Poesia, texto de Vinícius de Moraes


SOBRE POESIA

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária. 

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução. 

Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. 

O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court. 

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída. 

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como furtar a História dos outros - Jaime Pinsky


Jaime Pinsky

Se o Ocidente tivesse levado Jack Goody a sério, teria entendido melhor o desenvolvimento supostamente inexplicável da China, assim como o surgimento dos tigres asiáticos e do próprio milagre japonês. O mundo não se resume à Europa e aos países de colonização europeia. Óbvio? Agora, sim. É fácil ser profeta do passado. Mas, se as pessoas ouvissem um pouco mais os historiadores e cientistas sociais e levassem um pouco menos a sério os analistas de conjuntura, sejam eles quem forem, a história não nos pegaria tão desprevenidos. Mas vamos a Goody.
Considerado um dos maiores antropólogos da civilização vivos, reconhecido no mundo inteiro, ainda é pouco conhecido no Brasil, embora seja tido como uma espécie de Hobsbawn da Antropologia, tanto pela profundidade e coragem de suas análises quanto pela iconoclastia de suas posições, ou, ainda, pelo fato de se assumir como intelectual público.
Pesquisador cuidadoso, dono de erudição extraordinária, acumulada em quase 90 anos de vida, Goody tem uma obra variada e muito respeitada. Transita por temas tão distintos como a família, o feminismo, a cozinha, a cultura das flores, o contraste entre cultura ocidental e oriental, até o impacto da escrita em diferentes sociedades. Seu livro O roubo da História é uma espécie de síntese e revisão de suas pesquisas e pensamento. Em suas páginas, ele faz uma crítica contundente a tudo aquilo que considera viés ocidentalizado e etnocêntrico, difundido pela historiografia ocidental e o consequente roubo, perpetrado pelo Ocidente, das conquistas das outras culturas. Goody não discute apenas invenções como pólvora, bússola, papel ou macarrão, mas também valores como democracia, capitalismo, individualismo e até amor. Para ele, nós, ocidentais, nos apropriamos de tudo, sem nenhum pudor. Sem dar o devido crédito.
Não reconhecer as qualidades do outro é o melhor caminho para não se dar conta do potencial dele. Até no esporte apregoa-se que não se deve subestimar o adversário. E Goody percebe certo desprezo pelo Oriente, que já custou e pode e ainda custar mais caro ao mundo ocidental. Assim, ele acusa teóricos fundamentais, como Marx, Weber, Norbert Elias e questiona enfaticamente Braudel, Finley e Perry Anderson por esconderem conquistas do Oriente e mesmo de se apropriarem delas em seus escritos. Arrasa os medievalistas que querem transformar um período violento, repressivo, dogmático e sem muita criatividade (a Idade Média) em algo simpático e palatável, só por ser, supostamente, a época da criação da Europa (e, portanto, do conceito de Ocidente). E mostra que, ao menos, em termos de capitalismo mercantil, o Oriente tem sido, ao longo da história, bem mais desenvolvido do que o Ocidente. O que contraria interpretações que desconsideram o Oriente e se debruçam apenas sobre as transformações nas relações de produção do mundo ocidental para explicar sociedade, política e cultura.
De fato, esquemas economicistas, alguns deles apropriados e vulgarizados por um marxismo elementar ainda praticado por supostos analistas politizados, mostram um mundo europeu criando o mercantilismo e as embarcações (inventaram até uma inexistente Escola de Sagres), a bússola e o papel. Alguns professores ainda ensinam uma oposição entre a democracia (criação grega, portanto ocidental) e o totalitarismo (coisa natural entre orientais como chineses e russos). Contra esse tipo de História é que Goody se insurge.

Claro que, entusiasmado pelas próprias descobertas, formula algumas conclusões bastante discutíveis. Mas atenção: esse livro não é um simples ensaio, um trabalho opinativo. Considerado um dos mais importantes cientistas sociais do mundo, Goody tem uma obra sólida, consistente, plena de informações e de comparações, reconhecida por colegas com quem estudou e trabalhou. No livro, recorre a pesquisas feitas na Ásia e na África (muitas realizadas por ele mesmo), para dar peso às suas teses. Assim, mesmo que se venha a discordar de alguns de seus pontos de vista ou conclusões, temos muito a aprender com ele, principalmente como entender o mundo globalizado — e não sob uma ótica puramente econômica. Mais que um grande intelectual, Jack Goody é um verdadeiro cidadão planetário. E, no livro, apaixonado e apaixonante, abre uma janela para aqueles que querem descortinar o mundo.

No livro Por que gostamos de História (São Paulo: Contexto, 2013).

sábado, 8 de abril de 2017

Samy Adghirni: Os persas e seus nomes poéticos

Poesia é coisa séria no Irã. Quase todo mundo sabe de cor um monte de versos, rodas de amigos adoram debater autores e um dos principais ícones nacionais é o poeta Hafez (1310-1390), cujo túmulo em Shiraz atrai romaria do país inteiro. Hafez, aliás, era crente e capaz de recitar o Corão inteiro, mas celebrou em sua obra a embriaguez e o amor.
O gosto pela poesia parece ser um traço milenar da cultura persa, e até hoje pais dão aos filhos nomes, ou prenomes para ser mais exato, que são pura metáfora. Uns são bucólicos, outros românticos. Há também os metafísicos. É exemplo pra todo lado.
Tenho uma amiga que se chama Yeganeh (única no mundo). A irmã dela é Taraneh (canção). A chefe da agência Reuters no Irã leva o prenome de Parisa (aquela que é como uma fada). O da iraniana mais famosa do planeta, a ativista de direitos humanos e Nobel da Paz Shirin Ebadi, significa “doce”. Não confundir com “açúcar”, ou Paníz, em farsi, como é chamada minha assistente. Simin, personagem principal do badalado e premiado filme “A Separação”, quer dizer “aquela que brilha como prata”.
Homens também levam prenomes na mesma linha. Meu cabeleireiro é Behrooz (dia feliz), e o recepcionista do hotel onde fiquei ao chegar, Navid (boa notícia). Um tempo atrás entrevistei um cantor que se chama Omid (esperança). Conheço um sujeito que é Payam (mensageiro).
Ouvi vários outros nomes poéticos. Meus preferidos são Kohinoor (montanha de luz), Shahin (falcão peregrino) e Parastoo (andorinha).
Mas já repararam que os nomes dos governantes iranianos geralmente não seguem esse padrão? O presidente é Mahmoud [Ahmadinejad]. O líder supremo chama-se Ali [Khamenei], assim como o chanceler [Akbar Salehi] e o poderoso chefe do Parlamento [Larijani]. O Ministro da Defesa chama-se Ahmad [Vahidi] e o primeiro vice-presidente, Mohammad [Reza Rahimi].
Esses são nomes muçulmanos de origem árabe, comuns em famílias mais religiosas e, portanto, mais propensas a endossar o regime teocrático. Afinal, a influência árabe na Pérsia veio com a disseminação do islã, surgido onde é hoje a Arábia Saudita, lá pelos séculos 7, 8 e 9. Antes disso os persas eram essencialmente zoroastras, judeus e cristãos _hoje minorias.
[Folha SP, 1 mar 12]

domingo, 11 de setembro de 2016

11 de Setembro - Daniel Oudshoorn


Daniel Oudshoorn


Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

AS PESSOAS NUM POETA NEO-REALISTA




Quarenta figuras humanas perpassam, ou melhor habitam, na poesia de Manuel da Fonseca. Quem fez o inventário foi o escritor e crítico ilhavense Mário Sacramento, no seu quase clássico “Há uma estética Neo-Realista?(1968:80).
Enquanto que palavras recorrentes na poesia de um autor se consubstanciam semântica e metaforicamente, vocábulos que vêm da matéria e do que é imaterial, ilidindo mesmo sujeito e objecto, por exemplo os da poética de Eugénio de Andrade, outros poetas informam sobre pessoas com nomes e existência concreta.

Podemos enumerar uma breve lista de palavras eugenianas: 
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada. (vd. “As mesmas teclas de Eugénio de Andrade”, in Blog Poeta Salutor (2010: 11/3)

Vejamos, por outro lado,  o que concerne ao poeta e romancista do neo-realismo e do “Novo Cancioneiro”, Manuel da Fonseca.
E por aqui eis-nos chegados à dialética da personagem, do sujeito poético, do nome, da actividade, do local de origem, das figuras humanas que estão nos Poemas Completos do poeta de Santiago do Cacém, falecido em 1993.

Maria Campaniça, Jacinto Baleizão, Zé Cardo, Toino, Rosa Charneca, Francisco Charrua, Zé Jacinto, Marianita, Zé Gaio, Julinho da ourivesaria, Zé Limão, Manuel da Água, e Mariazinha Santos;  malteses, vagabundos, mendigos, campaniços, guardas,  o coro de empregados da Câmara, António Valmorim, a Nena de Montes  Velhos,  o Terceiro Oficial de Finanças, entre outros nomes e vidas.

No poemário “Planície”, de 1941, no início da década fértil para a poesia neo-realista, embora o poeta José Gomes Ferreira tenha afirmado que “o social não era a característica principal da poesia do Novo Cancioneiro” (a Memória das Palavras), a verdade é que MdF traduz essa particularidade representativa das problemáticas humanas e sociais, do campesinato e da urbanidade, da seara e da fábrica, logo para o início daquele volume de poemas.

Um local: Cerromaior, que é também título do primeiro romance do poeta, é um lugar inventado que contém, no entanto, as realidades e as gentes, doutros lugares autênticos do vasto Baixo Alentejo – e.g. Cercal -, área predominante, senão mesmo exclusiva na poética do autor.
Depois, o lugar começa a revelar particularismos da vila, como tipicamente alentejana, o “Largo” de onde partem todos os “caminhos”, o “Largo” que era “o centro do mundo”, onde estão os “guardas” com a lei, mais adiante o “montado” genuíno, o “vagabundo rasgado”; ou a aldeia com “nove casas, / duas ruas, / no meio das ruas / um largo”, o “monte”. O tópos é fundamental na poética de Fonseca, como os Alentejo, “Beja, Cercal. Em alguns casos, especificamente, noutros como metonímia.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de “Seara de Vento” é também recorrente na dimensão, por vezes, trágica dos nomes.

Na poesia ( como na prosa: conto e romance), “Manuel da Fonseca continua a existir com a sua frescura inicial e a sua energia, a sua capacidade de comover e seduzir” – escreveu  Mário Dionísio, há quase cinquenta anos.


30-08-2016


© João Tomaz Parreira 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O tempo é a imagem de algo...

Aión, um dos deuses do tempo
Fábio Ribas

“Quando fores me visitar, eu já terei viajado”. Estou me dirigindo num discurso no tempo presente a alguém, que, eu sei, no futuro, irá visitar-me. Contudo, ao visitar-me naquele futuro, este tempo será lá, então, um tempo presente e guardará também em si um tempo passado, que será o fato da minha ausência agora anunciada, do nosso desencontro num momento ainda por vir: um passado que, assim como o futuro, ainda não ocorreu e quem sabe se ocorrerá ou não?

  Outras nuances entre o tempo e a linguagem, entre o tempo e a língua portuguesa, especificamente, são as riquezas, que a educação moderna sonega aos nossos alunos, dos pretéritos mais que perfeitos, do futuro do pretérito e do pretérito do subjuntivo. Um pretérito mais que perfeito que nos revela que todo passado pode ocultar um tempo ainda mais anterior (ou interior). Um futuro do passado que pode expressar essa frustração humana diante de um tempo que jamais se realizará. E, enfim, um tempo em que o passado é um desejo que aponta para um futuro incerto. Tudo isso reflete o texto de Gênesis 1: 28, que é o mandato recebido por Deus para que dominássemos sobre toda a natureza. E o tempo faz parte da natureza criada. E o homem luta contra o tempo para dominá-lo por meio da linguagem também. Assim como Deus ordenou o caos pelo poder da sua Palavra, a criatura humana reflete esse mesmo modelo. O tempo deve ser dominado pela palavra humana. É possível?

Poderíamos criar uma geração de filósofos e teólogos se existissem mais professores verdadeiramente preparados na arte da Filosofia da Gramática. Outros casos que me ocorrem é o do famigerado gerundismo que parece tentar esticar ad infinitum o tempo presente, para que o futuro nunca chegue na maioria dos departamentos públicos. O que demonstra também que professores bem treinados poderiam usar do ensino da gramática para explorar as doenças mais profundas da falta de caráter da depravada alma brasileira expressa pela língua e propor tratamento pelo uso saudável da correta locução verbal em tempo não esquivo. 

E se quisermos ampliar esse rol de divertimentos linguísticos veremos que tempo e espaço acabam sendo moldados pela cosmovisão e a língua revela/domina essa realidade para nós. É o que ocorre com as palavras “machar” e “temol”, que, em hebraico, respectivamente, significam “futuro” e “passado”. O lúdico linguístico, porém, está no fato de que “machar” significa também “atrás” e “temol”, por sua vez, significa “à frente”. Portanto, o futuro está “atrás” e o passado “à frente”, porque o passado está claro diante dos nossos olhos, mas o futuro oculta-se em algum lugar ou de alguma maneira, atrás de algo que nos impede de discerni-lo. Ainda na língua hebraica, quem não se lembra da repetição do sábado e do ano do jubileu? O tempo é cíclico. O tempo está sempre retornando (diferente da nossa cosmovisão de tempo linear). É o “shanah” hebraico. Mas é uma repetição singular, única, jamais igual ao que já houvera, um “eterno retorno do irrepetível”. Quem sabe não seria por uma característica como essa que Mircea Eliade afirmou existirem línguas em que o tempo futuro não existe? 

De qualquer maneira, o tempo e a sua relação com a linguagem não poderia escapar dos estudos da nossa Bibliotheca, uma vez que, para Platão (em o Timeu), o tempo é a imagem móvel da eternidade. Nesta definição platônica, três palavras precisam de uma atenção especial: “tempo”, “imagem” e “eternidade”. Pois, se como vimos no artigo “O mundo é a imagem de algo”, aqui também Platão nos surpreende com o tempo sendo uma imagem de algo, a saber, da eternidade. Contudo, nada pode ser tão rapidamente apresentado, pois que os conceitos originais estão em grego e as palavras nos revelarão segredos: O tempo (crónos) é a imagem (mímesis) da eternidade (aión). É preciso tempo para fazer como Krónos, devorando nossos filhos, as palavras, até que elas façam parte de nós e, depois de serem vomitadas, possam herdar a vida eterna. 


domingo, 26 de maio de 2013

As estórias em acrílico de Duy Huynh à la Magritte



Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.
A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.
Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.
Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.
Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.

© JTP
 

 


 
 

sábado, 16 de março de 2013

Eric Voegelin e o Cristianismo


Paulo Cruz 





 O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido, que se tornou o Deus Conhecido por sua presença em Cristo; eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade. (Eric Voegelin)
Este artigo visa a apresentar um pequeno panorama das relações fundamentais entre a filosofia de Eric Voegelin e o cristianismo.

Perfil biográfico
Erich Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 03 de janeiro de 1901, e faleceu em Stanford, na Califórnia (EUA), em 19 de janeiro de 1985. Douturou-se na Universidade de Viena em 1922 (foi aluno de Othmar Spann e Hans Kelsen; este último, jurista e redator da constituição de Viena; o primeiro, cientista social), e lá mesmo tornou-se professor associado de Ciência Política, na Faculdade de Direito, em 1929. Em 1938 foi demitido pelo governo nazista, por sua frontal oposição ao regime nacional-socialista e a Hitler. Suas quatro obras publicadas entre 1933 e 1938, onde, dentre outras coisas, denuncia a total falácia do conceito de raças[1], colocaram a Gestapoem seu encalço.
Foge para Suíça com sua esposa, Lissy Voegelin (1906 – 1996), e, de lá, para os Estados Unidos. Passa um ano lecionando no departamento de Ciência Política em Harvard e depois na Universidade do Alabama.
Em 1942, ingressa no corpo docente da Universidade Estadual da Louisiana, permanecendo até 1958, quando recebeu o convite para retornar à Alemanha e fundar o Instituto de Ciência Política da Ludwig-Maximilians-Universität, em Munique, ocupando a cadeira que um dia fora de Max Weber.
Em 1969 retorna definitivamente para os EUA, para o Instituto Hoover para o Estudo da Guerra, Revolução e Paz da Universidade de Stanford, lá permanecendo até sua morte, em 1985.

História e Realidade
Eric Voegelin afirma que o objetivo de sua obra é o que chamou de Filosofia da História, e tem suas origens na situação política que viveu [2]. Uma de suas principais reflexões dá-se no campo da linguagem. Afirma que, por influência das ideologias, a linguagem perverteu-se de tal forma, que é impossível ser usada para expressar a verdade da existência. Sendo assim, é necessário que o filósofo rompa com o círculo intelectual ideológico dominante e saia em busca de recuperar o sentido da realidade; e a melhor maneira de efetivar a retomada deste sentido é o contato com os pensadores do passado que ainda não o tinham perdido, ou que estavam preocupados em recuperá-lo. Tal façanha exige um trabalho árduo, de reconstrução das categorias fundamentais da existência, da experiência, da consciência e da realidade [3].
Segundo Voegelin, dentre as supressões da realidade operadas pelas ideologias – com o intuito de erigir falsos sistemas –, um item sempre excluído é a “experiência de tensão do homem em direção ao plano divino de sua existência” [4], e afirma que este comportamento é denunciado desde a filosofia antiga [5].

Ordem e História
Os volumes de “Ordem e História”, publicados pela Ed. Loyola
Ordem[6] é um termo recorrente na obra de Voegelin. Para ele, as experiências de ordem e desordem remontam ao mundo pré-histórico, e utiliza o termo alienação (αλλοτρίωσις), criado pelos estóicos – um estado de retirada do próprioeu [7] –, para retratar a desordem de nosso tempo. Se existir filosoficamente é ter consciência da humanidade do homem, a alienação é um afastamento dessa consciência.
Ordem e História é seu magnum opus, em cinco volumes, escrito com a finalidade de estudar os símbolos das experiências históricas do ser humano, desde o mundo antigo até a atualidade, e buscar a restauração da ordem da existência. O volume I trata das experiências de revelação no Oriente Próximo – do salto no ser dos antigos hebreus –, e do período dos profetas. Os volumes II e III tratam do período helenístico, e o volume III é dedicado, exclusivamente, a Platão e Aristóteles. Nos volumes IV e V, Voegelin rompe com o projeto
Em “Anamnese”, publicado pela É Realizações, encontramos o desenvolvimento da Filosofia da Consciência de Voegelin.
original e procura construir uma Filosofia da Consciência (e não mais uma Filosofia da História), pois passa a acreditar que o problema da ordem é um problema da consciência. No volume IV há uma interessante exegese cristã, a partir da análise da teologia do apóstolo Paulo.

Voegelin e o Cristianismo
O ponto culminante da pesquisa de Voegelin é sua exegese do cristianismo. Retomando a tradição filosófica desde Platão e Aristóteles, passando por teólogos patrísticos como Clemente de Alexandria e Irineu de Lião; visitando a escolástica de Tomás de Aquino até aportar na exegese histórico-crítica dos teólogos protestantes alemães, Voegelin afirma que o advento de Cristo é a realização dos mitos, das filosofias e das religiões antigas [8].
Na década de 1970, Voegelin proferiu uma palestra denominada Evangelho e Cultura, onde expõe suas ideias a respeito do tema de maneira singular. Inicia afirmando que se a “comunidade do evangelho (a εκκλησία του θεου) não se tivesse penetrado na cultura do tempo ao entrar em sua ‘vida da razão’, teria permanecido uma seita obscura e provavelmente desapareceria da história”[9]. Analisando, então, o que chama de realidade interina [10] – a μεταξύ de Platão –, afirma que a existência não é um fato, mas sim movimento perturbante da realidade interina em direção ao fundamento divino do ser.
Numa passagem magistral, Voegelin fala do momento preciso onde a filosofia grega e o Evangelho se encontraram na história, onde houve a canalização do processo de busca pelo fundamento divino do ser: é na passagem do evangelho de João, capítulo 12, quando um grupo de gregos se aproxima dos apóstolos Filipe e André (nomes gregos!) com o desejo de ver Jesus, ao que Jesus responde que esta é a hora do Filho do Homem ser glorificado [11]. Noutra passagem descreve (de maneira poética) o processo de tensão paradoxal entre o deus mítico da filosofia grega e o Deus cristão [12].
Por fim, Voegelin critica os danos que os caminhos que a própria teologia cristã e seu dogmatismo causaram a essa visão do movimento de busca e de interinidade das realidades humanas, dizendo que, quando a teologia viu narevelação algo pretensa e completamente novo, negligenciou (e contestou) a experiência do homem antigo [13], e que era preciso, como Tomás de Aquino, restabelecer a perspectiva de que o Cristo não é só o Cabeça da Igreja, mas sim, de toda humanidade.
Fazendo ligações e correlações entre a filosofia grega e a mensagem cristã, e afirmando categoricamente não só essa ligação, mas o cumprimento de uma pela outra, é que Voegelin pretende nos mostrar que, tendo o mesmo cerne noético do evangelho, a filosofia deve intervir nas experiências de teofania, a fim de entender e resgatar a realidade da existência em direção ao fundamento do ser.

Ainda há algo a considerar: Voegelin foi muito criticado por alguns contemporâneos seus, pelo fato de não ter manifestado, em nenhum momento, sua fé cristã. Muito pelo contrário, sua exegese ignora alguns dogmas cristãos tradicionais – como a ressurreição de Cristo, a parusia –, bem como o sentido de salvação, fundamental e imprescindível na teologia cristã. Porém, temos de compreender que a intenção de Voegelin não era dogmática; ele não pretendia criar uma doutrina cristã, mas, simplesmente, enquadrar sua análise do cristianismo no contexto de sua filosofia da ordem; e, de fato, para ele, o cristianismo é a culminância do processo de diferenciação[14] da revelação da realidade em direção ao Fundamento. No entanto, acusa a doutrina cristã de ter-se distanciado do drama histórico da revelação, descarrilando no gnosticismo[15], dando origem a ideologias revolucionárias – inclusive dentro do próprio seio do cristianismo.
O debate acerca dessas questões não está encerrado, e, também, o próprio Voegelin nunca se pretendeu unânime. Mas não podemos negar que estamos diante de um grande filósofo, e suas análises – bem como as de outros pensadores ao longo da História (alguns citados neste artigo) – das patologias existenciais de nosso tempo, nos fornecem elementos suficientes para que busquemos um caminho para a restauração da ordem do homem e da sociedade.
Paulo Cruz

Notas:
[1] O movimento nacional-socialista estava em franca ascensão, e, embora ainda não fosse possível antever sua chegada ao poder, o debate sobre as raças, o problema dos judeus e outras questões afins estavam muito presentes. O material se oferecia naturalmente à análise, e daí surgiram meus dois volumes sobre a questão da raça. A esse volumes incorporei também conhecimentos recém-adquiridos, e agora aprimorados, de teoria biológica. (VOEGELIN, Eric. 2008, p. 69, 70).
[2] “As motivações de minha obra, que culmina em uma filosofia da história, são simples. Elas têm origem na situação política. Qualquer pessoa bem informada e inteligente que, como eu, tenha testemunhado a história do século XX desde o fim da Primeira Guerra Mundial, se vê cercada, e mesmo asfixiada, pela maré montante da linguagem ideológica. (…) Por ser impossível reconhecer como debatedores os que se valem da um linguagem ideológica, é preciso torná-los objeto de investigação.” (Ibid., p. 139)
[3] Ibid., p. 143
[4] Ibid., p. 146
[5] “Renunciar ao plano divino significa recusar-se a reconhecer que sua existência é constitutiva da realidade do homem. Essa renúncia deliberada à experiência fundamental da realidade foi diagnosticada pelos estóicos como uma doença do espírito”. (Ibid., p. 148)
[6] “Ordem é a estrutura da realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e uma ordem não fabricada por ele; isto é, a ordem cósmica.” (Ibid., p. 117)
[7] “Na psicopatologia estóica, allotriosis é um estado de retirada do próprioeu, o qual se constitui pela tensão entre o homem e o plano divino da existência. Uma vez que, tanto na filosofia clássica quanto na estóica, o plano divino da existência é o logos, ou fonte de ordem neste mundo, a retirada doeu, constituído por essa força ordenadora, é um recuo da razão na existência”. (Ibid., p. 118)
[8] “O encontro turbulento e redentor com o Deus Desconhecido que se tornou o Deus Conhecido pela sua presença em Cristo, eis a novidade absoluta do cristianismo perante os mitos, as filosofias e as religiões da Antiguidade”. (HENRIQUES, Mendo Castro. 2010, p. 180)
[9] VOEGELIN, Eric. 1988.
[10] “Tanto o chamado erotismo platônico da busca (zetesís) quanto a atitude aporética de Aristóteles, intelectualmente mais agressiva, reconhecem no “homem questionante” o homem movido por Deus a pôr as questões que o conduziram à causa do ser (arché).  A própria busca é a evidência da inquietação existencial; no ato de questionar, a experiência humana de tensão (tasís) para o fundamento divino irrompe na palavra da interrogação como uma oração pelo Verbo da resposta.  Questões e respostas estão intimamente relacionadas; a busca move-se no que Platão designou por metaxy, a realidade interina da pobreza e da riqueza, do humano e do divino; a questão é conhecimento, mas este conhecimento é ainda o tremor de uma questão que pode ou não alcançar a verdadeira resposta”. (Ibid., 1988).
[11] “Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa.
Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus.
Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus.
E Jesus lhes respondeu, dizendo: É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado”. (Jo 12: 20-23)
[12] “O Deus que brinca com o homem como um fantoche não é o Deus que se torna homem para salvar a vida, sofrendo a morte. O que gerou a narrativa salvífica da encarnação, morte e ressurreição divinas em resposta à questão da vida e da morte, é consideravelmente mais complexo do que a filosofia clássica; é mais rico devido ao fervor missionário do seu universalismo espiritual; é mais pobre pela sua negligência do controle noético; é mais amplo pelo seu apelo à humanidade inarticulada no homem comum, mais restrito devido à tendência contra a sabedoria articulada dos sábios; mais imponente através do seu tom imperial de autoridade divina; mais desequilibrado devido à sua ferocidade apocalíptica que conduz ao conflito com as condições da existência humana em sociedade; mais compacto devido à sua generosa absorção de extratos anteriores de imaginação mítica, especialmente devido à recepção da historiogênese israelita e à exuberância dos milagres operados; mais diferenciado através da experiência intensamente articulada da ação amoroso-divina na iluminação da existência pela verdade.” (Op. Cit., 1988)
[13] “Uma vez que a revelação (a diferenciação da consciência pneumática) tinha de ser algo completamente novo, que marcasse uma nova época na história, a presença, de forma compactada, do estrato pneumático no pensamento do homem primitivo foi negligenciada e mesmo contestada”. (Op. Cit. 2008, p. 160, 161)
[14] DIFERENCIAÇÃO: Processo pelo qual a verdade da existência é compreendida e articulada de um modo mais completo e profundo. Platão, por exemplo, diferencia a realidade transcendente como uma presença na alma denotada por termos como “noûs” e “helkein”. A compreensão mais compacta de transcendência nas sociedades cosmológicas compreendia o universal como um poder no cosmos. (FEDERICI, Michael P. 2011, p. 194)
[15] GNOSTICISMO: Ideologia que afirma o conhecimento absoluto da realidade. Segundo Voegelin, caracteriza o mundo moderno. É engendrado pela insatisfação com a estrutura da existência como ela é, pela crença de que uma nova ordem pode ser criada pela execução de um plano revolucionário de ação, baseado na gnose. A nova ordem representa uma transformação da natureza humana e da própria estrutura da existência. (Ibid., pp. 199, 200).
__________________________________________________________
Bibliografia:
FEDERICI, Michael P. Eric Voegelin – A restauração da ordem. São Paulo: É Realizações, 2011. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
HENRIQUES, Mendo Castro. A filosofia civil de Eric Voegelin. São Paulo: É Realizações, 2010.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado.
SANDOZ, Ellis. A revolução voegeliniana. São Paulo: É Realizações, 2010. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
VOEGELIN, Eric. Anamnese. São Paulo: É Realizações, 2009. Tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
VOEGELIN, Eric. Reflexões autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2008.  Tradução de Maria Inês de Carvalho.
VOEGELIN, Eric. Ordem e História (vols. I, II, III, IV, V). São Paulo: Loyola, 2010. Tradução:  Cecília Camargo Bartolotti (I, III), Luciana Pudenzi (II, V) e Edson Bini (IV).
VOEGELIN, Eric. Evangelho e Cultura. 1988. Disponível em: <http://www.franciscorazzo.com.br/?p=749>. Acesso em 22 de fevereiro de 2010. Tradução de Mendo Castro Henriques.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

“THE TIMES” ou a Montanha contra o Modernismo

 
O diário londrino “The Times” foi uma montanha difícil, dura de escalar pelos poetas das duas primeiras décadas do Século passado.
Existem, pelo menos, dois poemas de autores diferentes que ...o exprimem, cada um à sua maneira, com a sua própria poética.
Este brevíssimo trabalho radica apenas na substância desses poemas e constitui-se como um “ensaio” comparativo entre as poéticas que visavam a importância que tinha, ou parecia ter no caso de Campos, no ínicio do século passado, um jornal de referência, victoriano, como “The Times”. Este mesmo que em 1920 apoiou uma campanha anti-semita, afirmando que os judeus eram o maior perigo do mundo.
Deixamos a leitura como uma proposta deleuziana dos afectos e dos desafectos.

ÁLVARO DE CAMPOS

“The Times”

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do “Times”, claro, inclassificável, lido...,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
…...............................................................................
Santo Deus!... E talvez tenha tido!

(16-8-1928)

Fernando Pessoa, através do seu heterónimo mais sensacionista, subjectivo e modernista, parece nutrir algum afecto pelo jornal londrino e por um desconhecido articulista que escreveria coisas já lidas, sem novidade, sem classificação, supondo influenciar o mundo porque se tratava de um jornal de referência. Neste breve poema, claro e também inclassificável, existem sensações, perceptos e afectos – diria Deleuze. O leitor “recebe” uma imagem de um jornalista, ébrio, imagina-o a escrever sob pressão: um problema que o aflige, um desgosto, ou apenas como um truão bêbado num divertimento, e sente por ele simpatia.


EZRA POUND

Let us deride the smugness of “The Times”
so much for the gagged reviewers,
it will pay them when the worms are wriggling in their vitals
these are they who objected to newness

Vamos ridicularizar a presunção do “Times”
(…) e dos seus críticos amordaçados
(…) estes são aqueles que à novidade se opuseram.

© Versão nossa

Este poema de EP é outra coisa, é uma diatribe. Integra-se na história do Modernismo poético europeu, levado a cabo pelo poeta norte-americano. No Modernismo caberiam outros sub-movimentos, como o chamado Vorticismo, o turbilhão de imagens no poema, que a Inglaterra vitoriana, romântica, não entenderia, vítima do tradicionalismo e das suas armadilhas medievais. O próprio Pound escreveria no primeiro nº de Blast que “ o vortex é o ponto máximo da energia”.
Ora entendeu o jornal “The Times” em obstaculizar o movimento, através de críticas, pelos vistos, “fretes literários”, que o futuro autor de “Lustra” ou de “The Cantos” não deixaria passar incólume e atacaria com acutilância e laivos de humor negro. Uma vingança. Esses “críticos amordaçados” é como se estivessem mortos já e isto era a sua lápide: “os vermes a contorcer-se nos seus órgãos vitais”.
A crítica, pelo que podemos intuir no poema de Pound “ Salutation the Third”, não seria isenta, nem construtiva, provavelmente nem do âmbito literário.
O que o jornal atacava era a “Modernidade” e chamava-lhe “insana”, do outro lado do Atlântico o “The New York Times”, em Agosto de 1914, também se fez eco da mesma crítica em desfavor do Modernismo e do movimento Vorticista.
Assim, os versos de Pound publicados na efémera revista BLAST, acometiam contra ambos.


© João Tomaz Parreira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Livro - um texto de Jorge Luis Borges


Aula proferida na Universidade de Belgrano em 1978
Traduzido de "Obras Completas IV" - Borges Oral - ed. EMECÉ

Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone uma extensão da voz e finalmente temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação. Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala sobre a biblioteca de Alexandria , os livros são descritos como a memória da humanidade. O livro é isto e muito mais, é também a imaginação. O que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Afinal que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado ? A função do livro é recordar.
Pensei, certa vez, em escrever uma história do livro, não do ponto de vista físico. Os livros não me interessam fisicamente - sobretudo as coleções dos bibliófilos, em geral imensas -, mas sim como eles podem ser avaliados ao longo do tempo. Splenger me antecipou, em seu livro "Decadência do Ocidente" onde têm páginas preciosas sobre o livro. Com alguma pitada pessoal penso ater-me aqui ao que disse Splenger
Os antigos não professavam nosso culto ao livro - coisa que me surpreende. Para eles o livro é um sucedâneo da palavra oral. A frase latina "Scripta manet, Verba volans" não quer dizer que a palavra oral seja volátil, mas sim que a palavra escrita permanecerá e está morta. Por sua vez a palavra oral tem algo de sutil, volátil, sublime e sagrado, como disse Platão. Todos os mestres da humanidade foram, curiosamente, mestres orais .
Vejamos o primeiro caso: Pitágoras. Sabemos que, deliberadamente, Pitágoras nada escreveu. Pitágoras não escreveu porque não quis. Não escreveu porque não desejava limitar-se à palavra escrita. Sentiu sem dúvida que a letra mata mas o espírito vivifica; o que, mais tarde, será citado na Bíblia. Ele deve ter sentido isto, e não quiz limitar-se à palavra escrita, por isto Aristóteles nunca fala de Pitágoras, mas sim dos Pitagóricos. Nos disse por exemplo que os pitagóricos professavam a crença, o dogma, do eterno retorno, que mais tarde foi redescoberto por Nietzsche. Ou seja, a idéia do tempo cíclico, que foi refutada por Santo Agostinho em Cidade de Deus. Santo Agostinho nos diz, através de uma linda metáfora, que a cruz de Cristo nos salva do labirinto circular dos estóicos. A idéia de um tempo cíclico também foi revista por Hume, Blanqui e tantos outros.
Pitágoras não escreveu porque não quis. Queria que seu pensamento permanecesse vivo além de sua morte física, na mente de seus discípulos. Daqui veio aquele ditado (eu não sei grego, tratarei de dizê-lo em Latim) "Magister dixit" (o mestre assim disse ). Isto não significa que estivessem limitados ao que o mestre havia dito, ao contrário, afirmavam a liberdade de continuarem refletindo o pensamento original do mestre.
Não sabemos se Pitágoras foi o iniciador da doutrina do tempo cíclico, porém sabemos que seus discípulos a professavam. Pitágoras morre físicamente e eles, por um tipo de transmigração - e isto teria agradado a Pitágoras - seguem pensando e repensando seu pensamento, e quando se reprovam ao dizer algo novo, se refugiam naquela fórmula: "assim disse o Mestre - Magister Dixit."
Porém temos outros exemplos. Platão, em um exemplo ilustre, disse que os livros são como esfinges (pode ter pensado em esculturas ou em quadros), que nós cremos que estão vivas, porém se lhes perguntamos sobre alguma coisa elas nada respondem. Então para corrigir esta mudez dos livros, ele inventa o diálogo platônico. Digamos que Platão multiplica-se em vários personagens: Sócrates, Gorgias e os demais. Também podemos pensar que Platão queria consolar-se da morte de Sócrates imaginando que este seguiria vivendo em seus Diálogos. Frente a qualquer questão Platão perguntava-se: "O que Sócrates pensaria a respeito disto?". Deste modo Platão imortalizou Sócrates, que também não deixou nada escrito e foi um mestre oral.
Sabemos que Cristo escreveu uma única vez algumas palavras na areia que o vento acabou apagando. Ao que se saiba não escreveu mais nada. Buda também foi um mestre oral e só ficaram suas prédicas. Temos uma frase de Santo Anselmo "um livro nas mãos de um ignorante é tão perigoso quanto uma espada nas mãos de uma criança" . Isto é o que se pensava dos livros.
No Oriente existe ainda um conceito de que um livro não deve revelar as coisas, um livro deve, simplesmente, ajudar-nos a descobri-las. Apesar de minha ignorância do Hebráico, estudei algo da Cabala. Li as versões inglesas e alemãs do Zohar (O Livro do Esplendor), El Sefer Yezira (O Livro das Relações). Sei que estes livros não estão escritos para serem entendidos, porém para serem interpretados , são desafios para que o leitor continue a pensar.
A antiguidade clássica não teve este nosso respeito pelo livro, embora saibamos que Alexandre da Macedônia tinha, em baixo do travesseiro, a Ilíada e a espada, estas duas armas. Havia grande respeito por Homero, porém não era considerado um escritor sagrado no sentido que temos hoje pela palavra. Não se pensava na Ilíada e na Odisséia como textos sagrados, eram livros respeitados, porém podiam ser criticados. Platão pode expulsar os poetas de sua República sem cair em suspeita de heresia.
Do testemunho dos antigos contra os livros podemos apontar um muito curioso de Sêneca. Em suas admiráveis cartas a Lucílio, tem uma dirigida contra um indivíduo muito vaidoso, de quem se diz que tem uma biblioteca de cem volumes; e quem - pergunta Sêneca - pode ter tempo para ler cem volumes ?. Por outro lado hoje se apreciam bibliotecas grandes.
Na antiguidade tem uma coisa de difícil compreensão, que não se parece com nosso culto ao livro. O livro sempre é visto como uma extensão da palavra oral, porém surge no Oriente um conceito novo, de todo estranho à antiguidade clássica: a do livro sagrado . Vamos tomar dois exemplos, começando pelo mais recente: os mulçumanos. Eles pensam que o Alcorão [Do ár. al-qurAYn, 'o que deve ser lido.] é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não é uma obra de Deus, é como se fosse sua misericórdia ou sua justiça. No Alcorão se fala de uma forma muito estranha do livro original. Este livro é um exemplar do Alcorão escrito no céu. Talvez venha a ser o arquétipo ideal de Platão do Alcorão, e este mesmo livro, nos diz o Alcorão, que está escrito no céu, que é o atributo de Deus e anterior à criação. Assim nos dizem os suleimans, os doutores muçulmanos.
Temos outros exemplos mais próximos de nós: A Bíblia, ou mais precisamente o Tora ou o Pentateuco. Acredita-se que estes livros foram ditados pelo Espírito Santo. Isto é um fato interessante: atribuir a livros de diversos autores e épocas diferentes a um único espírito, porém a própria Bíblia diz que o Espírito sopra de onde quer. Os hebreus tiveram a idéia de juntar obras literárias de diversas épocas e formar com elas um único livro, cujo título é Tora,ou Bíblia em Grego. A todos estes livros atribuem a um único autor: O Espírito A Bernard Shaw perguntaram uma vez se acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito. Eu acrescento: Todo livro que vale a pena ser relido foi escrito pelo Espírito.
Vale dizer, um livro tem que ir além da intenção de seu autor. A intenção do autor é uma pobre coisa humana, falível, porém o livro tem que ir além. Don Quijote por exemplo, é mais do que uma sátira aos livros de cavalaria. É um texto absoluto em que nada é improvisado. Pensemos nas consequências desta idéia. Por exemplo se digo:
Correntes águas, puras, cristalinas,
árvores que estais refletindo nelas
verde prado, cheio de frescas sombras.
É evidente que os três versos são de onze sílabas. Foi proposta pelo autor, assim o quiz..
Porém o que é isto comparado com uma obra escrita pelo Espírito, o que é isto comparado com o conceito de Divindade, que se curva frente à literatura e dita um livro. Neste livro nada poderia ser ao acaso, tudo teria que estar justificado, letra a letra. Entende-se, por exemplo que o início da Bíblia: Bereshit bara Elohim, começa com a letra B, porque isto corresponde a bendizer. Trata-se de um livro em que nada é ao acaso, absolutamente nada. Isto nos leva à Cabala, nos leva ao estudo das letras de um livro sagrado ditado por uma divindade, que vem a ser o contrário do que pensavam os antigos. Estes pensavam na musa de um modo bastante vago. "Canta, musa, a cólera de Aquiles" diz Homero no princípio da Ilíada. A musa tem, aqui, o seu correspondente à inspiração. Por outro lado pensar no Espírito é pensar em coisa mais concreta, mais forte: Deus, que nos condescende a literatura. É Deus que escreve um livro; e neste livro nada é ao acaso, nem o número de letras nem a quantidade de sílabas de cada versículo, nem o fato de que possamos fazer jogos de palavras com as letras, de que possamos considerar o valor numérico das letras. Tudo foi previsto. O segundo grande conceito dos livros - repito - é que ele pode ser uma obra divina. Talvez isto esteja mais próximo daquilo que agora sentimos do que da idéia que os antigos tinham dos livros, quer dizer, o livro é um mero sucedâneo da palavra oral.
Logo que cai a crença do livro sagrado ela é substituída por outras crenças. Por exemplo a de que cada país está representado por um livro. Recordemos que os mulçumanos dominam aos judeus, o povo do livro; recordemos a frase de Heinrich Heine sobre uma nação cuja pátria era um livro: a Biblia dos judeus. Temos então um novo conceito, o de que cada país tem pode ser representado por um livro, ou ao menos por um autor, que pode ser autor de muitos livros.
É curioso, não creio que isto tenha sido observado antes, que os países elejam para seus representantes autores que não se parecem com eles. Alguém poderia pensar, por exemplo, que a Inglaterra poderia escolher Doutor Johnson como seu representante. Porém não! A Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é, digamos assim, o menos inglês dos escritores ingleses. O típico da Inglaterra é o Understatement, que significa dizer um pouco menos sobre as coisas. Ao contrário, Shakespeare tendia à hipérbole na metáfora e não nos surpreenderia que Shakespeare tivesse sido, por exemplo, italiano ou judeu. Outro caso é o da Alemanha. Um país admirável, tão facilmente fanático, que elege precisamente um homem tolerante, que não é fanático, e a quem o conceito de pátria não é demasiadamente importante, elege Goethe. A Alemanha é representada por Goethe.
Na França não se elege um autor, porém temos Victor Hugo. Desde logo, sinto uma grande admiração por Hugo, porém Hugo não é típicamente francês. Hugo é estrangeiro na França, com este estilo decorativo, com estas vastas metáforas, não é típico da França.
Outro caso ainda mais curioso é o da Espanha. A Espanha poderia ter sido representada por Lope, Calderón, por Quevedo, porém a Espanha é representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, porém é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes nem os vícios espanhóis. É como se cada país pensasse ser representado por alguém diferente dele mesmo, por alguém que possa ser, um pouco, uma espécie de remédio, uma espécie de "triaca" , um antídoto contra seus defeitos.
Nós, os argentinos, poderíamos ter escolhido Facundo de Sarmiento, que é nosso livro, porém não; nós com nossa história militar, nossa história de espada, elegemos como livro a crônica de um desertor, elegemos el Martín Fierro, que bem merece ser eleito como livro. Como pensar que nossa história está representada por um desertor da conquista do deserto? Porém, assim é, como se cada país sentisse esta necessidade. Vários escritores escreveram de modo brilhante sobre os livros. Quero referir-me a uns poucos. Primeiro me concentrarei em Montaigne, que dedica um de seus ensaios ao livro. Neste ensaio tem uma frase memorável: Não faço nada sem alegria. Montaigne mostra que o conceito de leitura obrigatória é um conceito falso. Diz que ao encontrar uma passagem difícil em um livro, deixa-o: porque vê na leitura uma forma de felicidade.
Recordo-me que há muitos anos realizou-se uma pesquisa sobre o que é a pintura. Perguntaram à minha irmã Norah e ela respondeu que a pintura é a arte de mostrar com alegria as formas e as cores. Eu diria que a literatura também é uma forma de alegria. Se lemos alguma coisa com dificuldade, o autor fracassou. Por isto considero que um escritor como Joyce essencialmente fracassou, porque sua obra requer esforço para ser lida. Uma leitura, um livro, não deve demandar esforços pois a felicidade não demanda sacrifícios. Penso que Montaigne está certo. Montaigne enumera os livros de que gosta. Citando Virgílio, ele diz preferir as Geórgicas à Eneida porém isto não é importante. Montaigne fala dos livros com paixão, diz que, embora os livros sejam uma forma de felicidade, são contudo um lânguido prazer.
Emerson o contradiz. Eis um outro grande trabalho sobre o livro. Nesta conferência Emerson diz que uma biblioteca é uma espécie de salão mágico. Neste salão estão presos os melhores espíritos da humanidade, porém esperam nossa palavra para sair de sua mudez. Temos que abrir os livros e então eles despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade já produziu, porém que os evitamos e preferimos ler comentários e críticas e não o que dizem os originais.
Emerson diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade já produziu, porém que os evitamos e preferimos ler comentários e críticas e não o que dizem os originais. Fui professor de literatura inglesa durante vinte anos, na Faculdad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires. Sempre digo aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam as críticas, que leiam diretamente os livros. Talvez entendam pouco, porém sempre terão o gozo de ouvir a voz de alguém. Eu diria que o mais importante de um autor é sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, esta voz que chega até nós. Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que a leitura é uma forma de felicidade. Outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou aquilo a que chamamos de criação, que é uma mistura de esquecimento e lembrança do que lemos. Emerson concorda com Montaigne sobre o fato de que devemos ler somente aquilo que nos agrada e que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras. Eu procuro mais reler do que ler. Creio que reler é mais importante, embora para se reler seja necessário ter lido uma primeira vez.
Eu tenho este culto ao livro. Posso dizê-lo de um modo tolo e não quero ser tolo, quero que seja uma confidência que faça a cada um de vocês, não a todos, porém a cada um, pois todos é uma abstração e cada um é concreto. Continuo achando que não sou cego pois prossigo comprando livros e enchendo minha casa deles. Outro dia presentearam-me com uma edição de 1966 da Enzyklopadie Brockhaus e eu senti a presença deste livro em minha casa, senti-a como uma forma de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, apesar disto, o livro estava ali. Eu o sentia como uma atração amistosa. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, humanos, temos.
Dizem que o livro desaparecerá, eu creio que é impossível. Perguntam: que diferença pode haver entre um livro e uma revista ou um disco? A diferença é que uma revista é para ser lida e esquecida, um disco se ouve, e mesmo assim, para o esquecimento, é uma coisa mecânica e portanto frívola. Um livro se lê para a memória. O conceito de livro sagrado, do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas - onde também se diz que os Vedas criaram o mundo - pode estar ultrapassado, porém o livro tem uma espécie de santidade que devemos cuidar para que não se perca. Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. Quais são as palavras inseridas no livro? O que são estes símbolos mortos? É simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas. Porém se o lermos ocorre uma coisa rara, creio que ele muda a cada momento. Heráclito disse (e tenho repetido isto em demasia) que nada se banha duas vezes no mesmo rio. Nada se baixa duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam porém, o mais terrível, é que nós mesmos não somos menos fluídos que um rio.
Cada vez que lemos um livro, o livro se modifica, a conotação das palavras é outra. Além disto, os livros estão carregados de passado. Tenho falado contra a crítica e vou aqui ser contraditório (porém o que me importa ser contraditório). Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século 17. Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley. O mesmo se passa com o Quijote. Igual se sucede com Lugones e Martínez Estrada, o Martin Fierro já não é o mesmo. Os leitores acabam enriquecendo o livro. Se lemos um livro antigo, é como se o tivéssemos lido durante todo o tempo transcorrido entre o dia que foi escrito e o nosso tempo. Por isto convém manter o culto ao livro. O livro pode estar cheio de erratas, podemos não concordar com as opiniões do autor, porém ele conserva algo de sagrado, de divino, não de modo supersticioso, mas com o desejo de encontrar a felicidade, de encontrar a sabedoria. Isto é o que queria dizer-lhes hoje.

Buenos Aires, 24/05/1978

Do livro Borges Oral
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