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sábado, 10 de agosto de 2019

Romário Machadinha, um conto de Sammis Reachers



"Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore."
Zerovinteum (Marcelo D2 e BNegão)

Seu melhor emprego fora no Tijuca Tênis Clube. Era vigilante: bermudão de sarja, um dogue alemão numa coleira, revólver na outra, a que chamamos de cinto. E paz e amor naqueles gramados.
Um incidente lhe arrancou o emprego e a paz: na madrugada sonolenta, terceira ronda da noite, ele percebeu que a porta de um dos depósitos de material estava aberta. Entrou, vasculhou. Somente ao sair viu o meliante correndo. Ele não disparou, não soltou o cachorro que latia de tesão. Nada. “Que fuja, não havia nada pra roubar aqui.” Mas ele estava no Rio de Janeiro, cidade desespero. Ao subir no alto muro para concluir sua fuga, fuga quase que “facilitada”, ainda de cima do muro o desgraçado sacou uma arma e disparou, sabe-se lá pra quê. Ao primeiro disparo, nosso pacato vigilante, vamos chamá-lo aqui de Alberto pois a história é verídica e ele vive, abrigou-se atrás de uma árvore. O meliante fez ainda um segundo disparo. Alberto, mais para afugentar o perigo, disparou seu primeiro tiro após sair da escolinha de formação de vigilantes.
Na escuridão inchada pela distância, lhe pareceu que o indivíduo pulara. Resolvido o problema, Alberto procedeu com os trâmites de praxe. Telefonou para a polícia e para o gerente da instituição. Em pouco tempo estavam todos lá.
Nas buscas que a polícia efetuou na parte exterior do clube, uma surpresa: dentro de uma vala de escoamento pluvial contígua ao muro, com uma única perfuração central em sua testa, um cadáver.

Ao relatar que morava em Queimados, na perenemente malfadada Baixada Fluminense, os policiais vaticinaram: “Matador”. “Deve ter uma ficha grande nas costas, hein, ceifador?”. “Um balaço no meio da testa, à distância... tu é dos nossos. Tu é miliciano?”. “O doutor vai correr sua ficha aí, tu deve tá cheio de bronca nas costas...” “Cê não me engana não, xará, tu é bicho solto...”.
A situação crescia no insustentável para Alberto, e a própria diretoria do clube ficara preocupada. E foi a noite e o dia, e a demissão do primeiro emprego. Em boa hora: ele não queria mais aquela vida.

Poucos anos depois, a má sorte foi encontrar Alberto estabilizado como funcionário concursado da companhia de limpeza urbana do município do Rio, a CONLURB. Sua lotação inicial fora no centro da cidade, mas ficara um pouco longe de sua residência, agora em Caxias. A transferência que conseguiu foi para a Cidade de Deus, grande, conflagrada favela, famosa mundialmente pelo filme homônimo.
Trabalhar dentro de uma favela pode ser bem menos estressante e perigoso do que, à primeira vista, pode-se julgar. Bem, quase sempre.
Transcorridas poucas semanas de trabalho na comunidade, Alberto, pacato mas boa praça e simpático ao extremo, já travara amizade com alguns moradores e também com diversos de seus companheiros de trabalho. Como varredor de rua, Alberto era encarregado de certo número de ruas, ou determinada extensão de uma mesma rua, quando ela era muito grande; e assim era com seus companheiros. Um deles, que cuidava de área imediatamente contígua ao setor de Alberto, homem tímido e silencioso, mas simpático, costumava, vez por outra, a desaparecer. Isso mesmo: Alberto reparara que o indivíduo dito Romário como que abandonava o serviço, aparecendo mais de hora depois. E o pior: o encarregado, que por pouca coisa costumava relhar com Alberto e outros trabalhadores, nada dizia sobre aqueles sumiços. Bem, havia alguma coisa ali. Mas àquela altura Alberto tomara já algumas vacinas na vida, vida essa que ele aprendera que lhe bastava, sendo perigoso e desnecessário cuidar das dos outros.
Tempo que passa, certa vez, num de seus “retornos”, já quase ao fim do expediente, Romário passou próximo a Alberto, que, ao cumprimentá-lo, notou pequenas manchas, como salpicos, de sangue nos antebraços de Romário. Calculou, pela textura e cor, que não era tinta aquilo. Fez um gracejo sobre o Vasco da Gama, Romário riu e falou algo sobre o tricolor das Laranjeiras, time de predileção de Alberto, e seguiu para guardar seus materiais.
Uma semana depois, depararam-se próximo a um grande campo de futebol de várzea na comunidade, já em tempo do almoço. Sentaram-se juntos sob a sombra de um muro, destacados de alguns outros garis que também quedavam para o almoço. Entre as brincadeiras que a crescente familiaridade lhes permitia, Alberto não aguentou e perguntou:
- Ô Romário, me diz uma coisa meu amigo. Na boa, sem problema: Já manjei que de vez em quando você some aí pra dentro da favela, e só volta no fim dos trabalhos. Fala a verdade: Tu tá pegando alguma mulher aí pra dentro, não tá não?
- Que isso tricolor! – disse Romário sorrindo.
- Tá sim malandro, e o encarregado faz vista grossa. Não tenho nada com isso, você é parceiro, mas fala pra mim: tá ‘panhando gente hein? Deve ser mais de uma!!!
Romário, normalmente quieto, sorria.
- Vou te falar uma parada Alberto, pois sei que você é fechamento. Então cara, eu fortaleço os “amigos” aí.
- Os amigos o quê, a rapaziada do tráfico? Ih caramba! Tu forma na boca e trabalha na COMLURB ao mesmo tempo? Hahahaha...
- Não mano, eu não formo na boca não. Vou te falar o que eu faço: eu corto gente.
- Corta gente??! – murmurou, espantado, Alberto – Como assim, cara? Você? Tá de sacanagem comigo...
- Pode crê meu camarada. Corto uns corpos quando tem serviço, e os amigos me ajudam também com um dinheirinho.
Alberto, sorrindo frouxo, passou a engolir em seco seu almoço, tentando equacionar a veracidade ou não da confissão. Romário era tão quieto, e nada tinha de bruto, era até um pouco franzino. De toda forma, ele já vira a vagabundagem cumprimentando seu companheiro, e isso explicava também o silêncio cúmplice do encarregado – e dos demais funcionários, pois muitas vezes as tarefas deixadas em meio por Romário, durante seus sumiços, eram repassadas aleatoriamente para os outros garis.
O resto do almoço transcorreu em silêncio. Alberto na verdade passara a mais duvidar da história do que a assustar-se com ela. Como afinal aquele moreno, com uma levada à la Jeca Tatu, cabisbaixo, introvertido, magro, ia praticar uma barbaridade dessas de picotar cadáveres?

O tempo, ferida sem remédio, seguiu seu curso. De quando em vez Romário brincava com Alberto, “olha a machadinha hein””, o que deflagrava sonoras gargalhadas em nosso amigo, que definitivamente passara a descrer de tudo aquilo.
Num dia de agosto, pouco depois de retomarem os trabalhos após o almoço, nossos personagens varriam cada um um dos lados de uma mesma via, quando uma Pajero que avançava freou bruscamente, atraindo a atenção de todos para os muitos marginais em seu interior.
- Qual é Romário! Qual é parça! Bora lá naquela atividade lá!
Ao convite de um dos meliantes que ocupavam o carro (invariavelmente roubado, um dentre as dezenas que circulavam na Cidade de Deus), Romário já foi logo deixando a um canto seu carrinho, pá e vassourão. Mas, enquanto se dirigia para o veículo, chamou Alberto:
- Aí Alberto!? Você não queria ver o que eu faço? Vamos lá com os amigos.
Ao perceber a cara de espanto e incredulidade de Alberto, Romário completou:
- Bora lá rapá, tá tranquilo, nós é família. Vamos lá.
Pego de susto, Alberto embarcou na “viatura”. Um misto de terror e excitação o dominava; assim que entrou no veículo, arrependeu-se, mas era tarde demais. E dentro dele teimava a ideia de que aquilo tudo era mentira, e que Romário iria fazer alguma outra coisa, que pior que fosse não envolvia picotar carne humana.
O veículo andou por algo em torno de um quilômetro, parando em frente a uma casa de alvenaria, de um só patamar, janelas e porta fechadas.
Ao entrarem na casa, Alberto teve um acréscimo em seu terror ao perceber que, fora os sete marginais que vieram no carro, havia mais uns vinte dentro da casa. Após passar pela cozinha, ele e Romário foram levados ao que parecia ser a sala da casa.
No centro do recinto, circundado por grande número de marginais, quase todos armados, havia um corpo. Mas vivia: um homem com os braços amarrados para trás, de joelhos no chão, tendo suas duas pernas também amarradas, e um pano enfiado na boca.
Enquanto Alberto enregelava-se, um dos meliantes, após cumprimentar respeitosamente Romário, deu-lhe um tipo de avental de cozinha, duas luvas sujas, dessas de construção civil, e uma machadinha nova. Alberto galgou o apogeu de muitas fobias, ao ver Romário vestir-se impassivelmente e, apanhando a machadinha e tocando o fio com os dedos, para sentir a afiação, abaixar-se ao lado do homem, que esperneava em desespero.
- Deitem ele – murmurou, em tom quase inaudível, Romário.
Os marginais apanharam o pobre coitado e deitaram-no de barriga para cima, segurando suas pernas e parte superior do tronco. Assumindo agora uma expressão cuja única palavra precisa ser a demoníaca, Romário pousou uma mão sobre uma das pernas do homem, e desferiu um golpe na altura do tornozelo, separando do corpo trêmulo um dos pés descalços. Com mais dois golpes, separou em segundos mais um côto de perna, agora na altura do meio da canela. O sangue esvaía, o amordaçado urrava. Marginais xingavam, outros sorriam, outros desviavam os olhos, incapazes ainda de equalizar terror naquele grau.
Virem, virem – voltou a murmurar Romário, com expressão de quem tem pressa ou fome.
Ao virarem a vítima, Romário imediatamente cortou o plástico da algema que lhe prendia os braços, que dois meliantes imediatamente seguraram, esticando-os. Romário aplicou rápido golpe num dos pulsos, e logo, quase sentando-se sobre o corpo em debate, noutro pulso, separando as mãos. Ao levantar-se para ir cortar o outro pé, por acaso levantou os olhos, que até então não tirara do corpo vivo à sua frente, como uma criança com seu brinquedo novo, e cruzou os olhos com Alberto. O Jeca Tatu parecia agora um daqueles incorporados de centro de macumba. Seus olhos não demonstravam culpa alguma, mas fome; um ríctus de prazer paralisara seus lábios, um ensaio de sorriso luciferino.
Romário decepou o último pé, e virou o corpo para cima. Levantou-se, e junto aos marginais passou a observar o indivíduo – quem seria, o que fizera? – que rugia em espasmos e sangrava. Após algo em torno de trinta segundos – ou dois minutos, pois o tempo no cronópio mental de Alberto parara, ou rompera-se – Romário fez um sinal de cabeça ao que parecia ser o líder dos criminosos, e em seguida, com uma pressa e perícia de açougueiro, cortou a cabeça do homem, ainda vivo.
A cabeça foi colocada numa sacola, e alguém saiu com ela da casa.
Romário retirou o avental e as luvas, e na pia da cozinha tentou lavar o que podia do sangue que lhe coloria braços, rosto e botas.
Alberto tremia, mas tentava manter o controle. Alguns marginais sorriam ao observar sua expressão; um outro lhe alertou o que, tacitamente, todos favela a dentro nasciam sabendo: se falar algo, morre.
Após secar as mãos, o carniceiro dirigiu-se ao líder do grupo, que apanhou um chumaço de notas de cem e cinquenta, tirou algumas e deu a Romário.
Entraram no carro, sentados lado a lado. Romário permanecia de cabeça baixa, já sem a expressão psicótica; era só um homem agora, com seu ar de Jeca. Permaneceram em silêncio até o ponto de desembarque, no local mesmo onde haviam sido apanhados.
Alberto nunca tivera coragem para as perguntas – Como, por quê, pra quê, você nunca o viu, e se fosse inocente, quantos já foram... Foi Romário quem, percebendo a mudança em Alberto, tentou lhe dirimir o medo, sempre fazendo gracejos.
- O que você esperava, Alberto? Os “brabos” não têm coragem de fazer, eu faço. Estão pagando bem, e ainda fico bem na fita. Todo mundo me respeita.
- Eu sei, eu não duvidava de você não. É que eu achava que no máximo você cortava gente já morta, defunto – disse Alberto, que desde o evento queimava todas as potências de sua alma para manter a encenação de que tudo seguia em normalidade.
Romário, introvertido e quieto como um matuto, sorriu.

Alberto esperou um pouco, três meses ao menos, para evitar desconfianças. E, a título de ter novamente se mudado, dessa vez para Niterói, onde o conheci, pediu e logrou nova transferência, de volta para o centro da maravilhosa cidade. Cidade que logo achou por bem deixar no passado, ao pedir exoneração do cargo de gari.
E foi o dia e a noite de seu segundo emprego.

Obs.: Esta história me foi relatada pelo próprio "Alberto", que lhe jurava a veracidade.

Sammis Reachers

sábado, 3 de agosto de 2019

ESTÓRIAS QUE NÃO SE ESQUECEM, livro de contos de Wagner Antonio de Araújo para download gratuito


A literatura de ficção levada a cabo por cristãos nacionais possui excelentes cultores, mas é pouquíssimo divulgada e conhecida; notadamente, aquela produzida pelos praticantes do relato de concisão e precisão que é o conto. Assim, o surgimento de um livro como este, reunindo grande parte da produção de um autor gabaritado, é motivo de celebração.
A pena do pastor Wagner Antonio de Araújo é abençoada como a botija da viúva: de sua lucidez brotam textos em quantidade e qualidade ímpares para combustível (de almas e lâmpadas) dos leitores que têm a felicidade de travar com eles contato.
Aqui o conto, o relato real, a crônica e o texto devocional entrelaçam-se compondo um estilo rico e característico do autor. Contos com a reverberação do ensino ético, no que ecoam o melhor da contística universal; muitos deles, como referido, deambulando na sutil e criativa fronteira entre conto e crônica. Histórias reais de anos de vivência e pastoreio de diversas igrejas são aqui filtradas e remixadas para gerar uma agradável e pungente literatura.
Desassombradamente asseveramos que o leitor deste volume sairá dele (sempre) maior; maior em entendimento dos processos dos homens e das coisas de Deus. Maior em empatia com seu próximo e comunhão com Aquele de onde todo o bem emana. E isso sem descuidar do entretenimento, causa maior talvez da faina ficcional humana; pois aqueles momentos de relaxamento e alumbramento, advindos do simples prazer da leitura, estão garantidos, do primeiro ao último relato.
Sammis Reachers

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sábado, 6 de julho de 2019

AMPLITUDE #3 - Revista Cristã de Literatura e Artes. Baixe aqui


        Assustadores três anos se passaram, lentos ou esvoaçantes, a depender do ponto de quem observa. AMPLITUDE entrou em seu anunciado hiato, devido aos hercúleos e clichés motivos de força maior. Mas eis-nos aqui, redivivos, ressurretos como convém a co-herdeiros de Cristo.
       Em tempos de secularização acelerada, relativismo e perseguição crescente, a nível local e global (glocal) do cristianismo, usemos a arte para congregar-nos, estreitar nossa união e fortalecermos nossa posição em Cristo, a favor da paz e a favor da vida: Eis a razão de ser desta revista.
      AMPLITUDE é uma revista de posição e cosmovisão declaradamente protestante; no entanto, somos amplos em nossa irmanação criativa com nossos co-navegantes do mistério do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Assim, temos na seção Hot Spots um pouco do pensamento desconcertante do anglicano-depois-católico G. K. Chesterton. Publicamos ainda a Carta aos Artistas, significativa missiva escrita por Karol Wojtyła, o papa João Paulo II. E ainda, pontuando toda a edição, o leitor encontrará pequenos textos e fábulas do imaginário hebraico.
        AMPLITUDE pretende dar voz ao que não pode falar, e alumiar onde a luz cambaleia. Nesta edição, (per)seguimos nossa proposta, a mesma que adotamos, há anos, à frente do blog Poesia Evangélica, que é dar voz preferencialmente a autores que ainda não publicamos. Acreditamos que assim se constroem cenários e panoramas, se fortalecem movimentos e autores e educa-se o leitor para deleitar-se na sinfonia de vozes díspares.
        Esta edição é nossa recordista em contos, com mais de dez autores presentes. Destaque para a seção Jardim dos Clássicos, onde Honoré de Balzac apresenta um Jesus algo contracultural numa Flandres de séculos pretéritos.
        E seguimos com as seções: Crônica, com uma reflexão de John Piper;Cinema, com notícia do VII Festival de Cinema Cristão; HQ, com os quadrinhos de Vestígia e Caio, o Pardal Pensativo; Galeria, com a arte terna/dilacerante de Charles Criador; Luminares, nesta edição apresentando obras de missionários que se dedicam às artes plásticas.
        Na poesia, traduzimos para esta edição poetas protestantes de diversos países ibero-americanos; por sinal, o Poeta em Destaque é também de fala espanhola: o insigne Alfredo Pérez Alencart. Ainda nesta edição, poemas longos de Israel Belo de Azevedo e José Manoel Ribeiro somam-se aos textos poéticos de muitos outros autores (e a um toque inesperado de poesia visual).
        Não deixe de deleitar-se com as 100 Citações sobre a Arte, na página 19. E, se tiver paciência, publicamos ainda um artigo sobre antologias e antologistas(com o perdão do ranço acadêmico, que de maneira nenhuma é o foco de Amplitude).  Ainda as seções: Notas CulturaisResenhas, e, sempre terminando a revista, as citações selecionadas de Parlatorium.
        Tenha uma boa e edificante leitura, ainda que a edificação passe por alguma perturbação do status quo que pode estar inadvertidamente embotando seus passos. E compartilhe esta revista, que é gratuita, com outros irmãos ao seu alcance.

Sammis Reachers, editor

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terça-feira, 7 de maio de 2019

Viseu Nostromo, um conto de Sammis Reachers



De longe o mais simpático e afável dentre nós. Sua passagem foi um baque, um estorvo em nossas lides.
No funeral, um de nós lembrou-se de seu projeto, leit motiv final de sua passionalidade, seu “Projeto Melquisedeque”: a cada dia do ano ele se propusera publicar nas redes uma lenda, uma lenda que remetesse a algo da revelação judaico-cristã que supostamente jazia “perdida” na cosmovisão de cada povo - de algum povo dos 12 mil que o mundo habitam. Só mesmo um antropólogo. Só mesmo um missionário... Tudo estava em seus arquivos, ou melhor, “na nuvem”, como ele dizia. E era bonito olhar o celular pela manhã e ver aquilo, enquanto ia para o trabalho. Pequenos relatos que refundavam sentido em minha vida marásmica, miasmática, miserável.
Anos de pesquisa.
Faltavam três meses para a quebra calendária, a passagem do ano. Deste ano mau. Noventa textos, provas, indícios. Agora órfãos. Precisamos retomar seu projeto. Ele merece, disse Dario. Nós outros dois abaixamos a cabeça em concordância.
Éramos últimos, (sub?/trans?)cristãos de meia idade em trânsito ou em luta entre o nominalismo (morte) e uma volta à fé atuante. Compartilhadores de piadas e versículos, frivolidades e insânia. Em dias amargos e vendidos, pornografia. Agora precisávamos descobrir sua senha. A senha de um cientista e poeta e coligidor de bromélias. Tentamos datas importantes, depois o básico ('senha123'), depois nomes de almas próximas. Sem recurso, ensaiamos senhas parecidas com as nossas: w@rlord1978, catskills67, darkwatt#rs. Nada. Dias passando.
Um dia, lanchando na urbe cinza quente, exausto do inferno que são os outros, vi uma flor cair de uma árvore do calçamento. Rodopiou lenta, alheia, acima do simulacro cinza. Lembrei de meu amigo e sua alma lenta e flor. 
No escritório branco gelo confirmei o intuído lá no cinza: "primavera" era a senha do homem melhor que nós.


______________

Esse conto bem poderia integrar, pela temática de "amigo morto", minha coletânea de contos O Pequeno Livro dos Mortos (2015). Mas confesso que não sei se tal conto já existia ou se é posterior; encontrei-o por acaso, há algum tempo em meus arquivos, e hoje o recauchutei (pobre literatura!) e o publico.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

CRENTE, um conto de Romeu Jobim



Quando o conheci, já beirava os cinquenta. Morava a pouco mais de uma hora do barracão. De inteira confiança, era quem me trazia da cidade, dois dias a cavalo, por ocasião das férias, e àquele me levava de volta, chegado o período escolar.
Recordo-o bem. Ruga funda entre os olhos, dois vincos fortes no canto da boca, um mestre-escola. Os seringueiros, em geral, são homens rudes, iletrados. Fugia à regra. Após a faina diária, à luz da lamparina de querosene, não se deitava sem ler quanto lhe caísse às mãos: jornal, revista ou livro.
Além de leitor constante, seria não só o que já se denominou, à francesa, decauseur, como o que hoje se costuma chamar de comunicador. Nem terá sido por outra razão que, em certa época, quando apareceu no seringal um grupo de crentes, se tornou um de seus adeptos fervorosos, em breve ninguém o excedendo em conhecimentos bíblicos e pregação do Evangelho.
Quem o conhecia de outros tempos, no entanto, do mesmo passo que demonstrava admiração, logo expressava incredulidade quanto à extensão da metamorfose. Em moco, dizia-se, não fora homem de levar desaforo para casa, tendo mesmo, acrescentava-se, muitas mortes nas costas, o que aliás sempre negava, embora de maneira um tanto inconvincente.
É: só mesmo a idade e a crença, garantiam todos, o poderiam ter transformado naquele manso pregador, incapaz de ofender o próximo. Conheci-o pouco antes da conversão religiosa, mas, entre atear e apagar um incêndio, realmente já preferia a última alternativa. Lembra-me também que, depois de se tornar um divulgador do Evangelho, o fazia à larga, citando a Bíblia a propósito de quase tudo, o que, convenhamos, apesar da simpatia pessoal, o limitava muito em meu gosto adolescente.
Foi aí que lhe ocorreu na vida o que, noutros tempos, afirmam quantos o conheciam bem, teria dado lugar a inevitável tragédia. A mulher, que era alguns anos mais nova, mas já lhe dera vários filhos, abandonou-o, partindo em companhia de outro seringueiro, que também se comentava não ser de brincadeira. O seringal ficou em polvorosa. Em face dos antecedentes, ninguém duvidava do que ia acontecer.
O imprevisto, porém, se verificou. Não só recebeu o golpe com humildade cristã, como ainda se fez pregador mais fervoroso. Dedicou-se aos filhos e tornou-se pastor, com grande e crescente número de seguidores na Assembleia de Deus, que passou a dirigir. Não restava qualquer dúvida: transformara-se no perfeito cristão, capaz de oferecer a outra face à segunda bofetada.
Tamanha foi a tranquilidade com que resistiu à desdita conjugal que a mulher e o amante, após algum tempo, retornando às proximidades, mandaram consulta-lo sobre como os receberia, uma vez que a primeira desejava rever as crianças. de acordo com o intermediário, o convicto pastor permaneceu um instante em silêncio e em seguida, sem perder a calma ou a postura e o tom que a religião lhe dera, respondeu:
– Não há problema. Diga a ela que, quando quiser, pode visitar os filhos. Nada lhe acontecerá. Mas seu companheiro não permito que venha nem apareça em minha frente.
E arrematou:
– Por uma razão muito simples: eu me tornei crente, mas meu rifle não. E eu não respondo por ele.

JOBIM, Romeu. Boa tarde, excelência!. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1990. p.7-8
__________________
Romeu Barbosa Jobim nasceu em seringal do Acre, em 25 de fevereiro de 1927, filho de Armando de Oliveira Jobim e Francisca Barbosa Jobim. Cursou o primário e o ginásio em Rio Branco e Manaus. Depois foi para o Rio de Janeiro, fazendo o clássico e formando-se em Filosofia e Direito. Redator da Câmara dos Deputados, por concurso, em 1960, integrou a magistratura do Distrito Federal desde 1976. Lecionou, no Rio e em Brasília, Filosofia, Psicologia, História e Português. Iniciou-se nas letras aos quinze anos. Morreu no dia 30 de maio de 2015. Publicou: Justiça: Humor ForenseEm Tom MenorPássaros de Meus de meus bosquesAmanhã Cedo é PrimaveraCantos do Caminho; e Entre Crônicas e Contos.


domingo, 25 de novembro de 2018

Jesus e a Música das Esferas



Jesus e a Música das Esferas

      Éramos apenas eu, João e André, com Ele na face norte do monte Shir, defronte ao mar da Galileia. Os demais companheiros permaneceram em Tiberíades, em casa de Zebulom, colaborador judeu egresso do Ponto.
    Sobre o pico do monte, sendo fustigados por fortes ventos, Jesus convidou-nos a sentar. A seguir, abrindo o seu alforje, retirou uma flauta. De minha parte jamais a vira; quedei, como os demais, em abnegado e atônito silêncio. Levou o Rabi a flauta à boca; antes do toque entre lábio e madeira, julguei ter visto um sutil sorriso, que Ele só liberava quando prestes a externar esplendor.
    Quando a música, robusta, estabeleceu-se pelo ar, o ventou apertou. O mar lá embaixo encrespou-se, ondas passaram a estrugir contra as rochas, levantando uma fresca nuvem de gotículas que sobrescalavam até o alto da montanha, borrifando nossas faces. Permanecíamos sentados, enquanto Deus-andarilho tocava sua flauta.
    Houve um hiato na melodia; mas breve o Senhor retomou a música, agora suave e terna. O mar como que silenciou, enquanto multidões de aves marinhas passaram a sobrevoar o mirante em que estávamos, realizando sua marcha perfeita, como as Legiões de César. Absortos, éramos enlevados por seu baile, e curados pela música.
    André sorria maravilhado, tornado à infância pelo deslumbre. João conservava a expressão grave, o susto seco de quem faceara o abismo e a impossibilidade. Aproximou-se ainda mais do Senhor, como sempre fazia em momentos como este. Quando Ele novamente pausou a música, perguntou-lhe:
    — Mestre, é maravilhosa a melodia, e jamais ouvimos nada assim. Sequer já o vimos tocar; por que nos ocultou tal cousa? O Senhor poderia tocá-la para que os demais discípulos, ou mesmo todas as pessoas a ouçam? Dariam nisso mais glórias a Deus!
     O Mestre, que por João nutria perfeita ternura, sorriu.
    — Todo aquele que quiser pode ouvi-la, João; desde que criei esta Terra, a melodia jamais cessou de tocar. Ela respira quando tu respiras, e firma o chão sob teus pés, quando caminhas; ela dá crescimento às plantas e move as esferas. A tudo une e anima; leva a traz minhas ordenanças. Ela é minha Palavra criadora ininterrupta, que existe e subsiste em forma de música. Quando é preciso, como agora, ela recrudesce à forma de palavra de homem, assim como eu próprio esvaziei-me até a forma de filho do homem. Aguce teus ouvidos, ó menor de meus irmãos: Não pode ouvi-la?
   João silenciou, sustentando seu olhar de assombro, agora o dirigindo, inquiridor, para a paisagem.
    — E você, Mateus, pode ouvi-la?
    Deitei-me sobre a rocha; fechei os olhos, como quem se estende sobre a fruição, o devir. Não sentia, como João ou como quem é ferido por um aguilhão, tolhido por cadeias, necessidade de racionalizar. Aleijado na humildade de minha condição de pó, nada respondi ao Mestre - mas num repente o silêncio atmosférico, o próprio silêncio cósmico pareceu ganhar cores em meus ouvidos, numa vibração surda que ia preenchendo dimensões que eu sequer intuíra existir, e como que a tudo completava, ligando, ponto a ponto, a todas as coisas.
    Cerrando com ainda mais força os olhos inundados, sorri.


Nota ao leitor desavisado: Caro leitor, claro está que a situação aqui relatada jamais aconteceu, sendo uma perfeita ficção. Tão ficção que o palco onde transcorre a ação, um monte Shir (do hebraico, música), jamais existiu.

Sammis Reachers

sábado, 7 de julho de 2018

Felicidade Clandestina, conto de Clarice Lispector


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Do livro Felicidade Clandestina.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Sfronch, um conto de Sammis Reachers


Sfronch

O Renault Oroch ou o Troller T4 ficou com um arranhão no para-choque, um traço ínfimo que não carecia de todos aqueles palavrões. Assombroso foi o sinistro som da freada ou freadas ou impacto, um 'sfronch' altissonante e escalafobético, coisa de desenho animado, berro de Pokemon lendário.
– Veja aí então qual é a Lei que incrimina quem desrespeita a faixa preferencial, seu asno! – gritou um dos errados, eu já não sabia de qual dos veículos.
Antes que o outro errado redarguisse do pico de sua pompa e contumácia, o errado acima explodiu de contundente:
- Veja também qual é a Lei que impede as balas quando elas voam na reta da tua cara, meritíssimo – e disparou, matando ali no quente o Juiz de Segundo Grau também dito Desembargador, defunto cheio de méritos e um broche do Rotary, horizontalizados com ele no asfalto um pouco gasto naquele trecho da rodovia.

Mas o assassinato do magistocrata, a despudorada ofensa à Lei e a uma classe sua superior, esses deuses de porcelanato (pois um príncipe não atiraria contr’outro príncipe, carioca ou brâmane) - a busca da Lei-montanha-platônica ao seu ofensor-Maomé-empírico, os secos estampidos da arma monologal, nada disso rememoro. 

É o barulho daquela colisão ou freada ou freadas conurbadas, festin’lésbicas, o estranho ‘sfronch’ o que me assoma ao entendimento - sempre que vejo um carro de polícia ou de bombeiros, ou uma placa qualquer de veículo oficial, da Câmara Municipal, universidade federal ou do Hospital dos Inválidos que seja; até mesmo quando o tédio me surpreende ou repreende na fila de alguma repartição pública. Um som sinistro que sei irreplicável, arroto do caos unívoco na sonata celeste, flatulência como que alienígena.
E mais. Nas duas horas diárias que perco ou duro a chegar do município de Maricá ao centro do Rio de Janeiro, e vice versa, proletário insone esforçado em conciliar o sono, acostumei-me a imaginar ovelhas saltitando, ovelhas de documentário e desenho animado pois nunca vi uma ovelha. Mas, do incidente para cá, já não alcanço contá-las: as ovelhas são agora tenras quimeras, com patas de asno, troncos de ovelha, orelhas miúdas de ariranha, peludas caudas de homem e rostos ainda mais burgueses do que o que eu sonho ter em meus melhores sonhos. E é sempre ‘sfronch’ o som de seus balidos.

Sammis Reachers

sábado, 3 de fevereiro de 2018

LISBOA, 1494



Lisboa, 1494

Dois anos antes de 1496, dois anos antes do Rei Manuel I, bem intencionado filho comum da Idade das Trevas, expulsar os judeus de Portugal: Um sábio rabi, judeu lisboeta solitária e espontaneamente converso a Cristo, desejoso de auxiliar com sua sabedoria o avanço do Reino, ao iniciar de cada dia, assim orava a Sabaoth o Santíssimo:
- O que posso fazer hoje pelos que te servem?
E, no dia seguinte, divergia sua oração nest’outro sentido:
- O que posso fazer hoje pelos que te amam?

Pois, sem horror ou escândalo, sentimentos próprios das bestas e dos noviços, o sábio havia aprendido que nem todos que O amam O servem, e nem todos que O servem O amam. Com desprezo pelo paradoxo, o auto sacrifício perfeito de um sábio, resignava-se a soldado e cumpria o seu papel.

Sammis Reachers

domingo, 5 de novembro de 2017

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus


Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus

      Mercadejando metais e breves víveres nas plagas da Mesopotâmia, umbigo-que-não-cicatriza do mundo, gastava-se o árabe criado por judeus, órfão agregado a rebeldes, Sahhir.
      Ironicamente referido como O Devorador de Papiros ou O Perscrutador pelo rude populacho dos mercados a quem servia, em certa e ditosa feita, enveredando sozinho entre o deserto de Syn e a gloriosa Madinat as-Salam, dita Bagdá (Bag, "deus", e dād, "dado"; "dado-por-Deus", no persa médio, sexta das línguas de Sahhir), encontrou-se o curioso mercante com o Anjo do Senhor.
      Prostrando-se em terra, clamou por seu pecados.
      - Que desejas, pequeno barro, semelhança do Altíssimo?
      Sahhir, locupletado de luz e horror, não confabulou curas ou joias, palácios ou patentes:
      - Sou pó e do pó lhe adoro, Deus de meus benfeitores, e sei que morrerei por lhe contemplar. Sabes bem, ó Onisciente, que desejo, com humildade, saber e apenas saber. Conte-me, rogo, como e para quê fizeste o Universo.
      - Tais questões fogem à capacidade que lhe dei, ó enxertado, como o voar está distante de Beemoth-a-baleia. No entanto, naquilo para o que a engendrei, vês como é deveras insuperável e poderosa?

      - Sei bem que não poderei entender, Senhor; a mim me basta o ser maravilhado. 

Sammis Reachers

quinta-feira, 13 de julho de 2017

HÉRCULES, conto de Eduardo Klock Frank


A gravidez foi perfeita, sem enjoos e desejos. De parto normal, com peso e altura ideais: isto é, 3 kg e 50 centímetros. Hércules não chorou, mas sorriu ao vir ao mundo. De faces rosadas e perfeitas. Mamou durante 6 meses. Quando parou de mamar, não precisou de bico. Era uma criança tranquila, não dava trabalho algum. Até para trocar fraldas não havia problemas. Dormia nas horas certas, e não acordava na madrugada. Incrivelmente, nunca pegou gripe, resfriado, cachumba, catapora, sarampo. Nem alergia que fosse. Logo aprendeu a engatinhar, para depois caminhar. Começou falar impressionantemente cedo, aos 4 meses de idade. Quando falou pela primeira vez, formou uma frase com as palavras “família”, “carinho”, “mamãe”, “papai” e o verb amar. Usou a conjugação verbal certa.
Todos gostavam de Hércules Era uma unanimidade. Foi só entrar na creche, para fazer muitos amigos. As professoras também admiravam-se da inteligência e afeto do menino. Tratava bem a todos. Todos o amavam. As crianças brincavam e brincavam. Nenhuma reclamação havia de Hércules. Também, nunca se esfolou na creche, nem precisou ir ao hospital.
Os parentes - todos - ficavam alegres com Hércules. O presenteavam todo natal, páscoa, aniversário e dia da criança. E ele gostava de todos presentes. Nunca reclamava, e os retribuía com um largo sorriso no rosto. Aliás, a família de Hércules ficou e paz quando ele nasceu. As brigas acabaram, magicamente. Todos voltaram a se falar, e a visitar vovô e vovó quando podiam. Ninguém mais falava mal de ninguém.
Os primos… Os primos só se davam bem com Hércules. Não importava a idade. Dividiam os brinquedos uns com os outros. Corriam de um lado para o outro. Conversavam e conversavam, e sempre queriam ficar juntos. Com Hércules, todos também começaram a se comportar bem. Comiam direito, sem bagunça. Só faziam também o que os pais deixavam, e cumpriam todas as ordens.
Hércules não se intrometia em assuntos alheios, muito menos de adultos. Também, entendia tudo que lhe falavam e ensinavam. Não tinha medo do escuro, nunca fez xixi na cama. Dormia no horário, como também realizava as refeições. Comia toda comida que mamãe preparava, ou seja lá o que for. Não fazia birra, nem na sua casa, nem nas dos outros.
Seus pais até se preocuparam quando colocaram Hércules no colégio. Ele amava os colegas de creche tanto, que pensaram se suportaria ficar longe. Para sua surpresa, ou talvez nem tanto, ele se enturmou muito bem. Já tinha virado o líder da turma, e o melhor aluno. Só tirava nota máxima. A turma, na sua liderança, se amava. E todos se tratavam bem. Não se ofendiam, não faziam troça dos outros, ninguém era excluído, ninguém brigava, e nenhum palavrão era dito. Ninguém sofreu bullying.
Durante o colégio, se revelou um garoto prodígio, nos estudos, nas artes e nos esportes.  Dava aula a seus colegas; e às vezes, dava umas surpresas aos professores. Foi transferido. Com oito anos, já colecionava medalhas. Em natação, atletismo, futebol, volêi e basquete. Medalhas de ouro. Era multitalentoso nos estudos, brilhante em todas disciplinas, sejam exatas ou humanas. Aos 12 anos, já escrevera seu primeiro livro.  Aos 14, já era ator profissional. Aos 15 anos, comprovou teorias físicas, e contribuiu à sociedade com novos inventos de catalisadores químicos. Aos 18 anos, já tinha um milhão de dólares. Passou no vestibular federal para medicina, porém tirou também primeiro lugar em Direito numa faculdade privada, conseguindo bolsa. Depois de formado, decidiu fazer uma graduação em informática, e uma pós em biotecnologia. Estava fadado ao sucesso.
Ninguém invejava Hércules, todos o amavam, só fazia amigos por onde passava. Todos o convidavam para festas, e tinha que recusar inúmeros convites. Não tinha inimigos. Onde ia, as portas se abriam. Não teve decepções amorosas, também. Nunca sofreu, é claro, não teve angústias, medos, terrores, falhas ou ansiedade. Formou família, com sua esposa e dois filhos. Sua mulher era linda, simpática, inteligente, discreta e atraente. Seus filhos, tão sensacionais quanto o pai. Não teve crises conjugais, ou com seus filhos. Nenhuma briga ou problema. Nunca faltou dinheiro também. Sempre felizes.
Abriu uma ONG. Foi candidato a deputado federal e venceu; E desde então, o país se moralizou. Além do mais, era absolutamente letrado a respeito dos mais diversos assuntos religiosos, tendo diálogo pacífico com todas as crenças. Não se opunha a nenhuma, bem pelo contrário. nUnca constrangeu quem quer que fosse. Aceitava opiniões contrárias, e não forçava ninguém às suas opiniões, que todos aceitavam pacífica e favoravelmente.
Até que, enfim, chegou a crise dos quarenta anos. Hércules se angustiou, se viu e descobriu como uma ficção. Perguntava se ele delirava de si mesmo, ou os outros dele. Ou ambos. Hércules, definitivamente, não suportou. Questionou o que faltava fazer. Que história lhe restava. Seu mundo caiu, despedaçou, diante da angústia.  Se despersonalizou. Se viu, viu ser um personagem de um conto; e terminou num ponto final.

sábado, 8 de julho de 2017

MORCEGO & SINISTRO, um conto de Sammis Reachers


Morcego & Sinistro
                                                
      Não seria a Loucura, seja ela como for, genética ou casual, involuntária ou (in)voluntariamente auto-induzida, uma resposta, se não absoluta, absolutista ao Absurdo?

      Durante os anos de 1999 a 2004, eu trabalhei como cobrador de ônibus na linha 24, que fazia o trajeto do bairro Palmeiras até a praia de Gragoatá, em Niterói. O ponto final desta linha localizava-se num encontro de morros, pequenas ou medianas favelas, o que costumamos chamar de complexo.
Foram muitas as descobertas, espantos, amizades e inimizades que plantei e colhi, ou colhi mesmo sem plantar, ali.
      Mas escrevo para falar de dois moleques, melhor, dois jovens rapazes que sempre apanhavam meu ônibus para irem até a praia das Flechas, em Icaraí, ou a já referida praia de Gragoatá.
      Morcego era um daqueles que a literatura brasileira achou por bem ou por vício chamar, num de seus antigos chavões, de negro retinto. Tinha o rosto largo, e lábios grossos e vermelhos, contrastando com a pele muito negra. Um rapaz medroso, que ao contrário da maioria dos demais de sua idade, comunidade e contexto, jamais enveredaria pelo crime, apenas porque... era muito medroso. Simples assim.
      Sinistro... Sinistro era uma singularidade. Era um jovem baixo, de compleição um pouco forte, com peitoral de nadador sempre à mostra, independente do clima e das circunstâncias. Onde fosse, lá ia Sinistro, sem camisa e chinelos, apenas de bermuda ou chortão, com um sorriso indefectível nos lábios. Sim, Sinistro, invencível, sempre sorria. Era um zen, uma anomalia de paz transitando na favela, na cidade (quando aventurava-se), nas praias das Flexas e Gragoatá. Sinistro era deficiente mental, e meus nulos conhecimentos de psicologia impedem-me de referir o problema (a mim, anarco-cristão tardio, me pareceu sempre mais uma solução) que ele carregava. 
      Meu outro passageiro, o Morcego, era um refém da normalidade, um como eu e você, portador da velha cruz estacionária cujos quatro braços são a repetição, o enfado, a aceitação e o auto-engano.
      Por diversas vezes falei de Jesus para Morcego. “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
      – E se um bandido levar um tiro e na hora que tiver morrendo invocar o nome do Senhor, ele vai pro céu?
      – Se ele crer que Jesus é Deus e morreu em seu lugar, para o perdoar e salvar, ele será salvo.
      – Assim é mole.
      – A salvação é um presente, Morcego. Se fôssemos comprá-la, nenhum homem poderia pagar o preço. Ela só poderia ser dada.
      Espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

      Mas agora voltemos a Sinistro, e ao fundamento deste relato. Sinistro não era de muita conversa. Ele vinha, pedia para passar por baixo da roleta, com seu sorriso impassível. Eu sorria de volta e dizia, “vai lá, Sinistro.” Sentava-se, colocava a cara na janela e não falava mais. Na volta me esperava (pois aprendera por tentativa e erro que comigo a carona era certa), e eu perguntava:
      – Como estava a praia, Sinistro?   
      – Boa – pois sempre estava boa.
      O Louco é um privilegiado dentro do Absurdo. Saco de pancadas, lixo do panteão reverso humano, a ele é concedida a salvação direta. Incapaz de avaliar, como seria julgado? Incapaz de crer ou plenamente capaz, pois são os dois extremos do mesmo e tensionado arco, não estará justificado, como as crianças pequeninas de que é feito o reino dos céus?
      Mas o trágico tece os homens, como fiandeiro da Realidade que é. Certo dia, retornando da praia em meu ônibus, Sinistro e Morcego descansavam os corpos cheios da tão carioca lombeira, exauridos e felizes em sua silenciosa fraternidade. Ônibus vazio. No ponto próximo ao Plaza Shopping, subiram seis camaradas, cinco ‘conhecidos’ da favela e um outro que eu jamais vira, talvez do morro do Estado, que fica ali nas adjacências, quase contíguo ao luxuoso Shopping, e é dominado pela mesma Facção que o bairro das Palmeiras. Bandidos, claro. Sentaram-se espalhados pelo carro, e tudo ia bem. Mas eis o trágico levantando impudicamente suas saias: um bloqueio policial, uma blitz na Alameda São Boaventura, a menos de um quilômetro do ponto final, logo antes de entrarmos no bairro. Foi tudo muito rápido, um dos malandros percebeu o bloqueio à frente, “e a bolsa, e a bolsa?!?”, perguntou para os demais. Colocaram-na sob o banco, no chão. Os policiais sinalizaram para o motorista, o ônibus encostou. Os caras desesperaram-se, um deles pegou a bolsa e jogou para Sinistro,
      – Segura aí menor, se perguntarem diz que é seu.
       Morcego esboçou uma reação, – não, não, segura aí vocês, querem ferrar a gente?
      – Segura aí menor, se piar vai apanhar na favela!
      Morcego silenciou. Eu percebi a cena, os malandros estavam tensos, olhos esbugalhados. Eu também silenciei.
      Os policiais vieram revistando um por um. Chegaram em Sinistro. Pediram-no para abrir a mochila, ele não conseguiu, apenas ria e silenciava, aquele silêncio de Jesus frente a Pilatos. O policial falou alguns palavrões, apanhou a bolsa, abriu, uma arma e muitos papelotes.
      – Isso é seu? Isso é seu???
      Sinistro sorria. O policial deu-lhe um murro na cara. Eu não suportei,
      – Ele é especial, é maluco. – Um dos malandros, que estava em pé, olhou-me de soslaio.
      – Eles estão com você? – perguntou a Sinistro.
     Sinistro abriu a boca para falar inocentemente a verdade:
      – Eles não. Tamo só eu e ele – e apontou para Morcego.
      Morcego passou a tremer e gaguejar, – eu não eu não eu não – mas não denunciou os marginais. A polícia desconfiou de algo, levou três dos malandros e mais Sinistro e Morcego. Outros três conseguiram se safar, fingindo, claro, estarem separados. O ônibus seguiu viagem.
      Minha covardia perdeu poder, eu não me contive.
      – Vocês são muito filhos-da-####, hein, ferraram o moleque, sabendo que ele é deficiente!
      Um deles sabia que eu era crente:
      – Que isso irmão, tá nervoso? Ele é de menor, vai sair hoje mesmo.

* * *

      Não tive mais notícias de toda aquela desgraça até dois dias depois.  Dois dias que o Espírito Santo fez com que fossem longos, distendidos dias de vergonha e arrependimento. Então encontrei Morcego na padaria, ponto final do ônibus.
      – Sinistro ficou agarrado, e os três caras também. Eu consegui sair.
      – Mas Sinistro não é de menor?
      – Não, ele já tinha dezoito anos.
      Dissolvido em sua alienação, sequer tivera tempo de envelhecer: aparentava quinze anos.
      Nos dias seguintes tudo se esclareceu: os policiais não acreditaram em Morcego, mas o liberaram, pois possuía apenas dezesseis, e os marginais resolveram ‘inocentá-lo’. Sinistro não teve a mesma sorte: eles precisavam de um bode, de um bucha. Atestada sua demência, Sinistro foi transferido para o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói.
      Com uma semana que Sinistro havia sido preso, e três dias depois de transferido para o hospício, sua família foi visitá-lo. Morcego quis ir junto.
      Ao retornar, Morcego trazia transtornos e constatações em suas fragilizadas asas. Transtornos por ver o amigo, a própria encarnação da paz, ferido e sedado, transfeito de sorridente monge zen em patético e pálido zumbi. E a constatação maior, geral: era possível resgatá-lo. A segurança era baixa, nada comparado à cadeia de verdade.
      Nos dias seguintes, o covarde Morcego iniciou uma cruzada na favela. O objetivo de sua pregação: convencer o ‘dono’ do morro, Simiano, que não gostara de saber o que seus subordinados haviam feito, a resgatar Sinistro. Isso mesmo: o covarde Morcego, que temia tiros e pancadas da polícia, tinha um plano e buscava homens de verdade para realizá-lo.
      Um dia ele veio falar comigo. Falou dos sofrimentos de Sinistro. Em seus olhos de culpa, espelhei minha culpa: seu silêncio no momento capital fora também meu silêncio, sua lendária covardia não fora menor que a minha, eu, o muito crente e muito homem e muito culto cobrador do carro 110 da linha 24, que não abaixava a cabeça pra ninguém. Mentalmente eu vislumbrava o sorriso de Sinistro, eu contemplava a sua paz, e eu senti então, aos vinte e cinco anos, o que Judas sentiu depois do beijo. Eu me ofereci para tomar parte no resgate, ofereci meu braço, minha mente. “Perdoe-me, Jesus. Eu preciso desfazer a merda que eu fiz.”
      Um dia depois Morcego intimou-me: o patrão sabia que eu desejava tomar parte na empreitada, e ‘mandava’ que eu fosse ao morro, após largar do serviço. Trabalhava no turno da tarde, das 12:00 às 19:00. Às 20:00, estava no alto do morro, onde nunca havia subido. A mãe de Sinistro também estava lá. Tive estranhas sensações, não sabia se orava ou se me rebelava, mesmo que numa micro-rebelião, tentando inútil e miseravelmente deixar Deus ‘de fora’ daquilo.
      No dia seguinte, Sammis, o branco com cara de bobo ou de cidadão respeitável iria ao hospício, avaliar o cenário. Quem suspeitaria?

* * *

      No dia da ação, todos iriam armados. Ainda segundo o plano traçado no alto do morro, utilizaríamos três carros (certamente roubados; eu já não queria saber ou me informar, como se minha falseada inocência fosse diminuir-me a pena na contagem de meus pecados). O teatro da ação seria uma das áreas mais nobres de Niterói. O próprio hospício ficava defronte ao mar. Localizado no bairro de Charitas, ladeado pelos bairros de São Francisco, de um lado, e Jurujuba do outro, que é um bairro sem saída, estendido sobre o mar em forma de istmo. Fugiríamos então via São Francisco. Faríamos uma troca de veículos dentro do túnel Raúl Veiga, que por sua vez liga o bairro de São Francisco a Icaraí, por onde se daria nossa fuga em direção ao bairro das Palmeiras.
A ideia da troca de veículo foi minha, era fácil fechar o túnel ou armar barreiras do outro lado, em caso de alguém alertar a polícia. E do outro lado do túnel, a míseros quatrocentos metros, estava exatamente a 77º DP. Próximo ao Hospício ficava a 79º DP. A realizar-se o pior, teríamos um terrível cenário, digno daqueles ridículos filmes de ação americanos e suas batalhas assimétricas, de um contra cem, um contra mil, pois seriam muitos policiais mobilizados em curto espaço de tempo. Só que, ao contrário dos filmes, ali as balas seriam letais, fundidas no rude metal da realidade, e a garra do destino estaria em nossos pescoços. Satanás sorria enquanto varria o salão para o grande baile, feliz em saber da presença de um convidado especial, um ‘crente’ se não desviado de direito, já desviado de fato. Ou já prestes.

      No dia decidido eu e mais dois rapazes da boca entramos no hospício, a título de levar uma doação para os internos. Eu e minhas malditas ideias. Não era hora de visitações, mas a mãe de Sinistro já estava lá: a estória era que ela estava com câncer, com prognóstico de poucos meses de vida, e precisava ver o filho antes de uma cirurgia arriscada. Sim, eu tinha imaginação. Ela se encarregaria de levá-lo para fora do edifício, para o pátio, onde conversaria com ele. Nós simplesmente renderíamos os dois guardas do portão, e faríamos a extração do paciente, para a van que aguardava do lado de fora. Morcego estava no calçadão da praia, quase em frente à 79º DP, para vigiar a movimentação policial. Jô, um dos enviados de Simiano, estava próximo à 77º DP, onde aguardava o momento de fechar com um carro a estreita rua Dr. Carlos Halfeld, que fica ao lado da 77º, dificultando assim o acesso dos policiais à Rua Roberto Silveira, por onde dar-se-ia nossa fuga. Os policiais não seriam impedidos, mas ao menos atrasados. Embora a rua fosse tão próxima que poderiam simplesmente ir a pé. Mas a ideia era atrasar seus veículos, em caso de perseguição.

      Como já referi, Sinistro só andava sem camisa. Sol quente ou dia frio, lá ia ele, de peito nu impávido como um andorinhão. No hospício foi obrigado a andar no padrão, uniforme de bermuda longa e uma camisa verde de grosso tecido.
      Ao ganharmos a rua, a primeira coisa que ele fez (acreditei que só então entendendo e assimilando a libertação em processo), foi arrancar a camisa. Como um Adão que, em sublime transcendência, tornasse à inocência, ao estado de luminoso torpor que é a graça.
      De acordo com a cosmovisão de cada homem, ou a corcunda que cada um traz no entendimento, ele poderia ser visto como um deficiente, um sub-humano, um indivíduo sempre carente de cuidados; para outros entendimentos, dissonantes do massivo coro, era um super-cara, um liberto sem luta e sem trauma, um pacificado, ou numa melhor palavra, um transcendente. Li livros demais em minha vida; se não pudesse reconhecer um transcendente, e se não estivesse apto para reconhecer uma causa, um motivo, um sentido, não seria um cristão.

      Quando prestes a entrarmos na van, os tiros caíram sobre nós. Um dos caras da boca, que segurava aberta a porta para que entrássemos no veículo, foi o primeiro alvejado. Os tiros vinham de dentro do hospício: algum segurança interno miseravelmente percebera a ação. Talvez passasse próximo à portaria no momento. O outro rapaz sacou a arma e começou a disparar. Um carro da polícia vinha trafegando em direção aonde fugiríamos; ouviram o som dos disparos. Ligaram a sirene. Do outro lado da rua, na calçada do canteiro central, em posição à boa distância por trás da viatura, Morcego sacou a pistola com que nunca atirara e começou a disparar contra o veículo. O outro rapaz da boca disparava contra o segurança do hospício, enquanto eu me dividia entre colocar o rapaz ferido dentro da van e tentar impedir o que atirava, pois havia diversas pessoas no pátio. Ao perceber que, mesmo à distância, a polícia começara a disparar, o terceiro elemento, ao volante da van, simplesmente acelerou e partiu com o veículo. Cão. O segurança do hospício parou de disparar, seu 38 deve ter ficado sem balas. A viatura, agora parada há alguns metros na estrada, disparava contra Morcego e contra nós. Morcego, atingido, largou a pistola, atravessando a rua e correndo em direção à praia.
      Sinistro, que até então ficara estático, sem entender a violência célere dos acontecimentos, ao ouvir o grito de seu amigo e vê-lo fugindo, correu atrás dele. Foi somente então que saquei a arma que me fora emprestada no morro. Disparei contra os policiais da viatura, para cobrir a fuga de Morcego e Sinistro em direção ao mar. Estávamos em campo aberto, o rapaz que ficara comigo gritava:
      – Babou, babou irmão, a casa caiu, vombora!
      Correu em direção contrária, me deixando só, como um dos alvos dos disparos da polícia, que fazia fogo também contra as costas de dois anjos de pó que fugiam sem saber de que, sem saber para onde.
      É assustador, e se Deus não estava ali, foi a pura eficácia do mal: atingi dois dos três policiais, enquanto o terceiro ficou em posição inalcançável, atrás da viatura. Com o tiroteio, o trânsito nas duas mãos da via havia parado, mas outra viatura se aproximava, dessa vez da Polícia Civil, avançando dividida entre a calçada e o acostamento. Quem mandou bolar um resgate a quinhentos metros de uma delegacia? Corri em direção à outra mão, em direção ao mar. Outros policiais, esses militares, vinham já correndo pelo calçadão em direção a Morcego e Sinistro, que entraram na água. Os policiais dispararam. Disparei contra eles, a 14ª e última bala da pistola se foi sem encontrar carne alguma. Não havia carregador sobressalente, não pensamos que seria necessário. Atiraram contra mim, abaixei-me, levantei as mãos, estava cercado pelos dois lados.
      Pude ver quando um deles, disparando sem parar, atingiu Sinistro, pois ele imediatamente afundou. Morcego, ferido no ombro, já havia sumido no mar calmo da praia de Charitas.

      Depois de receber o soco na cara e os chutes, fui colocado numa viatura, a mesma que ajudara a perfurar com minhas balas, balas certeiras demais para um amador.  Atingira um na mão, e ele agora, em pé ao lado da viatura, me olhava com olhos prenhes de ódio; o outro estava vivo, mas estendido no chão.
      Suado, sozinho, ferido e empapado pelo sangue que meu nariz vertia, como Bonhoeffer conspirando para matar Hitler, fiz-me a pergunta retórica fundamental, por isso talvez não-retórica: os fins justificam os meios? Não, a não ser que seja pelo bem supremo. E a Redenção é o fim, o bem supremo, a equalização do caos.
Sinistro alcançou o fim pelo qual tudo no Universo digladia-se, de quarks até galáxias, passando pelo Homem de pó: Redenção. Pois redenção é o amor em ação, é a sua perfeita práxis.

      Adeus, Sinistro. Primeiramente teu é o Reino dos céus.

      Confúcio diz que virtude é realização. Amigos até a morte, que, impotente para separá-los, uniu-os, ambos afogaram-se na virtude, realizaram-se.

      De Morcego, espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

* * *


      Hoje estou preso na carceragem da 76º DP, em Neves, São Gonçalo. Há irmãos aqui, fazemos cultos, dou aulas de rudimentos de teologia, filosofia, história, repasso o que acumulei.
      Outro dia um dos irmãos, Aloísio, viu-me rabiscando algo na página de guarda de um livro. É um homem humilde, mas entendeu que tratava-se de uma rota, um plano. Depois, durante o banho de sol ele se aproximou e bastante sem jeito me perguntou se eu iria fugir.
      - Lutei para desfazer uma injustiça, que os homens e as circunstâncias jamais desfariam a tempo; não tenho parte com leis injustas. Se há um maquinário, um sistema disposto a oprimir, de minha parte estou disposto a resistir-lhe, a ir contra a chibata. Sim, pretendo sair daqui.
      Estávamos sentados no chão, de cabeças baixas, recostados numa parede cuja umidade o calor do sol, com toda a sua inclemência e seu chicotear, era impotente para eliminar. Aloísio abaixou ainda mais a cabeça, entre escandalizado e confuso.      Observando o espanto incrédulo por trás de sua face humilde, um flash obscuro me fez pensar se eu estaria ensandecido. Mas, espasmo de luz que era, desfez-se.   

      Ficamos em silêncio; ele ruminaria as informações que se contradiziam em sua cosmovisão, sua corcunda. Agora era ele e Deus. Não sei qual foi seu crime, em quais linhas do destino ele embaraçou-se ou foi embaraçado. Mas se for inocente, o levarei comigo na fuga. Deus proverá.

De O Pequeno Livro dos Mortos (Ed. Letras e Versos, 2015). Para adquirir seu exemplar, escreva para: sreachers@gmail.com

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