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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crepúsculo dos Deuses: Ragnarök


Um Dia feito da escuridão
de todos os dias
o Dia em que Odin-o-exaurido
será devorado pelo lobo Fenris,
Thor-do-trovão tombará sobre o cadáver
da serpente-sem-fim, Iormungand


Você é um dos homens
eleitos pelo deus, guerreiro?
Afie pois os dois caminhos de sua espada,
as duas asas de seu machado firme
e caia como vaga sobre o conflito:
será tudo em vão,
pois ao fim e ao cabo
como a Ordem venceria o Caos?

Mas você terá combatido,
você terá deveras combatido
e não foi afinal para isso e para este Dia,
ó boneco de pó predestinado,
que o pai Odin criou os homens?


Sammis Reachers

sábado, 18 de agosto de 2012

O Brasil na Segunda Guerra Mundial: 3 poemas épicos de Mário Barreto França



"TRÊS HERÓIS BRASILEIROS"

(Depois da tomada de Monte Castelo, quando o Pelotão de Sepultamento chegou à  região de Montese, encontrou num terreno abandonado pelos alemães uma singela cruz, sobre a qual, em idioma alemão, havia esta tosca inscrição: "Três heróis brasileiros". Verificou-se, depois, tratar-se dos soldados  Geraldo Baêta, Arlindo Lúcio e Geraldo Rodrigues do 11º R.I.")

O dia amanhecera há muito tempo; entanto
a imensa cerração, como se fora um manto,
grande e espesso , escondia o côncavo do céu;
Daquele céu tão frio e cheio de escarcéu,
que despejava a morte, o sobressalto e as dores
dos bojos de metal dos bélicos condores...

A pequena patrulha estacou um momento,
envolta na neblina; o heroico Regimento,
do qual fazia parte, aguardava a mensagem
sobre o inimigo audaz, para forçar passagem
nas linhas de Montese...
Era pois necessário
seguir, a qualquer preço, o ousado itinerário.

A pequena patrulha era de três soldados:
Geraldo, Arlindo e Baêta, unidos e irmanados
no mesmo sacrifício e no mesmo ideal
de dar um lenitivo à angústia universal.
Lutando sem quartel pela igualdade humana,
legando a liberdade à pátria soberana...



Estava quase finda a missão recebida,
quando surgiu galharda, ao cimo da subida
da encosta de Montese, uma tropa alemã,
que os ordenou parar...
Já o sol da manhã,
doirava o verde-escuro e fosco da folhagem,
dando um ar pitoresco à itálica paisagem.

Como se fossem um, intrépidos, ligeiros,
os três jovens heróis soldados brasileiros,
lançaram-se ao terreno e abriram fogo forte,
na luta desigual para a vitória ou morte...

-"Fogo!Fogo! (Gritou Arlindo aos companheiros),
eles hão de saber que somos brasileiros!
Enquanto houver cartucho aqui no meu fuzil,
haverei de lutar em nome do Brasil!"
E Geraldo, ao Baêta: "Aguenta o fogo, amigo,
senão iremos cair nas mãos desse inimigo,
que não nos poupará! Fogo! Fogo!"
Foi quando
refeita da surpresa e melhor manejando
seus rápidos fuzis, a tropa adversária,
com brio se engajou na luta sanguinária...

Geraldo fustigou pelo flanco direito,
Baêta e Arlindo à esquerda; e de tal forma e jeito,
que pareciam cem, que pareciam mil,
na defesa incomum das cores do Brasil.
Quando, porém, findou a munição, Baêta
gritou: - "Agora o assalto! Avante, a baioneta!"

Como se fossem um, novamente eles três,
ergueram-se do chão pela última vêz;
e avançaram bradando - "Abaixo a tirania!
Viva, viva o Brasil! Viva a Democracia!

E, naquele avançar heróico, se escutaram
três rajadas, três ais, três corpos que tombaram.
Num rasgo de bravura e em protesto viril,
à cobarde agressão aos foros do Brasil.
Quando foram à pique em águas nacionais,
navios sem defesa e em rotas comerciais;
levando ao fundo mar centenas de crianças,
de irmãos, de mães e pais, formosas esperanças
que a Pátria alimentava em prêmio de seguro,
ao dia de amanhã, à glória do futuro...

Depois, sobre a colina o silêncio se fêz...
Três corpos sobre o chão... E eram cem contra três...
Mais vida e munição tivessem, lutariam,
pois à força maior, jamais se renderiam!...

Ó página de glória, o gesto sobranceiro,
da história militar da F.E.B. no estrangeiro!
Foste escrita com sangue em terras tão distantes,
mas o exemplo deixado aos pósteros ovantes,
há de frutificar como um loiro trigal,
para a manutenção da honra nacional!

E o silêncio se fez... O comando alemão
da trincheira se ergueu, de binóculo à mão
observou a encosta, o céu, a redondeza.
Os três corpos no chão... e notou com surpresa,
que o heroico inimigo, orçado em cem ou mil,
eram somente três soldados do Brasil.

Sugeriram-lhe, então, em justa represália,
as baixas que sofreu na campanha da Itália,
deixar presa  a cada um cadáver brasileiro,
uma mina explosiva... Assim, quando o primeiro
pelotão os viesse erguer pra sepultar,
com eles, na explosão, voaria pelo ar.

Porém, o comandante, um jovem capitão,
honrando as tradições do Exercito Alemão,
respondeu-lhes, dizendo: - "O valor do soldado,
em qualquer condição, deve ser respeitado;
Eles foram heróis e, por sua bravura,
como os nossos, terão condigna sepultura!"

Foi feita a cova rasa, e os heróis soldados,
como se fossem um, ficaram sepultados,
enquanto em continência, a tropa se postava,
e o toque de silêncio os homenageava.
Então, como epitáfio, em idioma alemão,
foi feita, a tinta preta, esta tôsca inscrição
sobre a singela cruz:
-"Três heróis brasileiros!"
E eram de outros heróis, louvores verdadeiros!

*  * * * * * *

E quando, à tarde, o céu se avermelhou no poente,
frouxo raio de sol veio, serenamente,
num beijo singular de  amor e despedida,
trazer o último-adeus da Pátria agradecida,
que os consagrava, assim, soldados verdadeiros:
Três glórias nacionais! Três heróis brasileiros!



"O HERÓI DE ABETAIA"

(Ao Regimento Sampaio e ao heroísmo do Sargento
Luiz Rodrigues Filho e do Capelão João Soren.)

...E a notícia correu, levando esse desfecho:
- "O Brasil declarou-se em guerra contra o Eixo!..."

O Sargento Luiz ouvia o rádio em casa;
E diante dessa nova, o coração lhe abrasa:
Pensou no Baipendi e nos outros navios,
afundados de noite, em meio aos desafios,
dos agressores vis, cobardes, desalmados,
que metralhavam rindo os botes apinhados,
de desvairadas mães, de filhos que choravam
e de esposas que ainda as ondas perscrutavam.
- Quem sabe? - para enviar um vislumbre de paz
aqueles que  - talvez - não voltariam mais...

E, cônscio do dever que a disciplina exige,
farda-se incontinente e ao quartel se dirige,
para se apresentar e ter o seu fuzil
com que defenderia a honra do Brasil...

Alguns meses depois, com a gloriosa F.E.B,
nalgum porto da Itália, ele também recebe,
de outros povos irmãos, a homenagem primeira
ao canto do hino pátrio, em frente da bandeira...
Nesse instante febril sua alma se extasia,
na ânsia de defender essa democracia,
que, em nome da justiça, acena para o mundo,
prometendo um futuro esplêndido e fecundo.
Onde o Direito e o Bem, irmanados no Amor,
fazem da vida um céu de primavera em flor...

Certo dia foi dada uma ordem ao Regimento
Sampaio, de avançar...
E a missão do Sargento
Luiz era envolver, pelo flanco, Abetaia.
- Um lugarejo que servia de atalaia,
ao exército alemão, que no Monte Castelo,
aguardava o sinal para o combate... -
Belo
e forte, ele dispôs seu grupo para o ataque,
dizendo - "Cada qual se bata com destaque,
procurando elevar bem alto a nossa terra,
defendendo as razões que trouxeram à guerra,
as forças do Brasil! Que cada um se convença
que o mundo de amanhã lavrará a sentença
de morte ou de perdão pelos feitos de agora,
que  hão de servir de marco à inolvidável hora
desta época que tem como escopo a Verdade.
- Suprema aspiração de toda a humanidade!"

E a luta começou. O sibilar das balas,
as chamas a rolar pelos bordos das valas.
Morteiros explodindo e canhões ribombando,
bombardeiros do céu granadas despejando.
E gritos, e explosões, e pragas e gemidos,
e os horrores da morte e o sangue dos feridos.
Tudo se misturava em delírio profundo,
sob o luto da noite, amortalhando o mundo...

O heróico grupo avança... Está  quase cumprida
difícil missão por ele recebida...
Já são poucos, então...

Calaram-se os canhões...
O inimigo abandona as suas posições...
É o assalto final...
O inimigo recua...
Mas... sobre o chão da Itália, à frouxa luz da lua,
os corpos dos heróis, frios ensanguentados,
marcavam, nesse instante, os traços mais sagrados,
que haveriam de unir a família remida
no monumento ideal da Pátria agradecida...

Algum tempo depois, na piedosa missão
de mortos recolher, um jovem capelão,
entre outros corpos, acha o do Sargento Luiz,
sobraçando a sua arma...
E um sorriso feliz,
nos lábios esboçado, era o argumento forte
que ele entrara no céu pelos umbrais da morte...

Um projétil lhe houvera atravessado o peito;
Mas não morrera logo... achara ainda um jeito,
de tirar do seu bolso um Novo Testamento
com Saltério... e sentir ali, nesse momento,
o desejo de ler, pela última vêz,
como se fora seu, o Salmo vinte e três:

- "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará!
Deita-me em verde pasto e guia-me onde há
água tranquila e sã! Refrigera a minha alma!
Dirige-me à vereda esplendorosa e calma
da justiça e do amor! E ainda que ande sem norte
pelo vale da sombra esquálida  da morte,
não temo mal algum, pois tu estás comigo.
Teu cajado me guia e livra do perigo;
tua voz me consola; a tua unção me anima;
o meu cálice transborda; a minha alma sublima.
Na esperança e na fé! Certo, tua bondade,
tua misericórdia e tua caridade
seguir-me-hão, pra sempre, entre paz e alegrias;
e habitarei, Senhor, contigo longos dias!..."

E não lera mais nada...
A cabeça reclina
sobre o Saltério aberto...
E, na graça divina,
como um justo, perdoando, em paz adormeceu,
e como herói, honrando o seu país, morreu...

* * * * * *

Hoje no cemitério humilde de Pistóia.
- Pedaço do Brasil engastado na joia.
De uma saudade eterna - em chão da Itália, a lousa,
com um número qualquer, indica onde repousa,
a sombra do auri-verde estandarte, um sargento,
que, morrendo, exaltou seu nobre Regimento.
Porque soube atender, com presteza e valor,
ao chamado da Pátria e à voz do Bom Pastor!

- - - - -

  Icaraí - 1947



Último Combate

- “O combate será a uma hora da tarde!”
Foi a voz que se ouviu, como horrível alarde,
Ao longo da trincheira... E o dia era tão lindo!...

- Como é belo morrer quando se vai sorrindo
Para a luta cruel, numa manhã como esta,
Toda cheia de luz, toda cheia de festa!...

(Era um belo rapaz que me falava.)

- Escuta,
(Perguntei-lhe) não tens receio desta luta?
Ele não respondeu, porém, sentidamente,
Cantou ao violão uma canção pungente...
E me disse, depois, com olhos rasos dágua:
- Não! Eu não temo a morte! O que me causa mágoa
É me sentir tão longe, é me ver tão sozinho
E não voltar jamais ao calor do meu ninho,
Onde, entre beijos bons de minha doce esposa,
Meu filhinho me espera, e, esperando, repousa...
Quando eu vim para cá, beijando-me, ele disse
Uma frase qualquer, uma linda tolice...
Mas, depois, enxugando uma lagrimazinha,
Deu-me um livro, dizendo: “É uma lembrança minha,
Papai! Quando o senhor estiver em perigo,
Leia este livro, ouviu?! Jesus é nosso amigo!
E o senhor não será mais sozinho nem triste,
Porquanto onde Ele está tudo o que é bom existe!”
E ele continuou a cantar. Que tristeza
Começava a pesar em toda a natureza!...
E eu fiquei a invejar sua alma comovida,
Porque era triste só no deserto da vida...

A chuva começara a cair lenta e fina...
Como interrogação fatídica, a colina
Mostrou-se ao nosso olhar, cheio de nostalgia,
Perversamente verde e tristemente fria.
... ... ... ... ... ... ... ...

A luta começou terrível. A metralha
Ia levando a morte ao campo de batalha.
Gritos, imprecações e vozes de comando
Juntavam-se no espaço escuro e formidando...

Pungente agonizar de uma tarde cinzenta,
Tarde que quis ser linda e que foi tão cruenta!...

Quando a noite caiu, negra e fria, tornou-se
Mais bárbaro o combate. Era como se fosse
Rude destruição de uma cidade antiga
Pelo ódio figadal da vingança inimiga.

Quando a manhã raiou, o combate findara,
Mas era horrível ver tudo o que se passara...
Espraiei meu olhar pelo campo assolado,
E o pranto me feriu o coração magoado:
É que aquele soldado, inda tão moço e alheio
A essas contradições do Destino, encontrei-o,
Ensangüentado, assim, de bruços na trincheira,
Prendendo ao coração, numa ânsia derradeira,
Da esposa e do filhinho, um retrato cinzento,
Colado à capa azul de um Novo Testamento.

Do livro Primícias da minha Seara
_________________________________

Com a colaboração da poeta Pérrima de Mores Cláudio


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quarta-feira, 7 de março de 2012

Século VII a.C.: Um poema de Alceu


A Espada e o Poeta

Eu coroarei de mirto a minha espada, 
Como a de Harmódio honrada, 
E como a de Aristógiton, o forte, 
Quando ao sevo tirano deram morte, 
E Atenas libertada 
Foi à igualdade antiga restaurada.

Tu não morreste, Harmódio, oh não!tu gozas 
Nessas ilhas ditosas 
Serena vida cos heróis que aí moram, 
E onde, cremos, demoram 
Diomedes, o valente, 
E Aquiles, o veloz, eternamente.

De mirto a minha espada 
Trarei como Aristógiton c'roada, 
E como Harmódio, o forte, 
Que à vingança reserva, 
Quando, nos sacrifícios de Minerva, 
Ao tirano Hiparco deram morte.

Em prezada memória 
Viverá para sempre, eternamente, 
Harmódio, a tua glória, 
E a tua, Aristógiton valente, 
Que o tirano matastes 
E à liberta cidade 
O usurpado direito restaurastes 
Da primeira igualdade.

Alceu (poeta e político grego do séc. VII A.C.)
Tradução de Almeida Garret
in O Livro de Ouro da Poesia Universal - Org. Ary de Mesquita  (1988, Ediouro)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Da Poesia Épica: Epopéias resgatadas por brasileiros


O livro Avatares da epopéia na poesia brasileira do final do século XX (2009), escrito pelo pernambucano Saulo Neiva, é um salto na direção de resgatar um estilo poético quase em desuso: a EpopéiaEpos, em grego significa recitação, e o gênero epopéia refere-se a uma narrativa em versos longos, eloquentes, solenes, em que o narrador conta os grandes feitos de um indivíduo, ou de um povo, ou mesmo de uma época. As grandes epopéias, as mais conhecidas, eternizaram lendas e mitos, como “Odisséia”, de Homero, ou A Eneida do poeta romano Virgilio, ou mesmo a obra-prima de Dante Alighieri, A Divina Comédia. A temática das epopéias, em geral, é universal e nela se busca a exaltação, a bravura, o humanismo de uma raça ou de uma civilização, expandindo no imaginário do leitor os atos heróicos de um grande personagem ou de uma sociedade, como ocorreu com a mais conhecida das epopéias em língua portuguesa, Os Lusíadas, de Camões.
Saulo Neiva nasceu em Recife, mas foi para a França estudar e pesquisar. É doutor e livre-docente da Universidade de Paris (Sorbonne) e professor da Université Blaise-Pascal, onde dirige a equipe de pesquisa Écritures et Interactions Sociales. Além disso, coordena com Alain Montandon o projeto do “Dictionnaire raisonné de la caducité des genres littéraires” (dicionário da caducidade dos gêneros literários), que brevemente será publicado na Suíça. Em “Avatares da epopéia na poesia brasileira” Neiva estuda o processo de reabilitação da epopéia na poesia brasileira do século XX. O gênero foi considerado por muitos autores do século XIX uma forma poética antiquada, ou ultrapassada, em extinção, visão também partilhada por vários grandes autores dessa época, como Hegel, Edgar Allan Poe, Victor Hugo e José de Alencar.“Com esse trabalho, eu tento mostrar que a poesia épica, que conta grandes histórias ou faz reflexões sobre a humanidade, continua tão viva quanto a poesia lírica”, explica Neiva. Ainda de acordo com o autor, embora a epopéia pareça incompatível com a estética moderna, inúmeros foram os longos poemas narrativos compostos, em diferentes línguas, durante o século XX, sendo que eles possuem “laços estreitos, explícitos e conscientes com a tradição épica ocidental, inclusive na literatura brasileira”.
Continue lendo:
Em entrevista a jornalista Geórgia Alves, especialista em literatura brasileira, para o portal literário Interpoética, Neiva explicou porque no livro escolheu se concentrar nas obras de quatro autores brasileiros específicos (Carlos NejarMarcus AcciolyGerardo de Mello Mourão Haroldo de Campos). “Nesse tipo de trabalho, houve vários critérios que se cruzaram para essa escolha. Tanto os limites cronológicos dos poemas estudados, publicados entre 1977 e 2000, como a tentativa de encontrar vozes oriundas de diferentes regiões e aparentemente díspares… Quando relemos as obras deles, na perspectiva da reabilitação da poesia épica, com as ferramentas que tenho tentado forjar, percebemos o quanto, apesar de tantas diferenças, eles se inscrevem na mesma tendência e, principalmente, percebemos que a leitura dos seus poemas ganha muito, quando é feita nessa perspectiva, sem por isso perder de vista o que é específico a cada obra… Outro critério mais subjetivo é, por exemplo, o valor da obra, a de Marcus Accioly, não é reconhecida como deveria, a de Mello Mourão é negligenciada… os laços de Haroldo de Campos com a poesia épica são uma pista que pode ser ainda mais explorada do que foi até agora. No caso de Nejar, acho que o livro “Um país o coração” merece ser relido, por ter momentos extremamente fortes”.
Neiva tem escrito vários artigos e apresentado conferências sobre o tema na França, em Portugal, no Canadá e no Brasil. Quando escreve, trabalha freneticamente, às vezes acordando as 4h30 da manhã para escrever, deixando a escrita invadir e comandar seu cotidiano. Divide sua vida entre a França e o Brasil, mas não descarta viver em outros lugares. Estudioso, disciplinado, atento e fascinado por seu trabalho, Neiva confessa que tem uma gratidão imensa para com o poeta e ensaísta francês Michel de Montaigne(1533 – 1592), com quem aprendeu a ser fiel às suas intuições intelectuais. “Gosto de abri-lo ao acaso, como as pessoas fazem com o I Ching, e relendo um dos Ensaios, sempre encontro motivos para me encantar e rever as coisas do mundo de outro jeito”
Outra obra que pode nos ajudar a entender o desenvolvimento desse gênero na literatura brasileira é História da Epopéia Brasileira (2007), de Anazildo Vasconcelos da Silva e Christina Bielinski Ramalho(ambos Mestres e Doutores em Letras), que da mesma forma pretendem, a partir do resgate teórico do gênero, realizar uma (re)leitura dos poemas longos do passado e da atualidade, promovendo uma nova compreensão dessas obras no contexto da produção literária brasileira. Entre outras obras, os autores analisam a estrutura épica de O caçador de esmeraldas de Olavo Bilac. Para Anazildo e Christina, além das motivações particulares de cada um de nós em relação ao gênero, é indispensável no âmbito da historiografia literária brasileira ter um olhar mais especifico para as epopéias brasileiras, de forma a resgatar produções jamais reunidas, tratando-as como um “acervo épico” e uma “contemplação antenada com as marcas do épico em tempos de globalização e fragmentação das identidades culturais”.
Para muitos a epopéia teria sido substituída como forma narrativa pelo romance, sendo que a poesia teria se voltado mais ao acento lírico de formas mais breves, se adequando ao gosto dos leitores “modernos”, que desconfiam dos valores épicos tradicionais. Outros, como Saulo Neiva, estimulam a reabilitação do interesse do leitor pelo gênero, propondo novas “tintas”, novos caminhos, certos de que toda transmissão implica necessariamente em transformação, sendo esta última o caminho inevitável para qualquer forma narrativa. Nas palavras do próprio Neiva: “A epopéia, longe de ser incompatível com a condição moderna, revela-se de fato ser uma reação – muito “moderna”, aliás – de rejeição ao prosaísmo ligado a essa mesma condição”.
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