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domingo, 3 de outubro de 2021

300 Frases para o Dia da Batalha: Uma antologia de citações inspiradoras

De uma batalha campal à luta por uma promoção ou um novo emprego; de uma situação perigosa em que as circunstâncias o lançaram à solicitação, à pessoa amada, de um primeiro beijo, cada um sabe – ou logo descobrirá – quais são as batalhas de sua vida. Desafiados somos todos os dias, por situações procuradas ou inesperadas, e necessário é que nos mostremos fortes diante dos desafios e adversidades.

Aqui, neste breve volume, reunimos uma poderosa coleção de frases de inspiração e sabedoria, que falam sobre coragem e heroísmo, prudência e resiliência, estratégia, ousadia e iniciativa para enfrentarmos o dia da batalha.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

A ILHA, um conto de Sammis Reachers

 



A Ilha

 

Depois de apenas três meses esqueci o meu nome. Não me ocorreu escrevê-lo: Estava ocupado, sobrevivendo.

Os anos não podia esquecê-los, pois há comigo um Patek, relógio que roubei sob certo sol, em certo mês de primavera, em alguma cidade do subcontinente que fora um dia chamado América do Sul – e este, sabe-se lá o porquê, é dos poucos dias de que recordo.

 

Estronda e tomba o tempo,

luz lilás,

obscuro óbito,

carretel de coisículas enrodilhadas em escaravelhos.

estrondestranhoastro brilha e berra no sobrehorizonte

Eu, Gregor Samsa, Heinrich Faust,

Rodion Românovitch Raskólnikov, Leopold Bloom

estelionatário confesso-me:

degredem-me.

 

 

Nesta ilha em que me acoitei, amontoei-me de lacunas: Além do comprometimento do sistema respiratório, o vírus tinha um outro efeito, não colateral, mas secundário e utilitariamente sádico: Apagar memórias.

Exempli gratia: Não sei mais como cheguei aqui. Lembro de cenas numa lancha, e isso finda o memorial.

Nesta pequena ilha encontrei uma imensa casa e oito cadáveres espargidos em sua estrutura. A ausência de ferimentos pode indicar que foram mortos pelo vírus. Avento hipóteses; era eu o dono do lugar? Um funcionário? Um amigo, parente do proprietário? Tudo que tenho é o estar-aqui, tudo que sei foi que aqui cheguei.

Na pequena biblioteca, livros em diversas línguas. Na única que conheço ou penso conhecer, uma coleção dita “Clássicos da Literatura”. Suas páginas sedimentaram-se como minhas únicas companhias, aqueles poucos livros em capa vermelha, seus personagens, suas personas. Suas biografias e transenlaces na vida passaram a ser os meus, eu o desmemoriado, eu o de pulmão fulminado por um vírus que não me lembro onde peguei e que deveria ter me matado, mas não matou (sei apenas que uma guerra grande mastigou as coisas humanas, todos contra todos).

 

 

Já nascemos com a turbada gravidade

de sobreviventes de um naufrágio

raça desmemoriada

quimiocontrita no corpo de um,

tênue tempestade nas folhas,

vírus multicelular em busca de não sei

 

Sparrings sem rosto no ringue do Tempo

tentando encaixar um soco

encaixar um soco no Tempo sem rosto

 

Há algum tempo me ocorrem poemas. Era poeta? Não sei. Mas acredito que não. Tanto que quando escrevo, nem me sinto: É como uma possessão. Será então a poesia, ou a atividade poética, uma demência das faculdades cerebrais?

Lá fora houve uma guerra, uma guerra de finalmente acabar com tudo. Meus frangalhos, a ilha, o lixo feito de destroços que o mar traz, dão conta do que não lembro e no entanto sei que aconteceu.

 

Lá fora:

Lá na imbricação dos mesmerizados

lá onde o progresso deflorou as virgens esfaimadas

que se lhe apresentaram;

progresso, demônio que aluiu os homens

lá fora

em seus estratos, no que voa no espirro

 

 

O barco que me trouxe jaz sem combustível; os geradores à diesel da ilha morrem da mesma sede. As frutas que como, as pequenas aves e répteis, talvez suportem meu pequeno consumo, mas e daí? Eles virão? E quem são eles, e quem sou eu? Como temer um passado que ignoro? O esquecimento, falsa liberdade ou paz provisória, me trai: Lembro ter roubado um relógio. Fui ladrão? Antes ou depois da ruína do mundo, dos mundos? Talvez tenha roubado por fome, talvez por vingança.

Alguém lá no além da ilha, ou no tudo dito além de mim (pois sem um nome, entendi finalmente o estigma que nos conforma, e contra o qual relutamos com a arma que pudemos, adaga cega que resolvemos chamar História: se sou um homem, tudo é além), deflagrou uma guerra universal, e ele talvez ainda esteja lá, e ele talvez ainda me encontre. Ou já me tenha encontrado e esquecido, nesta ilha-mausoléu, neste Alzheimer biodeflagrado por um vírus genocida.

Escrevo palavras na areia, ou poemas, essa forma primitiva de civilização das palavras, e cismo: Talvez não tenha existido uma Segunda Guerra Mundial, ou uma Primeira. Sequer os morticínios, enquanto eventos isolados, de Ruanda ou do Kosovo. Talvez seja tudo uma única e ininterrupta guerra, da morte de Abel ao Armagedon. Sem dias de trégua.

 

Ilha feridenta,

antologia de chagas

calangos e fragatas desintestinados e assados,

culinária de dramas, axiologia

do que é poético, capuz que ao homem encerra

 

Ilha tropical e sua mansão deserdada,

 nave-desespero em que o Homem

nadaformou a Terra.

 Publicado originalmente no Jornal Daki.


Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Brasil na Segunda Guerra: Três poemas de Nelson de Godoy Costa


EXPEDICIONÁRIO

Eu tenho de você, pracinha brasileiro,
Tamanho orgulho que não cabe no meu peito,
Por isto se extravasa nestes versos.

Preciso confessar-lhe uma fraqueza.
Essa fraqueza é minha imensa glória.
Eu tive inveja de você!

Eu que nunca invejei coisa alguma no mundo;
Que desprezei a fama, a glória literária,
Que nunca dei sequer a menor importância
Às riquezas do mundo e às vaidades da vida,
Eu tive inveja de você!

De você que eu não sei como se chama!

Nem me importa saber seu nome de família,
Se eu leio com os olhos marejados
De orgulho e de emoção em sua braçadeira
O seu nome: - Brasil
Eu quis partir como você partiu!

E a mágoa de ficar, apenas foi curada
Pela consciência do dever que estou cumprindo.

Eu, também, legionário brasileiro,
No sacerdócio santo a que entreguei a vida
Sou soldado de um exército invencível!

Minha existência a todo o instante é oferecida
Em holocausto ao grande ideal. E eu sinto
A glória de lutar, de viver, de morrer
Cada dia em favor da grande causa.

Eu também sou soldado brasileiro,
Como você, expedicionário, vitorioso!
E tenho me empenhado a fundo na batalha
Para vencida a guerra alicerçar a paz.

Glória a você, meu grande irmão! Meu bravo!
Meu grande herói! Extraordinário herói!
Soldado brasileiro!



SOLDADO CAMPINEIRO

Este poema, homenagem do autor, então pastor em Campinas, ao expedicionário campineiro foi lido pelos locutores de rádio várias vezes e muito declamado por jovens campineiras nos salões em festa.

Quando você partiu entre lágrimas quentes
De saudade, de orgulho e de emoção,
Eu bem sei que através da névoa de seus olhos
Brilhou, encantadora, a esplêndida visão
Da volta triunfal
À cidade natal.

Você partiu levando no seu peito
O grande ideal do moço brasileiro.
E sob o céu distante de outras terras
Mostrou ao mundo inteiro
Que o Brasil não é ninho de cobardes,
Mas é pátria de heróis.

Que toda a sua História
Bem se pode narrar numa palavra apenas,
E essa palavra é Glória!

Por isso é que você regressou triunfante!

E se custou chegar o dia da partida
Para os campos da luta, onde, valente,
Você deu tudo quanto tinha pela pátria,
E para onde teve pressa de partir,
Com que custo, depois do Dia da Vitória
Alvoreceu o instante do regresso,
Da volta triunfal
À cidade natal!

Gigantescos transportes sobre o oceano
Conduziram-no à pátria vitoriosa,
À pátria que você glorificou.

Rio de Janeiro! Paulicéia engalanada
Multidões em delírio ovacionando
O filho herói que volta à grande pátria.
E através de seus olhos marejados
Você teve a visão esplendorosa
Da cidade natal,
De onde partiu soldado,
Para voltar glorificado
Extraordinário herói em volta triunfal.

Os mesmos braços que o abraçaram na partida
Hão de abraçá-lo ardentes na chegada.
Os mesmos olhos que choraram de tristeza
Hão de chorar agora de alegria.
E o mesmo coração o coração de sempre,
O coração que não cessou de amar
Continuará pulsando venturoso.
E há de estreitá-lo carinhosamente,
Soldado campineiro,
Quando você chegar
À terra campineira,
Ao seu querido lar.


O SOLDADO BRASILEIRO QUE FICOU

(Para que a Pátria viva, ele morreu)

Num cemitério silencioso de Pistóia
Você ficou sonhando eternamente
Seu grande sonho de imortalidade.
É cemitério de uma pátria irmã,
Por isto, embora nossa dor seja tamanha,
Não o deixamos numa terra estranha.

No supremo esplendor de sua mocidade,
Quando a Vida acenava as mais lindas promessas,
E você era todo intensa vibração
De espírito, de cérebro, de músculos,
Você imolou-se em prol da Pátria grande e livre!

Por isto mesmo a Pátria-mãe jamais o esquece!
Ajoelha-se e soluça compungida,
- Olhos em pranto, coração em prece, -
Porque você não era apenas uma vida,
Mas expressava na existência esplendorosa,
A vida eterna de milhões de brasileiros!

O cemitério silencioso de Pistóia
Em cada sepultura encerra um monumento!
Cada túmulo fala! E, à eloquência suprema
Os próprios céus se curvam para ouvir
Da grandeza, do ideal, do amor e da bravura,
Com que você, soldado brasileiro
Mostrou ao mundo inteiro
A sua envergadura
E o valor sem igual da terra onde nasceu!

Se é certo que você não veio juntamente
Não marchou lado a lado
Com seus irmãos heróis, mas ficou sepultado
Sob outros céus, sobre outras terras de além mar,
Seu sepulcro sagrado é o maior desafio
Às gargantas da morte e às potências do mal!
E mais do que soldado hoje você é herói!
Mais que herói, é imortal!


Do livro Vida (São Paulo: Imprensa Metodista, 1952).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Pierre Emmanuel - Dia de Cólera


Dia de Cólera

Ó meus irmãos nas prisões vós estais livres
livres de olhos queimados de corpos acorrentados
de rosto esfacelado de lábios mutilados
sois aquelas árvores fortes e torturadas
que crescem com mais força depois que as podaram
e sobre todo o território do humano destino
o vosso olhar de homens verdadeiros é ilimitado
o vosso silêncio é a terrível paz do éter.

Mais alto que os tiranos enrouquecidos de mutismo
está a nave silenciosa das vossas mãos
mais alto que a ordem irrisória dos tiranos
está a ordem das nuvens e a vastidão dos céus
está a respiração dos montes tão azuis
estão os livres horizontes da oração
estão as vastas frontes que não vergam
estão as árvores na liberdade da sua essência
estão as messes infindáveis do devir
e nos tiranos está uma angústia fatal

que é a tremenda liberdade de Deus.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Trem de Tropas, poema de Karl Shapiro


Trem de Tropas

Tradução de Sammis Reachers e Jorge Pinheiro

À nossa passagem a cidade se detém. Os trabalhadores
Levantam seus braços untados e nos saúdam e sorriem.
As crianças gritam como no circo. Os homens de negócios
Observam-nos esperançosos e prosseguem seu caminho medido.
E há mulheres de pé na porta estupefata de suas casas
Que se movem mais suavemente e parecem pedir nosso regresso,
como se uma lágrima que cegara o curso da guerra
Pudesse dissolver de uma vez nosso aço em seu doce desejo.

Fruto do mundo, ai, todos agrupados
pendurados como de uma cornucópia
em total camaradagem, com as caras amontoadas
Para pulverizar a cidade com assobios e olhares lascivos.
Uma garrafa se rompe nos postes
e uns olhos se fixam na rosa sorridente de uma dama,
Esticados como um elástico e estalam e beliscam
a boca desejosa do sabor de um beijo.

E através de horríveis continentes e dias,
nos arrastamos decididos, sujos e ligeiramente bêbados,
os bons maus rapazes de circunstância e azar,
cujos capacetes como cubos golpeiam a parede nua
de onde se retorcem os cadáveres de nossas mochilas
ao lado dos fuzis que só se parecem consigo mesmos.
E a distância se encolhe como um cinto apertado aperta o ombro e o mantém firme.

Eis um baralho de cartas; você que reparte,
dá-me sorte, um par de touros,
a sorte do novato, o valete zarolho
Ouros e copas são vermelhos, mas as espadas são negras e espadas são espadas e paus são trevos-negros
Mas saque-me trunfos, recordações de paz. Isso exige razão e aritmética,
a sorte também viaja e nem todos regressam

Os trens levam aos barcos e os barcos à morte ou aos trens, e os trens à morte ou aos caminhões, e os caminhões à morte, ou os caminhões conduzem à marcha, a marcha à morte ou a sobrevivência que é nossa única esperança;
e a morte nos devolve aos caminhões e aos trens e aos barcos, porém a vida leva à marcha, oh bandeira!, finalmente
o lugar da vida encontrado depois dos trens e da morte -

Brilhante anoitecer das nações depois da guerra.

Do livro SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: Uma Antologia Poética (Organização e edição de Sammis Reachers, 2014).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Antologia de poemas da Segunda Guerra Mundial em livro gratuito


Sofro da estranha mania de organizar antologias.  Já são mais de dez. Some-se a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu.
     Eis esboçado então o cenário para que eu volte à carga em minha maltrapilha sina de tapa-buracos das mal a(r)madas estantes de poesia: a esta altura do ano da graça de 2014, decorridos 69 anos do fim do maior conflito bélico e da maior exibição de atrocidades que a humanidade já vivenciou, não lhe parece, amigo leitor, de espantar que não exista uma antologia de poetas ou poemas da Segunda Guerra em nossa bibliografia lusófona, neste caso mais culposa e especificamente na brasileira (pois afinal Portugal manteve-se ‘neutro’ no conflito)? Tal lacuna sempre me pareceu digna de nota. Nos EUA tais antologias de guerra são comuns – você poderá contar com umas duas dezenas delas, de variados alcances e focalizações editoriais.
     Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos na guerra. Sejam war poets “clássicos” (soldados-poetas que participaram em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares), sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores, que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas a acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros.
Esta é uma antologia breve – são apenas 134 páginas, mas que oferecem um significativo panorama de grande valor literário e histórico da riquíssima poesia produzida no período da SGM, ao abarcar em suas páginas grandes poetas de 17 diferentes nacionalidades.

Autores antologiados:
Bertolt Brecht (ALE) - Abgar Renault (BRA) - Carlos Drummond de Andrade (BRA) - Cecília Meireles (BRA) - Murilo Mendes (BRA) - Vinícius de Moraes (BRA) - Pablo Neruda (CHI) - Ivan Goran Kovacic (CRO) - Vladimir Nazor (CRO) - Archibald MacLeish (EUA) - Dudley Randall (EUA) - John Ciardi (EUA) - Karl Shapiro (EUA) - Randall Jarell (EUA) - Stanley Kunitz (EUA) - T. S. Eliot (EUA/ING) - Louis Aragon (FRA) - Paul Eluárd (FRA) - Pierre Emmanuel (FRA) - René Char (FRA) - Giorgos Seferis (GRE) - Odisséas Elýtis (GRE) - Tasos Leivaditis (GRE) - Gerrit Kouwenaar (HOL) - Jan Campert (HOL) - Gyula Illyés (HUN) - István Vas (HUN) - János Pilinszky (HUN) - Miklós Radnóti (HUN) - Dylan Thomas (ING) - Edith Sitwell (ING) - Keith Douglas (ING) - W.H. Auden (ING/EUA) - Giuseppe Ungareti (ITA) - Primo Levi (ITA) - Salvatore Quasímodo (ITA) - Sadako Kurihara (JAP) - Tamiki Hara (JAP) - Hirsh Glick (LIT) - Czeslaw Milosz (POL) - Zbigniew Herbert (POL) - Paul Celan (ROM) – Jaroslav Seifert (TCH) - Margarita Aliguer (URSS) - Marina Tzvietáieva (URSS) - Mikhaíl Dúdine (URSS) - Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS) - Pável Antokólski (URSS) - Siemión Gudzenko (URSS)

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Buscando manter-me fiel ao meu princípio de produzir e disponibilizar bons livros, sempre gratuitamente, galgo mais um degrau em minha quixotesca empresa, mas ciente das dificuldades de divulgação que um trabalho de outsider assim encontra, principalmente através dos canais estabelecidos. Por isso, conto com cada um de vocês, leitores desta obra, para divulgá-la, republicá-la e passá-la adiante. A cultura é uma ação: precisa de agentes. Colabore!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Segunda Guerra Mundial: Carta do pracinha Dirceu para a jovem Marília


XXXX, Itália, janeiro de 44

A noite, como a morte, é uma carta de trás para a frente, Marília, uma carta que não se entende até que amanheça.

Marília, hoje avançamos sobre o monte xxxx. Não adianta eu escrever nomes e datas, a censura suprimirá essas informações, que de mais a mais pouco importam a uma menina de 17 anos numa cidade tão bonita como Niterói.

Não sei se lhe escreverei mais cartas, se há um amanhã com meu nome na lista ao final da fila de ração. Então, perdoe-me pela estranheza e extensão destas linhas aqui transcritas. Foram escritas em dias espaçados, sob influências diversas – mas todas apenas dimensões, fragmentações de você.

E então eu agora abertamente digo que te amo, amiga. Amo-te mais que tudo em minha vida, os poemas, os sambas, o Bangu, meus cães e a filosofia. Amo-te desde o primeiro dia que lhe vi ao lado de Michaela, e eu que pensava amá-la, mas depois percebi que não, que nada, que tudo em minha vida e na história de meu coração era aio e ensaio até você. Pois o coração de toda a beleza que pulula no Universo-aqui, no espasmo-agora, é você, Marília.
Sei da galanteria que o Marco lhe faz; sei que seu pai, não tão secretamente quanto ele pensa, faz gosto de tê-lo como genro. E sei também que você se agrada. Agora ele está aí ao teu lado, pois pode ver-te todos os dias, e eu estou aqui na Velha Bota, na cega neve, na arruinada madona que o Duce deflagrou. Nesta disputa, se disputa havia, já perdi; se eu morrer e eu vou morrer, morrerei para que você possa ser feliz. Morrerei para não suportar, além do próprio peso da vida, a impossibilidade de você.
Tinha sonhos contigo, sonhos de casamento e roça, três crianças de quem eu, em secreto, adivinhava já os traços das faces. Terminaria o curso de Filosofia e iria dar aulas em alguma cidade pacata do interior do estado. Madalena ou Campos dos Goytacazes, talvez. Hoje queimo estes sonhos no altar da Guerra.
Tenho um pedido apenas: se em algum dia de tua vida de luz, sentiste algum afeto por mim, para além de nossa firme amizade, lhe rogo que nomeie teu primeiro filho com o meu nome; deixa-me estar próximo à tua lembrança enquanto você viver, pois sei que de mim a Guerra tudo requisita, como uma noiva voraz que quer o seu prometido e todo o dote, e ela nada poupará em seu holocausto.
Sei que falo coisas tristes e confusas demais e adultas demais para teu coraçãozinho principesco, mas preciso comunicar a alguém esta minha calma angústia, e é a você que comunico, pois você é mais que a pessoa que amo, é o próprio Universo onde habito, minha deusa lar, particular.

Na última carta você referiu lembrar-se de minha expressão antes da Declaração de Guerra, da forma como eu, durante as lições que lhe dava em sua casa, segurava o mapa da Europa nas mãos e quedava absorto por minutos silenciosos, ‘como se eu soubesse’. Marília, a História é um pano roto onde uma bruxa de candomblé lança búzios, búzios que dão sempre o mesmo resultado. Desde a invasão da Rússia, eu já sabia que o Brasil ingressaria na Guerra, eu sabia que haveria uma convocatória. Eu já treinava disparos, eu já sabia para onde fugir de ti, eu já sabia onde finalmente encontrá-la para sempre.

Escrevo este trecho de xxx. Mas todas as cidades por onde passei, Nápoles e Modena e Livorno, chamam-se você, todas as cidades da terra e do sol nomeiam-se secretamente Marília.

Aqui abraço a morte como se abraçasse você, menina. Nomeio a imperatriz-meretriz Morte com teu nome epifânico, e ela ganha ternura e sonho, cresce em intimidade sem perder a realeza. Vida ou Morte, Destino ou Acaso, como um grande Brahman dos hindus, escolhi ter você em tudo e como tudo, e que tudo a seja, foi a forma que encontrei para não perdê-la.

Nesta neve de menos 2 graus, lembro-me de nosso passeio na praia de Icaraí, sob o poder do carro de Hórus, o Sol que existe apenas para lhe dar um pedestal, Marília... Minha amiga, minha irmã, naquele dia, quando paramos em frente à Pedra do Índio e imprudentemente segurei a tua mão, não foi senão por amor!, amor que requereu-me um resgate, resgate cujo objeto é esta guerra e talvez a minha vida. Seja; amei-te e amo-te, e o Fuhrer ou a ciumenta Morte não hão de abalar isto, macular este mármore; ainda que implodam todos os mármores e monumentos da Itália, ainda que despedacem o céu em meu encalço e desçam comigo ao Sheol.

Aqui combatemos com fuzis M1 Garand americanos. Paralisados em nosso avanço, numa missão que a censura não permite nomear, peguei minha faca e com sua lâmina virgem risquei na coronha de meu fuzil o seu nome. E passaram a ter mais paixão e alcance os meus disparos. E se algum dia este fuzil passar a outras mãos, aquele que o empunhar saberá que há uma Marília no mundo, e há ou houve alguém que a amou – e isso é um rascunho de eternidade. Mesmo que eu morra um fuzil chamado Marília combaterá para livrar o país de Marília, a cidade de Marília e o coração de Marília.

Enfurnado no fundo de uma trincheira não há muito em que pensar. Amanhã, quando for matar tedescos (na carta de dezembro já lhe expliquei que aqui, por influência dos italianos, nós chamamos os alemães de tedescos), penso se matarei algum descendente de Schopenhauer, Hegel ou Kant. E será estanho assassiná-los, como ainda me espanta ter que combatê-los. E penso em meus livros de filosofia alemã em francês, que fim terão se eu morrer. Mamãe os queimará ou deitará fora? Diga-lhe para vendê-los no alfarrábio do senhor turco.
Se você lesse em francês ou tivesse intenção de aprender a língua, por certo deixaria tudo para ti. Mas não lhe apraz o aprendizado de línguas estrangeiras, e bem faz: elas é que devem estropiar-se para compreendê-la, ó pequena luz de tudo.
Você é o meu portentoso deus, o objeto de eleição de minha fé, raio e circunferência da religião que criei; aquilo que arbitrariamente sacralizo, meu lancinante talho na aorta da Realidade – platônicanarquica faca tomando o lugar do cosmocorpo que ela mata; mas o estranho deus dos judeus, do qual você tanto fala na última carta, talvez seja o único que realmente exista.

Nunca voltarei. Seja feliz com o Marco.

Meu último poema. Se eu pudesse, enfeixá-lo-ia para compor um livro, com todos os demais poemas dos quais você é a musa. Mas você os tem: livro dentro de um livro. Pois ao fim e ao cabo, todo deus é uma biblioteca. Mas não quero confundi-la.
Como sempre, nada como seus amados Bilac e Oliveira, mas mais para os franceses de que lhe falei. 
Adeus.


Batalha para alcançar Marília (poema 32)

Tuas palavras caíam no chão ribombantes
como granadas de sândalo:
eu avançava nu como quem sonha

Teus olhos congelavam o entorno, deusa:
moscas, sonhos, oxigênio
tudo era teu
ó mínimo-coração-do-mundo

A metralha tedesca cantarolava
mas seus atiradores e balas eram sombras
apresadas e impotentes na caverna platônica

Pois tu(a) é a Guerra, Minerva:
Tua boca era a bandeira a capturar, Marília, Valkíria,
como a piscina de hidromel sita no coração de Valhala
samadhi nirvana aniquilação íris de cada um
dos mil olhos de Brahman


Sammis Reachers

Do livro Poemas da Guerra de Inverno, segunda edição 

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