Oração
Secreta
Senhor,
perdoa-me que eu não Te procure
nos Teus
dias de abundância e de púrpura.
Perdoa que
eu não esteja presente
aos Teus
rituais de luz e incenso.
Perdoa que
eu não me associe à turba
quando és
aclamado nas praças públicas.
E que nunca
tenha sido
porta-estandarte
das Tuas insígnias.
Não é que me
envergonhe de Ti, Senhor...
Foste Tu
mesmo que me deste esse pudor
por todas as
coisas que se oferecem à claridade.
Não sei
cantar em altas vozes.
Não sei
expandir-me em gestos largos e notórios.
Não sei
utilizar-me das coisas fulgurantes
e só
compreendo o amor humildemente, às escondidas,
amar em
silêncio, como as monjas...
da penumbra,
como os que amam sem esperança...
com extremas
delicadezas,
como se o
meu amor estivesse para morrer...
Na tristeza
e na obscuridade,
quando os
homens se distraírem de Ti,
e se forem
para a faina ou a volúpia diária,
deixando os
Teus templos vazios,
então,
Senhor,
minha hora
será chegada.
Entrarei
devagarinho no Teu santuário,
acenderei de
mãos trêmulas a lâmpada de óleo
e
sentar-me-ei no chão, junto ao Teu tabernáculo, imersa em
pensamentos inefáveis...
Não rezarei,
talvez, Senhor,
Meus lábios
não sabem pronunciar em vão
aquelas
fórmulas
que o tempo
desfigurou na minha imaginação,
Meus lábios
ficarão imóveis.
Não haverá
em todo o meu ser
tanto
abandono,
tanta
adoração nos meus olhos,
tanta afinidade
da minha atitude com o Teu ambiente,
que sentirás
meu coração bater
dentro de
Tuas mãos,
Serei então
feliz, feliz docemente,
como uma
enamorada tímida
a quem se
adivinha.






