terça-feira, 4 de agosto de 2026

CASAMENTO, um poema de Sammis Reachers

 


CASAMENTO

 

Ei, coisinha de luz

É vero: não há parentes em nosso casamento.

Duas madrinhas, suas amigas, é isso

Somos dois pobretões já passados da idade

Autistas penitentes

 

E aqui estamos, contra as expectativas dos que nos detestam

 

Mas temos um amigo em Nazaré, você o conhece melhor que eu

Ele despediu à revelia alguns convites por aí

 

E se esse dia está estranhamente mais iluminado, mais quente e branco

É que há estrelas jornadeando para assistir nosso enlace

 

Os insetos de dezoito quintais, do que é redondeza, se somam e assomam

Pelo teu sorriso de ninfa nubente

 

Não há muitos amigos, mas olhe para aquela nuvem a poente, a mais fofa: 

Anjos daquela falange que restaura ossos quebrados das crianças

– Alguns a quem infernizei na infância –

Lá estão, estranhos anjos que quanto mais sorriem, mais refulgem

Amigos em nome do AMIGO

 

Sim, tão poucos os humanos, eu sei

Mas temos anjos e insetos e estrelas e

Num dos muitos apartamentos de face ao cartório

Numa das janelas desse um dos muitos apartamentos, um gato

Um gato SRD resgatado de sob a roda de um Porsche

Representa o a nós dois mui caro

Conclave Imperial dos Gatos

E honra nosso casamento

 

Que mais dois maltrapilhos quase quarentões poderiam querer da vida,

Menina que amo como uma romã que arrebenta?

 

(Para aquela coisinha de luz que vez por outra diz, "você nunca mais me escreveu um poema")

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Salmo, poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos

 


Salmo

 

Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

Quando as madressilvas se calarem nas sebes

e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,

quando a neblina impenetrável me apagar a vista,

anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,

quando o cetro das sombras me ferir a fronte,

Senhor! Não tenha sido em vão a minha vida,

mas que nas praças eu deixe murmurando

um pensamento de brandura;

ou pelos campos que povoei de frondes perdulárias,

possa ficar cantando, como um lótus na corrente,

a asa meiga de um gesto de bondade.

 

Ao pé da serra,

onde as águias pousam nos meus ombros,

dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz:

dá-me forças, Coração de nuvem,

para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça;

dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó pura Primavera,

para que eu dessedente os lábios

na Cascata de teu Nome.

 

Poupa a esta sede a esponja de vinagre;

desviando a taça e o fel de minha boca.

Derrama sobre mim o Teu clarão

para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade,

e recoberto pelo manto que me concedeste,

possa eu dormir tranquilo junto à Face irrevelada,

alheio para nunca mais, ao escárnio do momento imperecível.


In Revista AMPLITUDE #8.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Quatro poemas de Renata Pallottini

 


A Doce Servidão de Jacó

 

O cântaro poreja a água amena

que do poço brotou, e adoça a areia

e que corre nos ombros, e que enleia

pelas espáduas seu frescor moreno.

 

O lácteo manto que uma brisa ondeia

desenha formas, cujo talhe apenas

a tamareira imita, a flor receia,

o vento afaga e a solidão serena.

 

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,

ouvir-lhe a voz de urna doçura eleita,

roçar-lhe a fronte uma revelação.

 

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,

beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita,

catorze anos de vida pagarão.

 

 

Gênesis 48:7

 

Morreu Raquel em terras de Canaã,

morreu para os meus olhos o seu vulto,

dorme em seu corpo a estrela da manhã,

a areia do deserto o tem sepulto;

 

a fonte longa desta longa sede,

o ázimo pão deste jejum cansado,

morreu Raquel, o meu regato verde

destes olhos tão tristes derramado.

 

No caminho que leva a Bethleem,

ervas amargas, pranto meu votivo

fecharam sobre ti a última porta;

 

sobre todas as coisas e ninguém,

sonha com meu amor eterno e vivo

minha eterna bem-amada morta.

 

 

Por Ti Deixei

 

"Portanto, deixa o homem

a seu pai e a sua mãe,

e se une a sua mulher;

e são uma só carne."

Gênesis, 2:24

 

Por ti deixei, do meu rebanho lento

a alva timidez; da minha casa

o fogo acolhedor tornado brasa

e a brasa morta transformada em pranto.

 

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,

da boca de meu pai restou-me a frase

e estes meus olhos são cisternas rasas

onde à tardinha vem beber o vento.

 

Ponho a teus pés o meu desejo triste

que se renova numa força eterna,

e te ofereço uma fraqueza a mais;

 

pedaço do meu tronco que partiste,

carne, que foste um pouco de meu cerne!

À minha própria carne tornarás.



Primeiro Foi a Noite

 

“No princípio criou Deus o céu e a terra.”

Gênesis, 1:1

 

Primeiro foi a noite. E a noite feita,

desta engendrou-se a luz, julgada boa.

Depois, fez-se o agudo desespero do céu.

E a terra. E as águas separadas.

 

E um mar se fez, da lúcida colheita

das águas inferiores. A coroa

tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —

ordenou-se às estrelas debulhadas.

 

Houve flores estáticas e flores

que procuravam flores; e houve a fome

de carne e amor e dessa fome as dores

 

e das dores o Homem. Deste, esquiva,

toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,

mais uma vez a noite primitiva.

 

Renata Pallottini (1931–2021) foi uma importante poeta, dramaturga, ensaísta e romancista brasileira. Atuou de forma brilhante na vida acadêmica como professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP. Destacou-se também na televisão, onde escreveu roteiros para produções icônicas como Malu Mulher e Vila Sésamo.


sábado, 4 de julho de 2026

Revista AMPLITUDE n. 08 - Julho de 2026: Faça o download grátis

 

Tome, pegue que é de graça!

      

Julho da graça de nosso Senhor da graça chegou e, com ele e com satisfação, lhe entregamos em mãos — ainda que virtuais —, este novo número de AMPLITUDE.

Depois de seu início, em meio à providencial pujança do Império Romano, o cristianismo nunca foi tão contracultural quanto hoje. Seu exclusivismo segue, sim, incontornável, e embaraça uma era de relativismo vazio e esvaziador.

Atenta aos tempos e humilde agente de seu momento, Amplitude se apresenta como balcão de resistência, reafirmando os valores eternos, firme em seu papel de resgatar, promover, divulgar e viver a cultura cristã em toda a sua vivacidade, singularidade e fortuna.

Nesta edição, apresentamos duas matérias que consideramos especiais:

Um texto sobre o “boom” da ficção cristã no Brasil, que vai das telas e streamings às páginas dos livros. E uma ampla lista (bibliografia) de biografias de missionários, de ontem e hoje, daqui e dos muitos acolás, já publicadas em português.

E a refeição segue farta:

Em Jardim dos Clássicos, um conto da sueca Selma Lagerlöf, primeira mulher a ganhar um Nobel de Literatura.

Em Hot Spots, uma seleção de frases de George Macdonald, precursor do gênero fantasia na língua de Shakespeare, teólogo singular e motor inspiracional por trás de hombres como C.S. Lewis e G. K. Chesterton.

O Poeta em Destaque deste número é o saudoso Joanyr de Oliveira, poeta insigne e árduo promotor das letras evangélicas.

Na seção de HQs, os quadrinhos instigantes de Samuel Silva.

O cardápio se completa com as seções tradicionais que formam nossa revista: Torre de Oração, Poesia, Pharmacia, Resenhas, Games, Download, Parlatorium e Notas Culturais.


BAIXE A SUA REVISTA PELO NOSSO SITE BIBLIOTECA DE MISSÕES, CLICANDO AQUI.


BAIXE A SUA REVISTA PELO SITE GOOGLE DRIVE, CLICANDO AQUI.


BAIXE A SUA REVISTA PELA PLAYSTORE DO GOOGLE, CLICANDO AQUI.


Como você sabe, AMPLITUDE circula em formato eletrônico e é gratuita, com periodicidade semestral. Mas temos uma novidade: Agora AMPLITUDE também pode ser adquirida na modalidade IMPRESSA. Isso mesmo, a revista está à venda sob demanda no site da Editora UICLAP, neste link:

https://loja.uiclap.com/titulo/ua180965/

 

Pegue seu café, seu chá, seu isotônico, e boa leitura!

      Sammis Reachers, editor


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Selva Escura, um poema de António Alves Martins

 


Selva Escura

 

Quando eu deixar de ser esta vaidade,

este egoísmo vão, esta loucura,

esta poeira de alma em noite escura,

esta sombra, este vago, esta saudade;

 

Quando eu deixar de ser fragilidade,

inconstância, desânimo, tortura,

esta matéria preguiçosa e impura,

este orgulho que ofende a caridade;

 

Quando eu deixar de ser esta ambição,

esta fria indiferença, esta ilusão,

esta vaga que em espuma se desfaz;

 

Quando eu deixar de ser de mim cativo,

o rastro em sangue dum pecado vivo,

finalmente, Senhor, me aceitarás?...


António Alves Martins (Viseu, 1 de Outubro de 1894 — Viseu, 22 de Fevereiro de 1929), foi um jornalista e poeta português. 

Quanto à dúvida expressa em seu belo poema, Deus não nos aceita após determinado número de acertos e bons procedimentos; sua aceitação é um presente, dado àqueles que simplesmente crerem em Seu Filho. Isso assevera a Escritura Sagrada:


"Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie." - Efésios 2:8-9


"Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independentemente da obediência à Lei." - Romanos 3:28


"Sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado." - Romanos 5:1



sábado, 13 de junho de 2026

Livro de Horas, um poema de Miguel Torga

 


Livro de Horas


Aqui diante de mim,

eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Oração Secreta, um poema de Henriqueta Lisboa

 


Oração Secreta

 

Senhor, perdoa-me que eu não Te procure

nos Teus dias de abundância e de púrpura.

Perdoa que eu não esteja presente

aos Teus rituais de luz e incenso.

Perdoa que eu não me associe à turba

quando és aclamado nas praças públicas.

E que nunca tenha sido

porta-estandarte das Tuas insígnias.

 

Não é que me envergonhe de Ti, Senhor...

Foste Tu mesmo que me deste esse pudor

por todas as coisas que se oferecem à claridade.

Não sei cantar em altas vozes.

Não sei expandir-me em gestos largos e notórios.

Não sei utilizar-me das coisas fulgurantes

e só compreendo o amor humildemente, às escondidas,

amar em silêncio, como as monjas...

da penumbra, como os que amam sem esperança...

com extremas delicadezas,

como se o meu amor estivesse para morrer...

 

Na tristeza e na obscuridade,

quando os homens se distraírem de Ti,

e se forem para a faina ou a volúpia diária,

deixando os Teus templos vazios,

então, Senhor,

minha hora será chegada.

Entrarei devagarinho no Teu santuário,

acenderei de mãos trêmulas a lâmpada de óleo

e sentar-me-ei no chão, junto ao Teu tabernáculo, imersa em

pensamentos inefáveis...

Não rezarei, talvez, Senhor,

 

Meus lábios não sabem pronunciar em vão

aquelas fórmulas

que o tempo desfigurou na minha imaginação,

Meus lábios ficarão imóveis.

Não haverá em todo o meu ser

tanto abandono,

tanta adoração nos meus olhos,

tanta afinidade da minha atitude com o Teu ambiente,

que sentirás meu coração bater

dentro de Tuas mãos,

 

Serei então feliz, feliz docemente,

como uma enamorada tímida

a quem se adivinha.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...