Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arte. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de setembro de 2018

A CONVERSÃO A CAMINHO DE DAMASCO, DE CARAVAGGIO (1600)







Com os braços procurando suster

O peso do céu, Saulo sente a humilhação

Como Estevão um dia sob as pedras

Todo o silêncio se estendeu e a voz

Vem do firmamento que se abre de repente

Saulo, Saulo, por que me persegues, e um jorro

De luz como um vento a abrir uma janela

Não era uma voz de seda, nem colérica

Como as vozes que emergem dos homens

Era a pergunta

De quem ainda tinha feridas de ferro nas mãos

E sinais de uma coroa ardente de espinhos.



29/09/2018
© João Tomaz Parreira


terça-feira, 18 de setembro de 2018

A VALSA, DE CAMILLE CLAUDEL (1892)





O homem e a mulher estão os dois
Numa só carne, fechados num só amor
Aqui é o silêncio que transcende
O movimento, pisam ou flutuam na água
Da música derramada pelo chão
Um só vento rodopia nos dois corpos
Tudo à volta
Até as coisas móveis se detêm
A eternidade perdura nos poucos minutos da canção.


17/09/2018
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 22 de maio de 2018

Sobre Poesia, texto de Vinícius de Moraes


SOBRE POESIA

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária. 

Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução. 

Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. 

O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court. 

Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída. 

Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

A ÁRVORE


(Brueghel o Velho e Rubens)




Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 13 de abril de 2016

À MESA COM O PRÓDIGO





Já estava sentado à mesa, com os olhos
Do meu pai a verterem alegria, o vinho
Dos odres novos a brilhar no banquete
O bezerro a sair do remoinho das chamas
Depois de anos a andar sem sandálias
E com vestes festivas e um vestígio
Real no dedo, apontava a saudade
Do meu coração para a porta, esperava
Que entrasse com o sol crepuscular
O meu irmão, nos meus olhos
Eu dizia palavras de amor, enquanto
O silêncio da porta deixava passar
A lua plena.

13-04-2016


© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

MAGNIFICAT


(Piéta de Florença, Miguel Angelo)



A minha alma é a alma de mãe aflita, Senhor
O meu espírito derrama-se nos meus olhos
Na minha humildade nada posso fazer
Senão contemplar um Filho morto, seus braços
Perderam a força, e ainda assim derrubará
Dos tronos os poderosos, suas mãos presas
Nos cravos, hão-de encher ainda de bens os famintos
Mas todo o meu útero órfão estremece sem Ele
Pudesse eu, sua serva e mãe, a minha vida
Estaria no seu lugar.


22-10-2015


© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O QUARTO





um quarto, um pequeno quadrado
do mundo, uma cama, uma mesa,
o vazio
fundo de duas cadeiras, detalhes
do silêncio contra a luz externa
da janela. invisível o cheiro
das tintas com que traz
para casa o sol dos girassóis.
Um quarto muito pequeno, em algum lugar
cabe a alma de Van Gogh.

25-06-2015
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 14 de abril de 2015

BOTTICELLI

  


Nua, de pé, com o corpo de antigo Paraíso
Guarda com cinco dedos
Um  seio e a janela para vida, rosto
De menina que substitui o sol, o fogo
Nos cabelos, e os dois olhos suaves
Com um olhar que não foge para longe
Sereno, que o vento de Zéfiro não perturba
Vénus que emerge de uma flor do mar
Bordado pela espuma.


12-04-2014

© João Tomaz Parreira 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Confissões de Abraão sobre o sacrifício de Isaque



Levantei os olhos para o monte
de Moriá,  não atrasei o passo, nem me esqueci
da faca, nem da lenha para ganhar tempo e demorar
o Teu pedido.
Subimos ao monte e ainda no momento em que a faca
reflectia a miragem do lume
e fazia tremer a minha mão, erguida até ao último
ímpeto da fé, eu sabia
que não  me exigias o filho, a minha alegria
redobrada neste cume,
de onde Isaque e eu descemos juntos.


09-04-015

©  João Tomaz Parreira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A ORELHA DE VAN GOGH






"yo quiero
 celebrar una oreja"

Pablo Neruda



Passou a ouvir coisas por sua própria conta, 
A orelha cortada de Van Gogh, corvos
A crocitar, um silvo de facas no ar,
Raquel chorando os filhos que não teve,
As raízes do trigo em luta contra a morte
Sob a terra,
Onde é noite a luz e fria, ouvia as sombras
A deslizarem lentamente
E como uma concha arrancada ao mar
Escutava o nevoeiro e as ondas esquecidas.

25-02-2015
©  João Tomaz Parreira


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O TESTAMENTO DE REMBRANDT VAN RIJN






Rembrandt: A Ceia de Emaús


Deixou os discípulos de Emaús
no cavalete, encostados
outros quadros ao silêncio, a aparição
de Cristo no horto, a lembrança e os traços da morte
nos seus claros-escuros, deixou algumas roupas de linho
ou lã e as cerdas dos pincéis, as suas coisas
da pintura, no seu nome as águas do Reno  
Poucas coisas
ainda assim maiores do que a miséria.

O4-O2-2015


© João Tomaz Parreira 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A VIRGEM DE LEONARDO



Tem um par de olhos  quase obscenos e um sorriso
Enigmático, onde tocam
Os pássaros desocupam os ramos, despem
Os nossos ouvidos de ressentimentos
Sobre o dia que passa

Rasgam a carne, tiram o coração do sério
Do seu batimento
Absorvem
Todo o ar à nossa respiração

Sob a ausência do seu par de olhos e do sorriso
Quase obscenos
Quando se afastam morremos
Em silêncio, sem memórias.

21-11-2014

© J.T.Parreira

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

TRATADO DA PINTURA COMO SOCIOLOGIA





As viciosas meninas de Avignon, os olhos
Desmesuradamente ovais onde o mundo
Fica constrangido, indiferentes à figura
Nua em véu subtil,  provocam
As meninas de Velásquez, estas
São observadas mais do que observam, estão
Como melancólicas e belas
Naturezas-mortas.

14-01-2015

© J.T.Parreira



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ALMOÇO CAMPESTRE


(Arte: Edouard Manet)


Tal como Manet os fez, um mundo perfeito
sentados sobre a relva, numa relação directa com
o solo, um pouco menos mortais
do que a flor que mal nasce morre
sob a sombra das árvores, pousados como pássaros
distribuídos do alto cume azul, enchem os olhos
da fragrância de um corpo nu, eles
contudo indiferentes, conversam como dois
discretos cavalheiros que esperam o crepúsculo
cair como o fresco véu da tarde.

01-01-2015

© J.T.Parreira  


domingo, 4 de maio de 2014

HELENA DE TRÓIA




“Helena de alvos braços / Helena, divina entre as mulheres”
Canto III, da Íliada, de Homero



Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias


Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis


Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.


17-4-2014
João Tomaz Parreira © 


(Imagem: Helena e Páris)

sábado, 11 de janeiro de 2014

O BRINCO

A Rapariga do Brinco de Pérola, Vermeer


Ali começa a nascer um sistema solar, um planeta
move-se  na orbita do rosto, brilha
ainda uma breve sombra
do abismo
ali de onde a luz se ergue. Um espelho
começa ali naquele rosto
onde a beleza sorri entre os lábios
um silêncio.

11-1-2014

© João Tomaz Parreira

domingo, 1 de setembro de 2013

De Da Vinci a Van Gogh: imprima 25 mil obras de arte em alta resolução e decore seu quarto


Para quem tem vontade de transformar a sala de estar num Museu, a dica são as 25 mil obras de arte – em alta resolução – para donwload gratuito disponibilizadas pela National Gallery of Art (Galeria de Arte Nacional) que fica em Washington, nos Estados Unidos.
Quarto em Arles
Quarto em Arles
Quarto em Arles é uma série de três quadros do impressionista holandês Vincent van Gogh
Entre as obras estão “Ginevra de’ Benci” de Leonardo da Vinci, “Self-Portrait” e “Gogh Roses”, de Vincent Van Gogh. Para pequisar, procure por categorias, nome do autor ou título da obra. Para baixar, escolha a imagem desejada e clique na seta. A resolução das imagens chega até 3000 mil pixels.
Caso o site National Gallery of Art demonstre instabilidade por conta do alto acesso, aguarde alguns segundos e tente novamente. Baixe aqui o acervo completo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Como é triste Veneza


(Piazza di San Marco, Canaletto)



Como é triste Veneza se não há amor
como serão tristes
as pombas da Piazza se não rodeiam

um homem e uma mulher escondidos
no fundo de um abraço
como é triste sem ninguém
a Ponte dos Suspiros
como são tristes as gôndolas
que envelhecem no asfalto.

28/5/2013

© J.T.Parreira

domingo, 26 de maio de 2013

As estórias em acrílico de Duy Huynh à la Magritte



Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.
A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.
Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.
Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.
Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.

© JTP
 

 


 
 

Três telas e seis poemas de Helena Branco



...porque o tempo abriu em nós o lugar d encontro
   verbo luminoso na ramificação das côres
   onde crescer a lucidez...entre feliz no olhar o outro
   de mim...


***

a sumir nas águas
s escreve um vocábulo
nú agreste 
sobrem o longe
algas e búzios 
d azul anoitecido
a perderem se na vocálise 
já sem sintaxe as pedras
tomando o sal
a espera feliz
da maré


***

Viúvas

***

bem poderia ser
um dia mais 
um compasso metódico
do verso no pulsar anónimo
dos dedos canto chão
mas é mais
alto elevado d urgencia d ave
que apura o voo sem atropelo
do tempo
hoje sou o próprio rumo
que desregra vontade
sem perda que me cegue
nem ausência que m impeça
sou a crença de ser
a penas da razão
sozinha

***

fios perdidos de tinta
    lustrilhos d alma incontida
    a porfiar
    ventos e brumas
    assomam
    o pensamento
    vocábulo anoitecido
    um solista
    dimanando
    perspícua
    voz
    no silencio
    
    que  POETA
    devaneia

***


ascende
um choro nas pedras
silencio tumular
do corpo escarnecido
não reste mais sangue 
nem palavra diga alto 
que valha aos cegos
arrependimento
só esplendor
assombro 
na palpebra da lágrima
que perdure 
consequencia
...quase hora
a entregar
vou 
para a morte 
por vos crer
VIDA

***

...um tempo
de ROSA
perene
assomo
olhar d ave
em ramo brando
sem acúleo
passo a passo
harpeando
caminho
donde
revelado
futuro
ser
de ti
a flor
breve

© telas e textos by Helena Branco. Publicado com autorização da autora

Visite o blog da autora: http://lostrails.blogspot.com.br/



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...