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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Magia e Milagre da Palavra


As palavras pesam. Talvez porque sejam a mais genuína invenção humana. Os papagaios não falam, apenas repetem. Não escapam de seus limites atávicos. Curioso é organismo humano não possuir um órgão específico da fala. O olho é a fonte da visão, como o ouvido, da audição. A língua facilita a deglutição, como a traqueia, a respiração. No entanto, a ânsia de expressar-se levou o ser humano a conjugar mente e boca, órgão da respiração e da deglutição, para proferir palavras.
“No princípio era o Verbo”, reza o prólogo do evangelho de João. Deus é Palavra e, em Jesus, ela se faz carne. O mundo foi criado porque foi proferido: “E Deus disse: ‘Haja a luz’ e houve luz”, conta o autor do Gênesis.
Vivemos sob o signo da palavra. Unir palavra e corpo é o mais profundo desafio a quem busca coerência na vida. Há políticos e religiosos que primam pela abissal distância entre o que dizem e o que fazem. E há os que falam pelo que fazem.
A palavra fere, machuca, dói. Proferida no calor aquecido por mágoas ou ira, penetra como flecha envenenada. Obscurece a vista e instaura solidão. Perdura no sentimento dilacerado e reboa, por um tempo que parece infinito, na mente atordoada pelo jugo que se impõe. Só o coração compassivo, o movimento anagógico e a meditação livram a mente de rancores e imunizam-nos da palavra maldita.
Machado de Assis ensina que as palavras têm sexo, amam-se umas às outras, casam-se. O casamento delas é o que se chama estilo.
A palavra salva. Uma expressão de carinho, alegria, acolhimento ou amor, é como brisa suave que ativa nossas melhores energias. Somos convocados à reciprocidade. Essa força ressurrecional da palavra é tão miraculosa que, por vezes, a tememos. Orgulhosos, sonegamos afeto; avarentos, engolimos a expressão de ternura que traria luz; mesquinhos, calamos o júbilo, como se deflagrar vida merecesse um alto preço que o outro, a nosso parco juízo, não é capaz de pagar. Assim, fazemos da palavra, que é gratuita, mercadoria pesada na balança dos sentimentos.
Vivemos cercados de palavras vãs, condenados a uma civilização que teme o silêncio. Fala-se muito para dizer bem pouco. Nas músicas juvenis abundam palavras e carecem melodias. Jornais, revistas, tevê, outdoors, telefone, correio eletrônico – há demasiado palavrório. E sabemos todos que não se dá valor ao que se abusa.
Carecemos de poesia. O poeta é um entusiasmado, no sentido grego deen + theós = com um deus dentro. Como sublinha Platão no Ion, nele fala a divindade, o Outro. Em linguagem psicanalítica, fala o inconsciente. Como Orfeu, o poeta desce à noite dos infernos para recuperar Eurípides, o fantasma do desejo.
Nossa lógica cartesiana faz do palavrório uma defesa contra o paradoxo. No entanto, sem paradoxo não há arte. O belo é irredutível à palavra, mas só a palavra expressa a estética. O silêncio não é o contrário da palavra. É a matriz. Talhada pelo silêncio, mais significado ela possui. O tagarela cansa os ouvidos alheios porque seu matraquear de frases ecoa sem consistência. Já o sábio pronuncia a palavra como fonte de água viva. Ele não fala pela boca, e sim do mais profundo de si mesmo.
Há demasiado ruído em nós e em torno de nós. Tudo de tal modo se fragmenta que até a hermenêutica se cala. Hermes, o deus mensageiro, já não nos revela o sentido das coisas, mormente das palavras, que se multiplicam como vírus que esgarça o tecido e introduz a morte.
Guimarães Rosa inicia Grandes sertões, veredas com uma palavra insólita: “Nonada”. Não nada. Não, nada. Convite ao silêncio, à contemplação, à mente centrada no vazio, à alma despida de fantasias.
Sabem os místicos que, sem dizer “não” e almejar o Nada, é impossível ouvir, no segredo do coração, a palavra de Deus que, neles, se faz Sim e Tudo, expressão amorosa e ressonância criativa.
Frei Betto

domingo, 1 de julho de 2018

Namore uma pessoa que lê


     Encontre uma pessoa que lê. Namore uma pessoa que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Namore uma pessoa que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido consigo. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a que se alegra (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma pessoa cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas. Ela lê enquanto espera em um Café na rua. Entenda que, se ela diz que compreendeu ‘Ulisses’ de James Joyce, é só para parecer inteligente.
     É fácil namorar uma pessoa que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Cummings, Pessoa, Quintana, Drummond... Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma.  Essas pessoas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As pessoas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem.
     Se você encontrar uma pessoa que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo. Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype. Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
     Namore uma pessoa que lê porque você merece. Merece uma pessoa que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma pessoa que lê.

Adaptação ao texto original de Rosemarie Urquico.

http://www.gilbertogodoy.com.br

sábado, 8 de abril de 2017

Samy Adghirni: Os persas e seus nomes poéticos

Poesia é coisa séria no Irã. Quase todo mundo sabe de cor um monte de versos, rodas de amigos adoram debater autores e um dos principais ícones nacionais é o poeta Hafez (1310-1390), cujo túmulo em Shiraz atrai romaria do país inteiro. Hafez, aliás, era crente e capaz de recitar o Corão inteiro, mas celebrou em sua obra a embriaguez e o amor.
O gosto pela poesia parece ser um traço milenar da cultura persa, e até hoje pais dão aos filhos nomes, ou prenomes para ser mais exato, que são pura metáfora. Uns são bucólicos, outros românticos. Há também os metafísicos. É exemplo pra todo lado.
Tenho uma amiga que se chama Yeganeh (única no mundo). A irmã dela é Taraneh (canção). A chefe da agência Reuters no Irã leva o prenome de Parisa (aquela que é como uma fada). O da iraniana mais famosa do planeta, a ativista de direitos humanos e Nobel da Paz Shirin Ebadi, significa “doce”. Não confundir com “açúcar”, ou Paníz, em farsi, como é chamada minha assistente. Simin, personagem principal do badalado e premiado filme “A Separação”, quer dizer “aquela que brilha como prata”.
Homens também levam prenomes na mesma linha. Meu cabeleireiro é Behrooz (dia feliz), e o recepcionista do hotel onde fiquei ao chegar, Navid (boa notícia). Um tempo atrás entrevistei um cantor que se chama Omid (esperança). Conheço um sujeito que é Payam (mensageiro).
Ouvi vários outros nomes poéticos. Meus preferidos são Kohinoor (montanha de luz), Shahin (falcão peregrino) e Parastoo (andorinha).
Mas já repararam que os nomes dos governantes iranianos geralmente não seguem esse padrão? O presidente é Mahmoud [Ahmadinejad]. O líder supremo chama-se Ali [Khamenei], assim como o chanceler [Akbar Salehi] e o poderoso chefe do Parlamento [Larijani]. O Ministro da Defesa chama-se Ahmad [Vahidi] e o primeiro vice-presidente, Mohammad [Reza Rahimi].
Esses são nomes muçulmanos de origem árabe, comuns em famílias mais religiosas e, portanto, mais propensas a endossar o regime teocrático. Afinal, a influência árabe na Pérsia veio com a disseminação do islã, surgido onde é hoje a Arábia Saudita, lá pelos séculos 7, 8 e 9. Antes disso os persas eram essencialmente zoroastras, judeus e cristãos _hoje minorias.
[Folha SP, 1 mar 12]

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mia Couto: A Escrita Exige Sempre a Poesia



Sou escritor e cientista. Vejo as duas atividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura. 

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo. 

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano. 

Mia Couto, in 'Pensatempos.' 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Como justificar uma biblioteca particular - Humberto Eco


Umberto Eco

in O segundo Diário Mínimo.
Tradução:
Sérgio Flaksman.


Desde criança, tenho estado habitualmente exposto a dois (e apenas dois) tipos de piada: "Você é aquele que sempre responde" e "Você é aquele que ressoa pelos vales." Passei toda a minha infância convencido de que, por um curioso acaso, todas as pessoas que eu encontrava fossem estúpidas. Depois, tendo chegado à idade adulta, precisei descobrir que existem duas leis a que nenhum ser humano tem como esquivar-se: a primeira idéia que vem à mente é sempre a mais óbvia e, depois que a pessoa tem uma idéia óbvia, não lhe ocorre jamais que outros já possam tê-la tido antes.
Reuni uma coleção de títulos de artigos e resenhas, em todas as línguas do tronco indo-europeu, que variam entre "O eco de Eco" e "Um livro que produz eco". Salvo que, nesses casos, desconfio que não tenha sido esta a primeira idéia que veio à mente do redator; toda a redação deve ter-se reunido, discutido cerca de vinte títulos possíveis e, finalmente, o rosto do redator-chefe se iluminou e ele disse: "Rapazes, tive uma idéia fantástica!" E os colaboradores: "Chefe, você é um demônio, como é que tem essas idéias?" "É um dom", deve ter sido a sua resposta.
Não quero dizer com isto que todas as pessoas sejam banais. Tomar uma obviedade por idéia inédita, inspirada pela iluminação divina, revela certo frescor de espírito, um certo entusiasmo pela vida e sua imprevisibilidade, um certo amor pelas idéias – por menores que elas possam ser. Sempre me lembrarei do primeiro encontro que tive com o grande homem que foi Erving Goffman: eu o admirava e amava pela genialidade e a profundidade com que sabia recolher e descrever as nuances mais sutis do comportamento social, pela capacidade que tinha de perceber traços infinitesimais que até então haviam escapado a todos. Nós nos sentamos num café ao ar livre e ao fim de algum tempo, olhando para a rua, ele me disse: "Sabe, acho que hoje há automóveis demais circulando nas cidades." Talvez nunca tivesse pensado nisto, porque geralmente pensava em coisas bem mais importantes; tinha tido uma iluminação imprevista, e o frescor mental para enunciá-la. Eu, pequeno esnobe intoxicado pelas palavras de Nietzsche, teria sido incapaz de dizê-lo, mesmo que o pensasse.
O segundo choque da obviedade sobrevém a muitos que se encontram em condições iguais às minhas, ou seja, que possuem em casa uma biblioteca de certas dimensões – de tal maneira que, entrando em nossa casa, as pessoas não tenham como deixar de notá-la, inclusive porque nossa casa não contém muitas outras coisas. O visitante entra e diz. "Quanto livros! Já leu todos?" No início eu achava que esta frase só fosse pronunciada por pessoas de escassa intimidade com o livro, acostumadas a ver apenas estantezinhas com cinco livros policiais e mais uma enciclopédia infantil em fascículos. Mas a experiência me ensinou que também é pronunciada pelas pessoas que concebem as estantes como mero depósito de livros lidos e não a biblioteca como instrumento de trabalho, mas isto não bastaria. Estou convencido de que, quando se vê diante de muitos livros, qualquer pessoa é tomada pela angústia do conhecimento, e fatalmente resvala para a pergunta que exprime seu tormento e seus remorsos.
O problema é, à piada "O senhor é aquele que responde sempre" basta reagir com um sorriso e no máximo, quando é o caso de ser gentil, com uma "Boa, esta!" Mas é preciso dar uma resposta à pergunta sobre os livros, enquanto o maxilar se enrijece e filetes de suor gelado escorrem ao longo da coluna vertebral. Durante algum tempo adotei uma resposta desdenhosa: "Não li nenhum deles; senão, por que estariam aqui?" Mas esta é um resposta perigosa, porque desencadeia a reação óbvia: "E onde guarda os que já leu?" A melhor é a resposta padrão de Roberto Leydi: "E muitos mais, senhores, muitos mais", que deixa o adversário paralisado e o reduz a um estado de veneração estupefacta. Mas acho esta resposta impiedosa e ansiogênica. Ultimamente, eu me inclino por outra afirmação: "Não, estes são os que preciso ler durante o próximo mês, os outros eu guardo na universidade", resposta que por um lado sugere uma sublime estratégia ergonômica e, por outro, induz o visitante a antecipar o momento da despedida.

domingo, 27 de janeiro de 2013

O Paraguaio de Campina Grande



O Paraguaio de Campina Grande

Everaldo trazia muambas do Paraguai. Relógios especificamente. Era um paraibano branco, forte, de cabelos à la Rambo. Eu trabalhei para Everaldo de 2002 a 2003, numa banca de camelô em Alcântara, São Gonçalo. Vendia os mais finos medidores temporais de toda a cristandade, e além: era um harém da relojoaria universal, de todas as marcas, da Suíça a Tókio, passando por Paris e Nova Iorque, a 20% de comissão. Eu era um garotão viciado em quadrinhos, fliperamas e rock’n roll, e dava pra viver meus vícios sem passar fissura.

Hoje tem alguma graça, mas antes só me chocava o inusitado, o vão de tal morte: um caroço de azeitona.

Foi em 2003, na semana em que o então prefeito do Rio, César Maia, re-inaugurou o Pavilhão de São Cristóvão, a Feira Nordestina. Tomava, assentado numa roda de conterrâneos, uma cachaça vermelha, da terrinha, depois fui saber, dita ‘Santa Rita a Vermelha’. Estranho nome para uma santa, ou cachaça, mas dá na mesma, pensei na época. Engasgou com o tira-gosto, levantou-se já vermelho, deram-lhe socos nas costas, e tapas, e mais socos, muitos socos pelo que me disseram, mas não adiantou. Caiu ali, puseram-se a abaná-lo, mas já não havia ar, já não havia anima (espírito) naquele corpo.

Tinha na bolsa dez cordéis que me comprara, eu havia lhe encomendado. Eu adorava cordéis, como adorava os livrinhos de western, de bolso, que brasileiros escreviam com pseudônimos americanos. Pulp-fictions verde-e-amarelos. Não sei por que digo isso, não quero fugir do assunto, do Everaldo, mas sempre que me lembro dele penso nos cordéis, ‘João Cabrobró contra Satanás’, ‘A rixa do Carcará contra o Sapo-boi’, ‘Morte e Vida Severina’, e outras fugas da secura do sertão, da secura nonsense e repetitiva da vida, do nonsense seco e tedioso da morte.

Sammis Reachers

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O deserto, o oásis e a tamareira



O deserto, o oásis e a tamareira

Eu a conheci no Gragoatá, em Niterói, perto de um dos campus da UFF. Pegávamos o mesmo ônibus. Ela, menina de seus 16 anos, sempre de negro, com seus longos escorreitos cabelos negros. E as indefectíveis camisas negras de bandas de rock. Branca como a serpente edênica, que era branca como um anjo de luz se você não sabia. Muda e também calada. Ia todas as tardes levar sua irmã especial (tinha síndrome de Down) num colégio para especiais.
Nos olhávamos longamente. Eu estava na primeira separação desta de quem agora estou pela segunda vez separado, e a olhava com faminta ternura. Seu mutismo. Sua rebelião pelo silêncio e pelo luto. Seu contraste negro/claro.
Um dia não suportei e com meu melhor sorriso perguntei-lhe o nome. “Quem quer saber?”, foi seu semi-coice lacônico. “Eu quero. Meu nome é Sammis”. “Porque?”. “Porque te vejo todo dia, e te admiro”. “Tamara”, disse sem nenhum sorriso. Conversamos sobre bandas de rock. System of a Down, que naquele tempo era novidade. Não tinha namorado. Fiquei quatro dias sem vê-la, apenas alimentando as hienas da esperança. Quis ser romântico. Preparei uma carta, explanando acerca da origem e beleza de seu nome, meu sentimento por ela, e o poema de Gullar, flecha reciclada, já usado antes e usado depois, como bumerangue de um aborígene perdido na urbe:

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Encontrei-a ao fim da semana, no ponto de ônibus. Cheguei já na hora em que elas embarcavam no coletivo. Eram três: elas estavam com sua mãe (era divorciada, moravam as três num apartamento em São Domingos, bairro contíguo ao Gragoatá). Num movimento furtivo, enquanto sua mãe estava na roleta garimpando na bolsa o dinheiro das passagens, cutuquei-a e entreguei-lhe a carta. Ela apanhou-a com sua mão alvíssima e expressão impassível, marmórea, e colocou no bolso. A minha carta romântica e culta.
Nas semanas seguintes, desapareceu. Perguntei ao cobrador, “aquela menina branquinha, com a irmã especial”, mas ele também não a vira. Vira a mãe com a menininha apenas.
Passados dois meses, reencontrei-a: ela estava dentro de um ônibus, sentada à janela, e eu parado no ponto. Cutuquei-a para que tirasse os fones e saísse de sua imersão roqueira. “Você sumiu, o que houve?” “Nada.” “E a minha carta, você gostou?” “Eu tenho namorado.” Bah, mulheres. Rostos mutantes da mesma Eva, do mesmo punhal.
Bem, eu era um pobretão de vinte e sete anos e ela era uma menina mimada filha da classe B.
Sete meses depois, abro o jornal O Fluminense que jazia já amarrotado sobre a mesa de meu patrão, e vejo sua foto. Ela tinha dezoito, não dezesseis. Sim, tinha namorado. Havia se suicidado junto a ele, no palacete do pai do mesmo, na nobre estrada Froés, em Icaraí. Deixaram um longo bilhete, que o jornal não reproduzia. Não quis me informar mais.
Talvez eu a teria salvo, Tamara. Com a minha dor maior que a sua, providenciaria sombra para seu descanso. Entraria e habitaria de literaturas, de asas, sua vida e seu silêncio. E devagar, e sempre em silêncio, iniciar-te-ia num arcano que seus mortos e tribos não podiam, não podem: a lenta explosão que é o conhecimento de Cristo.^

Sammis Reachers

domingo, 20 de janeiro de 2013

Namor, o Príncipe Submarino



Namor, o Príncipe Submarino

Balas de Açúcar Andorinha
Doces Andorinha
Matusalém Batata Palha
Sorveteria Panosi
Fraldas Descartáveis Panosi
Video-Locadora Panosi Play
Foto e Filmagens Panosi
Buffet Panosi
Video-Locadora Blue Sea
Lavanderia Armênia
Armênia Confecções
Pan Moda Íntima
Pensão Panosi
Panosi Pizzas
Vila de Quitinetes Panosian
Imobiliária Panosian
Incorporadora Panosian e Filhos
Motel Rio Stars
Hotel Rio Stars
Rio Stars Resort Angra
Rede Hoteleira Rio Stars
Panosian Espaço de Eventos
Pré-Moldados Panosian e Filhos
Empreiteira Stan Panosian
Shopping Panosian
Parque Aquático Panosian
Linhas Aéreas Region...
                                            ...morreu no voo inaugural de sua sequencial vigésima sétima empresa, na ponte aérea entre Rio e São Paulo. Seu avião caiu sobre o mar, próximo a uma praia.
Filho de armênios, predestinado empreendedor que montou seu primeiro negócio aos 14 anos (as dulcíssimas Balas de Açúcar Andorinha), workaholic, worklover, homem de seu tempo, exemplo de seu tempo, homem sem seu tempo. Foi meu patrão em seis de seus vinte e sete empreendimentos. Abnegado, combativo, negociador nato, conselheiro, coaching e  mentoring intuitivo: era o protótipo de homem que reunia em si os arquétipos que a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios e Exame idealizam, cada qual sob seus sócio-economáticos filtros, para um empresário de sucesso.

Traído pelas três sucessivas esposas, roubado pelos filhos, morreu, pois mesmo dono do maior Parque Aquático da América Latina (o atlântico, o oceânico Parque Aquático Panosian), nunca teve tempo de aprender a nadar: no minuto após o pouso forçado sobre o espelho d’água, antes de a pequena aeronave submergir, conseguiu sair do avião, mas morreu afogado. Fiéis às lições de seu mentor, os pilotos e seus dois sócios estavam focados demais salvando-se a si mesmos.
Também não sabia pescar, não sabia Cézanne ou Renoir.  Não que essas frugalidades inúteis pudessem salvá-lo. Também não sabia que morreria, nunca teve mesmo tempo para isso.

Sonegador de impostos, corruptor de corruptos, sempre um passo à frente de seus concorrentes, seja vendendo fraldas de porta em porta na favela, seja ganhando licitações fraudulentas e construindo prédios superfaturados para a habitação pública.

Stan Panosian, o otário mais esperto e rico com quem já comunguei. 

Sammis Reachers

domingo, 30 de setembro de 2012

Luís Fernando Veríssimo: O Silêncio




A substituição da máquina de escrever pelo computador não afetou muito o que se escreve. Quer dizer, existe toda uma geração de escritores que nunca viram um tabulador (que, confesso, eu nunca soube bem para o que servia) e uma literatura pontocom que já tem até os seus mitos, mas mesmo num processador de texto de último tipo ainda é a mesma vel
ha história, a mesma luta por amor e glória botando uma palavra depois da outra com um mínimo de coerência, como no tempo da pena de ganso.

O novo vocabulário da comunicação entre micreiros, feito de abreviações esotéricas e ícones, pode ser um desafio para os não iniciados, mas o que se escreve com ele não mudou. Mudaram, isto sim, os entornos da literatura.

Por exemplo: não existem mais originais. Os velhos manuscritos corrigidos, com as impressões digitais, por assim dizer, do escritor, hoje são coisas do passado: com o computador só existe versão final.

O processo da criação foi engolido, não sobram vestígios. Só se vê a sala do parto depois que enxugaram o sangue e guardaram os ferros.

Nos jornais, o efeito do computador foi muito maior do que o fim da lauda rabiscada e da prova de paquê. O computador restabeleceu o que não existia nas redações desde — bem, desde as penas de ganso. O silêncio.

Um dia alguém ainda vai escrever um tratado sobre as consequências para o jornalismo mundial da substituição do metralhar das máquinas de escrever pelo leve clicar dos teclados dos micros, que transformou as redações, de fábricas em claustros. A desnecessidade do grito para se fazer ouvir e a perda da identificação do seu ofício com um barulhento trabalho braçal mudou o caráter do jornalista. Se para melhor ou para pior, é discutível.

Defendo, sem muita convicção, a tese de que a mudança da máquina de escrever para o computador também determinou uma migração da esquerda para a direita nas redações brasileiras. Se hoje não vale mais a velha máxima de que jornalista era de esquerda até o nível de redator chefe e de direita daí para cima, a culpa é da informatização. A nova direita é filha do silêncio.

Mas é no futuro que a troca do bom preto no branco pelo impulso eletrônico e o texto virtual fará a maior confusão.

A internet está cheia de textos apócrifos, inclusive alguns atribuídos a mim pelos quais recebo xingamentos (e tento explicar que não são meus) e elogios (que aceito, resignado), contra os quais nada pode ser feito e que, desconfio, sobreviverão enquanto tudo que os pobres autores deixarem feito por meios obsoletos virará cinza e será esquecido. Nossa posteridade será eletrônica e, do jeito que vai, será fatalmente de outro.


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