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terça-feira, 20 de junho de 2017

Hermann Hesse: Amar


Amar

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam
as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte
das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar da sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

Hermann Hesse


domingo, 4 de junho de 2017

Fundação, um poema do amor


Fundação

Eu fugia, sátiro por corsários
Amotinados
                        Mutilado
A entrelaçadora, a Escuridão
Me cirandava esfaqueava e enfim deitava
Às paredes do labirinto
                               Que me nascia:

O frio me desnudava
Vazio após vazio e vazio
Eclipsava no infinito, falsa
Crisálida que leva de processo
A processo, sem final em seu cio

Esperei pelo levita,
O escriba e o sacerdote
(e Lutero não trans
tornou a Terra num orbe de sacerdotes?)

Por fim, o samaritano:
Passou ao largo, ocupado o mui coitado
Em fazer guerra ao judeu (e quem nunca?)
Que os tempos primam pelo mal

E ela apareceu, descendo com a noite
mínima ninfa solitária

Sobre cada uma
                   Minha
    Cicatriz
Ela deitou uma flor, freira das heras
Pródiga em unguentos e emplastros
Karma & cura
Para minha colectânea de feras
           
E unimunimo-nos de nós:
A flora e a fauna
                Dum planeta erradio,
Pais fundadores de nossa imprópria

Raça de seres milifelizes.

Sammis Reachers

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os espaços do sono – Robert Desnos


Os espaços do sono 
Tradução de Eclair Antônio Almeida Filho
À noite há naturalmente as sete maravilhas do mundo e a grandeza e o trágico e o encanto.
Nela as florestas se chocam confusamente com criaturas de lenda escondidas nos bosques.
Há você.
Na noite há o passo do caminhante e o do assassino e o do agente de polícia e a luz do revérbero e a da lanterna do trapeiro.
Há você.
Na noite passam os trens e os barcos e a miragem dos países onde é dia.
Os derradeiros sopros do crepúsculo e os primeiros arrepios da aurora.
Há você.
Uma ária de piano, um brilho de voz.
Uma porta range. Um relógio.
E não somente os seres e as coisas e os ruídos materiais.
Mas ainda eu que me persigo ou sem cessar me ultrapasso.
Há você a imolada, você que eu espero.
Por vezes estranhas figuras nascem no instante do sono e desaparecem.
Quando cerro os olhos, florações fosforescentes aparecem e murcham e renascem como carnosos fogos de artifício.
Países desconhecidos que percorro em companhia de criaturas.
E há você sem dúvida, ó bela e discreta espiã.
E a alma palpável do espaço.
E os perfumes do céu e das estrelas e o canto do galo de há 2 000 anos e o choro do pavão em parques em chama e beijos.
Mãos que se apertam sinistramente numa luz baça e eixos que rangem sobre estradas medusantes.
Há você sem dúvida que não conheço, que conheço ao contrário.
Mas que, presente em meus sonhos, te obstinas a neles se deixar adivinhar sem aparecer.
Você que permanece inapreensível na realidade e no sonho.
Você que pertence a mim por minha vontade de possuí-la em ilusão, mas que não aproxima seu rosto do meu como meus olhos fechados tanto ao sonho como à realidade.
Você que a despeito de uma retórica fácil em que a onda morre nas praias, em que a gralha voa em usinas em ruínas, em que a madeira apodrece rachando-se sob um sol de chumbo.
Você que está na base de meus sonhos e que excita meu espírito pleno de metamorfoses e que me deixa sua luva quando beijo sua mão.
À noite há as estrelas e o movimento tenebroso do mar, dos rios, das florestas, das idades, das relvas, dos pulmões de milhões e milhões de seres.
À noite há as maravilhas do mundo.
À noite não há anjos da guarda, mas há o sono.
À noite há você.
No dia também.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Luiz Felipe Pondé - Meu irmão Kierkegaard


QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.

Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer.

Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.

Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.


Luiz Felipe Pondé
Folha de S.Paulo, Ilustrada, 13 de junho de 2011

domingo, 4 de agosto de 2013

A poesia de Patrícia Costa


Recolhimento

Escolho me calar
e a única palavra que deixo anunciada
é a da lágrima que escorre
externando o meu íntimo.

Frase que não alardeia
coisa parecida com nada,
tudo já está dito
aguardando a sensibilidade do ouvido atento.

Descrente, rasgo o mistério
dos sonhos todos, que na ponta do lápis
 delineava o voo liberto
 no céu do teu leito.

Então retorno à desventura
do reverso caminho
com a palavra salina
molhando minha boca.



Ardor

Estou e sou
dentro dessa lonjura
reverberando tua presença
na inquietude do ter

Mar que tumultua
e espumeja
quando tua ausência
incita o infindo das horas

Fixo o pensamento
até a exaustão
das memórias todas
em ti

Então ardo
e  nasço
num parto
de saudade.      



Juntos

Teu beijo traduziu todas as minhas palavras. Alumiou os meus desejos. Fez acelerar o coração; abro a porta para tudo que chegou através de você.
Abraço-te com essa vastidão e encosto a minha esperança na tua deixando a nossa leveza eternizar a paz. A poesia todas as manhãs me sorri agradecendo – disse que o teu amor trouxe novos verbos para mais perto. Tudo verseja melhor. Afável é esse sentimento das tuas declarações. Guardo todas no solo sagrado da minha memória e te materializo recitando cada uma delas ao pé do meu ouvido.

Desaprendo de mim. Descalço certezas. Reinvento-me. Já não espero com tamanha urgência que cada letra descubra o seu lugar. O tempo tem sido bastante generoso fazendo de cada encontro essa novidade de vida. 

Os detalhes te abriram portas nos caminhos de dentro; meu sentimento te recebeu. Bom é acordar com você amanhecendo. Melhor ainda é te sentir morar. Estou para tudo o que nos devolve. Estou pra você, que dia após dia me encanta e me faz vivenciar o mais bonito sonho.


terça-feira, 28 de maio de 2013

Como é triste Veneza


(Piazza di San Marco, Canaletto)



Como é triste Veneza se não há amor
como serão tristes
as pombas da Piazza se não rodeiam

um homem e uma mulher escondidos
no fundo de um abraço
como é triste sem ninguém
a Ponte dos Suspiros
como são tristes as gôndolas
que envelhecem no asfalto.

28/5/2013

© J.T.Parreira

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Karl Barth: O AMOR AO PRÓXIMO

O AMOR AO PRÓXIMO

O amor não é Eros, que sempre cobiça, mas Ágape, que jamais acabará.
A novidade, a originalidade do amor é ele não participar do círculo vicioso
que vai do mal ao mal e da reação à revolução.

O amor é "justiça equalizadora eterna" (Kierkegaard),
porque a ninguém justifica segundo o próprio desejo;
O amor edifica a comunidade porque unicamente procura comunhão;
O amor nada espera porque já atingiu o alvo;
nada procura, porque já encontrou;nada quer porquanto já realizou;
nada pergunta, pois já sabe;
não luta porque já venceu.
O amor não contradiz e, por isso, não pode ser refutado;
não concorre e, portanto, não é vencido;
não busca decisão e, conseqüentemente, ele próprio é a decisão.

O amor destrói os ídolos
porque não cria outros.

Karl Barth

Texto extraído do site da União Missionária Brasileira (Visite:www.umbet.org.br)
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