quarta-feira, 29 de julho de 2026

Salmo, poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos

 


Salmo

 

Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

Quando as madressilvas se calarem nas sebes

e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,

quando a neblina impenetrável me apagar a vista,

anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,

quando o cetro das sombras me ferir a fronte,

Senhor! Não tenha sido em vão a minha vida,

mas que nas praças eu deixe murmurando

um pensamento de brandura;

ou pelos campos que povoei de frondes perdulárias,

possa ficar cantando, como um lótus na corrente,

a asa meiga de um gesto de bondade.

 

Ao pé da serra,

onde as águias pousam nos meus ombros,

dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz:

dá-me forças, Coração de nuvem,

para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça;

dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó pura Primavera,

para que eu dessedente os lábios

na Cascata de teu Nome.

 

Poupa a esta sede a esponja de vinagre;

desviando a taça e o fel de minha boca.

Derrama sobre mim o Teu clarão

para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade,

e recoberto pelo manto que me concedeste,

possa eu dormir tranquilo junto à Face irrevelada,

alheio para nunca mais, ao escárnio do momento imperecível.


In Revista AMPLITUDE #8.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Quatro poemas de Renata Pallottini

 


A Doce Servidão de Jacó

 

O cântaro poreja a água amena

que do poço brotou, e adoça a areia

e que corre nos ombros, e que enleia

pelas espáduas seu frescor moreno.

 

O lácteo manto que uma brisa ondeia

desenha formas, cujo talhe apenas

a tamareira imita, a flor receia,

o vento afaga e a solidão serena.

 

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,

ouvir-lhe a voz de urna doçura eleita,

roçar-lhe a fronte uma revelação.

 

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,

beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita,

catorze anos de vida pagarão.

 

 

Gênesis 48:7

 

Morreu Raquel em terras de Canaã,

morreu para os meus olhos o seu vulto,

dorme em seu corpo a estrela da manhã,

a areia do deserto o tem sepulto;

 

a fonte longa desta longa sede,

o ázimo pão deste jejum cansado,

morreu Raquel, o meu regato verde

destes olhos tão tristes derramado.

 

No caminho que leva a Bethleem,

ervas amargas, pranto meu votivo

fecharam sobre ti a última porta;

 

sobre todas as coisas e ninguém,

sonha com meu amor eterno e vivo

minha eterna bem-amada morta.

 

 

Por Ti Deixei

 

"Portanto, deixa o homem

a seu pai e a sua mãe,

e se une a sua mulher;

e são uma só carne."

Gênesis, 2:24

 

Por ti deixei, do meu rebanho lento

a alva timidez; da minha casa

o fogo acolhedor tornado brasa

e a brasa morta transformada em pranto.

 

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,

da boca de meu pai restou-me a frase

e estes meus olhos são cisternas rasas

onde à tardinha vem beber o vento.

 

Ponho a teus pés o meu desejo triste

que se renova numa força eterna,

e te ofereço uma fraqueza a mais;

 

pedaço do meu tronco que partiste,

carne, que foste um pouco de meu cerne!

À minha própria carne tornarás.



Primeiro Foi a Noite

 

“No princípio criou Deus o céu e a terra.”

Gênesis, 1:1

 

Primeiro foi a noite. E a noite feita,

desta engendrou-se a luz, julgada boa.

Depois, fez-se o agudo desespero do céu.

E a terra. E as águas separadas.

 

E um mar se fez, da lúcida colheita

das águas inferiores. A coroa

tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —

ordenou-se às estrelas debulhadas.

 

Houve flores estáticas e flores

que procuravam flores; e houve a fome

de carne e amor e dessa fome as dores

 

e das dores o Homem. Deste, esquiva,

toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,

mais uma vez a noite primitiva.

 

Renata Pallottini (1931–2021) foi uma importante poeta, dramaturga, ensaísta e romancista brasileira. Atuou de forma brilhante na vida acadêmica como professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP. Destacou-se também na televisão, onde escreveu roteiros para produções icônicas como Malu Mulher e Vila Sésamo.


sábado, 4 de julho de 2026

Revista AMPLITUDE n. 08 - Julho de 2026: Faça o download grátis

 

Tome, pegue que é de graça!

      

Julho da graça de nosso Senhor da graça chegou e, com ele e com satisfação, lhe entregamos em mãos — ainda que virtuais —, este novo número de AMPLITUDE.

Depois de seu início, em meio à providencial pujança do Império Romano, o cristianismo nunca foi tão contracultural quanto hoje. Seu exclusivismo segue, sim, incontornável, e embaraça uma era de relativismo vazio e esvaziador.

Atenta aos tempos e humilde agente de seu momento, Amplitude se apresenta como balcão de resistência, reafirmando os valores eternos, firme em seu papel de resgatar, promover, divulgar e viver a cultura cristã em toda a sua vivacidade, singularidade e fortuna.

Nesta edição, apresentamos duas matérias que consideramos especiais:

Um texto sobre o “boom” da ficção cristã no Brasil, que vai das telas e streamings às páginas dos livros. E uma ampla lista (bibliografia) de biografias de missionários, de ontem e hoje, daqui e dos muitos acolás, já publicadas em português.

E a refeição segue farta:

Em Jardim dos Clássicos, um conto da sueca Selma Lagerlöf, primeira mulher a ganhar um Nobel de Literatura.

Em Hot Spots, uma seleção de frases de George Macdonald, precursor do gênero fantasia na língua de Shakespeare, teólogo singular e motor inspiracional por trás de hombres como C.S. Lewis e G. K. Chesterton.

O Poeta em Destaque deste número é o saudoso Joanyr de Oliveira, poeta insigne e árduo promotor das letras evangélicas.

Na seção de HQs, os quadrinhos instigantes de Samuel Silva.

O cardápio se completa com as seções tradicionais que formam nossa revista: Torre de Oração, Poesia, Pharmacia, Resenhas, Games, Download, Parlatorium e Notas Culturais.


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Como você sabe, AMPLITUDE circula em formato eletrônico e é gratuita, com periodicidade semestral. Mas temos uma novidade: Agora AMPLITUDE também pode ser adquirida na modalidade IMPRESSA. Isso mesmo, a revista está à venda sob demanda no site da Editora UICLAP, neste link:

https://loja.uiclap.com/titulo/ua180965/

 

Pegue seu café, seu chá, seu isotônico, e boa leitura!

      Sammis Reachers, editor


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