A
Doce Servidão de Jacó
O
cântaro poreja a água amena
que
do poço brotou, e adoça a areia
e
que corre nos ombros, e que enleia
pelas
espáduas seu frescor moreno.
O
lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha
formas, cujo talhe apenas
a
tamareira imita, a flor receia,
o
vento afaga e a solidão serena.
Vê-la
é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe
a voz de urna doçura eleita,
roçar-lhe
a fronte uma revelação.
O
amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe
os olhos, cuja flor desfeita,
catorze
anos de vida pagarão.
Gênesis
48:7
Morreu
Raquel em terras de Canaã,
morreu
para os meus olhos o seu vulto,
dorme
em seu corpo a estrela da manhã,
a
areia do deserto o tem sepulto;
a
fonte longa desta longa sede,
o
ázimo pão deste jejum cansado,
morreu
Raquel, o meu regato verde
destes
olhos tão tristes derramado.
No
caminho que leva a Bethleem,
ervas
amargas, pranto meu votivo
fecharam
sobre ti a última porta;
sobre
todas as coisas e ninguém,
sonha
com meu amor eterno e vivo
minha
eterna bem-amada morta.
Por
Ti Deixei
"Portanto,
deixa o homem
a
seu pai e a sua mãe,
e
se une a sua mulher;
e
são uma só carne."
Gênesis,
2:24
Por
ti deixei, do meu rebanho lento
a
alva timidez; da minha casa
o
fogo acolhedor tornado brasa
e
a brasa morta transformada em pranto.
Das
mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da
boca de meu pai restou-me a frase
e
estes meus olhos são cisternas rasas
onde
à tardinha vem beber o vento.
Ponho
a teus pés o meu desejo triste
que
se renova numa força eterna,
e
te ofereço uma fraqueza a mais;
pedaço
do meu tronco que partiste,
carne,
que foste um pouco de meu cerne!
À
minha própria carne tornarás.
Primeiro
Foi a Noite
“No
princípio criou Deus o céu e a terra.”
Gênesis,
1:1
Primeiro
foi a noite. E a noite feita,
desta
engendrou-se a luz, julgada boa.
Depois,
fez-se o agudo desespero do céu.
E
a terra. E as águas separadas.
E
um mar se fez, da lúcida colheita
das
águas inferiores. A coroa
tornou-se
firmamento. "Haja luzeiros" —
ordenou-se
às estrelas debulhadas.
Houve
flores estáticas e flores
que
procuravam flores; e houve a fome
de
carne e amor e dessa fome as dores
e
das dores o Homem. Deste, esquiva,
toda
fome, sua fêmea, e no seu sexo,
mais
uma vez a noite primitiva.
Renata
Pallottini (1931–2021) foi uma importante poeta, dramaturga, ensaísta e
romancista brasileira. Atuou de forma brilhante na vida acadêmica como
professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP. Destacou-se também
na televisão, onde escreveu roteiros para produções icônicas como Malu Mulher e
Vila Sésamo.

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