terça-feira, 14 de julho de 2026

Quatro poemas de Renata Pallottini

 


A Doce Servidão de Jacó

 

O cântaro poreja a água amena

que do poço brotou, e adoça a areia

e que corre nos ombros, e que enleia

pelas espáduas seu frescor moreno.

 

O lácteo manto que uma brisa ondeia

desenha formas, cujo talhe apenas

a tamareira imita, a flor receia,

o vento afaga e a solidão serena.

 

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,

ouvir-lhe a voz de urna doçura eleita,

roçar-lhe a fronte uma revelação.

 

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,

beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita,

catorze anos de vida pagarão.

 

 

Gênesis 48:7

 

Morreu Raquel em terras de Canaã,

morreu para os meus olhos o seu vulto,

dorme em seu corpo a estrela da manhã,

a areia do deserto o tem sepulto;

 

a fonte longa desta longa sede,

o ázimo pão deste jejum cansado,

morreu Raquel, o meu regato verde

destes olhos tão tristes derramado.

 

No caminho que leva a Bethleem,

ervas amargas, pranto meu votivo

fecharam sobre ti a última porta;

 

sobre todas as coisas e ninguém,

sonha com meu amor eterno e vivo

minha eterna bem-amada morta.

 

 

Por Ti Deixei

 

"Portanto, deixa o homem

a seu pai e a sua mãe,

e se une a sua mulher;

e são uma só carne."

Gênesis, 2:24

 

Por ti deixei, do meu rebanho lento

a alva timidez; da minha casa

o fogo acolhedor tornado brasa

e a brasa morta transformada em pranto.

 

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,

da boca de meu pai restou-me a frase

e estes meus olhos são cisternas rasas

onde à tardinha vem beber o vento.

 

Ponho a teus pés o meu desejo triste

que se renova numa força eterna,

e te ofereço uma fraqueza a mais;

 

pedaço do meu tronco que partiste,

carne, que foste um pouco de meu cerne!

À minha própria carne tornarás.



Primeiro Foi a Noite

 

“No princípio criou Deus o céu e a terra.”

Gênesis, 1:1

 

Primeiro foi a noite. E a noite feita,

desta engendrou-se a luz, julgada boa.

Depois, fez-se o agudo desespero do céu.

E a terra. E as águas separadas.

 

E um mar se fez, da lúcida colheita

das águas inferiores. A coroa

tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —

ordenou-se às estrelas debulhadas.

 

Houve flores estáticas e flores

que procuravam flores; e houve a fome

de carne e amor e dessa fome as dores

 

e das dores o Homem. Deste, esquiva,

toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,

mais uma vez a noite primitiva.

 

Renata Pallottini (1931–2021) foi uma importante poeta, dramaturga, ensaísta e romancista brasileira. Atuou de forma brilhante na vida acadêmica como professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP. Destacou-se também na televisão, onde escreveu roteiros para produções icônicas como Malu Mulher e Vila Sésamo.


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