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domingo, 4 de outubro de 2026

Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos, novo livro de Renato Melo

 

Renato Melo lançou recentemente seu novo livro, Aqueles que Cantam Zombam dos Relâmpagos.

Andarilho do verso e sua persistência, Renato Melo é um poeta de onde já não se pode tornar atrás: e com isso significa que está lançado com suas todas forças no oceano do verbo, entregue a seu risco e sua sina; alcançou mesmo um status, raro como ave que ronda a extinção, em que esperamos seu próximo livro, com expectativa alegre. Sua poesia, como jaz patente neste Aqueles que cantam, é toda uma psicanálise, uma expedição cartográfica sobre as trilhas da alma e suas bagagens. 

O livro pode ser adquirido no site da Editora Letramento, AQUI. E você pode conhecer mais do trabalho de Renato em seu perfil no Instagram, AQUI.

Os seguintes versos, extraídos da obra, dão conta de sua fluência:


ENSINE ISSO AOS MENINOS

 

Conhecer as coisas, as garças, as graças

conhecer as riquezas do mundo em côvados

o curso das estrelas

em seu número, peso e ferida.

Será mesmo que a ignorância é uma bênção?

Importa proteger os filhos

das próprias palavras

mostrar o mundo

todos os lamentos

sua melancolia num espelho

e ainda em parto o cheiro da chuva

ao ponto de fazer tremer

as pálpebras dos meninos.

 

Ante os tremores do universo

aqueles que cantam zombam dos relâmpagos,

tal melodia nos enche de confiança.

Bom que seja assim, ensine isso a eles.

Que iluminados resistam a toda maligna intenção

ainda que permitir o milagre

seja algo que doa.


EXATIDÃO

 

Por isso falo com Deus, oferto tudo

o senso crítico, rude.

Oferto tudo, ferramentas e talentos

enxada, machado exangue.

Oferto tudo, as flores murchas do jardim

as belas, as bobas, a minha comunhão

sob o sol. Oferto tudo

falo com Deus enquanto frio

perante o rio sob os olhares tensos

desta minha (in)questionável

lucidez.

 


SOLIDÃO DE PESCADOR

 

Se a verdade não fosse tão estreita,

o Anjo da morte nem existiria.

Incapaz de se conter, o corpo é vasto

qualquer insurgência faz de seu rastro um abismo

acendendo desolações

por onde cair.

 

Neste céu nublado, solidão de pescador

o transgressor indigente assombrado vaga:

 

— "Afasta-te de mim, meu Senhor!"

 

Seu olhar abalado prefere a fuga, o fogo.

Faz sentido sua comiseração.

Ante a encarnação da indulgência, não há nada

mais nobre que se possa ansiar.

 

Da sinceridade Deus se agrada, Ele vê

a carne despojada em longa anunciação

ansiando por uma aurora ainda

não vertida. Nua expectação exprime:

 

— Que é o homem longe da Fonte?

 

Antes que o galo cante, é melhor se reaver.

Pode ser que a dor da traição se torne

insuportável — o Cristo até que perdoa.

Muitas vezes o homem a si mesmo, não.

 

A carne é bem fraca!



AMOR ERRADO

 

Saber se amar é uma astúcia, requer insurgência.

O resto do mundo prefere fingir

que não faz falta.

 

É indizível o amor errado e num quarto escuro

todo prazer é ateu — a não ser, é claro

que se converta em poesia ou coisa bela sem culpa.

 

Acreditar que vale tudo me adoece

amor não é metástase, nem brinquedo, nem suicídio

coletivo.


sábado, 12 de setembro de 2026

Gestos do Nada, novo livro de Geovane Fernandes Monteiro


 Em agosto, o poeta, escritor e editor Geovane Fernandes Monteiro lançou seu terceiro livro, o pungente Gestos do Nada (Litteralux, 94 páginas).

A crueza da vida é inimiga do verso que a revela, a vocifera: dos porões do dia, da alma e suas catacumbas, o poeta debulha as cismas, peneira medos e (re)funda à frio tudo em sua forja. Faz a palavra – via-vivência – arder até luz. Este Os Gestos do Nada é fagulha na corda tênsil da existência, ensaio sobre o salto e sua negação, emerso da quietude etérea/densa do reino do verbo. Nesse domínio expandido, entre a paz e a disrupção, o poeta é a síntese do que somos e do que estamos: libelo de uma psiquê singular e coletiva, aqui Geovane, o homem, entrega, com hábil fartura, humanidade.

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor, através de seu perfil no Instagram: @geovane.fernandesmonteiro , ou no site da Editora Litteralux.


Três poemas da obra:


O encontro

 

aguardo informações

sobre o que cometi

entre alheias suposições

espalho eventos dos vazios

 

latências arejadas por suor

beijos de novela

em ausências superestimadas

plasmam meus blecautes

 

ganhei o que não quis?

qual a geografia dos erros?

esgotei o que há?

 

ao pé do infinito

nada atingir

senão realizar?

 

errei o alvo das saudades

por onde pessoas se cruzam

para haver caminhos

e os corpos se enlaçam

esgotando as palavras

das palavras

 

Às 0h

 

Disparam os relógios

a rota dos ponteiros acompanha sua inércia

nada se mantém em datas

jet lag nas recreações me traz

as 24 horas

 

ponteiros quebrados

no horário de Brasília

envelhecem juntas a bomba-relógio

e minhas mãos supersônicas

por entre o chão parado das auroras

 

ao tempo perdido

não sei da hora certa nesta vida agendada

com suas vésperas

relojoeiros empurram o ponteiro parado —

giram os relógios

vive o futuro a própria inexistência

corpos celestes

surdos despertadores

meus apelos em desuso

mas a vida útil

na soma dos dentes que caem

ante os relógios decorativos

em espera menti às datas memoradas

e do sóbrio cálculo vêm os calendários

extensão de paredes

 

a vida entre o atraso e o adiantamento

ajusta o relógio

 

 

Mensagem

 

Meu corpo a corpo

alegria fugitiva de alegria

sem confusão de dores

durante meu tamanho

aonde a saúde me guia

 

tenho a companhia de mensagens

na experiência do arrastar da carne

povoando-me desprevenida

nos alcances de esquecimentos

 

a um desencadear

prévias de sol e de lua

migrações terrenas

na penúltima querência

percorro isto ou aquilo

e em dias comigo

meu nome perdido na idade

meu desdobrar em alerta vertebrado

no todo de ventre me inaugura

 

por entre crenças e descrenças

o exercício do corpo

que é fé

pois não há senão ele

 

de existindo

sou uma resposta


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dois poemas de Maria José de Jesus

 


A Vida

 

Que é o mundo senão efervescência

Da vida — que pulula pelos ares,

Pela terra, nas vísceras dos mares,

Proclamando a divina Onipotência?

 

Cada vida produz. nova existência...

Os seres multiplicam-se aos milhares...

Se a morte brutalmente poda os lares,

A vida brota em nova eflorescência.

 

Mas esta vida tão pujante embora,

Não é mais que um prelúdio, uma aurora

Da vida que jamais há de findar.

 

Morre o corpo, mas a alma — essa não morre;

E ao separar-se dele ao seu Deus corre —

Como um rio que enfim entra no mar!

 


Madalenas


Junto da Cruz soluça a Madalena,
Louca de dor, ao ver o Mestre amado
Pagando – Ele o Impoluto, o Santo – a pena
Da iniquidade humana, do pecado.


A seus olhos desfila, cena a cena,
O horror de seu tristíssimo passado;
E ela vê quanto é grave o que condena
O mesmo Deus a ser crucificado!…


Ó minha alma, como ela tu pecaste:
Como ela faze penitência agora.
Serás perdoada porque muito amaste.


Os pecados do mundo e os teus deplora!
Ama o teu Deus que tu crucificaste!
E, junto desta Cruz, definha e chora.

 

Madre Maria José de Jesus (1882 - 1959), foi uma freira carmelita brasileira, poeta e tradutora.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Salmo, poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos

 


Salmo

 

Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

Quando as madressilvas se calarem nas sebes

e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,

quando a neblina impenetrável me apagar a vista,

anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,

quando o cetro das sombras me ferir a fronte,

Senhor! Não tenha sido em vão a minha vida,

mas que nas praças eu deixe murmurando

um pensamento de brandura;

ou pelos campos que povoei de frondes perdulárias,

possa ficar cantando, como um lótus na corrente,

a asa meiga de um gesto de bondade.

 

Ao pé da serra,

onde as águias pousam nos meus ombros,

dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz:

dá-me forças, Coração de nuvem,

para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça;

dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó pura Primavera,

para que eu dessedente os lábios

na Cascata de teu Nome.

 

Poupa a esta sede a esponja de vinagre;

desviando a taça e o fel de minha boca.

Derrama sobre mim o Teu clarão

para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade,

e recoberto pelo manto que me concedeste,

possa eu dormir tranquilo junto à Face irrevelada,

alheio para nunca mais, ao escárnio do momento imperecível.


In Revista AMPLITUDE #8.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Quatro poemas de Renata Pallottini

 


A Doce Servidão de Jacó

 

O cântaro poreja a água amena

que do poço brotou, e adoça a areia

e que corre nos ombros, e que enleia

pelas espáduas seu frescor moreno.

 

O lácteo manto que uma brisa ondeia

desenha formas, cujo talhe apenas

a tamareira imita, a flor receia,

o vento afaga e a solidão serena.

 

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,

ouvir-lhe a voz de urna doçura eleita,

roçar-lhe a fronte uma revelação.

 

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,

beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita,

catorze anos de vida pagarão.

 

 

Gênesis 48:7

 

Morreu Raquel em terras de Canaã,

morreu para os meus olhos o seu vulto,

dorme em seu corpo a estrela da manhã,

a areia do deserto o tem sepulto;

 

a fonte longa desta longa sede,

o ázimo pão deste jejum cansado,

morreu Raquel, o meu regato verde

destes olhos tão tristes derramado.

 

No caminho que leva a Bethleem,

ervas amargas, pranto meu votivo

fecharam sobre ti a última porta;

 

sobre todas as coisas e ninguém,

sonha com meu amor eterno e vivo

minha eterna bem-amada morta.

 

 

Por Ti Deixei

 

"Portanto, deixa o homem

a seu pai e a sua mãe,

e se une a sua mulher;

e são uma só carne."

Gênesis, 2:24

 

Por ti deixei, do meu rebanho lento

a alva timidez; da minha casa

o fogo acolhedor tornado brasa

e a brasa morta transformada em pranto.

 

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,

da boca de meu pai restou-me a frase

e estes meus olhos são cisternas rasas

onde à tardinha vem beber o vento.

 

Ponho a teus pés o meu desejo triste

que se renova numa força eterna,

e te ofereço uma fraqueza a mais;

 

pedaço do meu tronco que partiste,

carne, que foste um pouco de meu cerne!

À minha própria carne tornarás.



Primeiro Foi a Noite

 

“No princípio criou Deus o céu e a terra.”

Gênesis, 1:1

 

Primeiro foi a noite. E a noite feita,

desta engendrou-se a luz, julgada boa.

Depois, fez-se o agudo desespero do céu.

E a terra. E as águas separadas.

 

E um mar se fez, da lúcida colheita

das águas inferiores. A coroa

tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —

ordenou-se às estrelas debulhadas.

 

Houve flores estáticas e flores

que procuravam flores; e houve a fome

de carne e amor e dessa fome as dores

 

e das dores o Homem. Deste, esquiva,

toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,

mais uma vez a noite primitiva.

 

Renata Pallottini (1931–2021) foi uma importante poeta, dramaturga, ensaísta e romancista brasileira. Atuou de forma brilhante na vida acadêmica como professora emérita da Escola de Comunicações e Artes da USP. Destacou-se também na televisão, onde escreveu roteiros para produções icônicas como Malu Mulher e Vila Sésamo.


sábado, 4 de julho de 2026

Revista AMPLITUDE n. 08 - Julho de 2026: Faça o download grátis

 

Tome, pegue que é de graça!

      

Julho da graça de nosso Senhor da graça chegou e, com ele e com satisfação, lhe entregamos em mãos — ainda que virtuais —, este novo número de AMPLITUDE.

Depois de seu início, em meio à providencial pujança do Império Romano, o cristianismo nunca foi tão contracultural quanto hoje. Seu exclusivismo segue, sim, incontornável, e embaraça uma era de relativismo vazio e esvaziador.

Atenta aos tempos e humilde agente de seu momento, Amplitude se apresenta como balcão de resistência, reafirmando os valores eternos, firme em seu papel de resgatar, promover, divulgar e viver a cultura cristã em toda a sua vivacidade, singularidade e fortuna.

Nesta edição, apresentamos duas matérias que consideramos especiais:

Um texto sobre o “boom” da ficção cristã no Brasil, que vai das telas e streamings às páginas dos livros. E uma ampla lista (bibliografia) de biografias de missionários, de ontem e hoje, daqui e dos muitos acolás, já publicadas em português.

E a refeição segue farta:

Em Jardim dos Clássicos, um conto da sueca Selma Lagerlöf, primeira mulher a ganhar um Nobel de Literatura.

Em Hot Spots, uma seleção de frases de George Macdonald, precursor do gênero fantasia na língua de Shakespeare, teólogo singular e motor inspiracional por trás de hombres como C.S. Lewis e G. K. Chesterton.

O Poeta em Destaque deste número é o saudoso Joanyr de Oliveira, poeta insigne e árduo promotor das letras evangélicas.

Na seção de HQs, os quadrinhos instigantes de Samuel Silva.

O cardápio se completa com as seções tradicionais que formam nossa revista: Torre de Oração, Poesia, Pharmacia, Resenhas, Games, Download, Parlatorium e Notas Culturais.


BAIXE A SUA REVISTA PELO NOSSO SITE BIBLIOTECA DE MISSÕES, CLICANDO AQUI.


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BAIXE A SUA REVISTA PELA PLAYSTORE DO GOOGLE, CLICANDO AQUI.


Como você sabe, AMPLITUDE circula em formato eletrônico e é gratuita, com periodicidade semestral. Mas temos uma novidade: Agora AMPLITUDE também pode ser adquirida na modalidade IMPRESSA. Isso mesmo, a revista está à venda sob demanda no site da Editora UICLAP, neste link:

https://loja.uiclap.com/titulo/ua180965/

 

Pegue seu café, seu chá, seu isotônico, e boa leitura!

      Sammis Reachers, editor


quinta-feira, 5 de março de 2026

O Trabalho de Jesus, poema de Tasso da Silveira

 




O Trabalho de Jesus


Tu, Senhor, atravessaste

trinta anos de vida oculta

na humilde oficina

de Nazaré.

E não quiseste fazer mais do que fizeram

fazem e farão,

todos os marceneiros humílimos

desde o começo do mundo.

Não inventaste um só instrumento novo.

Não imprimiste, no torno,

à madeira que trabalhavas,

uma só curva desusada.

Tu, o Criador de todas as formas

da prodigiosa máquina dos mundos,

de Beleza total,

Atravessaste, Senhor, trinta anos

de vida oculta,

como que trabalhando apenas

a tua simplíssima cruz.


Do livro Lendas do Céu e da Terra, de Malba Tahan


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Almanaque Poético Brasileiro: Obra reúne 68 poetas e possui download gratuito

 

O escritor, poeta, professor e ativista cultural José Feldman, grande promotor da literatura brasileira, realizou mais um tento: A organização e publicação do Almanaque Poético Brasileiro. A obra reúne, em suas 212 páginas, textos de 68 poetas, entre vivos e falecidos, abarcando os mais diversos gêneros poéticos. E o melhor: O e-book possui download gratuito.

Baixe o seu através do Google Drive, CLICANDO AQUI.



Os poetas que fazem parte deste primeiro volume:

1. A. A. de Assis (PR)
2. Ademar Macedo (RN) +
3. Amilton Maciel Monteiro (SP)
4. Antônio Juraci Siqueira (PA)
5. Antônio Manoel Abreu Sardenberg (RJ)
6. Aparecido Raimundo de Souza (ES)
7. Benedita Azevedo (RJ)
8. Benjúnior (SC)
9. Carlos Lúcio Gontijo (MG)
10. Carolina Ramos (SP)
11. Cecim Calixto (PR) +
12. Cecy Barbosa Campos (MG)
13. Daniel Maurício (PR)
14. Dinair Leite (PR)
15. Divenei Boseli (SP)
16. Dorothy Jansson Moretti (SP) +
17. Edy Soares (ES)
18. Elisa Alderani (SP)
19. Fabiano Wanderley (RN)
20.Filemon Martins (SP)
21. Francisco Miguel de Moura (PI)
22.Francisco Macedo (RN) +
23.Francisco José Pessoa (CE) +
24.Gérson César Souza (RS)
25. Gilson Faustino Maia (RJ)
26.Gislaine Canales (RS) +
27.Graça Graúna (RN)
28.Hegel Pontes (MG) +
29.Hermoclydes S. Franco (RJ) +
30.Ialmar Pio Schneider (RS)
31. Jaime Vieira (PR)
32.Janske Schlenker (PR)
33.Jérson Brito (RO)
34.Jessé F. Nascimento (RJ)
35. João Batista Xavier Oliveira (SP) +
36.José Feldman (PR)
37.José Lucas de Barros (RN) +
38.Laércio Borsatto (SP)
39.Lairton Trovão de Andrade (PR)
40.Lino Vitti (SP) +
41. Luciano Dídimo (CE)
42.Lucília A. T. Decarli (PR)
43.Luiz Damo (RS)
44.Luiz Eduardo Caminha (SC) +
45. Luiz Poeta (RJ)
46.Maria Nascimento (RJ)
47.Miguel Russowsky (SC) +
48.Milton S. Souza (RS) +
49.Nilto Maciel (CE) +
50. Ógui Lourenço Mauri (SP)
51. Olivaldo Júnior (SP)
52. Paulo R.O. Caruso (RJ)
53. Paulo Vinheiro (SP)
54. Paulo Walbach (PR) +
55. Pedro Du Bois (SC) +
56. Professor Garcia (RN)
57. Rita Mourão (SP)
58. Roberto P. Acruche (RJ)
59. Sammis Reachers (RJ)
60.Silmar Bohrer (SC)
61. Sílvia Araújo Motta (MG)
62.Sílviah Carvalho (AM)
63.Solange Colombara (SP)
64.Sônia Sobreira (RJ)
65. Therezinha D. Brisolla (SP)
66.Vanda F. Queiróz (PR)
67.Vanice Zimerman (PR)
68.Vivaldo Terres (SC)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Gás Hélio - Um conto sobre acolhimento e cura, e a periferia

 


Foi nomeado pela paixão do pai e fonte de sustento da família, desde antes dele fazer parte da mesma: Hélio.

Seu pai, Airton, era vendedor de balões ou bexigas infladas por gás hélio, aqueles bólidos flutuantes em forma de peixe, escudo do flamengo ou cabeça do Mickey.

Aluno destaque do sexto ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo/RJ, Helinho nutria carinho todo especial pelos balões que ajudaram a nomeá-lo e a provê-lo. O menino auxiliava o pai nos enchimentos e montagens, e sempre que podia era levado aos pontos de venda: Rotineiramente o Campo de São Bento, em Niterói, ou eventos sazonais, um aniversário de Itaboraí aqui, um feriado de São Gonçalo acolá, um festival de pipas em Maricá, por trás-os-montes. O menino já conhecia toda a Região Metropolitana do Estado do Rio.

O mesmo não ocorrera com seu predecessor em chegada na família, Heitor, irmão mais velho. Aliciado no portão de casa, ponto de revenda de drogas no depauperado bairro Jardim Catarina, cedo tomou o caminho da marginalidade.

Morreu no dia primeiro do segundo ano de carreira, a 200 metros do portão da casa do “seu Airton do Gás”; seu portão, seu pai.

Baque no sonhador Helinho, bordoada de moer menino tenro. Notas decaíram, participação nas aulas, na igreja. Seu sangue e companheiro de pelada no quintal, seu parceiro de PlayStation, seu incentivador nas paqueras, seu torto herói se fora.

Na velha coleção de biografias achada por seu pai no lixo, nas portas de um grande edifício, ao chegar pela manhazinha lá no niteroiense Campo de São Bento, Helinho mergulhava sua solidão. Numa das biografias, a do padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nosso primeiro inventor e pai do balão a ar quente, um estalo.

Inspirado numa prática de produção textual que aprendera na escola, o aluno destaque do Anita Garibaldi passou a escrever cartas; primeiro para si mesmo, refletindo sobre sua perda. Logo as endereçava a seu irmão. Por fim, o salto humanitário, digno de um Gusmão, uma Anita: Helinho passou escrever ternas mensagens para pessoas que tivessem perdido alguém, tal como ele perdera. E assim surgiram “Carta a uma mãe que perdeu um filho”, “Carta à criança que perdeu a avó”, “Carta a quem perdeu um irmão”. Contando brevemente sua história, Hélio contextualizava sua mensagem para diversos leitores em potencial.

Um belo dia, tendo imprimido uma quantidade de cópias de cada cartinha, Helinho as atou a balões inflados de hélio – não os artísticos balões vendidos pelo pai, mas a modelos simples, como as bexigas de festa de aniversário – e, subindo para a laje de sua humilde casa, soltou os balões, vagões de sonho lotados de afeto, nos ares de sua São Gonçalo.

No primeiro dia foram 30. Quinze dias depois, o menino despachava mais 15. E assim, usando de suas economias, o menino adquiria os balões e inflava-os com os botijões de gás do pai, liberando suas mensagens pelo ar.

Em apenas três dias depois dos primeiros lançamentos, duas marcações no perfil do menino no Instagram apareceram. Pessoas curiosas, que encontraram uma das mensagens, nas quais constava também o endereço do menino, e seu perfil naquela rede social. Mas demorou 45 dias para chegarem as primeiras cartas. Cartas de papel, como as de Helinho. Uma mãe e uma irmã.

“Querido menino Hélio. Encontrei seu balão pendurado nos galhos de uma árvore em Alcântara. Era de manhazinha, eu ia pro meu trabalho nos Correios. Sua mensagem me fez chorar no ônibus, pois perdi minha mãe há seis meses. Ainda sofro. Mas acredito que Deus usou você para me mandar uma mensagem de conforto. Obrigado, meu filho. Não te conheço, mas você já conquistou uma amiga.”

A segunda carta – outras viriam – era de uma adolescente de 17 anos, Ágatha. Ela vira o balão do menino caído em seu quintal, de tarde, ao chegar do cursinho pré-vestibular. Com a mensagem em mãos, Ágatha entrou no quarto de seu irmão, deitou-se em sua cama e chorou. Mateus partira ia pra um ano.

“Oie!

Me chamo Ágatha, sou moradora aqui do Vila Três, em São Gonçalo também. Cara, sua cartinha chegou a mim, bem no meu quintal! Eu perdi meu irmão assim como você. Meus sentimentos por sua perda.

Sua mensagem me trouxe uma alegria que não sei expressar; era como um recado de meu irmão, dizendo para mim e minha mãe sermos fortes, que ele está bem.

Precisei escrever para você. Ia mandar mensagem no privado em seu perfil, mas resolvi escrever uma carta, assim como você. Minha primeira carta. Nem sei como enviar! Mas vou no correio me informar.

Estou escrevendo essa carta na cama de meu irmão. Minha mãe doou as coisas dele, roupas e tals, mas deixou a cama como estava. Pra lembrar dele, sabe? Mas não sei se isso é saudável, pra nós duas. Pois ambas choramos muito nesta cama. Já a peguei de madrugada ajoelhada aos pés da cama dele, chorando sozinha, e dizendo ‘onde foi que eu errei?’ Mas somos tantas famílias nessa situação...

Hélio, venho agradecer seu gesto, sua forma de ajudar as pessoas. Você é um anjo que, não tendo asas, criou as suas com palavras e bexigas de gás. Obrigado obrigado obrigadooooo!”

 

Voa, Helinho. Voa e trabalha, que faltam anjos no mundo, e os que desistem, no lugar de uma segunda chance, são mortos a bala.

Sammis Reachers


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