sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Himalaia, um poema de Lanza del Vasto

 


Himalaia

 

Glória a Ti, Deus levantado!

Sim, teus pés estão na terra,

calçados de pedras e de árvores.

Nada fere, no alto, tua cabeça;

os ventos contrários e os ventos favoráveis

são teus cabelos e tuas orelhas.

Teu coração é a lua,

e o sol são teus olhos.

Idêntico ao mesmo rosto,

que aparece para o amigo no olhar do amigo.

No centro negro do círculo que brilha,

o Filho do homem se reflete em tua pupila!


Do livro Poemas para encontrar Deus, de Rose Marie Muraro e Raimundo Cintra.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dois poemas de Maria José de Jesus

 


A Vida

 

Que é o mundo senão efervescência

Da vida — que pulula pelos ares,

Pela terra, nas vísceras dos mares,

Proclamando a divina Onipotência?

 

Cada vida produz. nova existência...

Os seres multiplicam-se aos milhares...

Se a morte brutalmente poda os lares,

A vida brota em nova eflorescência.

 

Mas esta vida tão pujante embora,

Não é mais que um prelúdio, uma aurora

Da vida que jamais há de findar.

 

Morre o corpo, mas a alma — essa não morre;

E ao separar-se dele ao seu Deus corre —

Como um rio que enfim entra no mar!

 


Madalenas


Junto da Cruz soluça a Madalena,
Louca de dor, ao ver o Mestre amado
Pagando – Ele o Impoluto, o Santo – a pena
Da iniquidade humana, do pecado.


A seus olhos desfila, cena a cena,
O horror de seu tristíssimo passado;
E ela vê quanto é grave o que condena
O mesmo Deus a ser crucificado!…


Ó minha alma, como ela tu pecaste:
Como ela faze penitência agora.
Serás perdoada porque muito amaste.


Os pecados do mundo e os teus deplora!
Ama o teu Deus que tu crucificaste!
E, junto desta Cruz, definha e chora.

 

Madre Maria José de Jesus (1882 - 1959), foi uma freira carmelita brasileira, poeta e tradutora.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

CASAMENTO, um poema de Sammis Reachers

 


CASAMENTO

 

Ei, coisinha de luz

É vero: não há parentes em nosso casamento.

Duas madrinhas, suas amigas, é isso

Somos dois pobretões já passados da idade

Autistas penitentes

 

E aqui estamos, contra as expectativas dos que nos detestam

 

Mas temos um amigo em Nazaré, você o conhece melhor que eu

Ele despediu à revelia alguns convites por aí

 

E se esse dia está estranhamente mais iluminado, mais quente e branco

É que há estrelas jornadeando para assistir nosso enlace

 

Os insetos de dezoito quintais, do que é redondeza, se somam e assomam

Pelo teu sorriso de ninfa nubente

 

Não há muitos amigos, mas olhe para aquela nuvem a poente, a mais fofa: 

Anjos daquela falange que restaura ossos quebrados das crianças

– Alguns a quem infernizei na infância –

Lá estão, estranhos anjos que quanto mais sorriem, mais refulgem

Amigos em nome do AMIGO

 

Sim, tão poucos os humanos, eu sei

Mas temos anjos e insetos e estrelas e

Num dos muitos apartamentos de face ao cartório

Numa das janelas desse um dos muitos apartamentos, um gato

Um gato SRD resgatado de sob a roda de um Porsche

Representa o a nós dois mui caro

Conclave Imperial dos Gatos

E honra nosso casamento

 

Que mais dois maltrapilhos quase quarentões poderiam querer da vida,

Menina que amo como uma romã que arrebenta?

 

(Para aquela coisinha de luz que vez por outra diz, "você nunca mais me escreveu um poema")

 

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