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domingo, 1 de março de 2026

Saiu o terceiro número de De Higgs - Revista de ficção científica e fantasia cristã - Baixe grátis

 


De Higgs, revista de literatura cristã focada em ficção científica e fantasia, chega a seu terceiro número, sedimentando-se como um veículo de grande valor para a expressão literária cristã nacional.

A revista circula em formato eletrônico e é gratuita. Você pode realizar o download de seu exemplar diretamente no site da revista, neste link: 

https://revista-de-higgs.webnode.page/edicao03/


Confira o editorial desta edição:

Há edições que nascem como projetos; outras, como encontros. Esta terceira edição da Revista de Higgs pertence, sem dúvida, à segunda categoria. Ela é fruto de um encontro vivo entre vozes, imaginários, memórias e anseios vindos de muitos cantos do país — autores distintos entre si, mas unidos por uma mesma pulsação criativa.

Recebemos contos que atravessam a fantasia, a ficção científica e a ficção histórica, muitas vezes dissolvendo fronteiras e criando zonas híbridas onde o extraordinário se torna espelho do humano. São narrativas que não apenas contam histórias, mas interrogam o tempo, o sagrado, a perda, a esperança e o sentido. O resultado é um mosaico literário rico, vibrante, quase litúrgico em sua diversidade — um verdadeiro espectro caleidoscópico de formas, estilos e inquietações.

O tema Relíquias e locais sagrados revelou-se um convite fértil. Alguns autores olharam para ruínas e objetos antigos; outros, para lugares interiores, silenciosos, muitas vezes esquecidos. Em todos os casos, percebemos uma busca comum: a tentativa de tocar aquilo que permanece quando tudo o mais parece ruir. Essa busca, expressa em linguagem, é talvez uma das vocações mais antigas da literatura.

Aproveitamos esta abertura para parabenizar Ísis Marques, vencedora do concurso da segunda edição da Revista de Higgs, cuja obra O Caminho de Ábba permanece como referência de sensibilidade narrativa, maturidade simbólica e profundidade temática, abrindo caminhos para as vozes que agora se somam a esta nova edição.

Esta terceira edição também é marcada por um gesto de generosidade que desejamos registrar com gratidão profunda. O prestigiado Luiz Sayão — pastor, teólogo, hebraísta e linguista, amplamente reconhecido no meio protestante brasileiro por seu trabalho na tradução das Escrituras e por seus comentários bíblicos — concedeu-nos uma entrevista de valor inestimável, mesmo atravessando um período de saúde delicada. Sua disposição em partilhar pensamento, experiência e reflexão, em meio à fragilidade, confere às suas palavras um peso ainda maior. Recebemos essa entrevista como quem recebe um legado confiado com cuidado.

Para enriquecer ainda mais, com satisfação e alegria recebemos a meditação: Quando o divino nos encontra em meio à ficção. Ensaio confeccionado pelo pastor e comunicador André Castilho de Oliveira. Uma contribuição ao pensamento na intersecção entre fé, arte e cultura.

Somam-se a esse conjunto duas resenhas dedicadas ao livro O Silêncio de Adão, ampliando o diálogo crítico que a Revista de Higgs se propõe a cultivar: um espaço onde literatura, pensamento e espiritualidade possam conversar sem pressa, sem rótulos fáceis, mas com profundidade e honestidade intelectual.

Que esta edição seja lida não apenas como entretenimento ou exercício estético, mas como um convite. Um convite a escutar o que se diz nas entrelinhas, a perceber a palavra como semente, como sopro, como força que chama à Vida. Que os textos aqui reunidos façam mais do que despertar bons sonhos ou aventuras memoráveis: que aqueçam o coração, ampliem o olhar e nos tornem mais atentos à Voz que insiste em escrever histórias de esperança, reconciliação e amor duradouro.

Ótima leitura!

Os Editores

sábado, 7 de junho de 2025

De Higgs, revista cristã de ficção científica e fantasia, chega a seu segundo número

 


De Higgs, revista cristã focada em ficção científica e fantasia, chega a seu segundo número. A revista é eletrônica e gratuita.

Confira parte da apresentação deste número, nas palavras de seu editor-chefe, Eduardo Y. Nishitani:

Eis que com grande alegria chegamos a edição número 2 da Revista de Higgs, sob o tema: TECNOCRACIA – a ascensão dos estados em rede. Pela graça do Senhor, variadas formas de escrita chegaram à nossa equipe, que tratam de assuntos pertinentes à nossa atual conjuntura geopolítica, ambiental, socioeconômica e tecnológica. Questionamentos como: a inteligência artificial irá nos dominar? Os cristãos devem abraçá-la ou rejeitá-la? Será instrumento do anticristo? Haverá uma Terceira Guerra Mundial? Qual será a futuro da humanidade ao extrapolarmos o que vivenciamos hoje? Essas e demais reflexões estão presentes nos textos que fazem brilhar essa segunda edição. Fomos presenteados com contos, entrevista e resenha inspiradores que fazemos questão de compartilhar com vocês, na esperança de que muito além de divertir, possam nutrir corações. Seguimos com nossos ideais, de que podemos consagrar dons, talentos, abstrações artísticas... ao Criador do Universo para explorarmos as fronteiras da ficção científica e/ou da fantasia, expandindo as formas de espalharmos as valiosas verdades cristãs. 

Para baixar gratuitamente o arquivo da revista, CLIQUE AQUI.


domingo, 26 de janeiro de 2025

A Marcha do C@nsaço ou O Movimento dos Macetados (2028)

 


Ao defrontar o amontoado de gentes naquela Copacabana espavorida, a atenção era roubada de chofre pela faixa que encabeçava a passeata, faixa segurada pelo DJ Grillozzilla e pela multisexuada instatriz, DandaXXXara: “Dize a tua palavra e segue o teu caminho. E deixa que a roam até o osso”, creditada na faixa ao filósofo espanhol Ortega y Gasset. Na verdade, a frase é de Unamuno, o Miguel, outro filósofo espanhol. Equívoco que, sem infundir demérito, meio que chancelava e vestia os revoltosos.

Chamaram seu movimento simplesmente de A Marcha do C@nsaço ou, termo adotado pelos opressores midiáticos, O Movimento dos Macetados (“?”), e ele assim há de entrar para a história. O motim, que contou com ampla anunciação midiática (que outra?), encaçapou todo tipo de guapo, duma barafunda de díspares pensares, digno deste fim de Pós-modernidade e início de Idade Índigo.

A ideia central, o eixo da grande hélice que uniu pessoas, roedores e contestadores de várias gerações, é o cansaço em relação à torrente de informação disponível por cada vez mais meios, gadgets e cibertranqueiras.

A um filósofo marroquino, Farkour Bibi, anjo decolonial que escreve em perfeito francês, coube o papel de teórico involuntário do novo movimento, ao propor, em seu filosófico Imanifesto Logofrênico, cujo estilo de pacata ou delicada insubmissão lembra o de Thoureau, um alheamento proposital em relação à toda forma de informação mediada, seja essa mediação realizada por livros, internet etc. E da aceitação apenas do que “o outro”, o ao lado, o vizinho, a mãe, o companheiro proletário, o “usuário de uma mesma territorialidade”, pode ensinar, “olho-no-olho”, o autor avança para a celebração da ignorância, o “prazer de não saber”. A celebração anti-socrática radical, a ignorância como construto positivo.

A música-tema do grupo ou levante foi a inescapável Silício Silenciado (do último álbum de Caetano Veloso, Teimosa Poesia, de 2027). O bumba-que-bumba martelava os ares, marcando o ritmo do pisoteio.

Sim, voltemos aos fatos. Os marchadores, iniciando seu trotar pela Avenida Atlântica, estabeleceram uma inovação significativa: A marcha foi realizada com as pessoas andando para trás, ou de costas. Para evitar tombos entre os pouco afeitos a tal avanço inatural, foram cedidas bengalas de acrílico para apoiar os cansados do saber tão fácil.

Um grupo de festin’lésbicas, oriundas de uma pequena facção (das 82) PCdeBista celebrou outra manobra de catarse, efetuando o despir de suas roupas, uma peça a cada cem passos dados por cada uma de suas membras, membras empoderadas e desmembradas de seu movimento – e agora enxertadas, feito próteses, naquele contra-zeitgeist informacional.

Nas proximidades do Forte de Copacabana, limite entre a Av. Atlântica e a Rua Francisco Otaviano, a primeira culminância: fizeram aquilo o inevitável, qual seja, a QUEIMA DE LIVROS. E no entorno da grande fogueira logolibertária, grupos esparsos realizavam o já tradicional gadcrash: a quebra de gadgets, de smartphones a óculos de realidade aumentada, de Nintendos NeoSwitch a prosaicos Vibradores Poéticos, as maquininhas de consolar inconsoláveis que, além do usual ofício, recitam poemas em oitocentas línguas, ponta-de-lança das exportações cambojanas.

O avanço seguiu para o bairro lindeiro de Ipanema, em que a alegoria final seria encenada: a invasão do data center do Google situado na Rua Farme de Amoedo, e a destruição dos mainframes e servidores que, dali, garantiam o acesso ao virtual a quase todo o país. Na porta, novo pandemônio: um dos muitos movimentos que acompanhavam a marcha, o controverso coletivo Afrobrancos, composto de brancos que se reconhecem e se exigem como africanos d’alma, foi alvo de laranjadas e ovadas de alguns dos manifestantes, ojerizados pelas propostas e ideias do grupo, tido por desconstrucionista e diluidor das pautas de direito dos que têm seu lugar de fala.

No entrevero, uma malta inesperada assumiu a proa do debate sobre o tal estreito e mítico lugar de fala, e em defesa dos afrobrancos (alguns dos quais eram seus pais, afinal): um grupo de therians, os humanos que se afirmam pertencer a outra espécie, neste caso cachorros, marchando e debatendo de quatro, desferiu um motim-no-motim ao afirmar que as ruas eram prioritariamente o seu lugar de fala – e as urinadas nos postes o confirmariam – transe ou transporte de um conceito do metafórico para o concreto que desnorteou alguns teóricos que marchavam no evento – um deles, renomado reitor da PUC que, ainda fedendo a livro queimado, viu ali o nascimento em tema de seu mais novo livro.

Nesse pandemônio, prestes a arrombar as portas da infofortaleza globalista, os já cansados revoltosos tombaram sarrados & surrados por grossos jatos d’água gelada & apimentada, emanados de veículos automáticos. Eram drones blindados do conglomerado BYD-Tesla-Carbon a serviço do grande infocapital, providencialmente enviados pela governadora do Estado. Enxarcada e debelada, a multidão, senhora de algumas razões e diversos equívocos, dispersou-se, cada qual encapsulado de volta à sua micro, nanorevolta, tentando recordar o caminho de casa ou sua necessidade.

Sammis Reachers

Publicado originalmente na Revista Bulunga 37 (jan/2025).

 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

O Relógio das Memórias, conto de José Feldman


 Em um futuro não muito distante, as pessoas começaram a perceber que o tempo não era apenas uma sequência de momentos, mas uma tapeçaria intricada de memórias. Em uma pequena cidade chamada Palatium, um inventor excêntrico chamado Victor criou um dispositivo revolucionário: o “Relógio das Memórias”. Este relógio tinha a capacidade de capturar e reproduzir memórias de forma vívida, permitindo que as pessoas revivessem momentos de suas vidas como se estivessem acontecendo novamente.


Victor, um homem de cabelos desgrenhados e olhos brilhantes, sempre acreditou que as memórias eram a essência da vida. Ele passou anos em seu laboratório, cercado por engrenagens e dispositivos, até que finalmente completou sua obra-prima. O Relógio das Memórias não apenas armazenava recordações, mas também as transformava em experiências sensoriais completas. As cores, os sons, os cheiros — tudo poderia ser revivido com um simples toque.

A cidade estava em polvorosa quando Victor apresentou seu invento ao público. 

“Imaginem, meus amigos!” ele exclamou. “Poder reviver os melhores momentos de suas vidas! Conhecer novamente aqueles que amamos, sentir a euforia da juventude, ou até mesmo corrigir erros do passado!” 

A multidão estava atenta, maravilhada com a ideia de ter suas memórias ao alcance da mão.

Entre os espectadores estava Clara, uma jovem professora de história. Clara sempre teve um amor profundo pelas memórias, especialmente as de sua infância, quando passava horas ouvindo sua avó contar histórias de tempos passados. Ao final da apresentação, Clara sentiu uma atração irresistível pelo Relógio. O desejo de reviver suas memórias mais queridas a levou até Victor.

“Posso experimentar?” perguntou Clara, sua voz trêmula de emoção.

“Claro!” respondeu Victor, ajustando os dials do relógio. “Escolha uma memória.”

Clara hesitou, mas logo decidiu: “Quero reviver o dia em que minha avó me contou sobre sua juventude.”

Assim que Clara tocou o relógio, a sala se iluminou e, em um piscar de olhos, ela se viu na cozinha de sua avó, o aroma de bolo de cenoura fresco no ar. As paredes estavam adornadas com fotos antigas, e o sol filtrava-se pelas cortinas, criando um ambiente acolhedor. Sua avó, com um sorriso caloroso, começou a falar sobre sua juventude e as aventuras que a vida lhe proporcionara.

Clara sentiu a alegria inundar seu coração. Ela riu, chorou e se lembrou do quanto amava aquelas histórias. O tempo passou, mas para Clara, tudo parecia tão real quanto antes. No entanto, quando a experiência terminou, uma tristeza profunda a envolveu. Ela percebeu que, apesar de reviver momentos felizes, não poderia alterar o que havia passado.

Com o passar do tempo, o Relógio das Memórias se tornou uma sensação na cidade. As pessoas começaram a usá-lo com frequência, cada vez mais dependentes das memórias que podiam reviver. No entanto, algo bizarro começou a acontecer. As pessoas estavam se tornando incapazes de viver no presente. Elas se isolavam, preferindo a segurança de suas memórias a enfrentar a realidade.

Clara, preocupada com o que estava vendo, decidiu confrontar Victor. 

“Victor, as pessoas estão se perdendo! Elas estão tão obcecadas por reviver suas memórias que esquecem de viver! O relógio se tornou uma prisão!”

Victor, que antes estava entusiasmado, agora parecia preocupado. 

“Eu não previ isso. A intenção era boa, mas talvez tenhamos aberto uma porta que não deveria ser aberta.”

Determinada a mudar a situação, Clara começou a pesquisar sobre o impacto das memórias e do tempo na vida humana. Ela descobriu que as memórias, embora belas, também podiam ser dolorosas. A idealização do passado impedia que as pessoas apreciassem o presente e planejassem o futuro.

Clara decidiu que precisava fazer algo radical. Junto com algumas pessoas da cidade, criou um movimento chamado “Viva o Agora”. As pessoas eram incentivadas a se desconectar do Relógio e a redescobrir a alegria de viver no presente. Era uma batalha difícil, pois o Relógio havia se tornado um símbolo de status e felicidade.

Em um evento público, Clara subiu ao palco e se dirigiu à multidão. 

“Amigos, o passado é uma parte de quem somos, mas não podemos deixá-lo nos aprisionar! Precisamos viver cada dia como se fosse um novo começo! O Relógio das Memórias pode ser uma ferramenta, mas não pode ser a nossa vida!”

Enquanto falava, Victor a observava, orgulhoso e triste ao mesmo tempo. Ele percebeu que havia criado algo que não só capturava memórias, mas também capturava as pessoas. Ele decidiu desativar o Relógio, mesmo que isso significasse perder sua invenção.

A decisão de Victor trouxe a cidade de volta ao presente. As pessoas começaram a se reconectar com suas vidas, a valorizar o que tinham agora, ao invés de viver no passado. Clara tornou-se uma líder na comunidade, ajudando as pessoas a entender o valor do presente.

O Relógio das Memórias foi desmontado e suas peças foram transformadas em arte. As pessoas começaram a criar suas próprias histórias e memórias, agora sem a ajuda de um dispositivo. Elas aprenderam a aceitar o tempo como um fluxo natural, onde cada momento, por mais simples que fosse, tinha seu valor.

Anos depois, em uma tarde ensolarada, Clara estava sentada em um parque, cercada por crianças rindo e brincando. Ela sorriu ao lembrar de sua avó e das histórias que tanto amava. Agora, Clara contava suas próprias histórias para as crianças, criando novas memórias.

E assim, a passagem do tempo tornou-se uma celebração da vida. As memórias não eram mais algo a ser revivido, mas uma parte de uma narrativa contínua. O Relógio das Memórias pode ter desaparecido, mas a essência do tempo, com todas as suas alegrias e tristezas, continuava a ser a verdadeira magia da vida.

Fontes: José Feldman. Labirintos da vida. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing



segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Fabulário Índigo, novo livro de contos de Sammis Reachers

 



A presente coleção de contos, caprichosa ou inconsequentemente designada Fabulário Índigo, é um pequeno tour de force cujas narrativas transitam desde a ficção científica utópica e distópica à hodierna crônica da violência urbana, da fábula moral ao experimentalismo metafísico, do suave horror ao humor mais escrachado. Tais eixos genéticos/genéricos não são de todo insulares, independentes, mas costumam se interpenetrar ao longo dos trinta e um contos aqui reunidos.

Costumo dizer que escrever poesia é encontrar imagens, enquanto escrever prosa é encontrar saídas. Poeta com infiltrações na prosa, aqui busquei saídas, embora, fiel à minha nomeadura, não me esqueci nem escarneci do poder fundacional e transcendental das imagens.

Em termos bibliográficos, iniciei minha produção ficcional com O Pequeno Livro dos Mortos, volume de contos publicado em 2015. De lá até aqui, a produção se desdobrou em momentos de maior ou menor euforia, ao sabor dos ventos benfazejos/malsãos da inspiração. Este Fabulário, espero, é a continuação e o alargamento não de um esforço, mas de um tão humano prazer de contar.

*   *   * 

Alguns dos contos do livro receberam boa acolhida em concursos e revistas literárias.

O conto que abre a obra, A Segunda Vida de Gregor Samsa, foi escrito imediatamente após a publicação de O Pequeno Livro dos Mortos, e foi publicado na Revista Philos v.3 n°.24 (2017). Em 2020, saiu na Revista LiteraLivre (v. 04, n. 21).

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus foi igualmente publicado pela Philos, ainda em 2017 (Philos v.3 n°.24), sendo veiculado também na Revista Ligeiro Guarani (v. 03, n. 03, 2020).

A Solução Final foi publicado na revista Brasil Nikkei Bungaku (n.64, 2020), bem como no site Escrita Cafeína.

A Ilha obteve a primeira colocação em sua categoria no II Concurso Literatura de Circunstância, organizado pela Universidade Federal de Roraima; recebeu ainda Menção Honrosa no 19º Concurso Literário Paulo Setúbal, promovido pela cidade de Tatuí – SP, ambos em 2021.

O conto Na Véspera de Um Dia Santo Numa Cidade Fulminante foi um dos vencedores do concurso promovido pela Editora Dando a Letra, sendo publicado na antologia Quem Será Pela Favela?.

Seu Onório do Bairro Antonina foi igualmente um dos vencedores do primeiro concurso Contos Fantásticos Niteroienses, sendo publicado em livro pela Vira-Tempo Editora.

O conto Estranho Horror na Senzala da Fazenda Colubandê foi publicado na Revista Mystério Retrô em sua edição de n.15/2021.

Como Quem Guarda Uma Cidadela foi publicado no primeiro volume da Revista Estrofe, em 2022. E também saiu na Revista Sarau Subúrbio, em 2021.

Para além disso, a maioria dos contos foi publicada em minha coluna no Jornal Daki, veículo de informação e opinião de terras gonçalenses.


O livro impresso (formato 14x21cm; 204 páginas) está disponível para aquisição diretamente com o autor, ao preço de R$ 30,00, já com valor de frete incluído. Escreva para o e-mail:  sreachers@gmail.com ou pelo Whatsapp, (21) 98766-5576 .

Se você desejar o livro eletrônico, ele está disponível pela Amazon, ao preço de R$ 4,99, ou gratuito para aqueles que possuem a assinatura Kindle Unlimited. Confira AQUI.


sexta-feira, 27 de maio de 2022

NADA SE CRIA, NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA - Um conto de Sammis Reachers


Ano 2082. A Boate Tanganica fica na cobertura do edifício Von Humboldt, 18° andar. O enclave alemão de Stadt der Sonne, neocolônia de 730 quilômetros situada no coração da Tanzânia, reúne alguns dos mais ricos homens da África.

Johanes Blunt é um deles. Homem de meia idade, bem apessoado, os leves cabelos grisalhos lhe conferiam o charme que, ao lado de seu deus particular, o dinheiro, lhe franqueavam acesso à quase toda mulher que desejasse. Acoitava essa singularidade que o diferenciava entre os seus coetâneos da exótica colônia: Gostava apenas de mulheres.

Afastando-se do salão principal da festa, Johanes ruma à toalete. Ele vai aplicar, na própria veia, uma das poucas drogas proibidas, mesmo na babélica Stadt der Sonne: Nintol. É um estimulante que acelera a atividade de todas as células. Johanes irá aplicar a droga e também irá morrer em seguida, em menos de dois minutos, sozinho no cubículo de um banheiro àquela altura da festa já imundo, tombado sobre uma privada.

Isso, pela cronologia alfa.

Johanes, o grande empresário de soja da África, responsável pelo desmatamento de duas Namíbias inteiras, aplica a nova droga que, misturada à medicação que ele tomara horas atrás, causa uma reação anafilática que o derruba sobre a privada da qual havia acabado de levantar-se. Nesse instante, a cronologia beta se inicia. A portinhola do cubículo é arrancada, e uma injeção contendo contramedidas é enfiada no pescoço do moribundo.

Antes que pudesse recuperar a consciência e entender o que estava acontecendo, braços fortes levantam o corpo esmorecido de Johanes. E algo sinistro ocorre, no exato momento em que o alemão entreabre os olhos: Ele julga ver a ele mesmo sendo jogado de volta sobre a privada. O ele ou outro dele que voa parece um boneco sem vida.

Em seguida, o indivíduo que o apanhara pelos braços toca a outros dois elementos, militarmente paramentados e mascarados, e todos os quatro desaparecem numa espécie de mini-buraco negro que chega a absorver a própria luz do lugar.


***

Ano de 2061. Gotardo Mahles foi, há quarenta anos atrás, um ministro de estado, empossado na década de vinte do vigésimo primeiro século, no então continental país conhecido por Brasil. Durante seus pouco mais de dois anos de atuação, ele foi responsável direto e indireto pelo aumento do desmatamento em toda a floresta amazônica. Sob sua tutela e do então presidente da república, Aldir Maldonaro, criminosos brasileiros e de outros países praticaram dezenas de crimes ambientais, crimes que Mahles se esforçou por encobrir, contextualizar, e mesmo descriminalizar, ao fazer lobby por leis mais brandas.

Após sua saída daquele governo, transcorreram ainda quarenta anos antes do ex-ministro morrer, numa queda de avião. Mahles seguiu, até seu fim, praticando crimes outros, ligados à exploração sexual, notadamente para satisfazer às suas muitas luxúrias. Sequer destes deu-se notícia, durante sua vida: O frio Gotardo jamais experimentou o chão de um cárcere. As tentativas de puni-lo criminalmente por suas atividades quando no governo redundaram sempre em nada, até seus crimes prescreverem.

O avião, um Tesla Lightining, aeronave elétrica de 28 lugares, rumava de Caracas para Curitiba, capital do Brasil do Sul. Ao sobrevoar Anápolis, ainda sobre o país de Araguaia, ambos os motores elétricos entraram em pane. O piloto poderia ter acionado as contramedidas de praxe – ejeção da célula de passageiros – mas não o fez. O motivo? Nunca se soube, e já não importa.

Três homens surgem dum pequeno estouro, uma espécie de célula escura que emitiu um som de vento ao eclodir. Imediatamente, um deles ativou um pequeno aparelho de bloqueio de sinais eletromagnéticos, cujo objetivo era impedir que imagens do interior da aeronave fossem transmitidas para fora da mesma, pelo mecanismo de monitoração em tempo real. Apanhando pelo braço ao apavorado Gotardo, com a mesma velocidade com que surgiram, desapareceram. Deixaram caído ao chão um corpo: Um corpo idêntico ao do velho covarde. A ação toda fora percebida por alguns dos passageiros, mas principalmente pela aeromoça que, da porta da cabine, observava o salão do avião, enquanto a nave demonstrava passar por algum problema. Ela se aproximou daquele corpo que fora deixado para trás, e lhe admirou a semelhança com o passageiro que, há segundos, fora pego e levado para dentro de um buraco negro. Seu susto não teve muito tempo para entabular conjecturas, pois o veículo chocou-se contra um edifício, matando tudo e despedaçando a maioria daqueles corpos a bordo.

 

***

Ano de 1859. Austrália, dois séculos antes da ilha se tornar uma neocolônia chinesa, após a Grande Guerra do Pacífico. Thomas Austin, um agricultor, cometeu o mesmo erro que dezenas de seus patrícios, fato que faz da antiga Austrália um dos países mais visitados pelos misteriosos saltadores de buracos-negros. Seu crime foi introduzir uma espécie exótica – no caso, coelhos nativos da Europa – no frágil ecossistema australiano. Os eventos desencadeados a partir desse estopim foram catastróficos, e geraram uma reação em cadeia de sandices, como a introdução dos inimigos europeus dos coelhos, as raposas-vermelhas, na esperança de combater sua reprodução desenfreada. Raposas que, estabelecidas, acharam mais vantajoso caçar os lentos coalas do que coelhos serelepes. E esse foi apenas o princípio das dores.

A porta da choupana em que o moribundo Thomas se encontrava, já prestes a morrer, foi aberta pelos dois agentes, que acreditavam estar diante de um velho canceroso com apenas uma hora de vida. E assim era; mas a reação do velho diabo os surpreendeu. Sem mostrar apavoramento diante daqueles homens imbuídos em estranhíssimas vestes e armas, o australiano apanhou uma velha garrucha de pederneira que jazia numa mesinha ao lado de seu catre e fez fogo contra os agentes, fulminando no peito o primeiro deles. O segundo agente conseguiu recuar, puxando rapidamente seu companheiro pelo braço para fora do pequeno cômodo, praguejando em termos de “maldita Austrália” e “lugar almadiçoado”. Imediatamente iniciou os procedimentos de retorno temporal: Um pequeno buraco-negro, ele sempre, engoliu os dois aventurosos.

Uma nova incursão se fez necessária, ativando uma terceira linha do tempo, a gama, menos por temor do moribundo e sua arma, do que pela necessidade de salvar a vida do agente que fora atingido.

 

***

2109, tempo presente.

Os chamados Comandos Temporais de Ecojustiçamento realizaram, até aqui, 92 viagens.

Na maioria delas, com perfeito sucesso: Apenas a cronologia beta foi ativada. Sim, pois se possível era voltar no tempo, o número de idas a um determinado, específico ponto temporal era limitado. Mesmo sem causar alterações tempo-processuais, que são aquelas acarretadas por intervenções/alterações diretas (como voltar a 1939 e assassinar Hitler), a reles presença ou penetração num mesmo ponto temporal, por mais de três ou quatro vezes, infringia um tipo sinistro de dano à linha do tempo, de consequências assaz desastrosas.

Assim, os gestores das viagens estabeleceram um limite convencionado de no máximo três incursões sobre um mesmo evento ou momento. Somente seria possível, sobre a chamada cronologia alfa ou cronologia base (original) estabelecer uma cronologia beta, gama ou delta, a derradeira.

Das noventa e duas viagens empreendidas pelos cronoagentes, o sucesso foi mais que satisfatório: apenas uma delas chegou a delta, e cinco a gama.

 

***

Vamos agora aclarar os fatos? O objetivo das viagens era, sempre sem alterar a linha temporal, capturar grandes criminosos ambientais no momento exato de suas mortes. Para evitar problemas, seus corpos eram substituídos por réplicas sem vida, clones previamente engendrados: Assim as mudanças nos fatos temporais eram suprimidas ou minimizadas ao máximo possível. Para todos os efeitos, aquele que iria morrer dentro de instantes... morreu, e estava ali seu corpo.

Sua captura tinha um objetivo único: Julgá-los por seus crimes, crimes que afetaram toda a vida planetária. Sua condenação era certa, e sempre a mesma: Seus corpos, agora com sobrevida garantida pela medicina em uso, serviriam como COMBUSTÍVEL VIVO para reatores de energia ôntica – a poderosíssima energia da vida, élan ou força vital que, de reles lenda ou especulação espiritualista, para-filosófica, foi descoberta como uma das forças elementares da natureza, em 2098. Uma vez descoberta, logo se conseguiu utilizar tal força para gerar quantidades milagrosas (não há outra palavra) de energia, mas ao custo de sugá-la de um ser vivo, algo eticamente impensável pela cosmovisão vigente.

Mas, e se fosse possível utilizar as vidas de criminosos – não os poucos e reles criminosos do tempo, mas os maiores dentre os maiores, aqueles responsáveis por danos massivos não apenas à antroposfera, esfera dentre muitas da vida no planeta, mas aqueles que danificaram muitas e muitas (se não todas) as esferas de vida do sistema-Terra?

O programa se iniciou há exatos oito meses, especificamente em agosto de 2108. Fabuloso foi o debate que nele desembocou, como é de se imaginar.

Toda pessoa omniconectada opinou e votou: Deveríamos capturar os que cometeram crimes contra a humanidade, ou apenas os que cometeram crimes contra a base que permite ou não a humanidade subsistir: O planeta Terra? Tais crimes eram mesmo maiores? A era entendeu que sim. Era o zeitgeist, o espírito daquele tempo.

O pragmatismo venceu. Sim, ainda hoje gera embates éticos dignos de uma ágora ateniense. Mas está feito.

A pouquíssima possibilidade de retornar no tempo, e a impossibilidade de mudar suas linhas mestras, tornaram a operação toda direcionada ao que se deu. E aquela civilização pôs-se à caça.

Assim, a lei de Lavoisier e lei maior da matéria, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” era celebrada por aqueles corpos, fadados a consumir-se lentamente, alimentados por equipamentos de biosustentação, doando sua energia mais íntima, mais fundamental – a energia própria da vida – para justamente manter a vida no planeta que tentaram destruir.

Utilizados como tochas humanas. Imóveis. Padecendo de dor, dor considerável, e não por crueldade: Não havia como minorá-la. Sim, uma afronta aos mecanismos vigentes de proteção da vida, aos chamados direitos omnivitais. Ainda assim, a exceção – corporificada naquela pena barbaresca – era aplicada.

Não apenas os altos custos e o altíssimo risco das viagens pelo tempo ditaram a regra para a punição apenas dos criminosos ambientais – que tinham até um apelido, os megadeths. A própria ética da era, amparada numa firme concepção de afirmação da vida, oriunda seja da filosofia secular, seja do neobudismo, seja do cristianismo positivo do (então reabilitado) Albert Schweitzer, deixaram claro o entendimento de que um crime contra a natureza era um crime contra todos, contra todo o conjunto dos terraviventes – dos quais os homens, veja você, são apenas uma das milhões de formas manifestas.

 

Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).



domingo, 7 de fevereiro de 2021

Silêncio Intransitivo (ou o fim da odisseia terrestre)

 


Embora tentássemos, nunca fizemos contato por nossa perícia: em 2039 fomos inadvertidamente visitados por uma comissão composta por cinco raças alienígenas. O espanto foi semelhança do previsto em muitos milhares de livros e filmes. Com o que não contávamos era que chegariam logo cinco espécies juntas – elas compunham, logo esclareceram, uma cordata forma de confederação.

Nos congregamos em assembleias, algumas tecnologias nos foram facultadas – nada disruptivo, nada de melhores tecnologias de voo ou armamento, por exemplo. Derramaram-se em promessas de não-interferência, e foram pródigos na aquisição de muitas de nossas matérias primas – pagas em ouro, dez vezes o valor nominal que possuíam entre nós. Sim, uma lucratividade extrema para os que possuíam o que eles desejavam. Nos perguntamos, claro, por que não nos colonizaram simplesmente. Éramos um mundo arrasado por uma Terceira Guerra Mundial, cujo oxigênio era em parte produzido por máquinas para suprir a demanda da cambaleante vida planetária. Aparentemente, não era de seu interesse, observadores que eram de uma ética a nós sutil, mas profunda, dada a reverência com que a recitavam.

Não muito ousaram nos oferecer. Mas nos deram conta de algo fantástico: eram 39 as raças inteligentes por eles conhecidas. A maioria, pelo apresentado, habitava a esburacada tenda do humanamente imaginável. Mas algumas raças eram extremas em sua singularidade.

Uma raça havia cujos corpos flutuavam entre o tangível e o intangível, de maneira sazonal: era sua forma de adaptação à aproximação maior ou menor de seu planeta natal em relação ao centro de seu sistema solar trinitário, durante o movimento de translação. As radiações e a temperatura, quando da aproximação, tornavam-se poderosíssimas, e tais criaturas simplesmente transitavam para a intangibilidade – tornavam-se algo parecido com fantasmas, embora conservando ainda matéria. Que de alguma maneira se adensava ou re-consolidava, quando seu planeta distava dos três sóis.

Raça outra havia que era o perfeito festim da alteridade radical: em parte como os acima citados, eles possuíam “corpos” tênues, aparentemente gasosos. Mas ao contrário daqueles, não possuíam corpo antropomórfico e nem transitavam entre o tangível e o intangível em sua estranha materialidade. Eram “nuvens vivas”. Quando comprimidos a algumas dezenas ou uma ou duas centenas de metros – pois podiam expandir seus “corpos” por quase um quilômetro – apresentavam aparência de nuvens carregadas de eletricidade, cujo fulgor da galhada de raios ou braços de luz não cessava de brilhar: eram suas redes neuromotoras. Aproximar-se de um deles era impossível: alguma força da Natureza ou de sua negação, supostamente independente da vontade de tais seres e relacionada à própria substância de que eram feitos, repelia-os para certa distância de qualquer forma de vida “material”, como entendemos a matéria. Eram seres de antimatéria? Antes fossem apenas isso; estava circunscrito o mistério. Mas eles as absurdidades de antimatéria suportavam de alguma ignota maneira a matéria, e repeliam apenas matéria “viva” – sequer germes ou bactérias logravam penetrar seu espaço vital. Ou seja, eram seres de “antivida” (o termo original alienígena, como outros, não logrou tradução satisfatória nos vernáculos terrestres). Antimateriais repulsores de vida, de alguma forma (sobre)vivendo na inospitalidade de nossa dimensão material, gerando suspeição sobre o fato de que algum “princípio vital” existia de fato e era mesmo um tipo a mais e acima de força fundamental do universo, prima distante do eletromagnetismo e da força gravitacional, das forças nucleares forte e fraca? Era a impudica teoria de nossos visitantes que, inesperadamente, pouco sabiam para além disso.

Por último, como quem coloca uma cereja ao topo de um bolo, eles alertaram-nos sobre a espécie sua conhecida de características, se não tão dadaístas como as demais, ao menos as mais sombrias. Não, não eram conquistadores, que isso já não havia no cosmos conhecido; nem embaraçosas incógnitas como as tais nuvens vivas de antimatéria/antivida. Mas, se há uma cadeia trófica entre os seres superiores, ou melhor, entre a macrovida cósmica – que segundo nossos visitantes abarcava planetas e seres biologicamente vivos e sencientes do tamanho de nossa Lua – eles seriam os decompositores de tal cadeia alimentar sideral.

Pelas imagens que nos foram exibidas, tais seres mais pareciam bonecos tecidos de terra, grotescos seres de três a três metros e meio, como que esculturas feita de barro, esculturas já desgastadas. Tais criaturas alimentavam-se de planetas. Isso mesmo, suas características biofisiológicas lhes permitiam perceber planetas em vias de extinsão, moribundos ou mesmo já recentemente “mortos” para a vida, e eles ali chegavam em suas bionaves, seus cosmocasulos voadores, e passavam a sorver, sempre em silêncio quase vegetal, algo do planeta – algo sobre o qual nossos visitantes ainda não possuíam consenso formado. As poucas imagens que nos foram compartilhadas eram aterradoras, não por si, mas por revelar a existência daquele tipo de entidades.

Traduzido de maneira mais ou menos literal para as línguas humanas, o nome que aquela coletividade dava a tal espécie astrotófaga era cabal: “Silêncio intransitivo”. Eram pacíficos, pacíficos até a indiferença, e nunca se comunicavam com outras espécies. Não apressavam o fim de um astro: apenas consumiam aqueles irremediavelmente colapsados ou de “morte” ainda recente. Em planetas como os demais de nosso sistema, Marte por exemplo, não tinham interesse – ou estavam mortos há milênios, ou sequer jamais viveram bioticamente. Em um e outro lugar, houve notícia de que tinham sido combatidos, mas o tempo mostrou que resistir era inútil – as frutas que devoravam, já apodrecidas, continuavam sua derrocada inexorável com ou sem a presença e a ação de tais parasitas.

Tais seres eram o ponto extremo da vida, a sua última parada. Possuíam um ciclo vital milenar, e estavam presentes nas cinco galáxias conhecidas pelos confederados. Enviavam emissários solitários pelo cosmo, desbravadores ou zangões a bordo de pequenas e estranhas naves sem modo de propulsão aparente ou conhecido, espécies de casulos que podiam vagar por milênios, sem escala ou “reabastecimento” perceptível, com seu tripulante talvez em modo hibernante.

Junto à informação sobre tais seres, a federação dos cinco acabou nos confirmando algo que já era motivo de discussão desde o nosso século XIX: alguns planetas eram realmente seres “vivos”, e as nossas definições de vida precisavam ser urgentemente atualizadas. A existência de seus devoradores, de uma cadeia alimentar, era a derradeira prova.

 

*       *       *

 

Oito, nove anos se passaram. O conhecimento do fantástico e a alegria de não estarmos sozinhos não nos impediram de voltar à carga de uns contra os outros. A confederação não interveio em nossa Quarta Guerra Mundial. Era de sua política, e as viagens até aqui eram custosas e difíceis – até mesmo para eles.

Os rudimentos de tecnologia que pudemos surrupiar dos alienígenas foram à nossa maneira adaptados por cada lado contendor para a criação ou aperfeiçoamento de suas armas.

Se um continente inteiro havia sido aniquilado na Terceira Guerra, agora a própria existência de nossa espécie entrava em risco. Combates movidos à artefatos nuclerares e megapatógenos espalharam o caos sobre o que sobrara de civilização. O silêncio da confederação a todos intrigava, mas não havia o que fazer – um lado haveria de aniquilar o outro.

Foi no terceiro ano de combates que ele chegou. Solitário, pousou na cratera mais profunda do que fora um dia a Europa. Estacionou ali, fixo como um marco, um totem, e permaneceu imóvel. Um dia depois, abriu ou ergueu seis astes que poderíamos atribuir na conta de “braços”. Era, segundo nos ensinaram os confederados, uma forma de comunicação, o envio de um sinal.

Aquele soturno emissário avisava à sua estranha espécie de abutres que havia encontrado alimento. O planeta Terra estava condenado.

Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


terça-feira, 10 de março de 2020

Daimon Ex Machina (Demônio na máquina) - Um conto de Sammis Reachers



Daimon Ex Machina (Demônio na máquina)

- É a sua primeira vez?

Algo no olhar dela me desagradou. Quem ela pensa que é para andar por aí sorrindo assim? Batom exagerado numa boca grande demais. Baton sempre sepulta as bocas grandes demais. Ninguém nunca avisa essas mulheres? E eu não vim aqui para conversar. A mulher é persistente:
- Amigo, entendo sua mágoa. Sorria! Estamos todos no mesmo barco, e se estamos aqui é sinal de que buscamos a felicidade! Ela mora aí dentro! Falando nisso, você já usou a serra elétrica de titânio?
Jeito estranho de falar, e mais ainda de raciocinar. “A felicidade mora aí dentro”... Mas ela tem alguma razão. Um tipo sinistro de felicidade mora aí dentro sim, mas é quase um pecado chamar isso de felicidade. Catarse é que se fala? Tem outra palavra... Êxtase? Não... Que se exploda! ...é isso, é uma explosão o que acontece aí. A gente paga pra explodir.
- Boa tarde. Tem cadastro?
- Não.
- Três, seis ou nove pequenos, um ou dois grandes, drones, o que vai querer hoje, senhor? Agora temos pacotes de dois a seis drones. Temos a nova promoção temática, com configurações contextualizadas envolvendo salas e maquinários, nas temáticas alemã, japonesa, chinesa e americana.
- Um grande só, por favor. Sala simples.
- Bem, está ótimo. Vejamos aqui... sala 203, oitava porta à esquerda.

********

Colocaram novas armas na sala. Era apenas um modelo de furadeira, agora são quatro; colocaram ainda chicotes. Deus, o que pode um chicote contra o maldito metal?!?
Apanho um grande porrete, uma espécie de taco de baseball com calombos na ponta, como uma maça de um cavaleiro medieval.
O robô é até bem grande. Uma espécie de robô de linha de montagem. Pelo tamanho, quase dois de altura e com um braço em pinça de mais de três metros, deveria ser da indústria automotiva, ou de alguma linha de montagem de grandes itens.
Dou a primeira porrada na pontinha da pinça. Sempre começo por extremidades, que é para poder degustar. Dou uma segunda pancada em rodopio, acertando pouco acima do local do outro golpe, agora terminando de arrancar a ponta que ficara pendurada. Sigo então o ritual de golpear e xingar, golpear e xingar. Na parte do “tronco” da maldita máquina, encontro resistência, e as pancadas não surtem tanto efeito. O bastão, metálico, chega a estar quente.
Apanho uma das tais serras elétricas. Mas não vou cortar e derrubar o que restou do construto, não; dou pequenos talhos aleatórios, no objetivo de enfraquecer sua estrutura. Pego então outro porrete. E recomeço a desferir pancadas, uma tempestade delas. Minhas mãos grossas ganham novos calos, perceptíveis pela ardência característica. Sempre acontece.
Paro para respirar, observando os frangalhos do demônio.

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O primeiro a perder o emprego para uma máquina foi meu avô. Estamos em 2036, e isso foi lá nos idos de 1989. Ele era montador numa indústria de geladeiras na extinta Zona Franca de Manaus. Sem chances no Amazonas, o velho veio para o Rio de Janeiro tentar sobrevida.
Conturbados anos depois foi a vez de minha mãe, profissional de telemarketing, substituída por um programa, um robô com “a voz da Cláudia Raia”, uma atriz famosa na época. Meu pai era mesmo quem mantinha a casa; minha mãe, com problemas de coluna herdados do tempo de horas diárias sentada como telefonista, não conseguindo e nem podendo arrumar outra colocação no mercado, voltou a ser “do lar”, que era uma forma antiga e não-remunerada de aniquilar-se em trabalhos.
Mas, anos depois o demônio da máquina deu sua lapada no arrimo da família: meu pai, a oito anos da aposentadoria, foi dispensado de seu emprego no Banco Bradesco, em virtude da crescente automatização do setor bancário via caixas eletrônicos e virtual banking.
No vendaval dos pesares, ou apesar dos mesmos, meus pais me deram uma excelente educação. Estudei arquitetura na UERJ. Após formado, comecei trabalhando para um escritório que pertencia a um professor. Anos depois, os ganhos do escritório estavam em queda, e eu já havia mesmo adquirido a experiência que buscava. De tanto o “patrão” reclamar das contas, ofereci-me para deixar a empresa: os outros dois arquitetos da equipe eram pais de família, afinal.
Abri meu negócio, fui aos trancos, até que um formidável barranco me lançou numa provável falência; me dei por vencido antes disso. Saldei as dívidas, encerrei o escritório e após alguns meses consegui aprovação num concurso público.
A sinistra história de minha família fez as vezes com uma precisão macabra: exatamente como meu pai, a oito anos para minha aposentadoria, fui substituído por um software de arquitetura baseado em inteligência artificial, uma maravilha da tecnarquia capitalista. Desde 2023, funcionários públicos já não gozavam de estabilidade, e fui demitido sem cerimônias.

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Esta empresa cumpre um propósito quase fundamental, num nicho que cresce à exaustão. Eles oferecem às pessoas suas clientes a possibilidade de vir aqui e quebrar máquinas – isso mesmo, pagamos pelo simples prazer, ou mais que prazer, em meu caso uma necessidade, de destruir esses demônios, esses vírus do “avanço”, do “progresso”, da fome. Há desde robôs de variados formatos e tamanhos, o que é a especialidade desta casa, mas em outras há também computadores de muitos feitios, aparelhos de comunicação, todo tipo de máquina, de sucata dessa indústria imparável da cibermecanização e sua força vital, a obsolescência programada. Na Europa, em Mônaco, há mesmo uma dessas casas de luxo, onde se destroem não sucatas, mas máquinas “acabadas de sair da prancheta dos projetistas”, conforme as peças de marketing apregoam. Quem me dera.
Bem, é aqui que eu extravaso, que eu explodo. Três gerações, você dirá, usufruindo as loas do progresso. Na verdade, foram, somos, pois ainda sobrevivo, três gerações prostituídas, varadas pela máquina, esse dente canino da mais-valia que se faz “só-valia” nas mãos dos potentados e privilegiados.
Amanhã voltarei a exercitar os calos de minha mão na indústria da construção civil. Sou um pedreiro agora, ou quando dá. Quando não dá aceito ser ajudante.
Outros possuem vícios em pornografia ou sonham comprar sua assistente sexual cibernética; muitos gastam tudo o que têm nas novas drogas personofásicas, que prometem levar os usuários a vivenciarem “novas personas/personalidades”. Meu vício é este: a prática de exorcismo. Junto dinheiro até poder vir aqui e me vingar. Aos poucos que sabem dessa minha, segundo um amigo, “extravagância”, digo que é fácil me julgar de barriga cheia e estando no controle da máquina. Mas a facilidade é temporária, assim como a ilusão de controle, pois a máquina cedo ou tarde fará de todos nós, seus “cavaleiros”, apenas cavalos de seu Reich, seu tecnorreino sem fim.

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Saio da loja limpando meu suor, sob o olhar sorridente da atendente, satisfeita.
Há um demônio na máquina, um que a humanidade não equalizou e que assim a vencerá; um cujo o exorcismo tosco que pratico não pode exorcizar. Há um demônio na máquina e/ou surgido da máquina, um daemon ex machina, assim como há um Deus além das máquinas, um Deus que parece que perdemos em algum lugar, como um desempregado (pela máquina?) – ou um apetrecho obsoleto. Será ainda possível encontrá-lo?

 Sammis Reachers

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