sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Janaína ganha o mundo - Um conto sobre o tráfico humano

 


Era estudante do quarto período de Direito na Faculdade Universo, no auspicioso bairro de Trindade, na fluminense São Gonçalo. Da faculdade ia para casa a pé: Herdara de uma tia solteirona um apartamento no condomínio Alcântara II, a uns dois quilômetros do campus. As mensalidades eram pagas, com aperto, por seu trabalho como vendedora numa loja da perfumaria O Boticário, num grande shopping gonçalense.

Alegre, vaidosa, decidida. Assim os amigos definiam Janaína, cuja frase de status no Whatsapp era quase afrontosa (ou de um empoderamento rude, alguém diria torpe): “Mulher bonita pode fazer o que quiser”.

Há muito Janaína tomara aquela máxima para si, para a vida. A ouvira ainda na adolescência. Indo com uma amiga para uma matinê no saudoso Clube Tamoio, em São Gonçalo, e querendo economizar os poucos dinheirinhos, já a bordo do busão perguntou ao cobrador, – Colega, a gente pode passar juntas? – Queriam passar juntas na roleta ou catraca, pagando uma única passagem.

– Claro, meu anjo. Mulher bonita pode fazer o que quiser.

 

*   *   *

 

Ela o conhecera por indicação de outra aluna da faculdade de Direito. Era um argentino de seus quarenta anos, esbelto, trajando sempre o rigor das últimas tendências; possuía uma farta cabeleira agrisalhada, que ele conservava presa num elegante rabo-de-cavalo.

Ela quase se apaixonou, e olha que nem era disso, pois de paixão costumava ser ela o objeto, e isso lhe bastava – e até pagava algumas contas. Mas o argentino deixou nas entrelinhas que aquela relação era apenas profissional. Ele já trabalhara na Costa Rica, México e Colômbia, e agora estava no Brasil. Era um tipo de caça-talentos, a serviço de uma grande marca da moda e perfumaria europeia. Fundada em 1913 em Milão, na Itália, por Mario Prada, a marca Prada era sinônimo incontornável de glamour – e grana, claro. A marca buscava ampliar sua presença global, notadamente no ramo de perfumes. O argentino tinha a função de encontrar e selecionar mulheres dentro do perfil delimitado pela marca, enviando-as então para a Itália, onde trabalhariam por nove meses numa das lojas da empresa, especializada em cosméticos, num regime de estágio/curso remunerado.

Uma baita mudança de vida, ares e rotina, que era compensada à farta pelo salário: Quatro mil dólares mensais, mais alojamento. E ainda aulas de inglês e italiano no pacote, que incluía oferta de emprego numa das futuras lojas da divisão de perfumaria da marca, no Brasil.

 

*   *   *

 

Trancou a faculdade. Nas redes sociais celebrou sua conquista, postando fotos de seu passaporte, e até fotos da cidade de Milão, seu em breve destino, fotos que ‘roubartilhara’ da internet. As amigas ficaram em polvorosa, e os parabéns venenosos, transidos na inveja, choviam sobre Janaína, que os sorvia com prazer. “Haha! Elas que lutem!”

Com o dinheiro da rescisão de seu contrato de trabalho na Boticário, Janaína ajudou a mãe, dona Josefa, castigada nordestina do município de Nossa Senhora das Dores, em Sergipe, a ampliar sua casinha. Desde seus primeiros anos no Rio a moça convidava, instava, implorava até, à septuagenária e solitária mãe para vir morar com ela, mas dona Josefa sempre desconversava, dizia que estava bem na terrinha, que não se adaptaria.

 

*   *   *

 

A gritaria fez alguns clientes saírem de seus quartos, enquanto os seguranças rapidamente se lançaram escadaria acima.

A menina, que instintivamente correra para as estreitas escadas, brecou e fez meia-volta, ao ver os dois brucutus que subiam por elas. A construção, bastante antiga, “tinha quase quinhentos anos”, segundo lhe dissera um dia uma das moças, e um problema com a mesma idade: Era pelas escadas a única saída.

No meio do pandemônio, um dos clientes fez menção de agarrá-la, mas recuou ao ver seu rosto, ensanguentado, e o instrumento em suas mãos, uma tesoura – igualmente ensanguentada.

Enquanto recuava, ela passou pela sucessão de portas, cada uma das quais lhe trazia à memória um trauma, uma perversidade.

Ao fim do corredor, estacou. Voltou-se, apenas para divisar que os brutamontes estavam agora na metade do grande corredor, um deles com o taser nas mãos – taser seu velho conhecido. Ela já desmaiara duas vezes ao toque daquele instrumento de choque.

A moça observou a grande janela que dava para a fachada frontal do edifício, mantida propositalmente encardida. Conseguiu divisar, entre o baço da fuligem, a cidade lá fora, cujas luzes noturnas eram apoiadas pelo brilho lunar, naquele agosto quente, em pleno verão europeu. Era Amalfi, pequena e redundantemente bela cidade costeira italiana, propriedade da máfia "Ndrangheta. Assim como ela.

A jovem sabia três andares até o chão, carros e alguns arbustos lá embaixo. Como uma cotia que defronta uma onça-pintada, ela podia ouvir, literalmente, o tic-tac do inferno em aceleração, murmurando em seus ouvidos. Precisava tomar sua decisão: Fugir ou lutar. Apertou com força a tesoura nas mãos – a mesma com que perfurara há pouco o peito do cliente, aquele que todas as sextas-feiras vinha para a casa, vinha para torturá-la, penetrá-la com objetos, humilhá-la.

Hoje ele queria usar um crucifixo. Foi o limite para aquela corroída alma sertaneja. Ela nunca tivera lá tempo para aquele Deus – estava ocupada, vivendo sua vida, boletos, correria, curtindo – que não era de ferro. Mas sabia que aquilo era demais, demais para ela e para o próprio novo-velho mundo que ela descobrira ao descer daquele avião na cidade errada, mundo onde o mal se despia de suas milhares de máscaras e firulas e se apresentava nu, impudico, soberano-sem-intermediários sobre tudo o que é seu. E, ela compreendera com a própria carne, em alguns lugares ele era senhor de praticamente tudo.

Tomou distância da janela, apenas para retornar em sua direção. Lançou-se, explodindo seu desespero de encontro às vidraças, escapando das mãos dos sequazes da "Ndrangheta, que já estavam como que sobre ela. Imaginou cair em pé, quebraria as pernas?, pediria ajuda.

Bateu com as costas sobre um Alfa-Romeo Giulia – luxuosa propriedade de um dos clientes, que jamais teria coragem de cobrar o prejuízo à máfia calabresa, tida como a mais silente, sanguinária e poderosa do mundo.

 Morreu na hora.

 

*   *   *

 

1,76m, 62kg, 64cm de cintura, 96 de quadril, 102 de busto. Jovem deusa de jambo e ocitocina do Brasil miscigenado de amores e estupros, filha de Josefa Fortunata Ramalho, de pai desconhecido – assim como seu destino, sem funeral, de cadáver dissolvido num tonel de ácido pela máfia.

Gonçalense adotiva, guerreira, sonhadora, deslumbrada e cooptada pela máfia do tráfico humano, nem primeira nem última, lágrimas num casebre em Nossa Senhora das Dores, número numa estatística. 


Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


 

domingo, 2 de outubro de 2022

DIA DE ELEIÇÃO, crônica de Sammis Reachers

 


Dia de eleição é dia de catarse. De expor amigamentos e odianças por esses que o jogo político arregimenta, esses que, por pudor nos negamos a dizer, mas no fundo – sejamos nós letrados ou humildeletras, enricados e pés-de-pano – sabemos que são os piores de nós...

Dia de eleição é dia de desnudamentos, de sangria dos ânimos, de expor os radicais e seus monóculos, sua tobas de ver o mundo por um só viés. Esses de direita e esquerda, em seus extremos tão perigosos – mas não haveria jogo sem eles, afinal, os fominhas da bola.

Dia de eleição é dia de melancolia, e isso nenhum poeta, dos seis mil que conheço ou ao menos tolero, já aventou: Dia máximo de melancolia, ao revisitar velhos caminhos e seções, ao rever rostos de anos, infância até, estudos juntos, trampos, sopapos e beijos trocados.

Dia de eleição é dia de cidadania, essa obviedade central & inescapável, frenética em seus entra-e-sais quase copulosos, pois desse seu coito na urna, hoje botãonizada, nasce o rebento que nos resguarda, a democracia – mais que este ou aqueloutro ator canastrão que ocupar o cargo que lhe confiarmos.

Dia de eleição é dia de suspense, riso e lágrima, apuração de samba e final de copa, suspiros ou expiros de sonhos, projetos, construtos de luz ou maquiavélicas maquinações. E acerto de conta$, que o correligionário também come, afinal.

Dia de eleição é dia de socializar – e orar, debater, biritar, conforme a cultura da aldeia: Preocupações ou despreocupações se carnavalizam, entrechocam e abraçam – o outro feito nós na sujeição ao sistema que nos comporta, renovação de ciclo, refundação tumultuosa de nosso pequeno grande mundo citadino.

 Sammis Reachers

https://linktr.ee/sreachers


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

A poesia de Daniel Glaydson Ribeiro

 


B@rroc@ e Rokokó, poesia de mínimos e de plenos, transbordamento do areal e mar que são as palavras. Revoltado alumbramento. Assim a poesia de Daniel Glaydson Ribeiro se apresenta, em seu livro Pulsão de Língua (Mirada, 2021). Dispostos em compartimentos, capítulos ou cápsulas de independência lírica, rítmica e temática, seus poemas se desdobram sobre o próprio chão: a linguagem, e dos saltos metalinguísticos e transliterários avançam até o chão do dia, com uma verve de engajamento e denúncia.

Aqui, para deleite dos leitores deste blog, alguns poemas e trechos do livro:


Epopeia do Cordel (trechos)

 

A sapiença do povo

tá no riso sem frescura,

na poesia das mata

sem sacra Literatura.

Vez por vez tem desavença,

mas no duelo tem quem vença:

viola na noite escura!

 

[...]

 

E agora com a internet

dos links multimodais,

toda ciranda que eu cante

roda o mundo em arraiais:

digo oxente e tô na Rússia,

traduzido lá na Prússia,

meu começo é sem finais!

 

Pois então lhe passo o verso

A ocê, minha formosura

Qual inté aqui chegou

Dichavando essa bravura!

Bravo é ler os camarada,

Entender nossa jornada

Em defesa da cultura.

 

 

 

REZA

 

No instante em que a lágrima

 lava minha vista para a palavra

do Teu Canto,

                                         tal qual a sentinela,

"minha alma anseia por Ti, pelo nascer do dia".

 

A natureza não tem moral

e sua água é(ra) límpida.

                                          Da terra e da pedra,

inda brota água pura.

 

Cala a ira dos impostores

que ousam proferir Teu Nome

com a boca e a língua pútridas

de genocídio.

 

Só muito depois compreendi

que esta ventania constante

já é Tua Voz,

                                          num simples sopro sempiterno.

 

 

 

ESQUIZOCAPITAL

 

Era uma vez minha terra

tinha palmeira e palmares

hoje tudo queima

e a Flor-

esta

cinza pelos ares:

 

cinza que cobre estrelas

fumaça enforca dores

ouro-lama afoga gente

num rio tóxico

Rio Doce

 

os quilombos e as aldeias

que diziam "demarcadas"

são o intermitente cenário

de guerra das bandeiradas

 

minha terra, nina

nem sei mais se é terra ou veneno

e tudo continua sendo

para o progresso

de São Paulo

 

 

 

COMO

 

...se ao poema coubesse ainda e apenas

Lê-lo, com humana voz sem excesso

no ritmo puro do tempo disperso

como se houvessem raças e antenas,

 

numa ausência de qualquer artifício,

como se eu detrás duma cortina,

sumisse, e esta língua que imagina

já não fosse a máquina do início.

 

Tal corno a luz do sol ou a da lua

as nuvens, os raios e tempestades

são sublime teatro-transcendência,

 

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;

línguas é ruído de todas as vontades,

o poema: barulho-excesso-essência.

 

 

 

V

 

Beijar a humanidade

mesmo desvirtuada

(Virtude, vento

que passa pleno

de sementes,

ex-cesso

que vigora)

 

com a esperança de um louco

se é que os loucos esperam

 

 

 

Haikai

 

o cheiro do tempo

um quintal frutificando

lentamente, dentro


Perfil do autor em Academia.Edu: https://ifpi.academia.edu/Daniel
Canal Linguagem e Poesia no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=p_KwQ3DPk7I 



sábado, 10 de setembro de 2022

Impressões de Julia Lemos sobre o livro Cartas e Retornos, de Sammis Reachers



 Julia Lemos

O mundo traduzido de forma enciclopédica e por um mar de signos, por causa dos neologismos, assim me pareceu ser este livro de Sammis Reachers, "Cartas e Retornos", que recebi como um presente enviado diretamente do Rio de Janeiro, onde este escritor, poeta, editor, antologista e professor de Geografia vive.

Os poemas se constroem como símiles de cartas, e no conjunto identificamos um diálogo com os que estão enfeixados sob o título de "Retorno", um termo que nesta proposta comparece em toda sua ambiguidade. O conjunto também evoca o poema "Correspondências" de Baudelaire e o traço algo experimentalista do livro remete-nos ao poeta Mallarmé, um dos precursores do Concretismo. O Movimento Concretista influenciou a poesia "pensante" do nosso João Cabral e a 'brincante" do poeta Leminski, só para citar estes.
Os poemas-cartas formam um leque temático quase infindável e são "enviados" ao vento, à terra, à linguagem, à guerra, à literatura, incluindo outras categorias como a das lembranças e repescagens da alma. Chega até o Cristo, o nome que está acima de todo nome.
Afinal, o poeta nos diz logo na apresentação, citando o filósofo Vilém Flusser, que a "poesia aumenta o campo do pensável" e é assim, com seus versos livres a se desenharem na página, que o lirismo também se mantém em um lugar mais discreto, pois será o leitor, com sua bagagem, que lhes conferirá o tom da emotividade.
Distraidamente o livro foi adquirindo corpo, o poeta também nos diz, assim como quem estivesse a "voar fora da asa", como usou dizer sobre o seu fazer poético, nosso poeta mais brincante, Manoel de Barros.
O eu lírico em Sammis Reachers, como que adentrando o "espírito" da linguagem, representa nesta sua poética de nomeações a criação de seu próprio mundo e isto nos remete a este versículo do livro de Hebreus: "pela fé os mundos pela palavra foram criados, de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente" (Hb. 11:3).
Mas nem isto o salva, segundo o poeta declara como podemos ler neste trecho do poema "Retorno à Pedreira do Anaia":

Pedalo a bicicleta,
pedalo todos os dias,
Um refugiado jovem demais
Para ter descoberto que não há
Lugar
Sequer uma estrebaria
Onde dar parto à minha dor (...)
(...) Locupleto minha sanha de fliperamas,
Fotografia e a embriaguez da Grande
Literatura Universal
Que nunca me salvará:

Aguardo em (o)pus
O advento de Cristo.

Salva não, Sammis.
Eu também estou nessa de aguardá- Lo.

______________________________________________

Julia Lemos, pernambucana do Recife, iniciou sua trajetória como atriz nos palcos recifenses. Poetisa, tem seus primeiros trabalhos publicados no Diário de Pernambuco e Jornal do Commércio, organizando e participando ainda de vários recitais poéticos em Olinda e Recife. Em 1981 lançou seu primeiro livro de poesias, Carmem Antonia Migliacchio Enlouqueceu, e em 1997 publica A Casa Estrelada. Escreveu os ensaios: Sobre uma Poesia de Larvas Incendiadas e Patativa do Assaré - um trovador nordestino. Integra várias antologias no Brasil e Portugal. É autora de A Exposição dos Sóis (Penalux).


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Pensamentos e reflexões de Wilson Thinonin


Pensamentos instigantes e edificantes, concebidos, recolhidos e/ou remixados por Wilson Thinonin, no livro Gotas Que Formam Rios (2006, Ed. Descoberta).


A perfeita obra do Espírito ensina os homens a se sentirem donos de um só direito: Servir a Deus.

 

Se a base for o amor ágape, qualquer estrutura permanecerá.

 

Os ouvidos vidraças normalmente possuem bocas estilingues.

 

Caixões não têm gavetas, mas gavetas têm caixões.

 

Quem quiser encontrar a Deus e a si mesmo, procure o próximo.

 

A maneira mais correta de se aproximar de Deus é, na medida em que se aproxima dEle, ir queimando todas as possibilidades de retorno.

 

Uma suntuosa Avenida para Deus começa com uma viela para o irmão.

 

Muita coisa não sai do papel porque nunca entrou no joelho da oração.

 

O Deus que vê lavouras onde o homem não vê sementes, preferiu chamar alguém de “Pai das Multidões” sem que este tivesse ainda um filho sequer.

 

A fraqueza é quase sempre resultado de força desconcentrada.

 

Fé não significa apenas remover montanhas, mas, às vezes, contorná-las.

 

Mais do que arrebatar o seu povo salvo, Deus quer que o seu povo salvo arrebate o povo perdido.

 

O mundo e você: Esse relacionamento pode ser comparado a café com leite ou água e óleo.

 

O que se tem não é falta de tempo, mas sobra desorganizada.

 

Oração é o possível que atrai o impossível.

 

A graça não procura justos, simplesmente forma justificados.

 

O auge da fé não é ver Cristo, mas permitir que outros o vejam através de nós.

 

Ó Deus! Se eu estiver dormindo, acorda-me; se estiver acordado, aviva-me; se estiver avivado, usa-me.

 

Querer que Deus varra uma cidade é fácil, o difícil é encontrar quem queira ser a vassoura em Suas mãos.

 

Deus chama despenseiros e não dispenseiros. Ele quer gente que convoque o povo ao seu valioso banquete.

 

Engorde o problema e emagreça a benção excluindo a gratidão.

 

Quanta saúde é colocada no lixo para se encher os bolsos. Quantos bolsos são esvaziados em busca de valores que o lixeiro levou.

 

A loura de santos aqui na terra ainda é pequena porque ainda há muito grão vivo.

 

Um tempo de Deus é fruto de tempo para Deus.

 

A paixão e o amor podem andar juntos, desde que os pés sejam do amor.

 

Se voto quebrado fosse tijolo, muita gente poderia montar grandes olarias.

 

Tanto a timidez quanto a audácia precisam de um tutor que se chama equilíbrio.

 

Quer paz no vale? Ouça o sermão do monte.

 

Como seriam poucos os muitos pregadores, se pregassem o pouco do que vivem.

 

Idiotice é o que se espera de quem se engravida de mediocridades.

 

Tudo o que Deus nos dá é grande; a questão é que suas doações nos vêm em forma de sementes.

 

Como não há soma sem números, não há comunhão sem unidade.

 

O que Deus faz no homem sempre refletirá no que fará através do homem.

 

O amor gera as condições; a esperança as probabilidades e a fé as possibilidades.


Medíocre é alguém entalado na porta da excelência.

 

Pra gente pronta não há sala de espera.

 

O amor é uma somatória de virtudes cuja prova se revela na doação.

 

Chamada é ir a Jesus, missão é ir por Jesus.

 

Uma das grandes armas de Jesus era uma bacia com água para desarmar pés ameaçados e ameaçadores.


O espaço que o diabo usa é o mesmo que a igreja recusa.


sábado, 6 de agosto de 2022

Divisão Gaijin: Os caça-gringos da POLÍCIA FEDERAL

 


Talvez você não saiba, mas a sociedade japonesa tradicional (ainda) é profundamente racista. Até um mestiço de japonês com qualquer outro povo é visto com maus olhos, e tem, claro, sua palavra depreciativa que o designe, konketsuji. Os japoneses também possuem um termo pejorativo e universal para designar todos os estrangeiros, gaijin. Sim, tive que pesquisar a fundo pois precisava de um bom nome – afinal a firma trabalha assim, com nomenclaturas mixadas entre o culto e o pomposo, cuja união faz fronteira com o ridículo.

A ideia nasceu aqui nesta cachola grisalha, durante uma operação em Conceição da Barra, no Espírito Santo. “Guindávamos”, de sua casa frontal à Praia de Guadinxiba, um americano procurado fazia década, tanto pelas autoridades quanto pela máfia de pirâmide financeira a quem fraudara. Beleza, ladrão que rouba ladrão tem aqueles cem anos, sim, mas isso é outra história.

Compartilhei a ideia numa reunião, um debriefing pós-operação, e o Fogazza, jovem delegado cujo nome não nega a manha de folgadão, desfez do meu papo – mas, logo, veja você, o levou a Brasília. Na moita.

Meses depois, estava formada a divisão. Até o nome que sugeri o moço alegre aproveitara, Divisão Gaijin. O miserável teve o desplante – ou a misericórdia, que não deixa de ser sempre um ato de audácia – de me incluir entre os agentes indicados.

Nossas missões partiram desta tal minha ideia, tão chocha e óbvia que me estranha ninguém a ter elucubrado antes. Somos uma equipe secreta, seleta e autônoma da Polícia Federal, cujo trabalho é vasculhar o litoral brasileiro.  Vamos pra mais especificidade, que o cargo exige: Vasculhamos lugares – belas casas, palacetes, clubes e congêneres em praias paradisíacas – em busca de estrangeiros. Ah, turistas não, estrangeiros residentes.

Um trabalho de formiguinha, mas que dá retorno.

Retorno do quê, você logo indagará. Bem, após quase duas décadas no métier, no rude ofício policial, cheguei à conclusão de que a cada dez gringos que resolvem fixar residência no lindo Brazil, um é fugitivo. Mas, dos alocados especificamente na vida mansa de litoral, em praias medianamente ou pouco movimentadas, esse número saltava para três, quase quatro. Acredite, é um belíssimo número, de inflar qualquer currículo. Mas, e essa gringaiada eram fugitivos do quê? De tudo o que você puder ou não imaginar, desde um corno bravo e vingativo até um coração despedaçado – mas a maioria fugia da boa e desagradável saia da LEI.

Parece papo de doido, “preconceituoso”, né não? Pois foi EXATAMENTE o que o delegado Fogazza disse, antes de levar minha ideia pra Brasília...

Prestes a aniversariar dois anos do início dos trabalhos, o apurado é o seguinte (segure a aba do seu sofá): 86 criminosos capturados, 14 quadrilhas de especialidades sortidas (tráfico de drogas, humano, de animais, obras de arte, veículos, até aviões) desbaratadas.

Fogazza agora é rei em Brasília, uma estrelinha hipster... O bombonzão chega a falar de si mesmo na terceira pessoa, feito uma zorra dum Pelé. “Alexandre Fogazza estará aí hoje”; “Alexandre Fogazza publicou um artigo no Globo”, diz, numa conversa cara-a-cara onde você é o único interlocutor na sala. Bem, isso já diz tudo sobre um homem.

Mas algo deu ruim, que tudo que tem polícia dentro dá ruim, cedo ou tarde. A fama da divisão – embora secreta – se espalhou, e aparentemente surgiu, dentro da própria Federal, mas provavelmente envolvendo a colaboração de polícias estaduais, uma divisão paralela: Uma galerinha muito esperta, muito polícia, percebeu que descobríramos o pote de ouro no fim do arco-íris, pois tais fugitivos acoitados geralmente tinham muito, mas muito dinheiro, e o dariam de bom – ou mau, tanto faz – grado para escapar dum xadrez e extradição. Ou pior, duma morte precedida de tortura.

Os miseráveis chegaram antes de nós em pelo menos três alvos – isso, pela minha contagem. Em duas os alvos já haviam se mandado sem deixar rastros; noutra o infeliz fora morto após tortura, não sem antes abrir mão de suas barras de ouro cimentadas na parede do banheiro. Descobrimos pelos resquícios – pó e lascas – de ouro que ficaram na parede ou pelo chão.

Tinha um puto entregando os serviços, tínhamos um traidor na divisão. Éramos apenas 12 indivíduos, nove homens, duas mulheres e o Fogazza, que flutuava numa daquelas siglas nãoseioquêlá+.

Eu tinha meu palpite, e como pai espiritual da ideia, o ônus maior de sua guarda me competia.

Bolei então um plano, armei uma casa de caboclo, como dizemos no Rio. Mexi os pauzinhos e coloquei a coisa pra rolar. Se ladeira abaixo, eu estava prestes a descobrir. Ia arriscar meu pescoço, mas, e daí? Patrícia fora embora com o Enzo – o nome foi escolha dela – pra Itália, lá se iam três anos; a última que me apareceu sumiu feito ninja, disse que eu tinha pouco tempo para ela e meu trabalho era perigoso. Na carreira eu já não tinha muitas perspectivas, era um velha guarda “xenófobo, homofóbico, misantropo” que “já devia ter saído das operações de campo”, segundo ouvira murmurarem mais de uma vez, pelos corredores. Mas eu era viciado nas operações de campo. Essa droga feita de tensão e cheiro de pólvora era a minha vida.

Falando em minha vida, vamos lá: Meses antes eu obtivera uma dica numa das agendas apreendidas com um francês, um foragido da máfia corsa que apanháramos curtindo o sol em Saquarema, a “Maracanã do Surf” no RJ. Trabalhei no fragmento, que me levou até Ponta Negra, bairro litorâneo de Maricá, e lindeiro de Saquarema. Mas, dados os afazeres do momento, deixei aquela dica em off.

Os meses trouxeram a desconfiança da trairagem interna, e resolvi ressuscitar o caso esboçado. Levantei por conta própria a planta do alvo. Era um italiano. Geralmente os foragidos são lobos solitários, mas alguns, eu percebera, possuíam ou estabeleciam laços de colaboração entre si. Era o caso, aparentemente. Menos mal, um segredo entre duas pessoas é um segredo com prazo de validade.

(Uma cisma pairava aqui na cabeçorra: Haveria uma organização dedicada a facilitar a fuga, a acoitação e a vida fugitiva de tais elementos, assim como a suposta organização Odessa ajudava os fugitivos nazistas após a Segunda Guerra? Bem, esta era mais uma questão para depois).

Dei então minha cartada: Joguei a informação do italiano para apenas seis elementos, quatro dos quais estavam entre os meus suspeitos de trairagem. Sim, inclusive o Fogazza. Foi durante uma aparentemente aleatória – mas providencial, pois eu a providenciara – campana no bairro de Piratininga, em Niterói (RJ). Vigiávamos uma casa de praia. Simulei então que recebera uma denúncia às pressas, quentíssima, e deveríamos ir imediatamente até o local da dica (Maricá, a menos de 60 quilômetros dali), sem informar a mais ninguém, pois o tal italiano “tinha laços no Governo”. Já encontráramos ao menos dois outros leitões que tinham, sim, profundos laços – e cuja prisão quase nos complica a divisão e a vida.

Eu estava sentado estrategicamente na parte de trás do veículo de sete lugares, de onde podia observar a movimentação dos celulares dos demais. Tínhamos um acordo de evitar ao máximo o uso dos celulares durante as operações de busca e captura em campo. Assim, era esperar o primeiro dedinho nervoso.

Meus olhos de seca-pimenteira fuzilavam as quatro cobras criadas de minha lista – Fogazza, Iran, Hélio e Anselmo. Madalena, coitada, era a certinha da equipe, certinha de tudo: mantinha abrigo para animais, o que lhe consumia 2/3 do salário; denunciara, por duas vezes, pequenas infrações de nossa própria equipe – e só não fora desligada da mesma pois tinha um baita padrinho. Quem nunca? Já o Marcelo era o mais jovem de nós e o mais novo na equipe, um molecote nerd, bobalhão, que entrara no último concurso – ficou em segundo lugar nacional. Falastrão demais e pior, medroso demais pro ofício, mas passou, e tinha lá seus méritos, segundo o delegado.

O Fogazza foi o primeiro a tamborilar os dedinhos no touchscreen. Seguido pelo Hélio. Depois foi o Iran. O baile estava movimentado!

50 quilômetros e 30-e-tantos minutos depois estávamos na belíssima Ponta Negra. Avançamos à toda para a casa indicada, uma construção luxuosa de dois patamares.

Abandonamos o veículo e assumimos posição de abordagem, em frente ao portão. Anselmo tentou abri-lo; fechado por dentro. Iran, o mais afoito e parrudo de nós, pulou o muro e abriu o portão, cuja chave descansava na fechadura.

Eu assumi posição em segundo plano, torcendo para a isca ter sido mordida pela nossa provável barracuda – sem que a minhoca italiana escapasse, pois sem ela só metade do meu objetivo seria completado. Mantinha um olho nos padres e outro na missa: Fogazza estava de cara emburrada, já desde o momento em que soltei a dica; Anselmo a todo instante dizia, “vamos com calma, vamos com calma”; até o matraca do Marcelo estava em silêncio, olhos arregalados, inexpressivos como um zumbi de sua série favorita – mas esse tinha sua explicação, o medo.

Já no quintal, em cuja centralidade estava a casa, dividimo-nos em dois grupos, para dar conta das duas portas rotineiras. Eu, Fogazza, Anselmo e Madalena entramos pela frente, enquanto Iran, Hélio e Marcelo foram pela porta dos fundos.

Porta arrombada, passei para primeiro plano e avançamos limpando os cômodos – todos vazios – até o pé da escada que dava acesso ao segundo patamar. Ali fomos recepcionados pelo que eram provavelmente palavrões em italiano, seguidos ou confirmados por cinco tiros de pistola. Fizemos fogo contra o atirador, e enquanto três agentes teciam uma cortina de chumbo como cobertura, outros dois – eu e Iran – avançávamos escada acima.

O segundo pavimento era composto por um banheiro, sito logo em frente à escada, cuja portinhola estava escancarada; um grande varandão, isolado por grades; e dois cômodos de portas fechadas, provavelmente quartos. Após abordar o primeiro quarto, vazio, rumamos para o segundo, sob cobertura dos companheiros posicionados logo atrás. A porta estava entreaberta, e ao imbicar a minha Glock .40 percebi o elemento – um barbudo e descabelado carcamano à la Zé de Abreu, prestes a saltar pela janela, uma maletinha na mão e a pistola – uma ridícula Walther mini – na outra. Fez menção de atirar, mas eu tinha meus planos, e trabalhara por meses neles. Disparei dois tiros em suas pernas, seguidos de mais dois – para espanto de Iran, que me seguia. Era o momento de ouro, a janela de oportunidade da deusa Verdade. Avancei para o elemento, que largara a arma, ao mesmo tempo em que sinalizei para Iran vasculhar embaixo da cama e nos armários (eram os primeiros lugares em que uma mulher se escondia), antes que os demais adentrassem o recinto. Chutei a arma caída, e nem fiz menção da pequena maleta. Enfiando desesperadamente as mãos nos bolsos do barbudo, apanhei seu celular – um iphone. Ato contínuo, catei a mão direita do carcamano e desbloqueei o aparelho com a sua digital, enfiando-o imediatamente no meu bolso. Os demais chegaram, no momento mesmo em que eu aplicava uma espalhafatosa coronhada na testa do bruto, despachando-o para os areais do sono.

- Matou o cara?! – já foi berrando o Fogazza.

- Só dei na perna. Ele ia atirar.

Iran pegou a maleta, que entregou a Fogazza para a averiguação, enquanto os demais revistavam o quarto e o varandão. Havia um carro na garagem, me ofereci para fazer a varredura nele. Anselmo permanecera lá embaixo, enquanto Marcelo me seguiu. Suava em bicas, talvez nervoso pela inexperiência em tiroteios.

– Vou ver o carro. Abra os potes dos armários da cozinha, sempre tem coisa neles apontei, despachando o Marcelo. Anselmo tomara posição regulamentar do lado de fora dos muros, guarnecendo o portão.

Apanhei a chave, abri o veículo. Minha intenção não era vasculhar porta-luvas, malas e fundos falsos, mas sim ter liberdade para fuxicar o tal celular.

Já dentro do carro, olhei para os lados, e divisei o maldito do Fogazza, que da janela do quarto me observava. Era ele o filho da %#&@...

Mas eu não tinha tempo pra conjecturas, precisava é duma merda duma prova. Dei de João-sem-braço, tomei posição no banco do carona, de forma a sair do campo de visão do chefe.

A última mensagem no Telegram era para o contato “Filha”. Foi a penúltima que me chamou a atenção.

A casa caiu. Estamos indo praí agora. Eu falei pra vocês todos vazarem! Sai fora logo”. O nome estava como “Amigos BR”. Termo sugestivo e ao mesmo tempo inconclusivo, não fosse quanto ao número, pois o idiota do “Amigos BR” nem fizera questão de utilizar um pré-pago, um número neutro. No exato momento em que a ficha caiu, senti o geladinho na cara, o aço de uma pistola Glock .40, como a minha.

- Me dá essa po##@. Devagar.

A pistola, assim como o número no visor eram, quem diria, do mais jovem de nós, Marcelo, que suava em bicas de medo e nervoso.

Levei a mão esquerda, com o celular, devagar em direção à janela, enquanto a direita se posicionava para dar um empurrão na porta – ou morrer tentando. Mas o moleque era mais malandro do que aparentava, e se afastou instintivamente do provável raio de impacto da mesma. Azar o dele: Ao se afastar do carro, junto ao qual estava semiagachado, se pôs no ângulo de visão de Fogazza.

O playboy não errou o tiro.

 

*   *   *

 

A tensão dominou todo o transcorrer daquela incursão; eu temia haver outros comparsas de Marcelo na equipe, e não tirei mais a mão do coldre. De surpresas eu já estava legal.

Os agentes estavam desconcertados. Me chamando a um canto, Fogazza disse que já desconfiava de algo, e também trabalhava no “tema”. Ele “encomendara” até escutas, e sabia que o papagaio era um elemento interno, agindo sozinho.

Confesso que aquilo não me satisfez, mas a cara de horror e incredulidade dos demais conspirou a favor da versão.

Só então se dando conta de que o inútil acaso nada tivera a ver com aquilo, e que eu armara pormenorizadamente todo aquele bote, foi que o delegado voltou ao seu normal. Num ataque de pelanca, aos berros, questionou por que maldito motivo eu não lhe dissera nada.

Xingou, xingou muito e pelo próprio nome (!) à minha mãe Cleidemar, quando eu disse que desconfiava dele também.

 

Playboy fresco do cacete. Ao menos é bom de mira.


Sammis Reachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


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