domingo, 18 de junho de 2023

The Arcade Fire - Um conto em homenagem à era de ouro dos fliperamas

 


Todo fliperama tem desses. Nós mesmos o somos, quando duros: O observador, o que fica vezes horas observando outros jogarem, em silêncio, mais ou menos interessado. Vezes outras observam, observamos as máquinas jogando “sozinhas”, no modo demonstração.

Por isso, aquele indivíduo, embora já mais adulto que adolescente, só atraiu a atenção por não ser do bairro. Mas isso era o de menos, as ruas eram movimentadas e a fama daquele point, por sempre receber primeiro as novidades, as novas placas de jogos vindas direto de São Paulo, atraía expedicionários de largo chão.

Era um dia inspirado: Após surrar nada menos que oito formidáveis oponentes no The King of Fighters ’97, pulei para o Mortal Kombat e segui surrando quantos havia – até o menestrel do jogo, Maurício, desta vez espancado com desenvoltura.

O ânimo era tanto naquela sexta-feira alcançando a noite que fomos para as máquinas B, os jogos divertidos, mas não tão solicitados: A disputa comunitária se transferiu primeiro para uma cabine de World Heroes Perfect, depois para uma de Samurai Shodown. E ali, meus pares ficaram pequenos naquela sexta, esmurrados e guilhotinados para além do normal da balança. Bem, na verdade aquilo era meio de praxe já. Eu era um completo aficionado (meus detratores me diziam viciado) em jogos eletrônicos, notadamente os de luta; passava horas dos dias, todos os dias, nos fliperamas. Por vezes a fissura era tanta que eu esperava algum deles abrir, sentado à porta já antes das sete da manhã.

Naquela noite, ao rumarmos para as tais máquinas, percebi que o “olheiro” nos acompanhara. Observava agora atento, eu aplicando sopapos e magias no Samurai Shodown. De tanto vê-lo ali, a observar em silêncio os trâmites da jogatina, ousei desafiá-lo:

– E aí meu amigo, bora? Quer jogar um pouco?

Ele quebrou a impassividade com um meio sorriso, e me deu um tipo de cartão ou flier. Era na verdade um convite:

 

THE ARCADE FIRE

GRANDE TORNEIO UNDERGROUND

APENAS JOGOS DE LUTA

RALLY DE 20 JOGOS ALEATÓRIOS

Torneio fechado Apenas 24 jogadores

 

1º colocado: R$ 6.000 e NEO GEO CD; 2 º: R$ 3.000 e NEO GEO CD;

3 º: R$ 2.000 e NEO GEO CD. 4 º e 5 º: R$ 1.000 cada.


Número: ______19_______.

Torneio justo e às cegas: Jogos e personagens aleatórios 

Se você tem este bilhete, considere-se convidado! Ligar para (021) 701-7766.

 

 

Hoje, 9 de outubro de 1997, o salário mínimo vale míseros 120 reais. Assim, aquela premiação dispensava comentários. A numeração à caneta, “19”, num torneio com apenas 24 competidores, me perturbou. Seria tudo aquilo uma piada? Mas, caramba, eu era um dos melhores, senão o melhor jogador do talvez principal fliperama da cidade. E naquele dia estava absoluto, exuberante no joystick! Decerto o carinha não estava ali, observando há mais de três horas, à toa!

Atônito sorvendo e digerindo as informações, quando retomei ao indivíduo e perguntei se havia taxa de participação, comum nos incipientes torneios que eu já vira, ele já estava à porta do fliperama, a tempo de dizer: “Não. Um patrocinador rico está bancando tudo.”

Resolvi não mostrar o convite para outros amigos, até ver onde aquilo tudo daria. A concorrência era forte na cidade, e só de participar de algo assim, minha fama tomaria as ruas com fôlego redobrado. Mas, se fosse uma brincadeira, uma “pegadinha”, eu iria passar uma vergonha colossal...

Dia seguinte, liguei para o número. Uma voz feminina me atendeu, solícita e atenciosa. Parecia mesmo uma secretária! Ou o negócio era sério mesmo, ou era alguma treta para arrancar nosso dinheiro, como os cursos preparatórios que carinhas como aquele iam oferecer nas escolas.

A moça pegou meus dados, e informou que o torneio seria realizado num endereço na zona portuária do Rio de Janeiro. Conhecia o lugar de passagem; estranho lugar, abandonado e sombrio, com uma pegada de filmes americanos made in anos 80. Eu era de São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, e a atendente me informou que a organização não ofereceria transporte, e eu deveria para lá me dirigir por minha conta. Apenas competidores de outros Estados teriam as despesas cobertas. Outros Estados!

Nos poucos dias antes da data especificada em meu convite, me pus a treinar. Vinte jogos de luta diferentes – bem, era coisa pra cacilda! Comecei a frequentar com redobrada sofreguidão locadoras de games, fliperamas de shoppings, consultar revistas – as que eu colecionava e outras, emprestadas de colegas.  Um ou outro, que me vira receber o convite, de quando em vez perguntava, “e a parada lá?”, “mixou, era enrolação”, eu desconversava.

No dia e hora aprazados, lá estava eu em frente a um alto portão de ferro, na zona portuária. Havia outros jovens e até adultos ali, gente de todo feitio. Acreditei mesmo ver um japinha que parecia o articulista de uma conhecida revista de games da época. Bem, se até ele estava ali, o negócio seria à vera!

No minuto exato que nos fora informado (10h15), o pesado portão se abriu, e adentramos a um sombrio galpão. Lá dentro, sentamos em algumas cadeiras de ferro, dessas de bar, novas, e uma mulher passou a nos explicar detalhes do evento. Uma coisa, mais que tudo, me chamava a atenção: A quantidade de seguranças – pois, pela estatura, porte e movimentos, só podiam ser isso mesmo – presentes no local.

Nossos dados e documentos foram novamente conferidos, e então o funcionamento do torneio foi passado a limpo. Ele aconteceria por chaveamento, precedido de sorteio. Assim, os primeiros combates seriam sorteados, e os demais seguiriam o chaveamento programado.

Estávamos ansiosos para ver as máquinas, quando fomos solicitados a levantar e acompanhar o nosso mestre de cerimônias. Mas, ao passar por uma porta, que eu acreditava daria acesso a outro galpão, onde teríamos as cabines de fliperama ou o que fossem, me deparei com o mar. E um baita iate ancorado no atracadouro.

O nosso guia então revelou que o torneio aconteceria a bordo do navio – em alto mar. Ouve um burburinho geral. Uns acharam a informação emocionante; outros ficaram receosos – talvez alguns daqueles nerds nem soubessem nadar! De minha parte, a aura de mistério me excitou ainda mais.

Adentramos então ao luxuoso barco, sendo acomodados num salão principal do mesmo, onde fomos soberbamente servidos com canapés, doces, bebidas sortidas. Agora a felicidade era geral; a ansiedade emprestava risinhos animados a todos os rostos.

Após nos fartarmos, fomos levados então a nossos aposentos – pequenas cabines individuais, com uma pequena cama, um cabideiro e uma mesinha. Bem apertado, mas, e daí? Uma aventura daquelas não se vive todo dia.

Mesmo com toda a excitação e ansiedade, e embora fosse pouco depois do horário de almoço, surpreendentemente consegui dormir – na verdade, ao me sentar na cama, apaguei.

 

*  *  *

 

Quando acordei, um cenário inesperado me envolvia.

Eu estava sentado numa fria e desconfortável cadeira de ferro, tendo diante de mim uma cabine de fliperama, uma daquelas cabines “pela metade”, chamada também de bartop. Minhas duas mãos já estavam sobre o painel da máquina, e não podiam de ali sair: elas estavam algemadas. Sim, presas, assim como meu corpo, afivelado à cadeira, preso por umas três faixas como essas de cinto de segurança dos automóveis. Minhas pernas estavam igualmente aferradas aos pés da cadeira.

Mas o mais aterrorizante era uma espécie de mangueira ou tubulação, fina, “colada” em meu pescoço. Eu não conseguia ver como aquilo estava afixado, mas, pela dor que sentia, imaginei que havia uma agulha enfiada em meu pescoço, e aquele tubo era para bombear algo para meu corpo, talvez soro ou medicações – ou sonífero, que eu agora imaginava ter sido a causa de meu “desmaio” após o almoço.

Tentei imaginar que tudo era apenas um sonho, fruto de minha excitação e do choque de encontro a tanta novidade. Mas a dor em meu pescoço, a dor nos pulsos ao tentar me livrar das algemas, não me deixava debitar aquilo na conta de Oneiros.

Foi só então que olhei à minha volta e percebi que eu estava selado numa pequena cabine toda feita de vidro transparente. Como aquela minha célula, haviam outras vinte e três, dispostas em círculo, e nelas estavam o que deveriam ser os demais competidores.

Um forte clarão veio então do meio daquele lugar em volta do qual estávamos espalhados. Eram as luzes de oito telões, nos quais um indivíduo apareceu.

“Boa noite, senhores. É um prazer tê-los aqui neste torneio. Eu sou o seu anfitrião. Meu nome não importa, mas podem me chamar de Mister Big. Eu sou um admirador dos games em geral, e grande apreciador de jogos de luta. Este torneio, o mais justo e mais surpreendente que jamais houve ou haverá, decidirá quem é o maior dos jogadores do Brasil. Gastei bastante dinheiro enviando olheiros para diversos Estados, em busca dos melhores dentre os melhores – e aqui estão vocês.

Como dito no convite que receberam, os jogos serão escolhidos aleatoriamente, assim como o seu personagem em tais jogos. Caso o jogo não tenha a modalidade de escolha random ou aleatória, a organização sorteará um dos personagens para cada um dos combatentes.

Senhores, antes de iniciarmos, deixem-me esclarecer a questão mais importante, aquela que fará deste torneio algo único – este é um torneio de fliperama de vida ou morte. Sim; necessário é dizer que somente um de vocês sairá daqui com vida. Veem essas agulhas enfiadas no pescoço de vocês? A cada derrota, uma quantidade de sangue será drenada do corpo do perdedor. Uma derrota total lhe jogará numa repescagem, e lhe custará um pouco mais de sangue; perdida essa repescagem, haverá ainda uma repescagem final. Derrotado aqui, você deixará o torneio – e a vida.

E mais: A cada round perdido, um pouco, muito pouco, de seu sangue será drenado; assim, mesmo vencendo a partida, pode-se perder sangue no processo – a não ser que você não perca nenhum round.

Um grande estudioso dos jogos, provavelmente um desconhecido de vocês, Johan Huizinga, dizia que “o jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’”.  E aqui estão vocês, voluntários cobiçosos e desejosos de, nesta ebulição de tensão, dor e alegria, mostrar que são os melhores! Tomei para mim o papel de lhes proporcionar o melhor e maior dos campeonatos possível.

Dito isto, desejo boa sorte a todos. E repito, para finalizar: Isto não é uma brincadeira, simulação ou pegadinha. Suas vidas dependem de sua perícia nos manetes.”

Àquela altura eu suava e chorava; não conseguia saber da reação dos demais jogadores, pois as placas de vidro não permitiam que sons entrassem ou saíssem, e tudo que ouvia vinha de um circuito de som interno. Mas era possível ver alguns dos competidores se debatendo desesperadamente, tentando – inutilmente – se libertar.

Os telões se apagaram e depois acenderam – e já estava na tela a tabela dos confrontos, mostrando o jogo e o adversário inicial de cada contendor.

O pesadelo já mostrava suas garras: o torneio para mim começaria com o jogo Fighter’s History, um jogo medíocre, que saíra apenas para o Super Nintendo e, pior, a que eu tivera acesso ou jogara apenas umas três vezes. Era torcer para meu adversário nunca ter visto o jogo, ou ser um jogador inferior. No fundo eu mantinha ferozmente viva a esperança de que tudo aquilo fosse uma imensa brincadeira de mal gosto, mas eu não podia e nem iria pagar pra ver.

Segundos depois, a tela em minha frente se acendeu, e o sistema escolheu um personagem – Feilin – sem meu comando, já que o jogo aparentemente não tinha sistema de random.

Mais do que de socos, chutes ou golpes especiais, um jogo de luta depende de timing, e cada jogo possui seu timing único. O tempo certo de bater, defender, esquivar-se – isso cria o jogador vitorioso.

Talvez por desespero, talvez imperícia, meu adversário iniciou o jogo apertando repetidas vezes o soco fraco, como quem busca identificar os botões. Por sorte eu estava um pouco além daqueles rudimentos, e já pulei sobre ele acertando a sequência clássica de voadora, soco e rasteira. No restante daquele e do segundo round, foi fácil vencer meu oponente. Assustado e exaltado após a partida, procurei observar os jogadores à minha volta, mas era impossível saber qual deles fora o meu contendente; embora os nomes tenham aparecido no telão, quando do sorteio das partidas iniciais, não havia nada nas cabines que indicasse o nome de seus ocupantes, e os jogos aconteceram ao mesmo tempo, ou seja, todos jogaram juntos. Meu estado de horror e euforia durou menos de um minuto, para logo entrar em suspensão, pois em seguida foi a vez do jogo Breakers – e eu me senti aliviado. Um game de luta da Visco, sobre o qual eu tinha algum domínio. De toda forma, não era um jogo antigo (fora lançado em 1996) nem tão desconhecido, e isso poderia contar contra mim...

Como o anterior, o jogo não possuía random, e pelo sorteio me coube o personagem Maherl, um muçulmano gordinho e bastante apelão. Ao meu adversário coube Rila, espécie de mulher-fera, musculosa e descabelada. Iniciei a partida pulando para trás e lançando um golpe em que o personagem atira sua espada – uma cimitarra. Meu adversário pulou sobre a mesma, para a frente. Eu consegui alcançá-lo enquanto caia, e emendei à voadora que lhe atingiu desprevenido, dois socos fracos e um soco forte. Na sequência tentei lançar o golpe em que o personagem cospe uma nuvem de fogo (C pra frente + soco fraco), mas aí foi a vez de meu adversário pular e me acertar a voadora e um chute, seguido de rasteira. Me levantei defendendo, mas logo cometi outro erro: Saltei para trás, para me reorganizar, e neste momento o meu oponente liberou o especial de Rila, que brilhou, saltando à distância sobre meu pescoço, e aplicando diversas mordidas. Meu oponente mostrava por que passara para a segunda fase, pois aparentemente conhecia aquele jogo, e bem o suficiente para me derrotar no primeiro round.

Senti então o que temia – um leve movimento ou sensação no pescoço, oriunda da sucção empreendida pela agulha. Vi um pouco de meu sangue fluir pela fina mangueira – sabe-se lá para onde.

Meu sangue fluindo para fora de mim teve o efeito do terror. E, paradoxalmente, como que me vivificou ao invés de debilitar:

Nos próximos dois rounds, não dei chance para o outro jogador, aplicando seguidamente combos – aprendidos no calor de tentativa e erros do momento – seguidos de golpe especial.

Por 2 rounds a 1, venci aquela partida. Aparentemente não se permitia aos jogadores tempo para descanso, pois a tela do jogo em minha cabine sumiu e logo apareceu a abertura de Super Street Fighter 2 Turbo. Alucinado pela adrenalina, só então reparei minhas mãos, e vi que elas tremiam. Mas naquele jogo eu era bastante experiente. Bem, eu e todos os jogadores do mundo. O random me jogou no colo Shun Li, personagem mediana; temi que meu adversário ganhasse de presente Ryu ou Ken, os apelões da franquia, mas a sorte me ajudou, e ele ficou com o também mediano Dee Jay. Minha ilusão durou menos de um minuto; num descuido enquanto lançava a magia da chinesa, meu adversário saltou sobre minha guarda aberta, entabulando voadora + soco + chute + especial. Fosse quem fosse, era um ótimo jogador. Me dei conta então que aquele já era o terceiro jogo ao qual eu avançara sem perder partidas, e era natural e esperado que o nível dos jogadores crescesse. Mais uma vez senti a sucção em meu pescoço. Maldito dia em que desafiei aquele olheiro, maldito dia em que aceitei aquele convite, sem desconfiar ou sem desconfiar o suficiente, cheio de mim, me achando o bonzão, o maioral!

Suava frio e tremia, enquanto se iniciava o segundo round. Meu adversário pulou sobre mim sem chutar ou socar, e ao cair – manobra clássica – imediatamente me agarrou num balão. Em seguida tomou distância, lançando magias, intercalando magia feita com soco forte (rápida) e fraco (lenta), buscando um erro meu. E conseguiu, ou ele ou meu desespero, pois ao saltar para a frente, no objetivo de alcançá-lo, cai sobre uma das magias. Se perdesse aquele round, cairia na tal repescagem, não sem antes perder boa dose de meu sangue. Deus, que tipo de pesadelo era aquele!!!

Arrancando forças sabe-se de onde, tentei recuperar o sangue frio que me fizera famoso nos fliperamas. Uma dupla sequência de voadora + soco forte + rasteira ajudou a empatar as barras de life, e um especial decidiu o round a meu favor. No terceiro round, menos apavorado, foi a minha vez de administrar o combate e aguardar os erros de meu adversário, que vieram.

Após minha vitória, eu procurava manter a calma e parar de tremer, aguardando já o próximo jogo e torcendo para ser um jogo que eu dominasse, mas a tela apagou-se por coisa de uns três minutos. Após isso, a figura do desgraçado que se anunciara como organizador do evento apareceu. Ele parabenizava a mim e a outro jogador, por sermos os únicos a vencer três partidas consecutivas, sem perder. Agora, ele dizia, deveríamos esperar que as repescagens fossem realizadas, para definir quais seriam nossos adversários. Enquanto isso, como numa macabra concessão, acabou revelando um pouco mais de si e de sua loucura:

– Vocês devem estar se perguntando o motivo de tudo isso. Bem, assim como vocês, eu sou um viciado, um completo viciado em jogos. E meu maior prazer é ver a galera jogando contra.

Meus pais faleceram num acidente de helicóptero, há coisa de um ano. Um acidente que me custou quase dois anos de economias. Eu herdei toda a fortuna que eles me impediam de usufruir como eu desejava. Desde então, comecei a imaginar a criação de um torneio. Seria antes um torneio normal, que eu objetivava que fosse o maior do Brasil, e estava disposto a empregar dinheiro de minha farta herança nele. Mas algumas tratativas com uma rede de TV me decepcionaram; mesmo pagando, eles se recusaram a televisionar meu evento, alegando que “videogames não são esporte”.

Mas eu sou um visionário, e transformei minha decepção inicial em algo maior: Para que criar um torneio simples, como se fosse de tênis ou futebol? Eles estavam enganados – aquilo era sim um esporte, e o mais radical deles, um que dominará o futuro, todos os futuros. E eu seria o paladino, sobre o sangue de vocês, honrados mártires, a provar! E mais, para quê televisionar, publicar meus feitos nos esquemas do sistema? Eu tinha dinheiro suficiente para fazer o que eu quisesse, e pouco a pouco comecei a planejar este torneio excepcional, do qual eu seria o único expectador, e os jogadores, mais do que o empenho advindo do desejo de fama e dinheiro, lutariam por suas próprias vidas, como nos melhores tempos de meus antepassados, os Césares romanos.

E aqui estamos, senhores! Antes do fim desta noite, um de vocês será um herói precursor de um novo mundo para os videojogos, e os demais serão mártires de uma causa que todos amamos. Agora descansem; logo os adversários de vocês – bem como os primeiros mortos – estarão definidos. Ao que vencer, os prêmios prometidos. Como não haverá segundo ou terceiro lugar vivo para receber o prêmio, o primeiro e único vencedor levará o dinheiro e os consoles dos demais. Ah, e o prêmio maior, embora eu não saiba o que uns miseráveis como vocês possam fazer com isso: A vida!

Após a fala do psicopata, transcorreu algo em torno de uma hora e meia ou pouco mais, antes de minha tela se reacender. Tentando tirar o foco de minha dor e desconforto, eu tentava imaginar que outros jogos poderiam ter caído para os demais jogadores, dentro do tal universo de vinte possíveis. Mas logo a angústia retomava o controle, e eu chorava fosse de desespero, fosse de raiva.

A próxima luta – pois já não eram jogos, a palavra jogo ficara totalmente esvaziada de sentido – se iniciaria. Após o clarão que dava como que o alerta para o início de uma nova rodada, o jogo Gundam Wing: Endless Duel apareceu. Mais uma vez tremi. Aquele era um jogo menor, baseado em um antigo anime japonês, e de meu conhecimento sabia apenas da versão para Super Nintendo – que eu só jogara durante um final de semana, ao alugar o game numa locadora. No susto, não pude perceber se aquele era o jogo do SNES, ou algum original de arcade, em geral mais elaborado.

No entanto, a partida não se realizou. Após uma espera de alguns minutos, com a tela do jogo aguardando o “start” que só podia ser dado pela central dos sequestradores, uma mensagem apareceu na tela: “Vitória por W.O.”. EM seguida, percebi que, numa das cabines, uma pessoa era retirada pelos seguranças, aparentemente desacordada. Pulei na cadeira ao ouvir a voz do maldito organizador, entre gargalhadas:

– Moleque de sorte, hahaha... Seu adversário aparentemente sofreu um infarto. Coitado, tão obeso. Bem, quem sou eu pra falar? Era muita pressão contra ele. E, como aqueles que poderiam substituí-lo infelizmente já não se encontram entre nós, você ganhou uma vaga na grande final... Sem lutar! Hahahaha... Aproveite sua sorte, herói... ou mártir?

Mais uma vez a tela se obscureceu, em uníssimo ao término do áudio. Percebi então que, durante toda aquela fala, eu inadvertidamente suspendera minha respiração, tal era a tensão e o horror. A taquicardia que sentia aumentou; e agora me faltava o ar.

Aguardei durante mais alguns bons minutos, talvez meia hora. Ocupei todo aquele tempo orando – clamando ao Deus de que eu sempre caçoara, e de que sabia tão pouco. Estava tão imerso em minha contemplação e pânico que sequer percebi o novo clarão do monitor – só fui despertar ao ouvir a música do jogo, na tela de apresentação.

Era Pit Fighter. Um jogo tosco, um jogo com poucas possibilidades de golpes. Um jogo com apenas três personagens selecionáveis. Um jogo detestável, ou ao menos um jogo que eu detestava.

Eu aguardava o tradicional som eletrônico que era o aviso das fichas sendo inseridas, mas isso não aconteceu. Ao invés, o jogo desapareceu da tela, dando lugar a dois rostos, numa espécie de tela dividida. O da esquerda era o do desgraçado que criara todo aquele inferno; o da direita, um rapaz com traços indígenas, era certamente o meu adversário. Sim, pois eu o conhecia – já o vira jogando num pequeno torneio realizado no Niterói Shopping. Era simplesmente o melhor jogador que eu já vira em ação, de perto. Por sua expressão abatida, quase aniquilada, imaginei como não estaria a minha.

– Prezados senhores, aqui estamos. Este é o maior torneio de jogos de luta já realizado no planeta, e jamais será superado – a não ser que eu consiga realizar um outro. Quem sabe nos EUA ou no Sudeste Asiático? De toda forma, aqui estão vocês. Dois campeões, dois ossos duros de roer. Dois desses marrudos que batem ponto na porta do fliperama, esperando o próximo pato, o próximo adversário. Que tal agora? Qual de vocês será o pato?

Gostaram do jogo que apareceu na telinha? Bem, é um jogo bem esquisito, hão de concordar. Mas esse torneio de vida e morte eu o criei para definir quem é o rei dos jogadores. E ele não poderia ser encerrado sem que o jogo adequado fosse o palco da disputa. Para a grande final, serão três partidas ou fichas. Quem vencer duas, vive.

Novamente a cara psicótica do desgraçado desapareceu, como se ele tivesse apertado imediatamente um botão ao encerrar seu vômito.

Na tela, era agora o jogo The King of Fighters ’97 que aparecia. Aquele mesmo cujo torneio eu vira o tal indígena faturar no Niterói Shopping, poucos meses atrás. Bem, eu não participara do torneio – quando soube, já estavam esgotadas as vagas, e eu fui com meus amigos apenas para observar a festa.

As fichas cantaram seu som e a sala de controle apertou os “starts”, jogando logo os cursores no ramdom. Deus, e agora?

Então me dei conta de algo. Eu tinha uma vantagem, nem que fosse inicial: Eu já vira aquele cara jogar. Eu o vira vencer diversas partidas, e conhecia o seu jogo, ao menos com seus bonecos de preferência.

Antes de eu terminar este raciocínio e tentar rememorar algumas das jogadas do cara, o ramdom já nos escolhia os personagens.

E a batalha final se iniciou. Meu oponente jogava como player 1 (controle da esquerda), e não bastasse isso o random lhe deu Shermie, Yamazaki e Ralph. A mim couberam Chizuro, Chang e Iori. Ele iniciou com Yamazaki. Quanto a mim, saltei logo na fogueira do tudo ou nada, e principiei com o meu melhor boneco, Iori. Comecei acertando um soco fraco, tentando pegá-lo de guarda aberta para encaixar um combo. Ele retrucou com um golpe com os dois botões fortes (golpe de imapcto) e um cháááá que me atingiu no ar, enquanto pulava para trás. Consegui ainda lhe acertar uma magia, mas ele logo saltou, iniciou um combo e me apanhou no especial. Meu sangue ficou pequeno, e meu melhor boneco estava sendo aniquilado. Ele se aproveitou de meu nervosismo e saltou sem golpear, me agarrando e aplicando a clássica cabeçada, dando fim a Iori Yagami.

Logo Chang entrou no mesmo loop da chuva de pancadas. Consegui reduzir seu sangue ao extremo, mas não o derrotei. Somente então entendi que talvez ele tivesse também posto seu melhor personagem no início, pois suas habilidades eram perfeitas. Mas, se meu nervosismo tinha custado meu melhor boneco – e agora o Chang de lambuja – o Yamazaki dele estava imparável. Com Chizuro, tive pouca chance, e já dava aquela partida como perdida, de qualquer forma. O cara me massacrou com um só boneco!

Na próxima partida ele recebeu Ryo Sakazaki, Kyo e Chizuro. E foi com ela que ele iniciou, contra minha Blue Mary. De fora, eu tinha ainda Leona e Choi: bem melhor que antes. Eu tentava controlar o nervosismo, ao mesmo tempo em que sabia que aquela era a partida de minha vida, pois se ele ganhasse a segunda de três, estava liquidada a peleja.

Talvez ele não fosse tão hábil com a Chizuro; desta vez, consegui derrotá-lo, embora com alguma dificuldade. Com Kyo Kusanagui, o personagem central daquele jogo ao lado de Iori, as manhas de meu adversário não se mostraram muito efetivas. Eu consegui defender todos os combos que ele tentou aplicar, e me aproveitei de suas falhas, ou das falhas do personagem, para golpeá-lo sempre que possível. Quando estava prestes a derrotá-lo, o carinha esboçou uma reação, me acertando um combo e quase um especial. Mas consegui eliminá-lo.

No terceiro round, talvez pelo alívio ou excesso de confiança de ter eliminado dois bonecos dele com um só dos meus, logo fui derrotado, pois ele saltou sobre mim e aplicou um combo que nem precisou completar-se, dado o restinho de sangue que me sobrara do round anterior.

A batalha de meu Choi contra o Ryo Sakazaki dele foi a mais equilibrada da partida. As manobras dispersivas, buscando um erro do adversário, foram constantes de lado a lado. Nenhum de nós conseguiu completar um combo sobre o outro, e a pancadaria avançou em ritmo de muitas defesas e acertos esporádicos. Ao fim, ele me venceu por pouca diferença.

No terceiro e último round ele jogou com aparentemente mais calma, esperando algum erro meu. Seu personagem tinha pouco sangue. Cheguei a me assombrar num momento em que, após deixá-lo “na alma”, ou seja, com um risquinho quase invisível na barra de life, ele conseguiu me aplicar um combo e um especial e deixou meu life na metade. Mas consegui executar uma sequência que, mesmo sendo defendida, lhe custou a ninharia de sangue que ainda tinha.

Após a vitória, sequer vibrei. Fechei os olhos e respirei fundo, pois a decisão daquele pesadelo, e de minha vida, estaria em jogo na última ficha. Um certo debate ético iniciado durante a pausa após a segunda luta continuava a arder em minha mente; eu pedia, implorava a Deus que me livrasse de tudo aquilo, mas não conseguia pedir diretamente por minha vitória, pois ela representaria a morte de meu adversário. E, por mais que quisesse sobreviver, não ousaria pedir isso a Deus. Assim, eu implorava por uma solução outra, que algo desse errado no maquinário daqueles canalhas, ou que a polícia aparecesse de surpresa. Não era possível alguém armar todo aquele circo diabólico, envolvendo tantas pessoas, e a coisa toda não babar.

Abri os olhos com o maldito som do random girando. O cara ficou com Andy Bogard, Robert Garcia e novamente Shermie. Minha equipe consistia de Billy Kane, Ryo Sakazaki e Sie Kensou. Fosse como fosse, ambos, eu pensei naquele momento, conseguíramos personagens fortes.

Eu comecei com Sie, pois tinha considerável habilidade com o personagem, e experimentei algo que, nos fliperamas, dera certo muitas vezes. Pois pouquíssimos jogadores realmente de contra utilizavam o personagem, que possui bastantes recursos defensivos e ofensivos. Assim, pelo inusitado e pela inexperiência em enfrentamentos, venci de cara muitos bons jogadores com aquele personagem.

Minha estratégia, mesmo contra aquele jogador que eu sabia ser melhor do que eu, deu resultado, pois consegui encurralá-lo até a metade da partida, e repeli seus avanços com magias ou com o golpe antiaéreo, seja para cima, seja para diante, apanhando-o em plena queda, quando tentava pular de maior distância para me atingir. Com um especial do estouro da bola de energia, finalizei sua Shermie, sem tomar nenhum dos agarrões. Minha estratégia dera certo.

Contra Andy Bogard as coisas se equilibraram. Me apanhando num dos pontos fracos de Sie, que é quando ele erra os antiaéreos, o cara me aplicou um combo seguido do especial com soco. Mesmo conseguindo ainda rebaixar o life dele para menos da metade, terminei derrotado, mais por meus erros que pelos méritos de meu adversário.

Agora era Andy contra Ryo. Consegui repelir alguns de seus ataques iniciais com os shoryukens mas, durante a trocação, novamente errei na aplicação deste antiaéreo e fui premiado com um especial. A partir dali senti minha garganta doentiamente seca enquanto recuava e tentava imaginar uma forma de penetrar no jogo de meu adversário, que retomava a iniciativa e me encurralava num canto, variando golpes altos e baixos, fortes e fracos, além dos golpes de impacto (os feitos apertando os dois botões fortes), conseguindo me atingir duas vezes com eles e dando fim a Ryo, e a uma parte de mim.

Ao ouvir o “fight” no round seguinte, arrisquei pesado com meu Billy Kane e iniciei dando o especial da roda de fogo; assim que fiz o movimento me arrependi, e com razão, pois o que temi logo aconteceu: meu adversário rolou por trás de mim e me acertou após eu lançar a roda de fogo na direção de onde não havia mais ninguém.

Utilizando o golpe de impacto, de grande alcance assim como outros golpes de Billy Kane, favorecido pelo taco ou bastão do personagem, foi a minha vez de repelir seus ataques subsequentes, e aplicar algumas boas sequências com aquele boneco que era de meus diletos.

Venci o round tendo perdido pouco mais de um terço do sangue.

Veio então o round final, de Billy Kane contra um dos personagens mais apelões daquela versão de The King of Fighters, Robert Garcia.

E eu dei tudo de mim. Com o corpo enregelado pelo frio do ar condicionado e pela perda de sangue; com a garganta seca pois o canudo de onde podíamos sugar água já não dava nada, e eu simplesmente não tinha com reclamar ou pedir água; com as pernas dormentes enquanto os dedos da mão direita doíam, e a curva entre o dedo polegar e o indicador da mão esquerda ardia, sensível após tanta força empregada nas manobras do joystick. Não fiz menção do poder daquele personagem, ou de quanto desse poder meu adversário saberia empregar. Entrei num estado – se é que ainda não estava – de êxtase, não de prazer, mas de desespero, possessão. Encurralei desde o princípio da partida meu oponente, aplicando golpes de impacto, rasteiras e bastonadas. Engatei um combo feito de voadora + chute forte + soco forte abaixado + frente e chute forte, seguido de outro dos combos simples de Billy, voadora + chute forte + gancho + especial, o especial que eu chamava de “vassourada de nunchakus”. Tirei bastante sangue daquele que, como eu, era só mais um desgraçado se afogando num pesadelo. Ele encetou uma reação aparentemente desesperada, pois passou a aplicar o golpe de “c” ao contrário + chute, um dos golpes apelões do Robert. Mas aquilo era algo de iniciantes, e todos eles haviam ficado já pelo caminho. Estourando uma bolinha de especial para rebater um desses golpes, imediatamente saltei sobre ele, aplicando no boneco desguarnecido uma sequência de voadora, soco fraco e chute forte. Encurralado no canto da parede, com o life pequeno, após derrubá-lo recuei para segura distância e dei o especial do círculo de fogo, no qual o personagem e gira por alguns segundos seu bastão incendiado. Minha ideia era conseguir tirar algum life dele, caso se levantasse defendendo; ou apanhá-lo na arapuca, pois se levantasse rolando, o rolamento tendia a acabar ainda dentro do raio de ação do círculo de fogo, pela distância estratégica que eu tomara. Mas ele, seja por nervosismo, erro simples ou mesmo desistência, levantou sem defender ou rolar, recebendo todo o impacto do especial.

Antes que o narrador do jogo terminasse de gritar o “k.o.”, apaguei, fosse por exaustão física e psíquica, fosse por algum narcótico introduzido em minhas veias.

Quando acordei ainda era noite. Uma rua de chão, úmida de alguma chuva recente, me servia de cama. Era a serventia de um local desolado, situado à beira mar, próximo a uma espécie de atracadouro clandestino ou píer. Levantei-me com grande esforço. Todo o meu corpo doía, mas a dor de cabeça, lancinante, era a mais dura de suportar. Ao meu lado percebi duas malas pretas. Abri uma delas, temeroso, mas esperando encontrar água, pois minha garganta estava como que dormente de sequidão. Percebi então que naquelas valises estavam os prêmios – dinheiro e videogames.

Coloquei algum dinheiro no bolso, recobrei parte de minhas forças e segui por aquela ruela arrastando as malas, pois possuíam rodinhas. Vários metros adiante cheguei a uma espécie de pequeno bar, ou birosca, onde três bêbados bebericavam cerveja ruim e destilados baratos. Mesmo bêbados, me olharam com espanto e desconfiança, mas me informaram o que lhes perguntei: eu estava nas proximidades da favela da Kelsons, no Rio de Janeiro. Me indicaram o caminho até o asfalto, ou “a estrada”.

Me vi num embate ético: decerto deveria ir até a polícia imediatamente; mas, e se eu fosse considerado culpado ou cúmplice de toda aquela loucura? E o dinheiro, aquele maldito mas sempre útil dinheiro, se lá aparecesse com ele, o mesmo seria certamente confiscado.

Eu estava fraco demais para tomar decisões. “Amanhã e água, amanhã e água”, minha mente repetia, violentada. Avançando pela estrada, consegui que um táxi parasse, e nele embarquei. Em casa, não sabendo o que fazer, me pus a escrever este relato, com todos os detalhes possíveis, para não esquecer de nada, antes de ser novamente engolido pela exaustão.

São cinco e quarenta e dois da manhã; minha mãe e meu padrasto devem estar no forrozão. Logo chegam, bêbados. Vou dormir, e queira Deus que nunca mais acorde. Ou me permita reencontrar aquele desgraçado, e despedaçá-lo num novo jogo.


Sammis Reachers

 

Você pode baixar este conto na forma de um pequeno e-book em PDF, clicando AQUI.


Mais sobre o autor e seus trabalhos pode ser visto aqui:

https://linktr.ee/sreachers



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


sábado, 13 de maio de 2023

Livros para sair da caixinha: Saindo da Zona de Conforto em 200 Frases Volume 2 e Volume Único

 Há algum tempo atrás, tomamos sob nosso encargo uma empresa aventurosa: elencar 200 frases seletas, cuja audácia ou perspicácia, sabedoria, criatividade e alegria – mas também cinismo e desconcerto fossem poderosos para impactar proativamente o leitor, seja o experimentado ou desavisado. O sucesso da iniciativa, o e-book Saindo da Zona de Conforto em 200 Frases, serviu de incentivo para voltarmos ao batente e, martelando os tambores, reunir uma nova coleção de frases com poder de encantar – ou catar você de sua zona de espera, de planejamento, de expectativa ou rendição – e desafiá-lo, municiá-lo para a ação – ou mesmo a desaceleração e mudança de rumo.

Uma alegoria, uma exortação, uma nova perspectiva: Surpreenda-se com este apanhado da boa sabedoria humana. 

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E mais: Unimos os dois volumes de Saindo da Zona de Conforto num único, disponível apenas no formato impresso, e que já pode ser adquirido pela plataforma Uiclap. Confira: https://loja.uiclap.com/titulo/ua32900/


quinta-feira, 4 de maio de 2023

991 a.d., um conto de Jorge Luis Borges

 


Quase todos acreditaram que a batalha, essa coisa viva e cambiante, tinha-os lançado contra o pinhal. Eram dez horas ou meio-dia. Homens do arado e do remo, dos árduos trabalhos da terra e de seu cansaço previsível, eram agora soldados. Nem o sofrimento dos outros nem o de sua própria carne lhes importavam. Wulfred, atravessado o ombro por um dardo, morreu a alguns passos dos pinheiros. Ninguém se apiedou do amigo, nenhum deles voltou a cabeça. Já na cerrada sombra das folhas, todos se deixaram cair, mas sem soltar os escudos e os arcos. Aidan, sentado, falou com lenta gravidade, como se pensasse em voz alta.

— Byrhtnoth, que foi nosso senhor, entregou o espírito. Sou agora o mais velho e talvez o mais forte. Não sei quantos invernos posso contar, mas seu tempo me parece menor que o que me separa desta manhã. Werferth dormia quando o toque do sino me despertou. Tenho o sono leve dos velhos. Da porta avistei as velas raiadas dos navegantes (os vikings), que já tinham lançado âncoras. Arreamos os cavalos da chácara e seguimos Byrhtnoth. À vista do inimigo, foram repartidas as armas e as mãos de muitos aprenderam o governo dos escudos e dos ferros. Da outra margem do rio, um mensageiro dos vikings pediu um tributo de argolas de ouro e nosso senhor respondeu que o pagaria com antigas espadas. A cheia do rio se interpunha entre os dois exércitos. Temíamos a guerra e a desejávamos, porque era inevitável. A minha direita estava Werferth e quase o atingiu uma flecha norueguesa.

Timidamente, Werferth o interrompeu:

— Tu a quebraste, pai, com o escudo.

Aidan prosseguiu:

— Três dos nossos defenderam a ponte. Os navegantes propuseram que os deixássemos atravessar o vau. Byrhtnoth deu-lhes sua vênia. Agiu assim, creio, porque estava ansioso pela batalha e para amedrontar os pagãos com a fé que havia posto em nossa coragem. Os inimigos cruzaram o rio, os escudos no alto, e pisaram o pasto da barranca. Depois veio o encontro de homens.

As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordando os fatos que Aidan enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz os cunhava em palavras. Desde o amanhecer, tinham combatido pela Inglaterra e por seu dilatado império futuro e não sabiam disso. Werferth, que conhecia bem seu pai, suspeitou que algo se ocultava sob aquele pausado discurso.

Aidan continuou:

— Uns poucos fugiram e serão o escárnio do povo. De todos os que restamos aqui não há um único que não tenha matado um norueguês. Quando Byrhtnoth morreu, eu estava a seu lado. Não pediu a Deus que seus pecados fossem perdoados; sabia que todos os homens são pecadores. Agradeceu os dias de ventura que Este lhe havia deparado na terra e, sobretudo, o último: o de nossa batalha. A nós cabe merecer termos sido testemunhas de sua morte e das outras mortes e façanhas desta grande jornada. Conheço a melhor maneira de fazer isso. Iremos pelo atalho e arribaremos à aldeia antes dos vikings. Dos dois lados do caminho, emboscados, nós os receberemos com flechas. A longa guerra nos havia rendido; conduzi-os até aqui para descansar.

Levantara-se e era firme e alto, como convém a um saxão.

— E depois, Aidan? — disse um do grupo, o mais jovem.

— Depois nos matarão. Não podemos sobreviver a nosso senhor. Ele nos comandou esta manhã; agora as ordens são minhas. Não sofrerei que haja um covarde. Está dito.

Os homens foram se levantando. Alguém se queixou.

— Somos dez, Aidan — contou o rapaz.

Aidan prosseguiu com sua voz de sempre:

— Seremos nove. Werferth, meu filho, agora estou falando contigo. O que te ordenarei não é fácil. Tens de partir sozinho e nos deixar. Tens de renunciar à contenda, para que perdure o dia de hoje na memória dos homens. És o único capaz de salvá-lo. És o cantor, o poeta.

Werferth se ajoelhou. Era a primeira vez que seu pai lhe falava de seus versos. Disse com voz cortada:

— Pai, deixarás que teu filho seja tachado de covarde como os miseráveis que fugiram?

Aidan replicou:

— Já deste prova de não ser um covarde. Nós honraremos Byrhtnoth dando-lhe nossa vida; tu o honrarás guardando sua memória no tempo.

Virou-se para os outros e disse:

— Agora, atravessemos o bosque. Disparada a última flecha, lançaremos os escudos à batalha e sairemos com as espadas.

Werferth os viu perderem-se na penumbra do dia e das folhas, mas seus lábios já encontravam um verso.


*


Nota do autor: 991 a.d. É a data do combate de Maldon, famoso na Inglaterra pela balada que historiou a ação. Os milicianos de Essex, derrotados pelos vikings de Olaf Tryggvason, morreram combatendo sem esperança porque seu chefe já havia tombado e a honra o exigia. São muitos na breve epopeia os traços circunstanciais — totalmente alheios aos hábitos alegóricos da época — que prefiguram a técnica das ulteriores sagas da Islândia.


in Borges: Poesia.


sábado, 15 de abril de 2023

Lançamento: Livro CITAÇÕES MISSIONÁRIAS - Mais de 2000 citações sobre a obra missionária da igreja de Cristo

 



Conecte-se com a sabedoria de mais de uma centena de autores e inspire-se com mais de 2.000 citações missionárias! 

Prepare-se para mergulhar em uma riqueza de pensamentos e reflexões que irão tocar seu coração e renovar sua fé. Com nosso novo livro de citações, você terá acesso a uma coleção poderosa de palavras que o levarão em uma jornada emocionante e transformadora. E ao mesmo tempo em que alimenta sua alma, você estará fazendo a diferença na vida de outras pessoas. Ao adquirir o livro por apenas R$ 40,00, você estará apoiando a agência missionária SEMADEC • São Gonçalo/RJ - filiada à AMTB - a levar amor e esperança a lugares carentes do nosso país. O frete já está incluso, basta escolher o método de pagamento que preferir: 

Pixsreachers@gmail.com (em nome de Sammis Reachers Cristence Silva) 

ou Depósito BancárioCaixa Econômica Federal, agência 1337, Conta poupança 00036276-7, Operação 013 

Em seguida, precisa enviar comprovante do pix/depósito e o seu endereço para a remessa, seja para o e-mail acima ( sreachers@gmail.com ), ou para o meu Whatsapp: 21 98766-5576.

Não perca mais tempo, adquira já o seu livro de citações missionárias e prepare-se para uma jornada emocionante e transformadora.

Confira os temas abordados na obra:

AVIVAMENTO – BATALHA ESPIRITUAL – BÍBLIA – CHAMADO E DECISÃO – CONTEXTUALIZAÇÃO – DISCIPULADO – ENVIADORES E MANTENEDORES – ESPÍRITO SANTO – ESPIRITUALIDADE – EVANGELIZAÇÃO – FAMÍLIA E RELACIONAMENTOS – GRANDE COMISSÃO – IDE – IGREJA – JESUS – LITERATURA – MARTÍRIO – MINISTÉRIO      – MISSÃO, MISSÕES – MISSIO DEI – MISSIOLOGIA – MISSIONÁRIOS – MISSÕES DE CURTO PRAZO – MISSÕES URBANAS – MOBILIZAÇÃO MISSIONÁRIA – MOTIVAÇÃO – NÃO ALCANÇADOS – OBRAS DE MISERICÓRDIA (CARIDADE; AÇÃO E JUSTIÇA SOCIAL) – ORAÇÃO – PASTORES E LÍDERES – PERGUNTAS REINCIDENTES – PERSEGUIÇÃO – PERSEVERANÇA – PREGAÇÃO / PROCLAMAÇÃO – PREPARO MISSIONÁRIO – PROVIDÊNCIA DIVINA – QUEBRANTAMENTO – RENÚNCIA (SOFRIMENTO, SACRIFÍCIO) – SERVIÇO (MORDOMIA CRISTÃ) – TEOLOGIA – TESTEMUNHO – UNIDADE (COLABORAÇÃO NA MISSÃO, COMUNHÃO) – URGÊNCIA – VOCAÇÃO.







domingo, 12 de março de 2023

Dois poemas de Yehuda Amichai

 



adendo à visão da paz

 

Não parar depois da destruição das espadas.

Arados, não parem! Continuem a destruir

para fazer delas instrumentos musicais.

Quem quiser fazer guerra novamente

terá de voltar através dos instrumentos de trabalho.

 

 

há dias em que todo mundo diz

 

Há dias em que todo mundo diz, eu estive lá

eu estou pronto a testemunhar, eu estava a pequena distância do

[acidente,

da bomba, da crucificação, quase fui atingido, quase fui

[crucificado,

vi a cara do noivo e da noiva sob o dossel, quase me alegrei,

espiei o leito de David com a Batsheva, por acaso

eu estava no telhado, consertando os canos, arriando uma bandeira.

Vi com meus próprios olhos o milagre do óleo no Templo,

vi o general Allenby ao entrar pelo portão de Jafa,

eu vi Deus.

Há dias em que tudo é álibi; não estive, não ouvi,

apenas ouvi a explosão de longe e fugi, vi fumaça, mas

li no jornal, pois estava em outro lugar.

Não vi Deus. Tenho testemunhas.

O Deus de Jerusalém é um Deus álibi eterno,

não estava lá ninguém viu nem ouviu

estava em outro lugar. Ele era o Lugar, era Outro.


Do livro Terra e Paz (trad. de Moacir Amâncio).


domingo, 12 de fevereiro de 2023

A VISITANTE - Conto de Sammis Reachers

 


Ela passou a tarde inteira medindo meu coração, desfazendo pequenas criptografias.

A noite chegara lá fora.

– O que a senhora quer, afinal?, perguntei.

– Sair da rotina. Nada. Obrigado pelo café.

Foi à estante, olhou com desdém a profusão de livros. Uma parte insuspeita a atraiu: um trecho da estante onde eu guardava memorabilia, pequenos brinquedos, álbuns de figurinha. Tocou os brinquedos, sorriu ao manusear um boneco do Hulk. Puxou alguns álbuns. Apanhou o mais antigo, um álbum de cromos sobre dinossauros, da década de 60 do último século a morrer.

– O homem que pintou esses animais era um ser infeliz. Japonês de nome Agura Sayta, depois John Sayta, radicado em Cincinnati, nos EUA. Como você, praticava colecionismo: possuía escaravelhos. Escaravelhos embalsamados. Seu amor era a taxidermia, o reino de aço dos ínfimos e fortes insetos, mas ganhou a vida pintando dinossauros. Morreu de uma pneumonia. ...Segunda feira começa o verão em seu hemisfério... – ela concluiu, mudando completamente de assunto.

Já havia percebido esse padrão, esse alheamento. Se fosse cabível, diria que ela está esclerosada. Mas algo em mim insiste (intui) que ela sempre foi assim. O alheamento é parte de seu ofício.

Quando você nasceu? – rompi a casquinha do nonsense com minha primeira pergunta de verdade. Ela nada respondeu: olhava pela janela, contemplando talvez as roseiras podadas do jardim.

– Você consegue estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Como faz isso? Há muitas de você?

– Nascer não é a palavra. Nascer nem se aproxima da essência do conceito. Sou para o Universo como estas três paredes deste quarto de quatro. Sem elas não há quarto, não há morada: sou a coesão, a corrente de prata, o elo que liga o início deste Universo a seu fim, e seu fim será o meu. Mato para que um dia eu morra, enfim.

Puxou uma biografia de Einstein da estante. Fez menção de abrir o livro, declinou.

– A entropia que causa o caimento energético da matéria, entropia que a tudo corrói e mata e eu somos uma: o mesmo princípio, o mesmo... material criando formas diversas.

Era a minha vez de saltar de assuntos, pisar num detalhe que me perturbara desde que lhe abri a porta:

– Senhora, seus olhos são assustadoramente... impossivelmente melancólicos.  Congelados num perpétuo estado de pré-lágrima. Eu os suporia duros, se tal imaginação tivesse tido seu tempo. É um detalhe ínfimo, mas que se mereceria espantoso. E o pior não é esse espanto, mas sua quase ausência... Pois é como se eu já tivesse visto esta cena e seus olhos. Você já esteve aqui? Em algum momento de que não me recordo?

– Se o Tempo é circular? Se você se sente girar, sim. Esse boneco sem braços... sim, lembrança de sua infância. O Tempo é uma explosão secundária ou de fundo, uma força-de-seguir-energias que, a partir do momento inicial, expandiu-se em todas as direções... mas não como o espaço, que vai sempre adiante, ou seguindo a placidez das linhas... o Tempo é inconcebível em linhas, elas avançam, entrechocam-se, ricocheteiam... Tempo, encantação domesticada, é a reificação mais mágica do Lumen, do Criador. Confuso? Ele não é para as palavras, como tanta coisa.

– Gostei daquilo que você escreveu – ela diz, noutro salto ou tombo demencial. E recita: “Vejo as pequenas mangas crescendo nos pés, a partir de setembro. Em dezembro estarão nas mesas e mãos. Um dia morrerei e as mangas, indiferentes, continuarão nascendo, crescendo açucaradas, sendo arrancadas ou caindo ao chão, diante de homens que não saberão de mim, seivas engordando uma outra manga, mesmerizados e indiferentes. Há um toque, um toque magistral de horror em todo esse processo de vida e morte.”

– Quer jogar xadrez?

– Para quê? Rainha-negra-mata-peões-mata-cavalos-mata-bispo-mata-torre-mata-rei-e-rainha-brancos. Partidários da rainha negra morrem. Rainha negra morre. Morte sempre vence.

– Ha-ha-ha... Perdão, senhora. Não quis dizer que poderia vencê-la, não imaginei o jogo sob esse prisma. Mas agora que a senhora referiu a isso... se fosse possível, como vencê-la?

– Sabe, certa feita um rei travestiu-se de peão e me venceu em meu próprio jogo. Mas tinha que ser, e o rei vestido em burla criara mesmo o tabuleiro-de-tudo em sua marcenaria. Era o mesmo que me criou, aos pés daquele Jardim onde teu pai foi criado e depois proscrito.

Mas vamos finalmente ao motivo deste dia. Você tem questionado e entristecido, mergulhado em café e aborrecimentos. Acredita, e com razão, na construção de sentido para a sua vida. Mas tem desesperado; já não pode mais construir, já atingiu a estação dos trens exaustos e ninguém lhe espera na estação.

Eu tenho uma oferta para você.

– Vai me levar? Só podia ser isso, afinal. E precisa desonrar-se ao propor a um peão o inescapável, o inacordável?

– No oceano, este oceano absurdo, cujo sentido verdadeiro, ou final se preferir, só pertence ao Um, você e, sei que inesperadamente eu também, sabemos que o maior tesouro é possuir sentido. É quase paradoxal, mas não temos escolha. Eu lhe ofereço o sentido sob minha jurisdição. Uma migalha bem maior que a sua.

Tudo de que uma criatura, qualquer criatura, precisa: um mapa e uma missão. O bernardo-eremita possui seus instintos, seu mapa, e sua missão é cumprir o ciclo; um demônio possui seu mapa de ódio, e uma agenda que se renova a cada homem que nasce, e como nascem homens!

Mas você, homenzinho amorável, desespera e pisoteia, em subidas e descidas, os andares do sobrado de sua própria angústia.

– E que tipo de sentido a senhora me oferece?

– O único que possuo, e como seria diferente? O meu.

– Não entendo.

– Mapa e missão, mapa e missão. É tudo de que toda criatura precisa. E sou feitura como você. Te darei minha missão e meu mapa. Não tema; não passará uma vida eterna sob meu manto; como missão, ela terá conclusão, e como mapa, há destino a alcançar.

– Calma, madame, calma aí. Quer que eu seja um... um tipo de seu ajudante?!? Um arauto, talvez?

Quero que você seja eu.

Aturdido pelo insólito de tal diálogo, sentei-me no sofá. Afundei o rosto entre as mãos; chegara ao limite, tardiamente não conseguia conciliar os pensamentos. Escorri para o chão. Deitei-me, olhando fixo para o teto escurecido. Que tipo de pesadelo estava sendo aquele dia?

– E se eu aceitar sua oferta, que será de você?

– Abreviarei minha missão interior; acrescentarei ou expandirei sentido ao burlar o mapa; tomarei um atalho, e atalhos são raridades na metanarrativa universal.

– E, suponho, estarei para sempre prisioneiro de tua sina?

– Não, não para sempre, já lhe disse; meu mapa é delimitado em exatidões. Virá o dia, o Dia magnífico, em que o Equalizador terminará com a sua fome.

O sentimento de pesadelo ainda me dominava; a situação inteira não era crível, mas ao mesmo tempo a sensação de que jamais homem algum poderia ter sonho tão complexo e tão real como aquele era avassaladora. Eis o fantástico arrombando a portinhola de meu curral de tédio, eis a espada mística de Arthur ou Siegfried caindo do céu e enterrando-se no peito pálido de meu desconcerto. Que importa se sonho ou realidade?

– Aceito sua proposta.

– Oh. Finalmente. – disse, sentando-se. – Aquele que ulula entre terribilidade e misericórdia apiedou-se de mim. Pois há alguns séculos passei a clamar não no vazio, mas pelo nome de Seu Filho, o intermediário.

– ??? Oh. Fala de Deus?

– Toda fala fala de Deus, e não há escape, ó sucessor.

 Ela se levantou e aproximou-se do local em que me deitara. Levantei-me, leso de quaisquer sentimentos. Ao abrir seu manto, pude divisar, mesmo na penumbra, o interior de seu sinistro corpo, ou fosse o que fosse. Era um entretecido de feixes, como raízes escurecidas, mas que me aparentaram sinalizar um belo mosaico, uma apetecível estrutura. Enfiou sua mão direita no próprio peito de urdiduras, que se abriram ao toque. De dentro de si retirou uma pedra. Ou joia. Tinha o tamanho de um punho fechado, talvez de um coração. Era translúcida; em seu interior, feixes de luz negra pulsavam em diversas direções.

– Este é o roteiro de missões. Aqui você verá cada alma a tocar, e quando fazê-lo.

– Como você pode tocar a tantos ao mesmo tempo? – repeti a pergunta inicial, noutros termos, tornando a um de seus nós metafísicos que me fascinavam.

– O Tempo, principezinho das cismas, é passível de dobraduras. Posso, e você, no começo não sem assombro, o fará, dobrá-lo para frente e para trás: ele sempre volta à posição normal, mas me permite estar em muitos lugares, em muitos tempos que, para os prisioneiros de sua falsa linearidade, parecem um tempo só.

Em seguida ela retirou seu manto. Inesperadamente, como se para deitar terror a um homem já além do medo – pois colapsado pelo absurdo –, a fraca luz de LED da sala tremulou. Vi seu corpo de feixes, de raízes entrelaçadas, sua nudez milenar. Ela estendeu-me sua mortalha.

– E se o Deus de que fala não me aceitar?

– Ele me permitiu escolher alguém. Não como fui escolhida, dentre a animália. Nem entre espíritos. Mas me permitiu escolher um dentre os de Adão. E eu escolhi você. E, se aconteceu, faz parte do sentido. O mais é contigo, e logo saberá.

Tomei seu manto. Deitei-o sobre meu corpo. Raízes começaram a cobrir minha pele; mas sentia também, em meu interior, seu avanço lento. A primeira sensação foi uma mudança no meu poder visual: podia ver a quilômetros de distância, estando dentro de minha casa.

– Agora irei lhe inserir a pedra. Doerá. Sim, doerá como o pecado de Adão.

Tocou-me com a pedra. No pouco tempo de reflexão entre suas palavras e sua ação de estender a joia, imaginei-a gélida. Mas era ardente, e incendiou meu ser, agora feito de urdiduras e entrelaces. Minha visão turvou-se, e como que, em poucos segundos, apaguei e despertei. E já era a Morte.

A pedra pulsava dentro de mim; sem que me desse conta ou plena consciência, desdobrei-me ou dobrei o que antes chamava de Tempo, voando célere em direção, perdão, nas muitas direções em que apontavam os feixes febris dentro da joia, acelerado por seu impulso. E, no entanto, eu permanecia ali. E era terrível, e era magnífico. Havia sentido, possuía a firme presciência de que havia missão e dela haveria um término; de que um dia aquele que alistara minha predecessora e agora me aceitava, iria finalizar meu propósito, e traria a equalização. Equalização, rosa para onde todas as coisas rumam, linhas de sua mão cosmocrática.

A minha predecessora, agora o borbulhar de um vulto amorfo, se arrastara em direção à porta; sem olhar para trás, abriu-a. Eu não encontrei palavras a proferir, inebriado de meu novo e vasto estado.

Ao ser alcançada pela luz do dia, ela transmutou-se em uma reles doninha. Então realmente não fora criada ex-nihili; fora uma doninha transfeita neste ser que a Queda, ou melhor, a provisória Ascensão do Absurdo, fez necessário existir. Isso explica ter sido possível o repasse do manto, um câmbio da máxima escuridão de as mãos do pó para as mãos do pó.

Lá fora, o pequeno mustelídeo corria e saltitava, provavelmente já insciente de seu passado impossível. Atingira a equalização, ou ao menos retornara à possibilidade de brevidade, cura para o pó. Equalização que se completaria quando a joia do Deus Equalizador em meu peito sinalizasse sua direção, para que eu colhesse minha predecessora.

A não ser que Ele o Deus Cosmocrator venha a me tocar antes, cerrando o voluptuoso túmulo do absurdo do qual me fiz porteiro. Ele de quem eu duvidava da existência, posso sentir agora, aterrado, sua presença e seu amor, tese da qual estou antítese, sentido por trás de todo sentido.



Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).



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