domingo, 6 de março de 2022

Cinco (breves) contos de Aldair Santos



INCIDENTE PROCESSUAL

Aconteceu há alguns anos atrás. Era época do processo físico ainda e o processo eletrônico ainda engatinhava. O fórum fervilhava de poeira e… baratas. Pilhas e pilhas de processos se amontoavam nas mesas, do escrivão ao juiz. O ruído do carimbo de “Folhas” ecoava em batidas monótonas nas folhas a serem numeradas. A morosidade era o tom da Justiça. Despachos repetitivos e amarelados eram entranhados nos processos. A Justiça era de papel e burocrática.


O Promotor acha uma barata esmagada dentro de um processo. O inseto estava inerte, seco, grudado, nojenta como toda barata. O Promotor, vendo o inseto repugnante, escreve um despacho indignado ao juiz alertando sobre a insalubridade do fórum, sobre o significado filosófico da barata e, por fim, sobre a barata esmagada como um incidente processual que atenta contra a dignidade do Poder Judiciário. Não era possível que tenha recebido um processo naquelas condições. Não era possível que o fórum estivesse naquelas condições. Isso poderia ocasionar doenças aos próprios servidores, visto que a repugnante criatura poderia ser portadora de patógenos que deixavam em perigo a saúde humana. Antes de tudo era uma situação de saúde pública, uma afronta a dignidade humana, uma vergonha ao judiciário e até um atentado contra a ordem pública do país e a dignidade das pessoas. Situação digna de ser mencionada nas cortes internacionais, visto que o inseto referido era cosmopolita e situação semelhante poderia estar ocorrendo no mundo inteiro.


Claro que o Promotor usou mais outras palavras do juridiquês para dizer que a barata era, data vênia, uma “excrecência” processual inaceitável. E enviou o despacho-desabafo ao juiz.


O juiz leu atentamente e com respeito o despacho, e escreveu uma decisão concisa.
“O MM juiz Fulano de Tal, no uso de suas atribuições e etc., decide:
Desentranhe-se a barata do processo.
Publique-se. Registre-se. Cumpra-se.”


O MEDO E A CORAGEM

O Medo e  a Coragem sempre andavam por caminhos opostos. Mas um dia, por um erro de percurso encontram-se numa encruzilhada.

– Sra. Coragem, jamais pensei em encontrá-la.

– Inusitado encontro Sr. Medo. Em geral não nos damos bem, pois onde eu estou, você não está, aliás, você sempre foge.

– Fujo, mas sobrevivo. Por que o medo é saudável e necessário. O medo salva a vida de quem o tem.
– Mas também enterra talentos, mata grandes inventos, destrói sonhos e enterra grandes descobertas.

– Sou o cúmulo da prudência. As pessoas sempre me usam em atitudes de precaução. Dessa forma, me confundo até com a sabedoria e a prudência.

– Sei. As pessoas te usam mesmo é como desculpa para inúmeros “não posso” e  ‘não consigo”. Às vezes você é traumatizante, às vezes é grande vilão. Você é a inércia humana em pessoa e um retrocesso.

– Saiba que a inércia do medo pode ser estratégica. Um passo atrás podem levar a dois passos para frente.

– Onde está o medo, está o fracasso. Onde está a coragem, está o sucesso. Isso é certo.

– Já vi que não vamos nos entender, porém admiro sua coragem.

E foram-se tomando caminhos opostos. Como sempre foi.


 ENGANOSO

– Aquieta-te, ditador! – esbraveja.

– Ditador és tú, que não me deixas fazer a minha vontade. Eu sei o que é melhor pra ti!
– Tuas escolhas não são boas e não estão de acordo com a Palavra de Deus. Se tu fizeres a tua vontade  sempre acabarás mal. Você é enganoso!
– Mas como fica a minha felicidade? A Bíblia diz que Deus satisfará aos MEUS desejos.
– Sim, mas, antes, ela diz “agrada-te do Senhor”, isto é, teus desejos devem ser os mesmos de Deus e não teus próprios.
– Isso são apenas detalhes de ponto de vista, nada sério. Minha vontade é que vale!
– Aquieta-te, enganoso. Põe-te no teu lugar!

E a discussão do homem com seu próprio coração foi noite adentro, com possibilidade da briga continuar no dia seguinte.
.
.
.

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” Jeremias 17:9



OPINIÃO

A senhora corpulenta adentra a farmácia. Dirige-se até a balança nos fundos da loja. Aguarda um pouco, até estar sozinha. Sobe na balança. Um olhar arregalado mostra a surpresa. Recompõe-se.

— Vou ver uma segunda opinião.
E dirigiu-se a  outra farmácia.



FÉ ERUDITA

Era conhecido por ser estudado e ter linguagem culta e rebuscada. No início do culto, fez o convite à congregação:

– Irmãos, genuflexos, vamos solenemente, verbalizar em copiosas súplicas, derramando a alma pesarosa em entranhada atitude oracional perante a abóboda celeste.
Preocupada, uma senhora bem simples pergunta baixinho ao irmão universitário ao lado:

– O que foi que ele disse? O que foi que ele disse?

– Ele disse “Vamos orar”.


Leia mais textos no blog do autor: https://aldairsantosrr.wordpress.com/


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

COMO, (meta)poema de Daniel Glaydson Ribeiro



 COMO


...se ao poema coubesse ainda e apenas
lê-lo, com humana voz sem excesso
no ritmo puro do tempo disperso
como se houvessem raças e antenas,

numa ausência de qualquer artifício,
como se eu detrás duma cortina,
sumisse, e esta língua que imagina
já não fosse a máquina do início.

Tal como a luz do sol ou a da lua
as nuvens, os raios e tempestades
são sublime teatro-transcendência,

a Voz é meu corpo a dançar, eu nua;
língua é ruído de todas vontades,
o poema: barulho-excesso-essência.

(Pulsão de língua, 2021)

Acesse o canal literário do autor, no Youtube: 


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Cantiga das Crianças Fruteiras - Um poema sobre as frutas nativas do Brasil

 


CANTIGA DAS CRIANÇAS FRUTEIRAS -  Este pequeno material é um poema que, de forma divertida, fala sobre as frutas nativas de nosso Brasil, apresentando em seu corpo diversos nomes, a maioria “desconhecidos”, de algumas de nossas mais de 300 frutas nativas. O objetivo é informar e despertar a curiosidade de crianças e jovens (e adultos também) para um universo que muitos ignoram. 

É um material simples: Uma única folha A4 impressa em frente e verso e depois dobrada. Ele pode ser utilizado em aulas de português, ciências, geografia e mesmo outras disciplinas ou atividades transversais, a critério do educador. Pode ser livremente impresso e compartilhado. 

O arquivo em PDF traz duas versões, uma colorida e outra já otimizada para a impressão em preto-e-branco.

Para baixar o arquivo pelo Google Drive, CLIQUE AQUI


sábado, 22 de janeiro de 2022

Estranho horror na senzala da Fazenda Colubandê, conto de Sammis Reachers

 


Como professor de História, tendo que trabalhar com duas matrículas para sobreviver (nos municípios de Itaboraí e São Gonçalo, ambos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro), nunca me sobrava muito tempo para nada. Os períodos de férias eram aguardados como o dia de um parto; sua espera era mesmo uma pesada gravidez.

A certa altura de minha vida e carreira, se é que posso utilizar esta última palavra para designar minha lide de historiador e docente, resolvi me dedicar a alguns projetos de cunho particular, pesquisas de variado âmbito, retomando uma atividade que infelizmente só havia realizado quando de minha formação como historiador, nos tempos ainda mais magros de corredores da Unirio e seu bandejão lotado.

Um de meus projetos era fazer o levantamento de alguns pontos históricos dos municípios de São Gonçalo e Itaboraí. A ideia era elaborar uma proposta de roteiro turístico conjunto envolvendo os pontos de interesse desses municípios limítrofes, com o diferencial de um forte embasamento geohistórico, correlacionando pontos, famílias e eventos, buscando, dentro do possível, sintetizar uma coesão temática e temporal que lhes conferisse relevância e atratividade. Algo, por sinal, nunca feito sobre os patrimônios geohistóricos de tais depauperadas municipalidades.

Num de meus períodos de férias, no ano dois de minha pesquisa (que, é forçoso afirmar, corria por minha conta, e ao sabor dos ventos de minha intermitente disponibilidade, disposição e recursos), resolvi retornar à Fazenda Colubandê, ponto histórico de São Gonçalo. A fazenda, com sua casa grande, capela e uma senzala subterrânea, é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e possui uma história agitada de trocas de donos – cristãos novos, jesuítas, um militar barão e sua descendência – com toda a carga de traições e mistérios que esse tipo de dinâmica sucessória pode envolver.

Já estivera por algumas vezes na fazenda. Mas me ocorrera uma ideia de algum espalhafato: ir até lá durante a noite. Sim, pois imaginara a elaboração de um roteiro turístico noturno contemplando tal ponto, uma espécie de imersão na realidade da escravidão, com o adicional da experiência à luz de tochas e velas – com direito a encenações, cantorias e tudo o mais. Assim, mesmo ciente dos riscos, pois o tráfico de drogas estava já espalhado por quase toda a São Gonçalo, e a fazenda, que já fora uma base da Polícia Florestal em tempos recentes, estava agora abandonada – lá fui eu para a minha aventura.

Eu aparentemente escolhera a noite certa: A temperatura era agradável e, num céu límpido, uma Lua minguante aquarelava tons interessantes ao lugar. Eu avançava elucubrando enquadramentos e cenas para já compor um provável vídeo de divulgação do roteiro turístico.

Ao descer para a antiga senzala, que espraiava-se numa espécie de porão, iluminava a trilha com a lanterna de meu celular, sempre imaginando-me na pessoa de um turista que ali descesse pela primeira vez. Ao fundo daquele recinto, enquanto mirabolava possibilidades cênicas, percebi uma presença: um homem assentado no chão, talvez sobre um toco de madeira ou algum tijolo. Ele tinha a cabeça curvada, parecendo dormir. Pelos trajes rotos, me pareceu ser um morador em situação de rua, um sem teto ali abrigado. Fiz menção de retornar, aproveitando que ele parecia absorto em seu sono, para não aborrecê-lo e para poupar-me de qualquer dissabor ou perigo adicional, naquela incursão temerária.

Ao principiar minha meia volta, ouvi em rajada um “bom dia boa tarde boa noite bom homem”, assim, em fluxo. Virei-me e, ao iluminar o rosto de meu interlocutor, faceei uma expressão de riso e pacífica loucura. Cabelos desgrenhados e já mais brancos do que castanhos, olhos arregalados e com aparência de maiores que o normal – se há normais dentre os olhos. Um sorriso largo e algo debochado completava a certamente ensandecida personagem.

– Me perdoe amigo, não queria lhe acordar, não vim fazer mal. Sou historiador e estava fazendo uma pesquisa – vociferei, como uma criança amedrontada diante dos pais.

– Eu não estava dormindo, apenas esperando. Vim em busca de um velho amigo, que conheci aqui neste buraco. Um negro do tamanho dessa noite aí fora... Eu tenho algo para lhe devolver, mas ele teme nosso reencontro. Meu nome é Cambizo.

– Perdão senhor... Cambizo, não é? Eu não sabia que havia alguém aqui. Pode continuar a dormir, eu já estou indo embora, boa noite.

– Espere, tenho uma troca a lhe oferecer. Como você, eu também sou fascinado pelo tempo. É quase minha comida – disse, com um rictus de aparente ironia em seus lábios, o ainda mais surpreendente “maluco”. Imaginei que era mais um morador de rua enlouquecido, e talvez não fosse me oferecer perigo; eu era bem mais jovem do que ele.

Enquanto refletia, estaquei um instante entre os impulsos contrários do ir e do permanecer. Fechei os olhos um instante, já despido do grosso do medo, mas agora confuso pela curiosidade. Ao reabri-los, o homem que estava sentado há uns cinco metros de mim estava agora em pé, há menos de cinquenta centímetros de meu corpo.

– Baratinha do tempo, o tempo é tudo o que temos, o tempo é tudo o que somos – e me tocou.

Senti uma vertigem imediata. Estiquei instintivamente o braço esquerdo, tentando alcançar uma parede para apoio, mas não a encontrei. Flashes pipocavam e eu não sabia se eram em meus olhos ou em minha mente. Nessa vertigem, ainda pude observar algo que não notara, seja pela posição em que estava o indivíduo, seja pela cobertura da penumbra: Cambizo possuía diversos relógios afixados em ambos os braços, relógios de pulso, de variados modelos, alguns aparentando antiguidade e amarrados por barbantes ou finas cordas... Enquanto rodopiava tentando fixar aquele detalhe macabro, ainda divisei aquele ermitão citar, como quem cantarola: “Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. Era um versículo bíblico?, eu me indagava; minhas pernas perderam as forças e eu desabei.

Ao despertar, eu estava sozinho naquele chão húmido. O celular, caído, iluminava o baixo teto da antiga senzala.

 

... ... ...

 

Após o horror, em rescaldo, considerei vantagem enorme, fosse aquilo o que fosse, o ter rejuvenescido.

No entanto, os dias se acumulavam e eu não sabia o que fazer, a quem falar. Trancara-me naquele apartamento de que eu tinha tão poucas lembranças. Pois o espelho, que me dera a surpresa alegre, logo me intuíra do furto: havia de repente não um detalhe – uma chave de porta perdida, uma nota de dez reais que esquecera em algum bolso, uma data de aniversário cara ou que o deveria ser – havia um vácuo, uma obstrução cognitiva causada pela ausência ou profusão de ausências de memória, de experiências. Eu estava mais jovem, sim, mas não era mais eu.

Eu não estava, assim me parecia com grande, inamissível premência, uma “tábula rasa” a ser livre e graciosamente reescrita; não recebera uma chance milagrosa de re-começar a vida: eu era um frangalho, uma coleção de carências, uma lacuna (des)articulada por lacunas.

Inane, refém de uma inanição existencial, me transformara numa anomalia antropocronológica. A realidade, o que quer que ela seja, ganhou uma outra textura... perdeu consistência, e era então, ou então mais do que nunca, um tecido podre.

Nos dias seguintes, mesmo embotado pela lacuna de memórias, como num surto de alzheimer aleatório, pude reconstruir parte de minha vida e as ações de meus últimos dias graças à abençoada prática de redigir diários. Consultando-os, pude tecer este relato.

Não sei o que acontecerá daqui em diante; mas o absurdo, a flatulência do inverossímil que o universo lançou em meu rosto, precisa ficar relatado. Mesmo erodido, traído pelo tempo, ainda sou um historiador.

Pensei em contatar meus parentes distantes, e mesmo alguma autoridade. Mas a possibilidade de ser internado como louco me horrorizava. E seu eu estivesse realmente louco? Abandonei o emprego na docência municipal, não atendia mais o telefone. Um dia uma pessoa veio bater à porta, à minha procura, uma pessoa que eu não conhecia ou, mais acertadamente, de quem não me lembrava. Ela notara minha semelhança com o “eu” envelhecido. Disse-lhe que eu era um primo tomando conta do apartamento, e que o “eu” a quem ela procurara precisou fazer uma viagem às pressas para Itabapoana, para realizar o funeral de um ente querido e resolver assuntos de herança. Passei a ter medo da reação das pessoas a esse outro eu, a esse não-eu que aquele homem ou demônio (in)criara.

Retornei àquela senzala noutra noite e noutra noite e noutras mais à procura daquele ser, diabo ou sonho que fosse. E foi sempre vã minha caçada. Seu nome, “Cambizo”, não retornava em minhas buscas, negava referências em bibliografias virtuais ou impressas que consultei.

Meu quadro de desmemoriação e inadequação geral piorava. Cessei de procurá-lo, para tentar entender ao menos o que me acontecera. Em meio a toda aquela angústia, retomei o estudo do tempo. Agostinho, Kant, Teilhard de Chardin... Confrontando a obscura frivolidade das teorias com a amarga realidade que me esmagava, cheguei a algumas conclusões embaraçosas.

O tempo não nos pode ser devolvido e nem dividido (existir independentemente) de nós. E não podemos ser reinseridos no fluxo do tempo pois somos esse fluxo: Fios de um tecido. Quando cortado o fio, o tecido ganha um buraco, um buraco que não devia existir e que nada pode remendar.

Sinistramente não vivemos no tempo, mas o que vivemos é o tempo; o casamento entre o pretenso fenômeno “físico” do continuum espaço-tempo exterior e independente, e a fenomenologia de minhas internas percepções e vivências, de meu ser-aí, ser-no-tempo, como se eles fossem duas coisas diferentes que se combinam, é ilusória.

Refém de uma angústia avassaladora, tudo que minha frágil razão reprisava era: não há tempo fora de mim, não há tempo fora de mim, não há tempo fora... Aquele demônio, ao me rejuvenescer, não me dera, mas roubara-me vida!

Somos tempo e tempo vivido, pois o tempo vivido, experienciado, realizado, é todo o tempo que existe; assemelhando-se a uma construção subjetiva, é afinal a realização máxima da realidade, tão sólido quanto um tijolo. Tijolo, no meu caso, do qual lascas haviam sido arrancadas, e não se pode, agora entendo e temo, repô-las.

Tal impossibilidade de repor o tempo perdido ou roubado – pois se meu corpo e mente rejuvenesceram, eu não poderia continuar simples e perfeitamente, a partir deste ponto, minha (agora nova) vida? – é perturbadora e fala de sacralidade, de destinação. Como se o tempo fosse uma dádiva contada e confiada a cada ente vivo, como moedas numa sacola; moedas que, de alguma forma, aquele demônio me roubou.

Assim, no tempo não há subjetividade, pelo menos não como estamos acostumados a pensar o conceito de subjetividade. Mas sim materialidade e pessoalidade, pois somos o eixo sobre o qual ele se realiza. Só há tempo se há algo que o sofra, o realize, e isso, por paradoxal que seja, não é uma percepção subjetiva, pois o meu tempo me fora roubado!, e não há ideia que se furte.

Sinto meu ser como que esvair-se neste momento mesmo em que escrevo; é um estado nauseante de embriaguez, um torpor como que narcótico. O furto do vivido, o roubo do meu tempo, do meu ente realizado no fluxo, não foi certamente completo – ou eu teria expirado no chão frio daquela senzala. Mas muito me fora tirado, e quem sabe o quanto me resta?

 


Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Tenho tempo, Senhor!, um texto de Michel Quoist



Tenho tempo, Senhor!

 

Saí, Senhor.

Lá fora os homens saíram.

Iam. Vinham. Andavam. Corriam.

As bicicletas corriam. Os automóveis corriam. Os caminhões corriam.

A rua corria, a cidade corria, todo o mundo corria.

Corriam todos, para não perder tempo: corriam no encalço do tempo, para recuperar o tempo, para ganhar tempo.

Até logo, doutor, desculpe-me, não tenho tempo.

Passarei outra vez, não posso esperar mais - não tenho tempo.

Termino aqui esta carta, pois não tenho tempo.

Queria tanto te ajudar, mas não tenho tempo.

Não posso aceitar por falta de tempo.

Não posso refletir, nem ler... não tenho tempo.

Compreendes, Senhor, eles não têm tempo.

A criança está brincando, não tem tempo, agora mesmo... mais tarde...  

O estudante tem seus deveres a fazer, não tem tempo... mais tarde...

O universitário tem lá suas aulas, e tanto, tanto trabalho que não tem tempo... mais tarde...

O rapaz pratica esporte, não tem tempo... mais tarde...

O que casou há pouco, tem sua casa, deve organizá-la, não tem tempo... mais tarde...

O pai de família tem seus filhos, não tem tempo... mais tarde...

Os avós têm seus netos, não têm tempo... mais tarde... estão doentes.

Precisam tratar-se... não têm tempo... mais tarde...

Tarde demais, não têm tempo.

Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor: apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados...

Nunca chegam, falta-Ihes tempo.

Apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo.

Falta-lhes mesmo muito tempo. Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.

Há um engano geral: horas curtas demais; dias curtos demais; vidas curtas demais. Nesta noite eu não te peço, Senhor, o tempo de fazer isto e depois aquilo.

Peço-te a graça de fazer, conscienciosamente, no tempo que me dás, o que queres que eu faça.


sábado, 11 de dezembro de 2021

O ÚLTIMO SALTO, conto de Sammis Reachers

  


O ÚLTIMO SALTO

 

Foi duma ardência que nunca senti. Me rasgando a garganta. Sentia como o líquido ia, a um tempo, queimando e como que fazendo inchar, expandir-se, tanto a extensão de minha língua quanto as paredes da minha garganta, traqueia... 10 ml de veneno daria conta, mas eu tomei 300ml, um belo copo.

Retornei como que de ressaca. E atrasado: havia já programado uma nova morte e esta fora gestada por um mês. Custou dinheiro, tempo perdido com instrutores. O avião decolaria às 10h00. Saí do IML e peguei o primeiro ônibus.

Conheço mais IMLs do que pregadores itinerantes conhecem púlpitos de igrejas de onde vão arrancar seu ganha-pão.

Lembro-me sempre não da primeira, mas da segunda vez em que morri. Acreditei que sonhava: ainda era usuário das mesmas drogas que me mataram da primeira vez.

Na primeira, afinal, não soube sequer que havia morrido. Só me lembro de sentar-me, muito chapado, na cadeira do fundo de um ônibus, e começar a tremer, mas sem sentir frio. Acordei numa maca fria de um hospital, coberto com um lençol. Era madrugada: levantei-me e saí. Alguém detrás de um balcão, sonolento, esboçou um “Ei! Ei!”. Sonolento, creio que não ouvi.

Estava muito grogue e achava que era efeito posterior da aparente overdose que me jogara naquela maca. Ou talvez de alguma medicação. Só com o tempo e outras mortes fui perceber que sempre despertava com aquele tipo de zonzeira. Era a vida engrenando as marchas.

Curiosa a minha hipervida, não? Mas a coisa toda é simples: sou um homem que não consegue permanecer morto. Sou sempre expelido pela Morte de volta à vida. Escarrado. Não sei o motivo. Até onde eu sei, não sou vítima de nenhuma maldição, artefato místico, genética alienígena, experiência científica. Estar preso numa grande matrix, num programa simulador de realidade, claro, é uma possibilidade. Para todos nós, afinal.

Nunca utilizei meu “poder” para trazer qualquer benefício para ninguém. Creio que nem mesmo para mim. Era um drogado já com certa inclinação suicida, e ao descobrir tal dom ou maldição tudo o que fiz foi curtir, curtir ao máximo o que, ainda creio, estava vedado a qualquer outro homem: mais que sofrer, saborear a morte. Pisoteá-la, ela a tão cheia de botas.

Passei simples e sistematicamente a suicidar-me das mais diversas e criativas maneiras que me ocorriam.

Mas, e como é estar morto?, você deve estar perguntando-se. São muitas mortes, e variadas as experiências, e múltiplas as respostas. Vezes houve em que, defunto meu corpo, só vi escuridão e silêncio. Noutras, ouvi vozes, algumas conhecidas me chamando a esmo, noutras vezes gritos de dor. Vi a luz em forma de túnel. Vi a área em torno ao meu corpo, pessoas observando-o, tentando me reanimar.

Em Uganda fui estraçalhado por um leão e fiquei horas (eu ou meu espírito? Na verdade sempre meu espírito e sempre eu, pois somos espíritos, e não corpos) observando meu corpo mutilado, abandonado pelo jovem leão após se ter saciado. Quando hienas se aproximaram, meu meio corpo foi salvo por guardas florestais. De repente senti como que se lançado num torvelinho, um rodopiar do vento que aumentava sua força e girava meu espírito como uma cueca numa máquina de lavar. Despertei ensacado no jipe que levava meu corpo para a capital do país. Eu poderia relatar outras trinta experiências assim.

Você já pisou num chiclete? Aquela sensação, meio nojenta e noutra metade angustiosa, de perceber o chiclete esticando-se indefinidamente junto com seu calçado, quando este se levanta? Assim ocorre com o espírito. Ele desprende-se do corpo como um chiclete, esticando-se, grudento.

Sinto falta da sensação do desprendimento, imensa saudade de morrer. Desta única vez, ao menos, por um bom motivo.

Hoje estou preso a um corpo imóvel, o qual não posso matar. Escrevo este relato apenas com os olhos: utilizo um programa criado especialmente para pessoas em situação como a minha, tetraplégicos. Essas quase três páginas que você acabou de ler me custaram dias de trabalho, olhares e piscadelas para os sensores do monitor que me causam uma dor de cabeça terrível. Minha última aventura kamikaze deu errado, errado pois... sobrevivi. Em meia vida: O acidente lesionou minha coluna cervical, e aqui estou.

Nunca vi Deus, anjos ou demônios em minhas muitas mortes, ou nesses períodos que passo fisicamente “morto”, pois quem sou eu para saber se isso é mesmo a morte? Mas, após dois anos aqui, prisioneiro neste corpo, eu que me julgava e porventura fui o mais livre dos homens, um anárquico super-homem, viciado no próprio poder, no próprio ego, desisti de teimar. Em lágrimas sem ter quem as secasse, lembrei das conversas – perdão, das audições – com dona Solange, missionária capelã que semanalmente vem até esta ala do hospital e conversa conosco. Eu a ouvia, mais interessado em simplesmente ouvir alguém do que em ouvir o que ela estava falando.

Me lembrei de suas palavras, e sem palavras gritei o mais alto que pude por aquele Deus de quem ela fala tão feliz, esse Jesus que tanta luz e confusão trouxe ao mundo. Gritei mentalmente, gritei e gritei e chorei – um dia, dias, qual a diferença? – imóvel como um cadáver em meu corpo paralisado, até que senti sua mão em meu ombro. Senti, senti mesmo não tendo nenhuma sensação do pescoço para baixo.

- Pare de gritar.

Fiquei em “silêncio”, apenas chorando, confuso de raiva e espanto e vergonha. Raiva pela fraqueza, vergonha de chegar àquele ponto, àquele estado de miserabilidade, e espanto por ele estar ali.

- Você quer respostas, mas eu quero saber se você está realmente cansado.

- Estou, Senhor. Não aguento mais essa prisão, e nem mesmo aquele morrer e ressuscitar que me trouxe até aqui.

- Dura sorte lhe coube, pois dura sorte é sair daqui e para cá voltar, sem o beneplácito do Pai. Tudo o que você fez foi acumular pecados, e inutilizar vez após vez tudo o que eu lhe dei. Mas, se quer e se crê, um pouco mais de tempo e morrerá, e ressuscitará a ressurreição verdadeira, para nunca mais morrer, num novo corpo feito de paz e para a paz criado. Um corpo que você não poderá e nem quererá despedaçar.

Confesso que eu, habitante do inusitado, estava confuso como jamais estivera. Ideias de que aquilo era só mais um sonho ou fruto de um transe medicamentoso me solapavam sem trégua. Mas reagrupei a coragem que me fazia experimentar a morte vez após vez, e com coragem fui para o tudo ou nada, como quem salta sobre um abismo, pois sentia acima de tudo que aquele momento era um “tudo ou nada” como jamais experienciara em minha estendida existência.

- Eu quero, Senhor Jesus! Eu quero...

Fechei os olhos para que as lágrimas que embaciavam minhas órbitas fossem expelidas e escorressem, e ao abri-los já não havia ninguém lá.

 

Continuo preso; vezes há em que amaldiçoo minha existência, ou o mal uso que fiz da singularidade, buscando a morte apenas por curtição, desperdiçando o que era um verdadeiro superpoder.

Nunca mais o vi, embora o chame constantemente, e por vezes minha fé naquele dia e naquelas palavras titubeia. Mas lancei-me no tudo ou nada e, com a resignação dos prisioneiros, espero. Entendi o que dona Solange dizia tantas vezes, “é preciso ter fé, e basta ter fé”. Minha existência kamikaze me permitiu entender que a fé é um salto no escuro, que pega impulso no escuro, e mira adiante, no escuro, para alcançar além do escuro.

 Sammis Reachers

Publicado originalmente no Jornal Daki.


Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).


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