quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A poesia experimental de O Poema Sem Fim

Sammis Reachers

O Poema Sem Fim é um projeto de meta/hiper/literatura, uma espécie de poema multimodal em continuidade, que alimento, como a uma besta, desde o mês um de 2011.

Aqui, o trecho inserido hoje, 11/09/2019

É função da Poesia
Explotar o coração dos homens
Assim como a magia negra
Explota os corações dos demônios e batráquios
Poema, feromônio alfabético,
forma frágil de fulgurar,
dactilothanaticamente conduzir
Um carroção de transencantos, sílfides sintagmas

Um poema deve ser sempre uma fenovenotragedia (fenomenológico em sua venalidade trágica)
Casa de Incêndios,

Abrigo da chama incircuncisa
Cansacinchaço circular das palavras

Ferida no lombo da língua


Conheça esta forma tênue da prosódia do caos: https://opoemasemfim.blogspot.com/

domingo, 8 de setembro de 2019

Nem a Rosa, nem o Cravo... - Conto de Jorge Amado (sobre o nazismo)

As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

sábado, 24 de agosto de 2019

ÂNSIA DE ETERNIDADE - E-book de José Brissos-Lino para download


A presente obra reúne um conjunto de pequenos poemas dispersos sobre temática espiritual e religiosa, escritos ao longo de alguns anos e ainda não publicados em livro.
As questões da fé e da eternidade, a revisitação de figuras, imagens e episódios bíblicos, em particular os tocantes às temáticas da transcendência e da relação com Deus, pairam claramente sobre a paisagem poética aqui apresentada, assim como alguns exercícios livres de meditação ou elevação (chamemos-lhe assim).
No fundo trata-se do discurso poético de um homem de fé, desenvolvido mais em jeito de reflexão pessoal. E o que é a Poesia senão isso?
Como bem dizia Miguel de Unamuno “acreditar em Deus é antes de mais e sobretudo querer que ele exista” (Do Sentimento Trágico da Vida, 1913).
É por isso que esta obra pode constituir inspiração significativa para quem for capaz de a saber ler, e elevação espiritual para quem aspira à eternidade e sente que ela está a passar por aqui.
O Autor
Para realizar o download do livro pelo site Google Drive,CLIQUE AQUI.

sábado, 10 de agosto de 2019

Romário Machadinha, um conto de Sammis Reachers



"Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore."
Zerovinteum (Marcelo D2 e BNegão)

Seu melhor emprego fora no Tijuca Tênis Clube. Era vigilante: bermudão de sarja, um dogue alemão numa coleira, revólver na outra, a que chamamos de cinto. E paz e amor naqueles gramados.
Um incidente lhe arrancou o emprego e a paz: na madrugada sonolenta, terceira ronda da noite, ele percebeu que a porta de um dos depósitos de material estava aberta. Entrou, vasculhou. Somente ao sair viu o meliante correndo. Ele não disparou, não soltou o cachorro que latia de tesão. Nada. “Que fuja, não havia nada pra roubar aqui.” Mas ele estava no Rio de Janeiro, cidade desespero. Ao subir no alto muro para concluir sua fuga, fuga quase que “facilitada”, ainda de cima do muro o desgraçado sacou uma arma e disparou, sabe-se lá pra quê. Ao primeiro disparo, nosso pacato vigilante, vamos chamá-lo aqui de Alberto pois a história é verídica e ele vive, abrigou-se atrás de uma árvore. O meliante fez ainda um segundo disparo. Alberto, mais para afugentar o perigo, disparou seu primeiro tiro após sair da escolinha de formação de vigilantes.
Na escuridão inchada pela distância, lhe pareceu que o indivíduo pulara. Resolvido o problema, Alberto procedeu com os trâmites de praxe. Telefonou para a polícia e para o gerente da instituição. Em pouco tempo estavam todos lá.
Nas buscas que a polícia efetuou na parte exterior do clube, uma surpresa: dentro de uma vala de escoamento pluvial contígua ao muro, com uma única perfuração central em sua testa, um cadáver.

Ao relatar que morava em Queimados, na perenemente malfadada Baixada Fluminense, os policiais vaticinaram: “Matador”. “Deve ter uma ficha grande nas costas, hein, ceifador?”. “Um balaço no meio da testa, à distância... tu é dos nossos. Tu é miliciano?”. “O doutor vai correr sua ficha aí, tu deve tá cheio de bronca nas costas...” “Cê não me engana não, xará, tu é bicho solto...”.
A situação crescia no insustentável para Alberto, e a própria diretoria do clube ficara preocupada. E foi a noite e o dia, e a demissão do primeiro emprego. Em boa hora: ele não queria mais aquela vida.

Poucos anos depois, a má sorte foi encontrar Alberto estabilizado como funcionário concursado da companhia de limpeza urbana do município do Rio, a CONLURB. Sua lotação inicial fora no centro da cidade, mas ficara um pouco longe de sua residência, agora em Caxias. A transferência que conseguiu foi para a Cidade de Deus, grande, conflagrada favela, famosa mundialmente pelo filme homônimo.
Trabalhar dentro de uma favela pode ser bem menos estressante e perigoso do que, à primeira vista, pode-se julgar. Bem, quase sempre.
Transcorridas poucas semanas de trabalho na comunidade, Alberto, pacato mas boa praça e simpático ao extremo, já travara amizade com alguns moradores e também com diversos de seus companheiros de trabalho. Como varredor de rua, Alberto era encarregado de certo número de ruas, ou determinada extensão de uma mesma rua, quando ela era muito grande; e assim era com seus companheiros. Um deles, que cuidava de área imediatamente contígua ao setor de Alberto, homem tímido e silencioso, mas simpático, costumava, vez por outra, a desaparecer. Isso mesmo: Alberto reparara que o indivíduo dito Romário como que abandonava o serviço, aparecendo mais de hora depois. E o pior: o encarregado, que por pouca coisa costumava relhar com Alberto e outros trabalhadores, nada dizia sobre aqueles sumiços. Bem, havia alguma coisa ali. Mas àquela altura Alberto tomara já algumas vacinas na vida, vida essa que ele aprendera que lhe bastava, sendo perigoso e desnecessário cuidar das dos outros.
Tempo que passa, certa vez, num de seus “retornos”, já quase ao fim do expediente, Romário passou próximo a Alberto, que, ao cumprimentá-lo, notou pequenas manchas, como salpicos, de sangue nos antebraços de Romário. Calculou, pela textura e cor, que não era tinta aquilo. Fez um gracejo sobre o Vasco da Gama, Romário riu e falou algo sobre o tricolor das Laranjeiras, time de predileção de Alberto, e seguiu para guardar seus materiais.
Uma semana depois, depararam-se próximo a um grande campo de futebol de várzea na comunidade, já em tempo do almoço. Sentaram-se juntos sob a sombra de um muro, destacados de alguns outros garis que também quedavam para o almoço. Entre as brincadeiras que a crescente familiaridade lhes permitia, Alberto não aguentou e perguntou:
- Ô Romário, me diz uma coisa meu amigo. Na boa, sem problema: Já manjei que de vez em quando você some aí pra dentro da favela, e só volta no fim dos trabalhos. Fala a verdade: Tu tá pegando alguma mulher aí pra dentro, não tá não?
- Que isso tricolor! – disse Romário sorrindo.
- Tá sim malandro, e o encarregado faz vista grossa. Não tenho nada com isso, você é parceiro, mas fala pra mim: tá ‘panhando gente hein? Deve ser mais de uma!!!
Romário, normalmente quieto, sorria.
- Vou te falar uma parada Alberto, pois sei que você é fechamento. Então cara, eu fortaleço os “amigos” aí.
- Os amigos o quê, a rapaziada do tráfico? Ih caramba! Tu forma na boca e trabalha na COMLURB ao mesmo tempo? Hahahaha...
- Não mano, eu não formo na boca não. Vou te falar o que eu faço: eu corto gente.
- Corta gente??! – murmurou, espantado, Alberto – Como assim, cara? Você? Tá de sacanagem comigo...
- Pode crê meu camarada. Corto uns corpos quando tem serviço, e os amigos me ajudam também com um dinheirinho.
Alberto, sorrindo frouxo, passou a engolir em seco seu almoço, tentando equacionar a veracidade ou não da confissão. Romário era tão quieto, e nada tinha de bruto, era até um pouco franzino. De toda forma, ele já vira a vagabundagem cumprimentando seu companheiro, e isso explicava também o silêncio cúmplice do encarregado – e dos demais funcionários, pois muitas vezes as tarefas deixadas em meio por Romário, durante seus sumiços, eram repassadas aleatoriamente para os outros garis.
O resto do almoço transcorreu em silêncio. Alberto na verdade passara a mais duvidar da história do que a assustar-se com ela. Como afinal aquele moreno, com uma levada à la Jeca Tatu, cabisbaixo, introvertido, magro, ia praticar uma barbaridade dessas de picotar cadáveres?

O tempo, ferida sem remédio, seguiu seu curso. De quando em vez Romário brincava com Alberto, “olha a machadinha hein””, o que deflagrava sonoras gargalhadas em nosso amigo, que definitivamente passara a descrer de tudo aquilo.
Num dia de agosto, pouco depois de retomarem os trabalhos após o almoço, nossos personagens varriam cada um um dos lados de uma mesma via, quando uma Pajero que avançava freou bruscamente, atraindo a atenção de todos para os muitos marginais em seu interior.
- Qual é Romário! Qual é parça! Bora lá naquela atividade lá!
Ao convite de um dos meliantes que ocupavam o carro (invariavelmente roubado, um dentre as dezenas que circulavam na Cidade de Deus), Romário já foi logo deixando a um canto seu carrinho, pá e vassourão. Mas, enquanto se dirigia para o veículo, chamou Alberto:
- Aí Alberto!? Você não queria ver o que eu faço? Vamos lá com os amigos.
Ao perceber a cara de espanto e incredulidade de Alberto, Romário completou:
- Bora lá rapá, tá tranquilo, nós é família. Vamos lá.
Pego de susto, Alberto embarcou na “viatura”. Um misto de terror e excitação o dominava; assim que entrou no veículo, arrependeu-se, mas era tarde demais. E dentro dele teimava a ideia de que aquilo tudo era mentira, e que Romário iria fazer alguma outra coisa, que pior que fosse não envolvia picotar carne humana.
O veículo andou por algo em torno de um quilômetro, parando em frente a uma casa de alvenaria, de um só patamar, janelas e porta fechadas.
Ao entrarem na casa, Alberto teve um acréscimo em seu terror ao perceber que, fora os sete marginais que vieram no carro, havia mais uns vinte dentro da casa. Após passar pela cozinha, ele e Romário foram levados ao que parecia ser a sala da casa.
No centro do recinto, circundado por grande número de marginais, quase todos armados, havia um corpo. Mas vivia: um homem com os braços amarrados para trás, de joelhos no chão, tendo suas duas pernas também amarradas, e um pano enfiado na boca.
Enquanto Alberto enregelava-se, um dos meliantes, após cumprimentar respeitosamente Romário, deu-lhe um tipo de avental de cozinha, duas luvas sujas, dessas de construção civil, e uma machadinha nova. Alberto galgou o apogeu de muitas fobias, ao ver Romário vestir-se impassivelmente e, apanhando a machadinha e tocando o fio com os dedos, para sentir a afiação, abaixar-se ao lado do homem, que esperneava em desespero.
- Deitem ele – murmurou, em tom quase inaudível, Romário.
Os marginais apanharam o pobre coitado e deitaram-no de barriga para cima, segurando suas pernas e parte superior do tronco. Assumindo agora uma expressão cuja única palavra precisa ser a demoníaca, Romário pousou uma mão sobre uma das pernas do homem, e desferiu um golpe na altura do tornozelo, separando do corpo trêmulo um dos pés descalços. Com mais dois golpes, separou em segundos mais um côto de perna, agora na altura do meio da canela. O sangue esvaía, o amordaçado urrava. Marginais xingavam, outros sorriam, outros desviavam os olhos, incapazes ainda de equalizar terror naquele grau.
Virem, virem – voltou a murmurar Romário, com expressão de quem tem pressa ou fome.
Ao virarem a vítima, Romário imediatamente cortou o plástico da algema que lhe prendia os braços, que dois meliantes imediatamente seguraram, esticando-os. Romário aplicou rápido golpe num dos pulsos, e logo, quase sentando-se sobre o corpo em debate, noutro pulso, separando as mãos. Ao levantar-se para ir cortar o outro pé, por acaso levantou os olhos, que até então não tirara do corpo vivo à sua frente, como uma criança com seu brinquedo novo, e cruzou os olhos com Alberto. O Jeca Tatu parecia agora um daqueles incorporados de centro de macumba. Seus olhos não demonstravam culpa alguma, mas fome; um ríctus de prazer paralisara seus lábios, um ensaio de sorriso luciferino.
Romário decepou o último pé, e virou o corpo para cima. Levantou-se, e junto aos marginais passou a observar o indivíduo – quem seria, o que fizera? – que rugia em espasmos e sangrava. Após algo em torno de trinta segundos – ou dois minutos, pois o tempo no cronópio mental de Alberto parara, ou rompera-se – Romário fez um sinal de cabeça ao que parecia ser o líder dos criminosos, e em seguida, com uma pressa e perícia de açougueiro, cortou a cabeça do homem, ainda vivo.
A cabeça foi colocada numa sacola, e alguém saiu com ela da casa.
Romário retirou o avental e as luvas, e na pia da cozinha tentou lavar o que podia do sangue que lhe coloria braços, rosto e botas.
Alberto tremia, mas tentava manter o controle. Alguns marginais sorriam ao observar sua expressão; um outro lhe alertou o que, tacitamente, todos favela a dentro nasciam sabendo: se falar algo, morre.
Após secar as mãos, o carniceiro dirigiu-se ao líder do grupo, que apanhou um chumaço de notas de cem e cinquenta, tirou algumas e deu a Romário.
Entraram no carro, sentados lado a lado. Romário permanecia de cabeça baixa, já sem a expressão psicótica; era só um homem agora, com seu ar de Jeca. Permaneceram em silêncio até o ponto de desembarque, no local mesmo onde haviam sido apanhados.
Alberto nunca tivera coragem para as perguntas – Como, por quê, pra quê, você nunca o viu, e se fosse inocente, quantos já foram... Foi Romário quem, percebendo a mudança em Alberto, tentou lhe dirimir o medo, sempre fazendo gracejos.
- O que você esperava, Alberto? Os “brabos” não têm coragem de fazer, eu faço. Estão pagando bem, e ainda fico bem na fita. Todo mundo me respeita.
- Eu sei, eu não duvidava de você não. É que eu achava que no máximo você cortava gente já morta, defunto – disse Alberto, que desde o evento queimava todas as potências de sua alma para manter a encenação de que tudo seguia em normalidade.
Romário, introvertido e quieto como um matuto, sorriu.

Alberto esperou um pouco, três meses ao menos, para evitar desconfianças. E, a título de ter novamente se mudado, dessa vez para Niterói, onde o conheci, pediu e logrou nova transferência, de volta para o centro da maravilhosa cidade. Cidade que logo achou por bem deixar no passado, ao pedir exoneração do cargo de gari.
E foi o dia e a noite de seu segundo emprego.

Obs.: Esta história me foi relatada pelo próprio "Alberto", que lhe jurava a veracidade.

Sammis Reachers

sábado, 3 de agosto de 2019

ESTÓRIAS QUE NÃO SE ESQUECEM, livro de contos de Wagner Antonio de Araújo para download gratuito


A literatura de ficção levada a cabo por cristãos nacionais possui excelentes cultores, mas é pouquíssimo divulgada e conhecida; notadamente, aquela produzida pelos praticantes do relato de concisão e precisão que é o conto. Assim, o surgimento de um livro como este, reunindo grande parte da produção de um autor gabaritado, é motivo de celebração.
A pena do pastor Wagner Antonio de Araújo é abençoada como a botija da viúva: de sua lucidez brotam textos em quantidade e qualidade ímpares para combustível (de almas e lâmpadas) dos leitores que têm a felicidade de travar com eles contato.
Aqui o conto, o relato real, a crônica e o texto devocional entrelaçam-se compondo um estilo rico e característico do autor. Contos com a reverberação do ensino ético, no que ecoam o melhor da contística universal; muitos deles, como referido, deambulando na sutil e criativa fronteira entre conto e crônica. Histórias reais de anos de vivência e pastoreio de diversas igrejas são aqui filtradas e remixadas para gerar uma agradável e pungente literatura.
Desassombradamente asseveramos que o leitor deste volume sairá dele (sempre) maior; maior em entendimento dos processos dos homens e das coisas de Deus. Maior em empatia com seu próximo e comunhão com Aquele de onde todo o bem emana. E isso sem descuidar do entretenimento, causa maior talvez da faina ficcional humana; pois aqueles momentos de relaxamento e alumbramento, advindos do simples prazer da leitura, estão garantidos, do primeiro ao último relato.
Sammis Reachers

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sábado, 6 de julho de 2019

AMPLITUDE #3 - Revista Cristã de Literatura e Artes. Baixe aqui


        Assustadores três anos se passaram, lentos ou esvoaçantes, a depender do ponto de quem observa. AMPLITUDE entrou em seu anunciado hiato, devido aos hercúleos e clichés motivos de força maior. Mas eis-nos aqui, redivivos, ressurretos como convém a co-herdeiros de Cristo.
       Em tempos de secularização acelerada, relativismo e perseguição crescente, a nível local e global (glocal) do cristianismo, usemos a arte para congregar-nos, estreitar nossa união e fortalecermos nossa posição em Cristo, a favor da paz e a favor da vida: Eis a razão de ser desta revista.
      AMPLITUDE é uma revista de posição e cosmovisão declaradamente protestante; no entanto, somos amplos em nossa irmanação criativa com nossos co-navegantes do mistério do Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Assim, temos na seção Hot Spots um pouco do pensamento desconcertante do anglicano-depois-católico G. K. Chesterton. Publicamos ainda a Carta aos Artistas, significativa missiva escrita por Karol Wojtyła, o papa João Paulo II. E ainda, pontuando toda a edição, o leitor encontrará pequenos textos e fábulas do imaginário hebraico.
        AMPLITUDE pretende dar voz ao que não pode falar, e alumiar onde a luz cambaleia. Nesta edição, (per)seguimos nossa proposta, a mesma que adotamos, há anos, à frente do blog Poesia Evangélica, que é dar voz preferencialmente a autores que ainda não publicamos. Acreditamos que assim se constroem cenários e panoramas, se fortalecem movimentos e autores e educa-se o leitor para deleitar-se na sinfonia de vozes díspares.
        Esta edição é nossa recordista em contos, com mais de dez autores presentes. Destaque para a seção Jardim dos Clássicos, onde Honoré de Balzac apresenta um Jesus algo contracultural numa Flandres de séculos pretéritos.
        E seguimos com as seções: Crônica, com uma reflexão de John Piper;Cinema, com notícia do VII Festival de Cinema Cristão; HQ, com os quadrinhos de Vestígia e Caio, o Pardal Pensativo; Galeria, com a arte terna/dilacerante de Charles Criador; Luminares, nesta edição apresentando obras de missionários que se dedicam às artes plásticas.
        Na poesia, traduzimos para esta edição poetas protestantes de diversos países ibero-americanos; por sinal, o Poeta em Destaque é também de fala espanhola: o insigne Alfredo Pérez Alencart. Ainda nesta edição, poemas longos de Israel Belo de Azevedo e José Manoel Ribeiro somam-se aos textos poéticos de muitos outros autores (e a um toque inesperado de poesia visual).
        Não deixe de deleitar-se com as 100 Citações sobre a Arte, na página 19. E, se tiver paciência, publicamos ainda um artigo sobre antologias e antologistas(com o perdão do ranço acadêmico, que de maneira nenhuma é o foco de Amplitude).  Ainda as seções: Notas CulturaisResenhas, e, sempre terminando a revista, as citações selecionadas de Parlatorium.
        Tenha uma boa e edificante leitura, ainda que a edificação passe por alguma perturbação do status quo que pode estar inadvertidamente embotando seus passos. E compartilhe esta revista, que é gratuita, com outros irmãos ao seu alcance.

Sammis Reachers, editor

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sábado, 15 de junho de 2019

O ROMANCISTA, poema de W. H. Auden

Pablo Picasso, Garçon à la pipe (1905)

O Romancista
Envergando o talento a modo de uniforme,
O posto de um poeta é claro a nós;
Pode nos surpreender como tormenta enorme,
Morrer bem moço, anos viver a sós.
Pode lançar-se como o hussardo – ele , porém,
Tem que deixar o dom pueril, tem que saber
Ser simples, meio desastrado, ser alguém
A cuja retaguarda não se quer volver.
Pois, para realizar o seu menor anseio,
Tem que fazer-se todo tédio, entregue às mil
Lamúrias triviais do amor; ser justo em meio
Aos justos, entre os homens vis também ser vil,
E frágil, se puder, sofrer à toa o dano
De toda iniquidade própria ao ser humano.

Tradução de Alípio Correia de Franca Neto
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