“da sua lingua fluía um discurso mais doce que o mel”
Ilíada 1.249
da tua língua fluía a água
que abria as nuvens
o som de muitos anjos
sobrepondo-se-lhe a tonalidade
distinta da voz que fala da vida
da vida cheia de Deus
dos teus pés fluía o vinho
submergindo os meus pés
o meu colo o meu peito
até dentro do meu coração
onde cinza, que foi depositada e cala,
ganha a espessura da terra que espera
a semente e depois desta o arado
em silêncio
da tua voz fluía o mel
nenhum outro se lhe compara
quem o bebe, dizes, a melhor parte bebe,
ao prová-lo, sou uma ave
cujas asas são amor
Rui Miguel Duarte
9/10/15
Johannes van Vermeer, Christ in the House of Martha and Mary
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Poemas (LXIII): Fragmento de «Field Work» (Traballo de campo), de Seamus Heaney
Field Work (Traballo de campo, Xerais, 1996, reeditado en 2005 por La Voz de Galicia), de Seamus Heaney, con introdución e tradución do poeta Vicente Araguas, publicouse como primeiro número da colección de poesía Ablativo Absoluto, agora en triste liquidación. Entre os seus textos inclúe o poema que lle dá título ao libro, dividido en catro partes das que agora ofrecemos a primeira en versión orixinal, na versión galega de Araguas e noutra versión portuguesa de J. T. Parreira, con sensibles diferenzas de matiz.
Field Work
I
Where the sally tree went pale in every breeze,
where the perfect eye of nesting blackbird watched,
where one fern was always green
where the perfect eye of nesting blackbird watched,
where one fern was always green
I was standing watching you
take the pad from the gatehouse at the crossing
and reach to lift a white wash off the whins.
take the pad from the gatehouse at the crossing
and reach to lift a white wash off the whins.
I could see the vaccination mark
stretched on your upper arma, and smell the coal smell
of the train that comes between us, a slow goods,
stretched on your upper arma, and smell the coal smell
of the train that comes between us, a slow goods,
waggon after waggon full of big-eyed cattle.
(Seamus Heaney)
Trabalho de Campo
Onde a acacia palidecía a cada brisa,
onde espreitaba o ollo perfecto do merlo aniñando,
onde un fento estaba sempre verde.
onde espreitaba o ollo perfecto do merlo aniñando,
onde un fento estaba sempre verde.
Eu ficaba a ollarte atravesando o curral
desde a caseta do gardabarreiras ata o cruce
e como estendias a man para recoller a roupa lavada das toxeiras.
desde a caseta do gardabarreiras ata o cruce
e como estendias a man para recoller a roupa lavada das toxeiras.
Podía ver a marca da vacina
dilatada no teu antebrazo, e cheirar o cheiro a carbón
do tren que pasa entre nós, un mercancías lento,
dilatada no teu antebrazo, e cheirar o cheiro a carbón
do tren que pasa entre nós, un mercancías lento,
vagón tras vagón cheos de gando de ollos grandes.
(Tradución: Vicente Araguas)
Trabalho de Campo
Onde descorava o salgueiro a cada brisa,
onde o olho do merlo amante vigiava,
onde o feto estava sempre verde,
onde o olho do merlo amante vigiava,
onde o feto estava sempre verde,
eu ficava parado a observar-te
ias da cancela do curral à encruzilhada
e estendias a mão para colher a roupa limpa nos tojais.
ias da cancela do curral à encruzilhada
e estendias a mão para colher a roupa limpa nos tojais.
Eu podia ver a tua marca da vacina
retesada no antebraço, e cheirar o cheiro a carvão
do trem que entre nós passa, mercadorias lento,
retesada no antebraço, e cheirar o cheiro a carvão
do trem que entre nós passa, mercadorias lento,
vagão após vagão cheio de olhos grandes do gado.
(Tradução: J. T. Parreira)
in As crebas
bitácora de miro villar
bitácora de miro villar
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
O QUE DISSE UM DOS MALFEITORES
A caminho da morte não falou, a sua boca
reservava-se ao silêncio divino, dentro da alma
chorava talvez. Assim vi o melhor espírito de Israel
consumido pela dor
numa cruz, vestido do seu próprio sangue
atravessando o
coração do Pai.
Ao meu lado a arrastar a voz ferida
a deixar no ar palavras de perdão.
Digo
aquela cruz não era para um Deus, eu que sou
um malfeitor a quem
Ele deu uma rua de ouro
no Paraíso.
08-0-2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Três poemas de Efrém, O Sírio (Século IV)
"COLOQUEI (A PÉROLA), IRMÃOS, NA PALMA DE MINHA MÃO"
«Coloquei (a pérola), irmãos, na palma de minha mão
Para poder examiná-la.
Observei-a por todos os lados:
Tinha o mesmo aspecto desde todos os lados.
Assim é a busca do Filho, inescrutável,
Pois é totalmente luminosa.
Em sua limpidez, vi o Límpido,
Que não se opaca;
Em sua pureza,
Vi o símbolo do Corpo de nosso Senhor,
Que é puro.
Em seu caráter indivisível, vi a verdade,
Que é indivisível»
(Hino sobre a Pérola 1, 2-3).
A Esperança da Vida Nova em Cristo
"Afugenta, Senhor, com a luz diurna da Tua sabedoria,
as trevas nocturnas da nossa mente,
para que, iluminados por Ti,
Te sirvamos com espírito renovado e puro.
A chegada do Sol representa para os mortais
o início do seu trabalho;
Adorna, Senhor, nas nossas almas uma mansão
que possa continuar aquele dia
que não conhece o ocaso.
Faz com que saibamos contemplar
a vida da ressurreição,
e que nada possa separar as nossas mentes
dos Teus deleites.
Imprime em nós, Senhor,
por nossa constante adesão a Ti,
o selo daquele dia
que não depende do movimento solar.
Faze com que sejamos dignos de experimentar nas nossas pessoas,
a ressurreição que esperamos.
Pedimos-Te, Senhor,
que aquela beleza espiritual
que a Tua vontade imortal faz brotar
na própria mortalidade
nos faça compreender a Tua beleza.
A Tua crucifixão, ó Salvador Nosso,
foi o fim da Tua vida mortal;
faz com que crucifiquemos a nossa mente
a fim de obtermos a Tua vida espiritual.
Que a Tua ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual;
As Tuas disposições divinas,
ó Salvador Nosso,
são figura do mundo espiritual
faze com que nos movamos nele,
como homens espirituais.
Não prives, Senhor, a nossa mente
da Tua manifestação espiritual,
e não separes de nós
o calor da Tua suavidade
A mortalidade latente no nosso corpo
derrama em nós a corrupção;
que a aspersão do Teu Divino amor
apague nos nossos corações
os efeitos da mortalidade.
Concede-nos, Senhor, que caminhemos com presteza
para a nossa pátria definitiva
e que, como Moisés, do cume do monte,
possamos desde agora contemplá-la pela fé.”
"Afugenta, Senhor, com a luz diurna da Tua sabedoria,
as trevas nocturnas da nossa mente,
para que, iluminados por Ti,
Te sirvamos com espírito renovado e puro.
A chegada do Sol representa para os mortais
o início do seu trabalho;
Adorna, Senhor, nas nossas almas uma mansão
que possa continuar aquele dia
que não conhece o ocaso.
Faz com que saibamos contemplar
a vida da ressurreição,
e que nada possa separar as nossas mentes
dos Teus deleites.
Imprime em nós, Senhor,
por nossa constante adesão a Ti,
o selo daquele dia
que não depende do movimento solar.
Faze com que sejamos dignos de experimentar nas nossas pessoas,
a ressurreição que esperamos.
Pedimos-Te, Senhor,
que aquela beleza espiritual
que a Tua vontade imortal faz brotar
na própria mortalidade
nos faça compreender a Tua beleza.
A Tua crucifixão, ó Salvador Nosso,
foi o fim da Tua vida mortal;
faz com que crucifiquemos a nossa mente
a fim de obtermos a Tua vida espiritual.
Que a Tua ressurreição, ó Jesus,
faça crescer em nós o homem espiritual;
As Tuas disposições divinas,
ó Salvador Nosso,
são figura do mundo espiritual
faze com que nos movamos nele,
como homens espirituais.
Não prives, Senhor, a nossa mente
da Tua manifestação espiritual,
e não separes de nós
o calor da Tua suavidade
A mortalidade latente no nosso corpo
derrama em nós a corrupção;
que a aspersão do Teu Divino amor
apague nos nossos corações
os efeitos da mortalidade.
Concede-nos, Senhor, que caminhemos com presteza
para a nossa pátria definitiva
e que, como Moisés, do cume do monte,
possamos desde agora contemplá-la pela fé.”
Dos Sermãos de Efrém, diácono (Sermo 3, De fine et admonitione 2. 4-5: Opera, edição Lamy 3, 216-222).
SENHOR E MESTRE DA MINHA VIDA
Senhor e Mestre da minha vida,
afasta de mim o espírito de preguiça,
o espírito do poder, a desesperança e a vanglória.
Concede ao Teu servo o espírito de pureza,
de temperança, de caridade, de humildade e de paciência.
Sim, Senhor e Rei!
Concede-me que eu reconheça as minhas faltas
e não julgue o meu irmão,
pois Tu és Bendito pelos séculos dos séculos.
Amém.
afasta de mim o espírito de preguiça,
o espírito do poder, a desesperança e a vanglória.
Concede ao Teu servo o espírito de pureza,
de temperança, de caridade, de humildade e de paciência.
Sim, Senhor e Rei!
Concede-me que eu reconheça as minhas faltas
e não julgue o meu irmão,
pois Tu és Bendito pelos séculos dos séculos.
Amém.
Efrém, o Sírio (Nisibi, 306 - Edesa, 373) teólogo, monge, poeta, doutor e padre da Igreja. É considerado o poeta de maior renome da época patrística da Igreja.
domingo, 13 de setembro de 2015
Titanomaquia
Titanomaquia
Tantos esperam de ti tanto,
e sobre todos estes Deus,
que fundo e tudo abarca.
Curvas teu semblante
diante a todo qualquer
espelho:
Teu coração é um cancro,
teus pés são pó.
Cada uma de tuas lágrimas
é uma lágrima de Atlas.
Sammis Reachers
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
REFLEXÃO DE JESUS CRISTO SOBRE JERUSALÉM
Mostras-te no enquadramento dos teus muros, segura
na dureza inexpugnável da sua altura, mas os meus olhos
vêem muito mais longe, os meus olhos
entristecem a minha alma.
Não posso ainda chorar o sangue do meu coração
está reservado para as feridas, apenas lágrimas
alguma vez, Jerusalém pensaste no futuro, ou hoje
sabes o que para a paz o teu nome representa? Mas não.
Matas os profetas e enches o teu templo de pregões
humanos que vendem coisas perecíveis. Quantas vezes
quis eu reunir os teus filhos enquanto minhas mãos
estão limpas dos cravos, e não quiseste. Aguarda
hão-de vir sombras do deserto, serão palha os teus muros
levá-los-á um vento imperial. Jerusalém, Jerusalém
tu empenhaste o teu futuro e ficará apenas o olhar
dos teus filhos, a recordar-te e a chorar-te desde
terras longínquas, até ao dia em que eu possa regressar.
01-09-2015
© João Tomaz
Parreira
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
HAMLET EM ÍTACA
Tecer ou não tecer, eis a questão
O que é mais nobre, esquecer Ulisses
Que os seus olhos despem Circe e as Sereias
Enquanto não regressa dos mistérios
Sofrer as provocações do ciúme e da saudade?
Morrer, dormir, não mais; ou antes com o coração
Nos dedos, nos dedos como armas fazer
E desfazer o fio da teia, dos vestidos
Que a nudez do amor percorre no tear?
Até mergulhar meus olhos nos olhos de Ulisses.
28-08-2015
© João Tomaz Parreira
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