terça-feira, 20 de outubro de 2026

Revoada, poema de Afonso Félix de Sousa

 


Revoada

 

É como se dentro de mim houvesse pássaros.

Desesperos, incompreensões, descrenças, mortes,

tudo se esvai num momento, quando nascem as canções

que transbordam como hinos ao meu destino e à vida.

 

Uma vez gritei: Senhor! Mas os pássaros

haviam partido. Cheguei a sentir a pouca distância

o sono dos abismos. Tudo estaria perdido

não fosse o horror da viagem pelo mar que ignoramos.

 

Em outras auroras descansava, e era morto

o grito na lembrança suja do tempo gasto,

quando acordou o meu irmão o seu eco entre as brumas.

 

Agora os pássaros poderão voar, cessarem as canções,

que é seu eco uma cicatriz lembrando que o Senhor

imobilizará as mãos chagadas de descrenças.



 

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