segunda-feira, 16 de junho de 2014

Pew, o Cego


Pew, o Cego

Jason Mason Midlesbrought Litton III
ou IV
às 05 h da manhã
está de pé, prestes a sair
para seu trabalho,
porteiro
No Castelo de Windsor
onde religiosamente serve
à Família Real Inglesa
de tão nobres varões assinalados.

Antes, como desde
seus zero anos
olha os retratos de sua família
quatro gerações
quatro honradas gerações
de serviços prestados
à valerosa Família Real,
salve-a Deus.

O primeiro retrato honra
Seu tataravô Eduard
morto na 1ª Guerra dos Bôeres.
Tombou como tombam os heróis da Pérfida Álbion;
foi empalado
e depois esquartejado e lançado às hienas.
Logo após temos Mathias Someller,
tio-bisavô distante, colono e soldado do Império,
morto na 2ª Guerra contra os Bôeres,
aqueles imundos cães neerlandeses.

Sucede-o no rol seu avô Jason Litton I, alfaiate
do Conde de Halifax, Deus o tenha!,
morto na Grande Guerra
junto com três de seus irmãos;
quatro heróis caídos ao naufragar
o navio de batatas que os levaria à batalha.

Deus salve a Rainha,
ele vê a foto de sua terna tia May,
enfermeira,
flor primacial entre os patriotas,
múltiplas X estuprada & morta
na queda de Cingapura
para os japoneses
durante a Segunda Grande Guerra

E mais uma vez, como diariamente,
pontualmente
britanicamente
desde
seus 08 anos
lágrimas descem de seus
olhos piscianos
ou bovinos
séculos e séculos de bons serviços prestados
à Casa Real,
aos Eleitos de Deus
séculos tombando sobre séculos
de serventia

e em silêncio
Pew canta e recanta
o seu trecho preferido
do hino Rule, Britannia!,
a mais magnânima e perfeita
de todas as canções jamais gestadas:

“Governe, Britania! Governe os mares:
Os britânicos nunca serão escravos.” **

 Sammis Reachers
Do livro PULSÁTIL

*Blind Pew, pirata, personagem de Stevenson em A Ilha do Tesouro, referido alguma vez em Borges. De comum com o Pew de Stevenson-Borges, este Pew aqui só tem a cegueira (neste caso, não física, mas de alma, se as hienas possuem-na) e o nome, nome que aqui homenageia dois mestres totais da arte de contar. Um deles decerto odiaria este poema odioso: Borges nutria o obscuro sonho de ter nascido inglês.

** "Rule, Britannia! rule the waves:
"Britons never will be slaves."


O Muro de Lamentações


É o som dos sapatos que se ouve
para não acordar os mortos, o silêncio
envolve os murmúrios
Os carros passam longe, noutra civilização
Mãos e orações trocam papéis com as pedras
as pedras conseguem há milénios
guardar tudo
o que diz o povo com a cabeça rente ao muro.

05-06-2014

© João Tomaz Parreira

terça-feira, 10 de junho de 2014

Novo livro de Sammis Reachers: Pulsátil


     É com prazer que disponibilizo para download ou leitura online meu mais novo livro, Pulsátil - Poemas canhestros & prosas ambidestras.
     
Este livro é uma estranha antologia: reuni aqui poemas esparsos, dos mais novos aos mais antigos, de bons comuns poemas a B-sides, mas que não entraram, por quaisquer motivos, nos meus livros anteriores.
     E ainda um resgate: poemas de meu primeiro, terrível (de ruim) e renegado livrinho, São Gonçalo de Todos os Santos(1999).
     Salgando a miscelânea, a segunda parte do livro reúne uma pequena seleção de frases e pensamentos, geralmente publicados no Facebook. Alguns espontâneos, outros meditados, alguns devocionais, outros de viés mais carnal, satírico, espirituoso ou apenas gotículas de ácido destilado. E ainda algumas reflexões e prosas maiores.
     Falando em carnalidade, o livrinho termina com alguns textos de um certo Mathias Raws, falsário de passaportes e ladrão de bancos (regenerado) inglês, de cujo um poema retirei o título para este livro.
     E para completar a medida de balbúrdia em tudo isso, toques de minhas sinistras, canhestras incursões pelas artes plásticas também estão aqui, na figura de uma pintura, um objeto e fotografias.


     Provocações, balões de ensaio testando limites, ‘tentando’ os limites: sem estranhamento não há arte, não há literatura (mas apenas pedagogia, e a mais chã), sem o perigo das bordas do abismo herético, não se pode fazer boa teologia, não se pode expandi-la. Riscos que se corre e riscos que assumo, pois não vejo outra opção para justificar-me enquanto escritor. Não saberia fazer nada diferente.

O livro possui 113 páginas, e está em formato pdf.

Para ler online ou baixar pelo site Scribd, CLIQUE AQUI.
Para baixar pelo site 4Shared, CLIQUE AQUI.


Caso não consiga realizar o download, você pode solicitar o envio por e-mail, escrevendo para: sammisreachers@ig.com.br

terça-feira, 27 de maio de 2014

[ QUANDO VOLTÁMOS A CASA ]




Fotografia de Robert Capa, 1948


“Quem são estes que vêm voando como nuvens, 
e como pombas às suas janelas?” Isaías, 60,8

Quando voltámos a casa e crescemos
Sobre os nossos pés
Para espreitar as janelas, com algumas teias
Como véus antigos, e entrámos e nos inclinámos
Sobre a mesa de madeira com rugas de solidão
Anos e anos com um silêncio
Sem pão, a nossa casa estava estéril, agora
Começará  a dar frutos, a deitar calor pela chaminé
Vai  começar a acender as janelas.

27-05-2014
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de Maio, poema de Pedro Marcos Pereira Lima


13 de maio
Por mais que nos vejam
Em novelas do horário nobre
Somos presos por engano
Por mais que nos vejam
Nos estádios em transações milionárias
Somos convocados para comermos banana
Na grama
Por mais que nos vejam
Nos palcos trocando palavras
Em raps
Em funks
No rank da ostentação
Morremos nos postes
Debaixo do pau das hostes
De nós mesmos
Por mais que nos vejam
Nos shoppings nos bancos nas ruas
Não somos vistos, somos espionados.
Por mais que nos vejam
Somos invisíveis

domingo, 4 de maio de 2014

HELENA DE TRÓIA




“Helena de alvos braços / Helena, divina entre as mulheres”
Canto III, da Íliada, de Homero



Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias


Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis


Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.


17-4-2014
João Tomaz Parreira © 


(Imagem: Helena e Páris)

sábado, 3 de maio de 2014

EPODO AO SALMO 139

a J. T. Parreira, com amizade, solidariedade poética e votos de saúde


Alguém lá em cima gosta de mim
alguém lá em cima tem colo de ouro
e braços de estrelas
para os meus cansaços

posso estar no chão e os meus pés
pisarem os céus e os ínferos dos mortos
pode não sobrar de mim mais do que
a voz que grita a ocidente e a oriente
e Alguém aí está e gosta de mim

posso não ter mais do que algas podres
em vez de mãos um seixo túrgido
em vez de uma canção que se atira
contra os tremores de ventos e marés

que claro e imperceptível é
que, ao mostrar-se treva luz,
Alguém gosta de mim

Rui Miguel Duarte
03/05/14
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