terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de Maio, poema de Pedro Marcos Pereira Lima


13 de maio
Por mais que nos vejam
Em novelas do horário nobre
Somos presos por engano
Por mais que nos vejam
Nos estádios em transações milionárias
Somos convocados para comermos banana
Na grama
Por mais que nos vejam
Nos palcos trocando palavras
Em raps
Em funks
No rank da ostentação
Morremos nos postes
Debaixo do pau das hostes
De nós mesmos
Por mais que nos vejam
Nos shoppings nos bancos nas ruas
Não somos vistos, somos espionados.
Por mais que nos vejam
Somos invisíveis

domingo, 4 de maio de 2014

HELENA DE TRÓIA




“Helena de alvos braços / Helena, divina entre as mulheres”
Canto III, da Íliada, de Homero



Pela beleza dos teus olhos mil navios
fazem-se ao mar, pelo fogo
que o vento nos teus cabelos despenteia
mil olhos ficaram com insónias


Pelo amor inatingível do teu corpo
mil homens dão o peito à morte
e pelo ouro dos teus lábios, gritam
nas praias de Tróia mil heróis


Pela tua beleza transparente nos vestidos
erram ainda cegos pelos campos
à procura de vestígios.


17-4-2014
João Tomaz Parreira © 


(Imagem: Helena e Páris)

sábado, 3 de maio de 2014

EPODO AO SALMO 139

a J. T. Parreira, com amizade, solidariedade poética e votos de saúde


Alguém lá em cima gosta de mim
alguém lá em cima tem colo de ouro
e braços de estrelas
para os meus cansaços

posso estar no chão e os meus pés
pisarem os céus e os ínferos dos mortos
pode não sobrar de mim mais do que
a voz que grita a ocidente e a oriente
e Alguém aí está e gosta de mim

posso não ter mais do que algas podres
em vez de mãos um seixo túrgido
em vez de uma canção que se atira
contra os tremores de ventos e marés

que claro e imperceptível é
que, ao mostrar-se treva luz,
Alguém gosta de mim

Rui Miguel Duarte
03/05/14

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Cantiga dos Moleques Fruteiros - Um poema sobre as frutas nativas do Brasil


Cantiga dos Moleques Fruteiros

Pedrinho tem fome de mato,
das frutinhas que tantas dão por lá:

Cajuí, taperebá, araticum e cajá
Cambuci, guabiroba, cagaita e maracujá

Juca menino erradio
pulou a cerca do sítio,
e lá se foi, frutas a roubar:

Pindaíva, marôlo, sorvinha e biribá
saguarají, feijoa, sapoti e joá

Gustinho não poupa ninguém
nem atina se a fruta é veneno;
se tem polpa pouca
ou se nem polpa tem,
a de vez ele come,
a passada também:

Mangaba, guriri, tucum e butiá
uarutama, bacupari, marmelinho e ingá

Renato é um bicho-do-mato:
chafurda nas matas,
rompe pelos florestins
sabe o tempo de cada fruta,
e deita sozinho a fazer seus festins:

Babaçu, inajá, catolé e bacuri
sapota, cupuaçu, araçá e cacauí

Fernandinho é moleque mateiro:
gosta é de pelar pé de árvore
no pomar da avó.
É fruta que não acaba tão cedo
e lá vai ele, arteiro, trepar no arvoredo:

Grumixama, cubíu, marmixa e abiu
guaburiti, pitangatuba, murtinha e camu-camu

Saltam riacho, cerca de roça,
mata fechada e o que se lhes dá;
Comem de tudo e tudo sem pressa,
sorvendo o bom doce de tudo o que há:

Acumã, pequiá, jameri e jaracatiá
aboirana, curriola, fruta-de-tatu e cambuiú.

Sammis Reachers

domingo, 20 de abril de 2014

RELATO

“Quem acreditou naquilo que ouvimos?”
Livro do Profeta Isaías 53:1

pediram-nos uma palavra 
aberta em melodia que falasse
do drama da alegria

do seu breve trânsito pelos velhos mortos
em que foram decompostas as nossas pobrezas

pediram-nos uma memória,
quente, nova que fizessem acreditar
que a memória é símbolo e é carne

pediram-nos um relato
mais vivo e que mais fortemente
arrepiasse a espinha ao silêncio
do que o próprio evento
que contar o espinho ferisse mais
do que o espinho,
porque a mortalha dele é nossa roupa nova
para dia de festa
e o sangue dele o nosso músculo enxuto
contar quanto a pedra caiu à beira do caminho
diante do clamor das mulheres
quanto o dia em que a noite
foi apenas a preparação da manhã

o que temos é só o que ouvimos
porque Ele retornou ao Pai
deixou-nos, contadores

necessário é: para manter
os ouvidos ouvindo
e em desemparo acreditando

e nós contamos

Rui Miguel Duarte
19/04/14

sábado, 19 de abril de 2014

Substituição, um poema de Elizabeth Barrett Browning


Substituição

Se uma adorada voz, que fora em vossa vida
Suavidade e som, de repente se esvai,
E se logo um silêncio impenetrável cai,
Qual súbito mal-estar  ou dor desconhecida –

Que esperança há? Que auxílio? E que música, ouvida,
O silêncio destrói? Nem da amizade o ai –
Nem da razão subtil a conta; não se vai
Ao som de violino ou de flauta gemida;

Nem canções de poeta e nem, de rouxinóis,
A voz, que vai subindo através dos ciprestes
Até a clara lua; e medo lhe não causa

Das esferas, o canto – ou dos anjos, nos sóis,
A voz que sobe a Deus; ó não, nenhuma destas!
Fala só Tu, ó Cristo, e preenche esta pausa.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

MANHÃ DE DEUS, poema de J.G. de Araujo Jorge


 MANHÃ DE DEUS

(Passeio pelas matas Friburguenses)

Por estas densas matas, povoadas
de silêncios e sombras, de mistérios,
de águas livres e puras, sussurrantes,
ainda há um ar de Criação... de Paraíso.

Por estes chãos sem trilhas, entre réstias
de sol pintando em luz a tela úmida,
entre águas, tinhorões, pedras e líquens
as pegadas de Deus ainda estão frescas.

Deus passou por aqui, talvez há pouco:
sua sombra ainda envolve estes silêncios,
sua luz, põe vitrais pelas folhagens,
sua voz ainda escorre nestas águas.

Sua presença se percebe ainda
nesse ar inicial, solene e intenso,
nesse ar de antemanhã, quase alvorada,
antes da vida despertar, da luz.

Sua presença se percebe ainda
Em rumores difusos, em sussurros,
que dão palpitação à terra e à mata
antes dos cantos, do rufar das asas.

As pegadas de Deus ainda estão frescas
seu hálito ainda embaça a terra e o espaço,
e para os animais e as águas livres
o homem, parece, ainda não foi criado.

  (  J. G.  de Araujo Jorge   in
    "Canto à Friburgo"   - 1961 )

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