terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Navegando para a Terra de Ninguém



“That is no country for old man”
W.B.Yeats



Ali  não é país para os velhos, os ramos
estiolados das primaveras, as bengalas
gastas a estenderem-se das mãos, enquanto puderam
podaram rosas
altivas nos olhos juvenis, agora
têm a dança solitária da tristeza  
nos seus sonhos, isso não é país
para os velhos, vivem tanto tempo
e pesam demasiado espaço aqui,  há a terra de ninguém
mandem-nos para lá, há pouca certeza
de que sobrevivam, estão grisalhos
mandem-nos para o Ocidente
onde se apaga a luz do sol.


7-1-2014
©  João Tomaz Parreira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Nos jardins da Babilónia

aprendi a língua da Babilónia
a língua que falam 
as árvores 
                   da glória 
aprendi como os jardins se levantam
                   e abraçam o zigurate
aprendi a moldar a lama 
                   e dar-lhe a candura do rio

aprendi a língua da Babilónia
a língua que cantam 
sonhos estátuas duras
                   de profecia

aprendi que o vinho existe
e que se degusta antes de o dia 
                   ter espessura
que se bebe de janela aberta
                   só

aprendi 
onde as ruas
                   se cruzam
com masmorras as vozes que denunciam
que o banquete dos aromas
                   vai começar

aprendi e depressa desaprendi
o que tem a Babilónia para eu lhe ensinar?


Rui Miguel Duarte
31/12/13

Via Dolorosa


Não tinha a esperança
de que a subida fosse leve, sabia
que o tronco do madeiro sobre os ombros
era o amor impossível do mundo,

sabia que era íngreme a morte,
e a subida quase a tocar o sol
no cume do Calvário,

sabia que havia pedras como espinhos
na tristeza do caminho, sobre as pedras
a humidade dos pés, os últimos
passos com as sombras nos olhos.

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Devenir, devir - Waly Salomão


Devenir, devir 

 Waly Salomão 

 Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

 Também não pode ser
 a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

 Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

 Morro e transformo-me.

 Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

 Morre e transforma-te.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

CHEGOU O MENINO



Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido.

Chegou um menino

que deslocou o centro do céu para o mundo

Chegou de longe Deus, a carne nua

com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.


 18/12/2013
 
© J.T.Parreira

(Imagem do Facebook - Desert-rose)

domingo, 15 de dezembro de 2013

ARCHÉ


Não era ainda o tempo das manhãs lavadas”
Ruy de Carvalho


Não havia ainda lugar
para pendurar as manhãs, nem sol
que arredondasse a ponta do dia
à ponta da noite

havia o vazio, um eco do fundo
do abismo
Não era ainda o tempo das manhãs
de revestir de pérolas a fronte das rosas
Deus passeava sobre o que havia
de ter a beleza das suas mãos
quebrado o silêncio original.

© J.T.Parreira

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

La neige qui tombe

La neige quand elle 
         tombe
tombe oblique sur le visage qui un fil
laisse à la peau, dévoile le manteau
creuse les toits, force le vent
à la danse sur le fil quand elle monte descendant
constant en une mélodie
         oblique

c’est pour cela, pour ce manteau
sans couture
qu’elle est un étonnement nocturne
en passant par les campanules
où les troncs se
         déclinent
à la danse
qu’elle est l’expression la plus sublime
du dessein céleste

Rui Miguel Duarte
5/12/13


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...