quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Crepúsculo dos Deuses: Ragnarök


Um Dia feito da escuridão
de todos os dias
o Dia em que Odin-o-exaurido
será devorado pelo lobo Fenris,
Thor-do-trovão tombará sobre o cadáver
da serpente-sem-fim, Iormungand


Você é um dos homens
eleitos pelo deus, guerreiro?
Afie pois os dois caminhos de sua espada,
as duas asas de seu machado firme
e caia como vaga sobre o conflito:
será tudo em vão,
pois ao fim e ao cabo
como a Ordem venceria o Caos?

Mas você terá combatido,
você terá deveras combatido
e não foi afinal para isso e para este Dia,
ó boneco de pó predestinado,
que o pai Odin criou os homens?


Sammis Reachers

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

OS QUE VIRÃO NOS CAMELOS



“Os que virão nos camelos”
Jorge de Lima


 


Os que vêm nos camelos
navegam na luz branda do luar
têm visões no deserto
quando o sol derrama no horizonte
as águas ilusórias

também bebem
dos espelhos da água mais profunda
vêm de vales estuantes
os que virão nos camelos
quando a viagem terminar os seus vestidos
serão trapos do tempo, não importa
pois trazem presentes
e seguem a estrela indispensável
e vão em busca da glória
do Menino.

© J.T.Parreira

domingo, 10 de novembro de 2013

VIA SACRA

“                      …… Só vou por onde

Me levam meus próprios passos
José Régio, “Cântico Negro”


Há um caminho por onde vou
e um caminho por onde não vou

pelos olhos doces da legião
pela inquietação segura dos amigos
que tentam dizer que vá por aí
não vou, por aí não vou

um rito sobre as pedras,
o meu caminho é aquele
em que os pés marcham descalços
e se sujam, bastante tendo por fardo
a penumbra dos homens
o caminho em que o pó é feito de arestas

por aqui me levam os meus passos,
quanto mais indecisos mais firmes,
pelo húmus lamacento é que se alevanta
o firmamento

Rui Miguel Duarte
11/11/2013


domingo, 3 de novembro de 2013

OS GATOS DE EZRA POUND




Como os gatos de Pound, que procuram
cheiros pelo chão, a minha
também tem as antenas
a murmurarem coisas invisíveis,

quando se dispõe olhar para mim.

© J.T.Parreira

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LE PARTIE D'ÉCHECS


Uma só jogada
enche todo o tabuleiro, domina
a ampla mão do rei,

qualquer peão perde-se
no movimento anguloso
do cavalo. E a rainha
quando a torre adormece.

Dispersa-se o lance nas pégadas
da tela contínua, dois jogadores
homem e mulher
só nos olhos é que movem
a sua pedra eterna,

amam-se em cada silêncio,
adversários.

23/10/2013
© J.T.Parreira


(Sobre a tela de Vieira da Silva, 1943)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

INGENUIDADE




Quando chegamos à nossa nova casa
sem paredes de tijolo e estuque
rodeada de arame onde suspendemos as estrelas
apertando ao peito o frio
ainda acreditamos
que nos dessem o maná
como Jeová no deserto aos nossos pais.

14/10/2013
 
© J.T.Parreira

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Cântico maternal, poema de Isabel Gonçalves

(Cena do filme Zuzu Angel)

Cântico maternal

Filho não vá, fique aqui.
Um dia você quis ficar em meu colo pra sempre.

Filho meu,
Hoje você engole fumaça,
Aspira veneno,
Tem por perto os que irão te matar.

Filho meu,
Eu conheço você,
Tenho aqui o abraço.
Volte correndo,
E te farei um chá.

E sempre há mais lágrimas em mim,
Dentro de uma mãe há um rio.



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