sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A TRANSFIGURAÇÃO






Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara, porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde


Subiu ao monte
com um rosto no qual depois o sol nasceu,

a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,

o vento cantava no cume da montanha,

desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.

9/8/2013
 
© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

À TARDE


“La pena de la tarde estremece a mi pena”
Federico García Lorca, “Meditaciones bajo la lluvia”

à tarde mesmo ao fim
a voz procurava o alívio
da pena sobre o tremor da pena

as árvores em que a sombra nasce,
a voz, mesmo
no fim do jardim
da tarde que estremece
no gume, há a pena
à qual tudo foi destinado
estremecem os olhos os ouvidos
a pele da testa lavrada do peso do sangue
que levanta pérolas no cálice,
o cálice bebido na oração redita

nessa angústia
da impossibilidade do salmo
que afague como pena
a dor da angústia do mundo todo

no jardim do Getsémani
o Filho do Homem
é uma ave de penas soltas


Rui Miguel Duarte
08/08/13


domingo, 4 de agosto de 2013

Depois do Dilúvio




Voltaram para casa
Noé e os filhos, para o princípio do solo,
o primeiro dia da terra com a luz
a secar as águas.
Começou Noé a plantar uma vinha
para colorir o silêncio das colinas,
e os seus pés
moveram-se no ar e riu e cambaleou
dentro de si, na alegre nudez
do seu regresso.

4/8/2013

© João Tomaz Parreira

A poesia de Patrícia Costa


Recolhimento

Escolho me calar
e a única palavra que deixo anunciada
é a da lágrima que escorre
externando o meu íntimo.

Frase que não alardeia
coisa parecida com nada,
tudo já está dito
aguardando a sensibilidade do ouvido atento.

Descrente, rasgo o mistério
dos sonhos todos, que na ponta do lápis
 delineava o voo liberto
 no céu do teu leito.

Então retorno à desventura
do reverso caminho
com a palavra salina
molhando minha boca.



Ardor

Estou e sou
dentro dessa lonjura
reverberando tua presença
na inquietude do ter

Mar que tumultua
e espumeja
quando tua ausência
incita o infindo das horas

Fixo o pensamento
até a exaustão
das memórias todas
em ti

Então ardo
e  nasço
num parto
de saudade.      



Juntos

Teu beijo traduziu todas as minhas palavras. Alumiou os meus desejos. Fez acelerar o coração; abro a porta para tudo que chegou através de você.
Abraço-te com essa vastidão e encosto a minha esperança na tua deixando a nossa leveza eternizar a paz. A poesia todas as manhãs me sorri agradecendo – disse que o teu amor trouxe novos verbos para mais perto. Tudo verseja melhor. Afável é esse sentimento das tuas declarações. Guardo todas no solo sagrado da minha memória e te materializo recitando cada uma delas ao pé do meu ouvido.

Desaprendo de mim. Descalço certezas. Reinvento-me. Já não espero com tamanha urgência que cada letra descubra o seu lugar. O tempo tem sido bastante generoso fazendo de cada encontro essa novidade de vida. 

Os detalhes te abriram portas nos caminhos de dentro; meu sentimento te recebeu. Bom é acordar com você amanhecendo. Melhor ainda é te sentir morar. Estou para tudo o que nos devolve. Estou pra você, que dia após dia me encanta e me faz vivenciar o mais bonito sonho.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

O DOMICÍLIO DO POETA


O DOMICÍLIO DO POETA 

 O poeta não pára, está sempre viajando.
 Inquieto em si mesmo e sem rumo certo 
É fácil notá-lo sobre os mares velejando, 
Outras vezes, ele é visto nas areias do deserto. 

 Muitas vezes, sai da terra, pra beijar as estrelas. 
Debruça-se sobre a lua e ousa abraçar o sol 
Desliza calmo e sereno sobre as nuvens ao vê-las 
Colorir o lindo céu que doura o formoso arrebol. 

 Seu voo é ainda mais alto, ele busca a eternidade 
Encontra-se na vastidão do espaço imenso 
Flutuando em devaneios, mas quer realidade. 

 E não encontra nos liames do cosmo extenso 
Descobre que tudo aqui é mera efemeridade 
E volta satisfeito pra compor no seu silêncio. 

 Natanael Santos

sexta-feira, 26 de julho de 2013

DONDE VEM

DONDE VEM 

os anjos bem anseiam perscrutar 
e os profetas nos indícios notificados 
pelo vento até mesmo os poetas ao rasgarem
na matéria pétrea o veio 
da extracção da palavra bruta

ninguém sabe, ninguém percebe 
donde vem de que ponto cardeal,
a não ser as almas simples
as que se encantam dos cantos dos pastores
dos olhos claros das crianças,
ninguém de que lado do monte desce
o orvalho

e é o orvalho que importa
e nos limpa a sede

Rui Miguel Duarte
22/07/13

segunda-feira, 1 de julho de 2013

MODO DE VER ALGUMAS COISAS



“A máquina de escrever é sagrada/ o poema é sagrado”
Allen Gisnsberg


O naipe de instrumentos do Salmo 150 é sagrado
A distância que vai da minha alma
ao céu é sagrada, O pó da terra
que David levantou diante da Arca a dançar
é sagrado, A dança é sagrada
Os cordeiros que deram os seus últimos
balidos no Egipto são sagrados
As águas do Jordão são sagradas, O mar
da Galileia que suportou o peso do Eterno
é sagrado, tudo o que foi criado
todas as formas da criação são sagradas
até as portas da morte
do Salmo nove são sagradas.

1/7/2013
© João Tomaz Parreira

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...