segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

COMO PROCURAR UM LIVRO NAS ESTANTES



Procuro Deus, como procuro
um livro na estante, as evidências

o alto volume
que pode estar em todos os lugares
procuro-O pelas cores do arco-íris
da capa, entre centenas de outras
letras que recorda a retina fatigada
sei que O tenho, que existe
por isso nada me falta.

01/01/2013

© J.T.Parreira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

OS PASTORES DE BELÉM


“…Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus …
Gomes Leal, “Os Pastores”

traziam cajados e liras afiadas
nos fins de tarde
conheciam a música as rugas do campo
conheciam como o sol e as estrelas
se sucediam nas horas
e faziam sombra nos cajados
esta era a música que dedilhavam:
o som branco
tinindo na lã

na voz dos anjos uma canção nova,
um salmo ao que semeia nos céus
e cujos pés nus
acabaram de ser
colhidos da terra

Rui Miguel Duarte
27/12/12

UM PÁSSARO NOS BRAÇOS



O azul está por baixo, a amparar
as quedas, ambos voam e Deus
um dia revelará seus sonhos
entre ambos há um leve toque
de Íris
a terra unida ao céu.

26/12/2012

© J.T.Parreira


Uma palavra de Dez-Ursos, líder comanche, sobre os brancos norte-americanos


Meu povo nunca usou um arco ou disparou uma arma de fogo contra os brancos. Houve problemas na fronteira entre nós e meus jovens dançaram a dança da guerra. Mas não fomos nós que começamos. Foram vocês que enviaram o primeiro soldado e nós que mandamos o segundo. Há dois anos atrás vim para esta estrada, seguindo o búfalo, para que minhas mulheres e filhos pudessem ficar com as faces cheias e os corpos aquecidos. Mas os soldados dispararam contra nós e, desde então, houve um barulho como o de uma tempestade e ficamos sem saber que caminho tomar. Foi assim no Canadian. Também não poderemos chorar sozinhos sempre. Os soldados de azul e os utes vieram de noite, quando estava escuro e sossegado, e queimaram nossas tendas como fogueiras. Em vez de perseguirem caça, mataram meus bravos e os guerreiros da tribo cortaram os cabelos pelos mortos. Foi assim no Texas. Fizeram a tristeza vir para nossos acampamentos e nós investimos como os búfalos quando suas fêmeas são atacadas. Quando nós os achamos, nós os matamos e seus escalpos pendem de nossas tendas. Os comanches não são fracos e cegos, como os cachorrinhos de sete sonos de idade. São fortes e perspicazes, como cavalos adultos. Tomamos o caminho deles e seguimos. Os brancos choraram e nossas mulheres riram. 
Mas há coisas que vocês me disseram e eu não gosto. Não são doces como açúcar, mas amargas como cabaças. Disseram que desejavam nos colocar numa reserva, construir-nos casas e fazer-nos tendas para curar. Não quero nada disso. Nasci na pradaria, onde o vento sopra livre e não existe nada que interrompa a luz do sol. Nasci onde não havia cercas, onde tudo respirava livremente. Quero morrer ali, não dentro de paredes. Conheço cada corrente e cada bosque entre o Rio Grande e o Arkansas. Cacei e vivi nesse território. Vivi como meus pais, antes de mim, e, como eles, vivi feliz. 
Quando estive em Washington, o Grande Pai Branco disse-me que toda a terra comanche era nossa e que ninguém deveria impedir-nos de morar ali. Assim, por que nos pedem para deixar os rios, o sol e o vento, para irmos morar em casas? Não nos peçam para trocarmos o búfalo pelos carneiros. Os jovens ouviram falar disso e ficaram tristes e furiosos. Não falem mais disso... Se os texanos ficassem fora do meu território, haveria paz. Mas o lugar em que vocês dizem que devemos viver é pequeno demais. Os texanos tomaram os lugares onde a grama cresce mais e a madeira é melhor. Se nós os conservássemos, poderíamos fazer as coisas que nos pedem. Mas é tarde demais, os brancos têm o território que amávamos e só queremos vagar pela pradaria até morrermos.

 - PARRA-WA-SAMEN (Dez Ursos), dos comanches yarnparika 

 No livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Noite de Natal - Eduardo Galeano


Noite de Natal 

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes esposavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar. 

Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença. 

Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: — Diga para... — sussurrou o menino —. Diga para alguém que eu estou aqui.

in O Livro dos Abraços

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bertold Brecht: Dificuldade de Governar


1

Todos os dias os ministros dizem ao povo 
Como é difícil governar. Sem os ministros 
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. 
Nem um pedaço de carvão sairia das minas 
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda 
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra 
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol 
Sem a autorização do Führer? 
Não é nada provável e se o fosse 
Ele nasceria por certo fora do lugar. 

2

E também difícil, ao que nos é dito, 
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão 
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. 
Se algures fizessem um arado 
Ele nunca chegaria ao campo sem 
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, 
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que 
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? 
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas. 

3 

Se governar fosse fácil 
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. 
Se o operário soubesse usar a sua máquina 
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas 
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. 
E só porque toda a gente é tão estúpida 
Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 

4 

Ou será que 
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira 
São coisas que custam a aprender?

sábado, 15 de dezembro de 2012

Enterrem meu coração na curva do rio



Enterrem meu coração na curva do rio

Assentamo-nos sob a relva,
à sombra protetora das montanhas Black Hills.
Nossos perseguidores estão longe,
perdidos nas trilhas da Serpente.
Limpo a caça, enquanto ele acende a fogueira
e inicia a contação de histórias;
fala sobre o Grande  Lobo, ou sobre batalhas,
luas, traições e punhais.
Do massacre, restamos apenas eu e ele,
Pé-de-Águia, a memória da tribo.
De repente ele para de relembrar o longínquo
para falar da traição do mestiço Bezerro Mágico Beckwourth,
que entregou os filhos deste solo para a morte
nas mãos dos imundos filhos do imundo Adão.

Como alguém com um nome tão bonito
pode trair a qualquer?
Como alguém chamado Bezerro Mágico
Beckwourth pôde trair os rios e a montanha,
o Grande Espírito e o sangue de sua mãe,
os búfalos que alimentam nossas crianças,
o cavalgar nu sob a chuva de granizos,
a vermelha e espalmada mão estendida?

Sammis Reachers
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