domingo, 21 de outubro de 2012

DIAS BRANCOS





Espero-Te, que voltes
para ocupar as pegadas
todas que deixaste
ao meu redor.

21/10/2012

 © J. T. Parreira

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ICHI

“Nunca sei o que corto
o meu olhar ausentou-se de mim”
(do filme Ichi, de Fumihiko Sori, 2008)

o meu olhar está ausente de mim
perdeu-se na neve

nunca sei se é dia ou noite
se quem vem é amigo ou se vem
para me estuprar, ausentou-se
e deixou a sombra na ponta do sabre
que ao atravessar o ar
corta a escuridão no sangue
de quem me afronta,
cada golpe é mais uma ave que sibila
de morte,

nunca sei o que corto, eu só quero
dissecar a treva, encontrar quem me dispôs
a vara em que me apoio nesta estrada, que me deixem
de novo ouvir a voz que me trouxe a vida
até esta beira de abismo, que me deixem ver-lhe
os olhos com os meus, trocar a sua cegueira
pela minha, dançar nos volteios finos do sabre
uma vez e sempre, quem é ele, meu pai?

Rui Miguel Duarte
17/10/12


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O que disse Maria junto à Cruz



“Maria – Sempre soube que não eras meu”
(Peça de teatro de Teresa S.G.Páscoa e Ana Tavares)

 
Soube sempre que não eras meu
que te olhava com um amor sem linguagem
nos meus olhos, sempre soube
que te escutava com uma sabedoria distante
nos ouvidos
sempre os teus silêncios eram divinos
que o teu coração era um céu profundo
soube sempre que não era
este mundo este reino a tua casa.

14/10/2012
© J.T.Parreira


(Pietá, de Van Gogh )

domingo, 14 de outubro de 2012

O PÃO



τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον
“o pão que provê à nossa subsistência dá-nos hoje”
Evangelho Segundo Mateus 6:11

O pão desce sobre a substância
diária pela neblina fresca desliza
suspendendo o deserto que cresce
em que habitamos
este é o pão, tome o lugar
sobre a mesa antes de o sol nascer
e pouse sobre a essência da fome
dá-no-lo da tua mão
que criou o dia de hoje
dá-no-lo quente e a estalar a côdea dura
das nossas bocas

Rui Miguel Duarte
15/10/12

Um poema de Miguel de Cervantes



Pra Ti me Volto, Alto Senhor

Tradução de José Bento

Pra Ti me volto, alto Senhor, que alçaste,
à custa do teu sangue e tua vida,
a mísera de Adão inicial caída,
e, onde ele nos perdeu, nos recup’raste.
A Ti, Pastor bendito, que buscaste
das cem ovelhazinhas a perdida
e, achando-a plo lobo perseguida,
sobre teus ombros santos a deitaste.
Pra Ti me volto na aflição amarga
e a Ti cabe, Senhor, o dar-me ajuda,
pois sou cordeira de teu aprisco ausente:
temo que na corrida curta ou larga,
quando a meu mal teu favor não acuda,
me há-de alcançar esta infernal serpente.

in Breve Antologia da Poesia Cristã Universal (leia online ou faça o download gratuito AQUI).

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Carlos Nejar: Luiz Vaz de Camões



Luiz Vaz de Camões
Carlos Nejar

Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi resposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de santos filhos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Por estas ruas





Por estas pedras vai-se à casa em frente

a sentir o som da terra

com estes ombros carregamos a fome

dos animais, esta cabra

única vai guiando os nossos olhos

já cansados

por estas paredes o tempo escorre

e espera, vai

esperando que se abram as janelas.



4/10/2012

© J.T.Parreira




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