domingo, 30 de setembro de 2012

MARYLIN



A sua nudez não foi suficiente

não surpreendeu

a morte, os seus olhos

não penetraram nada

adormeceu, ou foi

adormecendo.



30/9/2012

© J.T.Parreira

Luís Fernando Veríssimo: O Silêncio




A substituição da máquina de escrever pelo computador não afetou muito o que se escreve. Quer dizer, existe toda uma geração de escritores que nunca viram um tabulador (que, confesso, eu nunca soube bem para o que servia) e uma literatura pontocom que já tem até os seus mitos, mas mesmo num processador de texto de último tipo ainda é a mesma vel
ha história, a mesma luta por amor e glória botando uma palavra depois da outra com um mínimo de coerência, como no tempo da pena de ganso.

O novo vocabulário da comunicação entre micreiros, feito de abreviações esotéricas e ícones, pode ser um desafio para os não iniciados, mas o que se escreve com ele não mudou. Mudaram, isto sim, os entornos da literatura.

Por exemplo: não existem mais originais. Os velhos manuscritos corrigidos, com as impressões digitais, por assim dizer, do escritor, hoje são coisas do passado: com o computador só existe versão final.

O processo da criação foi engolido, não sobram vestígios. Só se vê a sala do parto depois que enxugaram o sangue e guardaram os ferros.

Nos jornais, o efeito do computador foi muito maior do que o fim da lauda rabiscada e da prova de paquê. O computador restabeleceu o que não existia nas redações desde — bem, desde as penas de ganso. O silêncio.

Um dia alguém ainda vai escrever um tratado sobre as consequências para o jornalismo mundial da substituição do metralhar das máquinas de escrever pelo leve clicar dos teclados dos micros, que transformou as redações, de fábricas em claustros. A desnecessidade do grito para se fazer ouvir e a perda da identificação do seu ofício com um barulhento trabalho braçal mudou o caráter do jornalista. Se para melhor ou para pior, é discutível.

Defendo, sem muita convicção, a tese de que a mudança da máquina de escrever para o computador também determinou uma migração da esquerda para a direita nas redações brasileiras. Se hoje não vale mais a velha máxima de que jornalista era de esquerda até o nível de redator chefe e de direita daí para cima, a culpa é da informatização. A nova direita é filha do silêncio.

Mas é no futuro que a troca do bom preto no branco pelo impulso eletrônico e o texto virtual fará a maior confusão.

A internet está cheia de textos apócrifos, inclusive alguns atribuídos a mim pelos quais recebo xingamentos (e tento explicar que não são meus) e elogios (que aceito, resignado), contra os quais nada pode ser feito e que, desconfio, sobreviverão enquanto tudo que os pobres autores deixarem feito por meios obsoletos virará cinza e será esquecido. Nossa posteridade será eletrônica e, do jeito que vai, será fatalmente de outro.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Jorge Luis Borges: Bloomsday


Bloomsday


Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível 
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente,
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo.
Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu, 
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

(Cambridge, 1968)

Fonte: Poesia, de Jorge Luis Borges. Editora Companhia das Letras, 2009. Tradução de Josely Vianna Baptista.

domingo, 23 de setembro de 2012

HAMLET




 
“Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos”
Yorgos Seferis


Acordo com esta cabeça
com estes buracos no lugar dos olhos
e o seu silêncio pesa-me nas mãos
acordo todas as manhãs
e o dilema e as perguntas
pesam-me no espírito
Será mais nobre sofrer na alma, não
pegar em armas
ou sofrer os dentes do destino?
A cada palavra um eco vem
que se perde a caminho de nada
dentro desta caveira, sem servidão
indomável, ninguém.


22/9/2012


© J.T.Parreira

sábado, 22 de setembro de 2012

Bloomsday Confraria



Bloomsday Confraria

Aos amigos de perto e muito longe, homens sem nau.

Ocidental humana Fênix,
Coração do Cânon,
basilar arquétipo, herói fundacional
- ULISSES: renasça

Arme, avatar de Prometeu, um grande navio e eu com prazer
deixarei tudo e o tripularei contigo
e tenho mais 32 amigos
de oito pátrias e de todas as profissões,
homens cuja cordata vida é a secreta espera de um Sinal
e que irão aonde você for, aonde as Parcas nos guiarem
olvidaremos de bom grado nossas mulheres e memórias
de Ítaca, Nova Iorque ou Beirute
abandonaremos nossos antigos nomes,
adotaremos um único coletivo nome: LÁZARO

Iremos contigo por onde mares, Odisseu
para o próprio e reverso coração da alteridade
iremos, pois de há muito já não suportamos

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

THOR ODINSON



THOR ODINSON

URSS, 1941

Para Rui Miguel Duarte

Noturno, nigromante irmão
tua blitzkrieg, tua encouraçada traição
 rompe sobre meus pântanos gelados,
minhas extensões de
desconsolo e sesmarias de cismas

- Eia!, antigo amigo: acelere vossa marcha
de antiterno anticristo
eu já incendiei meus celeiros
para iluminar a chegada de teu cortejo
já arregimentei minhas crianças
para fábricas e fronts...
Expandi minhas aberturas
como uma cortesã, para saciar
com meu rubro (abr)aço
a solidão de teus soldados

Filho de Ymir, meu meio-irmão
traga célere-impávido
teu peito ávido
até o aguilhão forjado
de meu sangue congelado,
curvada Foice, meu estendido
punhal de frio.

Loki meu irmão,
fabulário de ardis, vem:
traga a tepidez mumificada de teu rosto
de encontro ao trovão de meu Martelo.

Ao que vencer, Midgard.

Este poema deveria ter entrado no livro Poemas da Guerra de Inverno, mas seu rascunho acabou ficando 'perdido' no bloco de notas de meu telefone celular, e só agora o reencontrei e pude trabalhá-lo melhor. Ofereço-o ao amigo Rui Miguel Duarte, entusiasta de primeira hora de meus poemas de guerra. Utilizei as conhecidas personagens da Mitologia Nórdica para configurar alemães e soviéticos. Loki, filho do Gigante do Gelo Ymir, foi adotado por Odin, pai do deus do trovão, Thor, tornando-se assim meio-irmão deste, no reino celestial de Asgard. Com o tempo, revelou sua face ardilosa, traindo seu irmão. 'Midgard' é o que chamamos de planeta Terra... Quanto à metáfora da Foice e do Martelo, está por demais patente, mas cabe lembrar aos muito muito jovens leitores que eram (são) símbolos do Comunismo.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Ilha de Deleuze

'O Refúgio', Félix Nussbaum

Escrevi esta pequena série de poemas minimalistas inspirado pelo texto de Gilles Deleuze, 'Causas e Razões das Ilhas Desertas', publicado há poucos dias aqui mesmo neste blog (leia o texto AQUI).

A Ilha de Deleuze


I
Devoro a lua,
a lua devora-me:
quedamo-nos
ilhas,
fomes.


II
Deserta(da) Ilha,
refundação da Realidade:
re-realidade,
ilha transprimal


III
De antropoflorescer
quasimpossível, pedregoso,
pedral: 
rocha, rock, roca:
Ilha das Rocas,
Distância.


IV
Ovo Cósmico da anti-
candura, sequestro
de Ganimedes, 
Graal de chão:
não-Adão, Noé,
fato e mito e pai & status
da (re)fundação do Humano.


V
Ilha:
Supressão.


VI
Meu coração, mimodrama d'ilha,
pergaminho de sagas:
compartilho tua fome,
 - Inadequação.


VII
Ilha: face oculta
da lua, ilha.
Asa de água, quilha.
Ilha, quilha do homem:
Espada.

Ilha-deserta-ilha:

Espada-de-habitar.
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