sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ALBATROZ



Já nem viaja, olha
talvez seja uma bandeja de cristal o vento
em que o albatroz flutua
talvez sinta medo quando
uma nuvem lhe rouba do sol
o derradeiro ramo
Mas continua, continua
com a volúpia do ar a alisar as asas
já pouco falta para o Pólo, onde
o topo do mundo é um dia branco.

 
31/8/2012
© J.T.Parreira

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Hino Combatente


Hino Combatente

Antes achei ouvir a voz de minha mãe;
Depois acreditei ser a mi
nha esposa a cantar.
Que magia e espanto serão esses, Capitão?
Alguém canta um hino que a tudo perpassa.
Alguém canta uma canção com voz de muitas águas,
Mas não o posso divisar; o hino vem
De dentro da escuridão e da bruma,
vem de todas as direções.

Capitão, quem será esta que chama?
Este dulçor de hino combatente, que
A um tempo pacifica e excita,
Quem o profere, qual será seu objetivo?
Será esta então a música das esferas,
O sussurrar de Afrodite?
Então a Escuridão tem um canto,
Então este brado de sedas é o seu chamado?
Capitão? Senhor, pode me ouvir?
Ulisses!? Ulisses?

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

NÃO VOLTO PARA ÍTACA

NÃO VOLTO PARA ÍTACA

Ἄλλα δὲν ἔχει νὰ σὲ δώσει πιά. 
“Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te”
in “Ítaca”, de Konstantinos Kavafis (trad. de Jorge de Sena)

não volto para Ítaca
não encontro o caminho
e se os pretendentes ocuparam
o trono? ou já não haja peixes
que se cheguem à mão das crianças
quando estas dão uns pequenos passos
nas águas das praias mornas?

já não há velhos imersos à sombra das árvores
a jogarem ao dominó, e lançando
piropos às jovens que passam
devagar de corpos de palmeira
nem há águias que façam ninho nas falésias
de Ítaca terão partido para a pátria dos Lestrígones?
lá os picos são mais altaneiros

ouvi das sereias que finalmente, os filhos
de Cila e Caríbdis invadiram Ítaca e lá impuseram a lei
mas tenho lá meu querido pai, Laertes
a minha Penélope, meu sol no zénite
e meu pequeno Telémaco — agora já adulto
não os posso deixar lá, sós
mas como destruíram de Ítaca
os portos e os barcos
só lhes posso pedir que venham
a nado até ao meu navio
bastar-me-á lançar a âncora, embora a placa continental
de Ítaca desça a pique até aos abismos

já não volto para Ítaca
ouvi que falam e escrevem lá
agora uma língua estrangeira — não, não é a dos Feaces
é de uma potência ascendente, o Púnico,
já antes ocupavam a Sicília, mas como não previ eu
o herói barbudo dos engenhos sem número,
que se lhes não estreitaria a ambição
o reino de Siracusa?

a ágora de Ítaca está despida de gente
já para lá não volto
para onde quer que eu vá,

é Ítaca o cristal dos meus olhos
por isso rumo para Olissipo

Rui Miguel Duarte
27/08/12

O DRAMA DE CALLAS



A minha voz cinge as rosas
e engrandece
o ouro das harpas dos anjos, não
não saem palavras, mas rouxinóis
A minha voz engrandece o Senhor
do silêncio, que encosta a sua mão
e descansa nela o rosto aurifulgente
O meu cântico engrandece-Te
cada ária é uma despedida
da argila de que é feita
a brancura frágil do meu corpo.
 
 
18/8/2012
© J.T.Parreira

domingo, 26 de agosto de 2012

Dois poemas de Francisco Carlos Machado


  
 IV
  
Madrugada...
Uma voz súbita vinda de outro quarto,
me aconselha:
- Vai dormir rapaz,
isso não tem futuro.
Calo-me. O que hei de fazer?
Não me existe sono
e a poesia se revela a mim.



Um Pinheiro

Cresce dentro de mim
um pinheiro:
calmo, incógnito, fugaz.
Encovado entre artérias,
suas raízes espalham-se
em cada veia do meu corpo.
Alimentando-se da seiva criada
e formada no sistema de emoções. 
Fixando assim, uma existência profunda,
no lirismo mortal e sensível da minha alma.
                         
Esse pinheiro, rusticamente me ocupa,
declarando que não mais a mim pertenço.
Que seu tronco e galhos, suas folhas pontiagudas,
formará milenar paisagem natalícia 
na geografia vital das experiências da existência.
Renegando ou não a força simples e poderosa
que o faz crescer altívolo dentro de mim.

Verasmente milenar?
Tornar-se-á milenar esse pinheiro em mim?
Suportaria o mistério das ventanias vindas constantes,
ameaçando sua ascensão e vitalidade?
As mudanças súbitas e excêntricas
de humores circundantes nas artérias?
E as diferenças latentes, agitações perturbadoras
dos ofícios diurnais e silenciosos das noites?

Um pinheiro, em um dia vitalício
foi encovado dentro de mim.
Não em um canto, mas no meu coração.
Para contar histórias, derramar lágrimas apreensivas,
saudosistas e melancólicas.  
Produzindo pinhos de poesia, felicidades e renúncias. 
Pregando profundo que nunca se vive sozinho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

BALADE POUR FORT VAUX

(à la mémoire de l’épisode du Fort Vaux 1 à 7 juin 1916, bataille de Verdun)

Cette semaine là il a plu
il a plu sur les casques des hommes
il a plu sur leurs pieds
lorsque toutes les nuages conjurèrent
d’écraser la terre
écrasèrent leurs poumons
leur air leurs excréments
il a plu et cette pluie
fendilla leurs gueules
ils étaient des taupes démons
des galeries Pandore serrée dans sa boite

qui leur relâchera leurs épaules
de telle masse de montagne ?

quelle pluie qui leur
sécha toute l’eau
quelle pluie qui leur
écrase les cendres
qui leur lava l’oubli

sacré juin !
il n’y aura plus de juin depuis juin

Rui Miguel Duarte
23/08/12




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alguém que vale a pena conhecer





Levava uma vida generosa
paciente
desprevenida do dia de amanhã
como as aves e os lírios
a Voz, no entanto, quando abria
rasgos profundos no silêncio
possuia a autoridade
do dia antes
do princípio de toda a Criação.


20/8/2012


© J.T.Parreira
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