sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os barcos de Inhambane





Velas arriadas, remos
descansando o gume
 

os barcos ao sol a secar as águas
e o peixe
é um cheiro sem a cor
nas redes

Então o pôr-do-sol
derrama mel na noite.

17/8/2012

 © J.T.Parreira

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Antologia da Poesia Cristã Universal em ebook grátis



Em 2008, trouxemos a lume a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, reunindo textos de 80 poetas do Brasil, Portugal e África lusófona, de Camões aos dias atuais. Já naquele momento, durante minhas pesquisas, ficou patente tanto a inexplicável lacuna bibliográfica, a ausência de obras correlatas em nossa literatura, como também a necessidade de empreender, além da referida antologia lusófona, trabalho ainda mais desafiador e necessário: uma Antologia da Poesia Cristã Universal, compilando dessa vez o melhor da poesia cristã de todo o mundo. Mas confesso que fui adiando e adiando tal empresa, por sabê-la demorada e demandar um esforço terrível, hercúleo. Mas ao iniciarmos o ano de 2012, senti enfim que era tempo, e mergulhei de corpo e alma no trabalho, voltando a ser frequentador habitué da Biblioteca Nacional e do Real Gabinete Português de Leitura, adquirindo livros, ‘desossando’ sites e blogs literários de toda a internet...

O resultado do trabalho está aqui: as 235 páginas deste livro congregam textos de 110 autores, nomes capitais de suas literaturas nacionais. Pode-se dizer, grosso modo, que este livro inicia-se em Aurélio Prudêncio, primeiro grande poeta da cristandade, indo até Ernesto Cardenal, talvez o mais importante poeta vivo da Latinoamérica. Os textos avançam desde os primórdios da poesia cristã latina, passando por versos de pais da igreja, das três maiores epopeias cristãs (A Divina Comédia, a Jerusalém Libertada e o Paraíso Perdido), e indo a períodos em que a poesia do cristianismo atingiu alguns de seus ápices, como por exemplo durante o Siglo de Oro espanhol, com os metafísicos ingleses, e na poesia cristã francesa do século XX.

Ao proceder à leitura, você talvez diga que este livro bem que merecia uma edição impressa – sim, concordo com você, leitor, e com meus amigos que tomaram conhecimento deste projeto - mas merece ainda mais ser compartilhado com quantos for possível, da melhor, mais simples e mais rápida maneira possível, como a própria Boa-Nova de Cristo deve ser compartilhada. E assim o faço, publicando este livro gratuitamente na internet, pois acredito piamente em algo: conhecimento é conhecimento compartilhado. O mais é egoísmo e cabala. Depois pode-se tentar ou não uma edição impressa, para contemplar aqueles ainda muitos que não tem acesso, entendimento ou mesmo prazer em ler em computadores e dispositivos móveis. Mas o principal está feito, o livro está publicado, e espero que uma pequena, mas antiga e significativa lacuna em nossa bibliografia - seja no tocante especificamente à literatura cristã, mas também e de uma maneira ampla para todo o estudo da literatura em si - seja sanada com esta humilde obra, de infelizmente tão poucos paralelos. E que ela possa vir a inspirar autor mais capacitado a encetar obra mais prolífica e abrangente, para enriquecimento da literatura cristã em nossa língua, pois como se diz no livro de Josué 13:1, “...e ainda muita terra ficou por ser conquistada”, e os dois mil anos de cristianismo trouxeram a lume muito, mas muito mais tesouros do que estas singulares joias que vão aqui coligidas.

E que você possa, amado leitor, além de desfrutar da leitura deste livro, compartilhá-lo livremente com seus amigos, leitores e contatos.

Ao Senhor seja dada toda a glória.

Sammis Reachers

Para baixar o livro, CLIQUE AQUI.

Para ler o livro online, CLIQUE AQUI.

*Caso tenha dificuldade em fazer o download, solicite-me o envio por e-mail: sammisreachers@ig.com.br

Listagem dos autores antologiados, por ordem de entrada:
Gregório de Nazianzo (o Teólogo) - Aurélio Prudêncio - Agostinho de Hipona - Ávito (Aventino) - Agatias Escolástico - Gregório de Narek - Francisco de Assis - Gertrudes de Helfta - Dante Alighieri - Francesco Petrarca - John Lydgate - Michelangelo Buonarroti - Martinho Lutero - Vittoria Collona - Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus - Pierre de Ronsard - Frei Luis de León - Baltazar de Alcázar - Francisco de Aldana - João da Cruz - Torquato Tasso - Miguel de Cervantes - Agrippa d’Aubigné - Balassi Bálint - François Malherbe - Luis de Góngora - Lope de Vega - John Donne - Francisco de Quevedo - Francisco López de Zárate - Juan de Tassis - Pedro Soto de Rojas - Dirk Rafaelsz Camphuysen - George Herbert - Francis Quarles - Autor espanhol desconhecido - Calderón de la Barca - Gabriel Bocángel - Pierre Corneille - Paul Gerhardt - John Milton - Richard Crashaw - Andreas Gryphius - Henry Vaughan – Moliére - Jean Racine - Edward Taylor - Madame Guyon - John e Charles Wesley - Thomas Gray - Mathias Claudius – Goethe - William Blake - Friedrich Holderlin - Juan Nicasio Gallego - Achim Von Arnim - Marceline Desbordes-Valmore - Ludwig Uhland - Lorde Byron - Friedrich Rückert - Alphonse de Lamartine - Theodor Körner - Alfred de Vigny - Heinrich Heine - Aleksandr Pushkin - Vítor Hugo - Eduard Mörike - Elizabeth Barret Browning - Henry Wadsworth Longfellow - Giuseppe Giusti - Emily Dickinson - Paul Heyse - José-Maria de Heredia - Gerard Manley Hopkins - Paul Verlaine - Erik Axel Karlfeldt - Miguel de Unamuno - Paul Claudel - W. B. Yeats - Silvano do Monte Athos - Rubén Darío - Francis Jammes - Amado Nervo - Charles Péguy - Gertrud Von Le Fort - Oscar Lubcz Milosz - Juan Ramón Jiménez - Jules Supervielle - D. H. Lawrence - Joyce Kilmer - Pierre Jean Jouve - T.S. Eliot - Gabriela Mistral - Ugo Betti - César Vallejo - Jorge Guillén - Lucian Blaga - Marià Manent - Dietrich Bonhoeffer - W. H. Auden - Leopoldo Panero - Luis Rosales – Melissanthi - Czeslaw Milosz - Francisco Matos Paoli - Denise Levertov - Carlos Bousoño - Jaime García Terrés - Ernesto Cardenal - Maria Victoria Atencia

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Desentrelaço





Entrelaço as palavras
de cada dia
no sussurro dos seus próprios ecos
mais tarde
no silêncio da noite
liberto-as
em direcção às estrelas.

 13/8/2012

Florbela Ribeiro ©

sábado, 11 de agosto de 2012

A Náusea


A Náusea

1942

Num espelho encardido afixado
Numa moldura Luís XIV
Vislumbro em seco recorte
o meu vazio e o vazio
De meu quarto, encardidos

Este charuto, este rosto cansado e míope
É então Jean-Paul Sartre?

Uma semana sem Simone, sem
Notícias, sem concluir uma página sequer
Sorvendo a maresia nauseante
De todo o absurdo, este, o Todo
Absorto em resistir, em construir
Um sentido dentro de uma Europa-
                                                       um-
                                                             quarto-
                                                                         frio

A Guerra freme mas me talha esta sensação
De que o tempo, inábil, esculpe os homens em tédio
Tentando forçar uma neutralidade artificial
Que não existe, não pode existir

Estamos aqui, um triálogo
Entre o Absurdo e o Ego e a Morte,
A Morte monologal


Hoje
ao descer para buscar a correspondência
Vi a filhinha do casal ao lado, os marroquinos
As crianças não costumam sorrir-me,
Mas havia,
Um sorriso constante-teimoso sempre no rosto dela,
Sempre
Como algo vermelho rompendo uma muralha

Por um instante, naquele momento-bouquet
eu vi cores caudalosas lampejarem
Nesta semana cinzenta.

Sammis Reachers
do livro Poemas da Guerra de Inverno

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PRECES OMNIVM MILITVM (oração de todos os soldados)

“Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão?”
Evangelhos segundo Mateus 7:9

Senhor um peixe te pedimos
e uma cobra nos deste
um pão te pedimos todos os dias
mesmo aquele pedaço que ficou no fundo da cesta
por terem sido esmigalhadas as bocas que o comeriam
e uma pedra de aço nos tritura os dentes
água te pedimos na hora em que as chamas
mais altas ardiam e corriam desenfreadas
pelas trincheiras mas aguardente nos deste
que o lume mais ateia servido num cantil
velho já cheio da urina dos que morreram

pedimos-te um coração, um coração
só que fosse que os nossos tambores
batesse mas no lugar dele
nos colocaste uma granada espoletada

— neste segundo eterno perguntamos-te:
não bastaria, Senhor, ter explodido,
antes do primeiro toque para a carga
antes de terem inventado
as eviscerações e o metal quente,

este nosso coração?

Rui Miguel Duarte
10/08/12

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O nascido Rei - Um poema de Joanyr de Oliveira


O nascido rei

“Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus?”
Mateus 2.2

O que é nascido Rei
habita o amaro silêncio
dos deserdados, dos infelizes.

O que é nascido Rei
visita as consciências,
afugenta-lhes o frio.

Curvem-se as frontes,
curvem-se os tronos
ao que é nascido Rei
e pelos campos dos séculos
estende a luz de seu reino.

O que é nascido Rei
colhe as pontas do grito,
seca as fontes de lágrimas.

O que é nascido Rei
já inaugurou claros rios
no corpo, dulcíssimas águas.

Estanquem-se os prantos,
escondam-se as sombras.
O que é nascido Rei
pelos campos dos séculos
estende a luz de seu reino.

de Canção ao Filho do Homem

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CABEÇA PARTIDA

saxo cere comminuit brum
Énio (poeta latino 239-139 a.C.)

com uma pedra esmigalhou-lhe a cabeça
com uma pedra esmigalhou-lhe a ca be ça
com uma pedra a ca esmigalhou-lhe be ça
com uma pedra a ca be esmigalhou-lhe ça
a ca com uma pedra be esmigalhou-lhe ça

Rui Miguel Duarte
3/08/12

O efeito da tmese está em Énio (cere…brum). Há outro verso em que escreve (no início) Massili…… tanas (no fim). Massilitanae (no acusativo Massilitanas) = de Massília, Marselha. Era a influência da chamada tmese homérica: palavras que poster
iormente seriam derivadas por prefixação eram em Homero separadas, prefixo para um lado, como advérbio ou preposição, e lexema vocabular para outro. Que o Énio tenha partido a cabeça (cerebrum) e a palavra Massilitanas, é interpretação errónea da tmese, que parte lexemas vocabulares, não dissecáveis. Mas como recurso poético é bem muito vanguardista, para um poeta arcaico.
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