terça-feira, 14 de agosto de 2012

Desentrelaço





Entrelaço as palavras
de cada dia
no sussurro dos seus próprios ecos
mais tarde
no silêncio da noite
liberto-as
em direcção às estrelas.

 13/8/2012

Florbela Ribeiro ©

sábado, 11 de agosto de 2012

A Náusea


A Náusea

1942

Num espelho encardido afixado
Numa moldura Luís XIV
Vislumbro em seco recorte
o meu vazio e o vazio
De meu quarto, encardidos

Este charuto, este rosto cansado e míope
É então Jean-Paul Sartre?

Uma semana sem Simone, sem
Notícias, sem concluir uma página sequer
Sorvendo a maresia nauseante
De todo o absurdo, este, o Todo
Absorto em resistir, em construir
Um sentido dentro de uma Europa-
                                                       um-
                                                             quarto-
                                                                         frio

A Guerra freme mas me talha esta sensação
De que o tempo, inábil, esculpe os homens em tédio
Tentando forçar uma neutralidade artificial
Que não existe, não pode existir

Estamos aqui, um triálogo
Entre o Absurdo e o Ego e a Morte,
A Morte monologal


Hoje
ao descer para buscar a correspondência
Vi a filhinha do casal ao lado, os marroquinos
As crianças não costumam sorrir-me,
Mas havia,
Um sorriso constante-teimoso sempre no rosto dela,
Sempre
Como algo vermelho rompendo uma muralha

Por um instante, naquele momento-bouquet
eu vi cores caudalosas lampejarem
Nesta semana cinzenta.

Sammis Reachers
do livro Poemas da Guerra de Inverno

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PRECES OMNIVM MILITVM (oração de todos os soldados)

“Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão?”
Evangelhos segundo Mateus 7:9

Senhor um peixe te pedimos
e uma cobra nos deste
um pão te pedimos todos os dias
mesmo aquele pedaço que ficou no fundo da cesta
por terem sido esmigalhadas as bocas que o comeriam
e uma pedra de aço nos tritura os dentes
água te pedimos na hora em que as chamas
mais altas ardiam e corriam desenfreadas
pelas trincheiras mas aguardente nos deste
que o lume mais ateia servido num cantil
velho já cheio da urina dos que morreram

pedimos-te um coração, um coração
só que fosse que os nossos tambores
batesse mas no lugar dele
nos colocaste uma granada espoletada

— neste segundo eterno perguntamos-te:
não bastaria, Senhor, ter explodido,
antes do primeiro toque para a carga
antes de terem inventado
as eviscerações e o metal quente,

este nosso coração?

Rui Miguel Duarte
10/08/12

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O nascido Rei - Um poema de Joanyr de Oliveira


O nascido rei

“Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus?”
Mateus 2.2

O que é nascido Rei
habita o amaro silêncio
dos deserdados, dos infelizes.

O que é nascido Rei
visita as consciências,
afugenta-lhes o frio.

Curvem-se as frontes,
curvem-se os tronos
ao que é nascido Rei
e pelos campos dos séculos
estende a luz de seu reino.

O que é nascido Rei
colhe as pontas do grito,
seca as fontes de lágrimas.

O que é nascido Rei
já inaugurou claros rios
no corpo, dulcíssimas águas.

Estanquem-se os prantos,
escondam-se as sombras.
O que é nascido Rei
pelos campos dos séculos
estende a luz de seu reino.

de Canção ao Filho do Homem

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CABEÇA PARTIDA

saxo cere comminuit brum
Énio (poeta latino 239-139 a.C.)

com uma pedra esmigalhou-lhe a cabeça
com uma pedra esmigalhou-lhe a ca be ça
com uma pedra a ca esmigalhou-lhe be ça
com uma pedra a ca be esmigalhou-lhe ça
a ca com uma pedra be esmigalhou-lhe ça

Rui Miguel Duarte
3/08/12

O efeito da tmese está em Énio (cere…brum). Há outro verso em que escreve (no início) Massili…… tanas (no fim). Massilitanae (no acusativo Massilitanas) = de Massília, Marselha. Era a influência da chamada tmese homérica: palavras que poster
iormente seriam derivadas por prefixação eram em Homero separadas, prefixo para um lado, como advérbio ou preposição, e lexema vocabular para outro. Que o Énio tenha partido a cabeça (cerebrum) e a palavra Massilitanas, é interpretação errónea da tmese, que parte lexemas vocabulares, não dissecáveis. Mas como recurso poético é bem muito vanguardista, para um poeta arcaico.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Regresso a Casa




E se eu implorar (...) que me liberteis,
devereis amarrar-me com mais cordas ainda”
Odisseia


O doce canto desnudando o coração

o desejo nu, bem amarrado ao mastro

Ulisses não podia

atirar às ondas de Sereias

os seus braços.


30/7/2012

© J.T.Parreira

Stalingrado


Stalingrado

1942/43

“Dia angélico e negro”
Giorgos Seferis

Dite
Capital do Inferno
Dite
A capital do Inferno
Dite
Esplendorosa

Dante
Dante mio capitano
Dante toque sua flauta
Para distrair-me enquanto
O médico amputa minhas pernas
Milton, fale-me de teu Deus
Milton my mermaid, dulçor de sereia
Por favor acompanhe a melodia de Dante
Cante contra esta anti-aurora,
cante

Dante, Milton
Ombreiem-me
Deem-me as mãos
Pois não posso mais andar
Tragam-me o cantil de vinho do Porto,
Balas para o fuzil
Comamos e bebamos,
Pois amanhã morreremos

Dite, Cidade das Trevas
Um milhão de mortos
Pavimentando suas ruas

Três cavaleiros cruzam teu perímetro
Se dominasse a língua das metralhas
E do morteiro,
Rogaria um cessar-fogo bem ligeiro

Tenho duas irmãs bonitas
E estamos no dia mais negro
Da mais negra das guerras:
Se eu pudesse
Ofereceria minhas irmãs aos soldados
Para que parassem de disparar
Contra nós, mio capitano
E pudéssemos trafegar livres
Por sobre o roseiral de cadáveres

Camarada Stálin
Já estou morto, então
Não importa:
GRANDE CAMARADA FILHO DE UMA VACA
A culpa disso tudo é tua
Tua lentidão de asno teu fedor de asno

Que o inferno exista
Como existem Dante e Petrarca
E os olhos cegos de Milton
Que você queime em seus nove círculos,
Um século em cada, perfazendo
Um eterno circuito

Queime camarada, arda
Abraçado à tua mãe vaca
E ao Soviete Supremo

Sammis Reachers
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...