segunda-feira, 2 de julho de 2012

OS MURALISTAS




O muro
liberta-se da sua prisão

Quem passa pode dizer algo
ou entrar
na voracidade das cores
a fase actual dos muralistas
é sempre os olhos
de todos os que vêem

Alguém
e todos estão presentes
até as estações marcam
a crítica do tempo
sobre o muro.

© J.T.Parreira

segunda-feira, 25 de junho de 2012

As Barcas de Caronte


“navegam em mim barcos assustados”
Julio Saraiva

 
Algum dia
queimaremos as naves de Caronte
Por agora prossegue a obstinada mort
e
no alfabeto a letra com que vai
começar o nosso nome
Mas ainda o sangue se renova
nos ramos que partem do nosso coração
Algum dia estaremos sentados a ouvir
os anjos a tirar das suas harpas
os silêncios celestiais
Por agora, como Ulisses amarrados
ao mastro do navio, deixamos que as ondas
nos falem ao ouvido.



24/6/2012
© J.T.Parreira

quarta-feira, 20 de junho de 2012

TELEFONE PARA O SILÊNCIO









Para Sylvia Plath


Telefona-me para o silêncio
do meu coração, o som
baterá no que resta ainda dos cristais
nos recantos vazios da noite


Esta noite
preciso da luz apagada
da minha estrela


Chamo-te quando vem o silêncio
desse lado do fio, do frio
deste telefone público sem respostas
na profundidade dos teus ouvidos
caem as minhas chamadas
há um grito
no limite das sombras
a perder-se no abismo. 

19/6/2012

© J.T.Parreira

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ENTRE O MADEIRO E A LANÇA



Entre o madeiro e a lança
a cicatriz no peito, o espanto da água
no sangue
inocências misturadas
a lança no coração até ao infinito
do corpo lavrado
e a morte soluça
Entre o madeiro e a lança
o espírito
vai longe às mãos do Pai
e os lábios têm essa doçura
nas últimas palavras.

15/6/2012
© J.T.Parreira

quarta-feira, 13 de junho de 2012

BALADA PÁTRIA

“O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria…”
Camões, Os Lusíadas X 145

a pátria dorme em requebros de onda
espreguiçada na praia por não ter
mais navios que lhe alisem o dorso

a pátria tem pedras que não falam
nas quais ninguém escreve
porque alguém quebrou o martelo e o escopro
antes de a entregar ao gravador

a pátria acende-se com lamparinas
que rivalizam com o sol
queima balões e engenhos
enche a boca de favores

mas não nos dá o favor

Rui Miguel Duarte

11/06/12


Dois poemas de Raul Miranda


Ainda Há Espetáculo

Ainda há espetáculo
nos bastidores de meu rosto.
Ainda há resistência
nos músculos apodrecidos de meu corpo.
Ainda há perfume
nos caminhos percorridos em meu rastro.
Ainda há sustentáculo
nos versos escritos na pressa de meu tempo.
Ainda há ardência
nos braços estendidos da mulher de meu gosto.
Ainda há insistência
nos espetáculos de pouca freqüência
que esvaziam a platéia e meu rosto.


FATOR NEGATIVO NOS ARES

Tentarei escrever um poema
para afastar o tédio,
para amansar a dor,
para amamentar os segredos,
para destronar o medo.
Tentarei, não conseguirei, matar
os rótulos dourados do remédio,
os palácios odiados da fartura,
os bolsos cheios do patrão,
os impostos com fuzil na mão.
Procurarei por todos os cantos
um bocado de amor para os amantes,
uma revolta para os acomodados,
uma boca sem cadeados.

Do livro Novo Ar (Rio de Janeiro: Folhetim, 1976)

terça-feira, 12 de junho de 2012

A TENTAÇÃO

(Inédito)

Sobre a aridez sem referências
do deserto, o Filho do homem
falou com o frio da noite, espesso

frio como a escuridão sem lugares
onde encostar os olhos, falou
com o sol sem sombras
como o próprio Deus depois de plantar
o jardim, falou sozinho
até que Satan – não o de Dante
lhe pôs pedras no meio do caminho.

12/6/2012


 © J.T.Parreira
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