sábado, 12 de maio de 2012

FIAPOS DE PRIMAVERA


temperatura amena
nas pontas da brisa
com ameaças de frescura
sobre o rosto das árvores

a cada passo que dermos
talvez as nuvens abdiquem
um pouco o caminho
à passagem lesta
do sol

pelo menos assim podemos pedir
ao Deus do céu
que nos dê esse manto de luz
e o passeio no parque
com as crianças
de cada dia

Rui Miguel Duarte
12/05/12

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A médica que prescreve poesia na lida diária com a morte

Dores sem remédio
Um paciente alcoólatra, vítima de cirrose e câncer, com a pele tão amarelada a ponto de a estudante de medicina que foi visitá-lo fazer a comparação com a cor de um canário.
Muitos anos depois, ainda é no seu Antônio, o paciente que lhe coube entrevistar no Hospital Universitário (HU) da USP, que a médica Ana Claudia Quintana Arantes identifica o ponto de partida para sua trajetória na área decuidados paliativos - uma disciplina pouco difundida e que continua cercada por preconceitos no Brasil.
Angustiada porque seu Antônio não conseguia contar sua história - as dores eram grandes demais -, a então terceiranista da Faculdade de Medicina da USP procurou o professor para saber se havia algum remédio que pudesse aliviá-lo.
"Ele fez uma cara de irritado e disse: 'Eu já tinha dito que era um paciente terminal. Você sabe o que é um paciente terminal?' Eu disse que sim, mas que ele estava com dor. Aí o professor falou que não tinha nada para fazer", conta Ana Claudia.
"'Não? Ele está morrendo de dor. Não tem nada para aliviar a dor agora?' Aí ele respondeu que não, que se eu desse o remédio para dor o fígado não aguentaria. Eu perguntei: 'Mas você não está me dizendo que não tem mais jeito? Que diferença faz salvar o fígado dele porque não demos analgésico?' Bom, tomei uma baita bronca!"
Cuidados paliativos
É com base em histórias como essa que a médica acredita que sua opção pelos cuidados paliativos "veio pela dor". Aliás, diz, "a maior parte dos profissionais que trabalham com isso deve a escolha à vivência de uma situação difícil".
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos são uma abordagem que melhora a qualidade de vida do paciente e de sua família em caso de doenças que ameacem a continuidade da vida.
Eles incluem a avaliação e o controle de forma impecável não somente da dor, mas de todos os sintomas de natureza física, social, emocional e espiritual.
Em outras palavras, os cuidados paliativos focam o conforto e o bem-estar do paciente e dos familiares quando se sabe que a doença não responde mais aos tratamentos convencionais e levará ao desfecho inevitável.
Eles representam o contrário da obstinação terapêutica, em que todos os recursos tecnológicos são utilizados para manter a sobrevida - num quadro que, não raro, se traduz numa pessoa inconsciente cujas funções orgânicas só se sustentam porque ligadas a aparelhos.
É por essa razão que profissionais de várias correntes defendem que a obstinação terapêutica - ou distanásia - nada tem a ver com prolongamento da vida, mas sim com mero adiamento artificial da morte, causando ainda mais sofrimento ao paciente e à família.
Humanização aparente
Enquanto nos Estados Unidos existem mais de dois mil programas de cuidados paliativos, no Brasil eles são pouco mais de 30.
É bom, entretanto, não confundi-los com as estratégias de "humanização" apregoadas pelos grandes hospitais, alerta a médica.
"Humanização é aparência, uma coisa ligada ao discurso corporativo. Os cuidados paliativos trazem humanidade", defende. "Não se pode pensar num profissional da área que não seja uma pessoa muito boa no que faz. Tem que buscar o melhor em termos de formação, de conhecimento técnico e de atualização, mas tem que ter o coração envolvido."
"O estado de amorosidade do ser humano deveria se tornar algo como a temperatura ou o pH do sangue: perene, necessário ao bom funcionamento de todos os nossos sistemas, internos e externos," diz.
E Ana Claudia vai lançando suas sementes para tentar envolver mais corações. Formada em 1993, fez residência em Geriatria e Gerontologia no Hospital das Clínicas, pós-graduação em Intervenções em Luto pelo Instituto 4 Estações de Psicologia e especialização em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, na Inglaterra.
Em 2007, criou em São Paulo, ao lado de três colegas, a Casa do Cuidar, organização voltada para a prática e ensino de cuidados paliativos. "Está cheio de gente morrendo mal", justifica, e avisa: "quando chegar a minha vez, quero alguém que me cuide direito, porque eu vou dar trabalho".
Livro de poesias
Trabalho, por sinal, é o que não falta a esta mulher de 43 anos que se realimenta lendo e escrevendo. Seu blog prescreverpoesia.blogspot.com é a origem do livro de poemas Linhas Pares (Scortecci Editora, 2012), que Ana lança no próximo sábado, (12) de maio, a partir das 15 horas, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo).
O volume, ela assina como Claudia Quintana - poeta "tão mais doce e feliz do que a doutora Ana" -, numa apropriada coincidência de sobrenome com Mario Quintana, um de seus autores preferidos.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A DANÇA DE SALOMÉ




Valeu uma cabeça, o corpo
a sair dos véus, a luxúria
enlaçava os braços

nus dançando, os olhos
seduzindo a morte,
como poços negros
convidavam
ao prazer da carne
mais escondido.

Valeu uma cabeça, cada perna
a esgrimir com os desejos
como um florete frio.

Valeu uma cabeça, a bela
cabeleira a fustigar
o ar enlouquecido.

8/5/2012

 © J.T.Parreira

segunda-feira, 7 de maio de 2012

LUZ DO MUNDO

“… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante”
Jorge de Sena

Uma pequena luz igual
a todas as outras
e desigual de todas as outras
uma pequena luz que incendeia
todos os sóis
uma luz que apenas brilha
tal a vida que é extraída da chama

que insiste em brilhar
sobre o sopro azedo
dos que a não percebem
porque se vestiram de negritude fosca
da indiferença do mundo
e não sabem que língua
fala a luz a luz
em todas as línguas clara
e brilhantemente vertida
eng kléng Liicht schéint
lux parua lucet
luz que se não extingue
que se não dobra ante qualquer
vento

em todo o mundo luz é 
o foco firme do mundo

7/05/12


domingo, 6 de maio de 2012

Três poemas de Edmond Jabès



Por Ivo Barroso

O Egito produziu um grande poeta de expressão francesa: Edmond Jabès. Nascido no Cairo em 1912, teve de deixar seu país no início da II Guerra, por causa de suas origens judaicas. Com a crise do Suez em 1956, radicou-se na França no ano seguinte e em 1967 tornou-se cidadão francês. Faleceu em Paris em 1991. Em torno de sua poesia criou-se um verdadeiro cult: é hoje considerado um dos grandes poetas da língua francesa. Sua obra foi toda traduzida para o inglês por Rosmarie Waldrop e a maior parte é encontrada em espanhol e italiano. Tem um livro editado em Portugal. No Brasil, há traduções esparsas incluídas por Mário Laranjeira em Poetas da França Hoje (1945-1995), editado pela EDUSP. Outro de seus cultores brasileiros é Caio Meira, que o divulga na Internet. Jabès seria um caso semelhante ao de Apollinaire, Milosz e Cendrars não fosse o fato de sua poesia manter seus vínculos com sua terra natal: o deserto é seu tema recorrente, ao qual compara o homem em busca de si mesmo.


Canção do último menino judeu

Meu pai se enforcou na estrela,
minha mãe escorre com o rio,
minha mãe brilha,
meu pai é surdo,
na noite que me nega,
no dia que me destrói.
A pedra é leve.
O pão se assemelha ao pássaro
e eu o espreito a voar.
O sangue me cora nas faces.
Meus dentes buscam uma boca menos vazia
na terra ou na água,
no fogo.
O mundo é vermelho.
Todas as grades são lanças.
Os cavaleiros mortos galopam sempre
no meu sono e nos meus olhos.
No corpo destroçado do jardim perdido
uma rosa floriu, floriu a mão
da rosa que nunca apertarei.
Os cavaleiros da morte me levam.
Nasci para os amar.



Canção do estrangeiro

Estou à procura de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu-mesmo
quanto depois que o procuro. Tem meus olhos, minhas mãos
e todos os pensamentos iguais
aos destroços do tempo?
Época de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
torna-se a água gelada dos túmulos.
Mas, mais tarde, quem sabe mais tarde?
Uma menina canta recuando e a noite reina sobre as árvores,
pastora em meio das ovelhas.
Arrancai ao grão de sal a sede
que bebida alguma satisfaz.
Com as pedras, um mundo se desgasta
de ser, como eu, de parte alguma.

Chansons pour le repas de l’ogre (1943-1945)



A água

Antes, a água.
Depois, a água;
durante, sempre durante.
– Água do lago?
– Água do rio?
– Água do mar?
Nunca água sobre água.
Jamais água pela água;
mas água onde não há mais água;
mas água na memória morta da água.
Viver na morte viva
Entre a lembrança e o esquecimento da água,
Entre
A sede e a sede.
Água entre
Cerimônias.
A água se instala
e corre:
Fertilidade.
Sempre a água pela água.
Sempre água sobre água.
Abundância.
– O deserto foi minha terra.
O deserto é minha viagem, minha errância.
Sempre entre dois horizontes;
entre o horizonte e
os apelos de horizontes.
Além-fronteiras.
A areia brilha como água
Na sede inextinguível.
Tormento que a noite adormece.
Nossos passos fazem esguichar a sede.
Ausência.
– Água do lago?
– Água do rio?
– Água do mar?
Em breve há de vir a chuva
para lavar a alma dos mortos.
Deixai passar as sombras queimadas,
as manhãs das árvores sacrificadas.
Fumaça. Fumaça.

in http://www.dicta.com.br

quinta-feira, 3 de maio de 2012

SOBRE A MURALHA

“… em casa da prostituta, chamada Raab…

Josué, 2:1

cada olho da minha casa
dá para um dos lados da muralha

do lado de fora
corre um vento raso
aos murmúrios que ameaça
aplicar-se às trompetes da declaração
de guerra um vento que sobe
e penetra na minha casa até falar
às paredes com a promessa
que ela será para os projécteis
uma pedra firme no invisível

do lado de dentro chega-me
o pão e o valor do comércio
da minha vida
no chão do meu corpo
é o lado em que sou
por umas poucas horas
a estrela mais ascendente
e nas seguintes a mais cadente

de um lado chega vê-se
uma miragem no deserto
do outro conheço quanto deserto
há dentro da miragem

entre dentro e fora
da muralha de Jericó
oscila a minha casa
oscila dentro de mim

Rui Miguel Duarte
3/05/12

terça-feira, 1 de maio de 2012

NOTA TALVEZ POÉTICA




Já escrevi poemas em Paris e Nova Iorque e pus as datas
Mil novecentos e noventa e pouco, hoje
mais velho e mais humilde
escrevo em casa
e deixo a minha gata passear
sobre eles.

1/5/2012
© J.T.Parreira
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...