terça-feira, 10 de abril de 2012

O primeiro poema expressionista

Famoso poema, publicado em revista em 1911. De Jacob Van Hoddis . É considerado o primeiro expressionista.
Optamos por uma tradução a partir do inglês (com incontornável recurso ao dicionário de alemão), mas sem usar a rima, procurando pelo menos manter a dicção do verso com motivos expressionistas, adequada à visão irónica e grotesca desse movimento artístico da primeira década do Século XX.

 O Fim do Mundo (Weltende)


Um chapéu voa destapando um burguês.
Todo o ar ressoa como um grito.
Aterram os telhados e quebram-se em dois.
A costa- lê-se nos jornais-está cheia das marés.

A tempestade aí está, o tropel dos oceanos
desembarca e esmaga os grossos diques.
A constipação de muita gente vê-se no nariz,
e os comboios caem nos túneis.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

TAL QUAL UM GATO



 Um gato é um poema.
Jean Burden
 



É um peixe de prata flexível
quando passa sem silêncio
vento apenas
roçando as nossas pernas, é macio
como alguém em quem pensamos
é uma sombra
no movimento das duas consoantes
seja qual for a sua cor
por vezes como um poema
o olhar do gato toca
campainhas no nosso coração.

17/2/2012

J.T.Parreira

HOJE, PÁSCOA


“Iam a correr…”
Evangelho segundo João 20:4

hoje preferimos
deixar o sono dormindo na cama
e correr, correr ao túmulo
porque nos disseram que a morte
havia de si própria fugido

deixámos tudo até o peixe
fazer a sua faina nas brasas
e a fome arder só ao lume
e correr, correr ao túmulo
porque nos disseram que a pedra
havia desertado

hoje preferimos
saltar obstáculos
e mesmo pisar urtigas com ambos os pés nus
porque nos disseram que a vida
conquistara o vento

preferimos ao linho
molhado em aloés
antes molhar as frontes
com a água corrente da vertiginosa pressa
de chegar ao túmulo
o lugar de descansar
do tumulto o coração

9/04/12

sábado, 7 de abril de 2012

O QUE SE MOSTRA

“Depois mostrou-lhes as mãos…”
Evangelho segundo João 20:20

mostro-te as minhas mãos
as mãos que reconheces
pelo toque vazio dos pregos

estas mãos que aspergiram
os rios imortais entre os montes
mãos que dispersaram
no firmamento as poeiras
do tempo
inaugurando o ciclo das estações
debaixo da pulsação do sol
que criaram as notas musicais
para tu cantares
mãos que esculpiram os rostos
dos homens em madeira rara

mãos cujos dedos são finos
como os das aves
e cujas palmas a morte
pouco a pouco amarrotou
até à extinção total

mostro-te estas mãos
que beijaram os espinhos
e deles extraíram latejante
a rosa

Rui Miguel Duarte

7/04/12

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Haicai ( XXIV)


Duas botas descansam                            

Van Gogh agora                                     

Pinta corvos sobre as nuvens

6/4/2012

J.T.Parreira

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um poema de Jacques Prévert: Familiar




FAMILIAR
               
Tradução: Silviano Santiago

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele
                                      [ luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra
                                      [ os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.



via http://www.algumapoesia.com.br

segunda-feira, 2 de abril de 2012

VINTAGE



O corpo é um espanto na brancura
nu
o olhar se eleva à divindade da matéria
Nos anos vinte a nudez

era a da carne por baixo dos vestidos
e um subtil ardor nos olhos e na boca
um pasmo a espremer um Oh!
Escondido dos olhares
tudo se passava além do vidro.

1/4/2012


J.T.Parreira

("Vintage", fotografia de Robert Doisneau)
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