“en tinta púrpura
da prensa escorre o poema da vida”
Ramón Blanco
esmaga a uva
até lhe retirar a tinta no palato
os dedos contam as gotas
que escorrem devagar
ao batimento de cada raio de sol
enquanto a aranha tece
a mortalha para a mosca
as pipas e tonéis abrem-se
de espanto para a nota rubra
de frutos silvestres
que sairá da obra de desespero das suas mãos
então, o que esmagou e matou
no lagar, lugar em que são as promessas geradas,
é o que dá a vida aos homens
é o sangue, pelo qual navega
tudo quanto resgata
ao adormecimento dos lábios
e tece na língua um poema tinto
de final longo
Rui Miguel Duarte
1/04/12
sábado, 31 de março de 2012
A PRESSA DO CÂNTICO NEGRO DE JOSÉ RÉGIO
| José Régio escreveu versos nos quais é evidente o tempo poético. Vagaroso, no deslizar de alguns dos seus poemas mais conhecidos, triturou o tempo com repetições - «Toada de Portalegre»-, ou foi demasiadamente rápido, como nos primeiros versos de um dos poemas maiores da nossa língua - «Cântico Negro». Situado entre o presencismo intimista e uma espécie de neo-realismo com preocupações de ordem social, é, do meu ponto de vista, um poema estruturado entre a psicologia e a religião. Os poemas de Régio distinguem-se por isso mesmo, ficam entre a categoria telúrica e a religiosa. Com efeito, o poema «Cântico Negro», que marcou a recusa à imposição, ao assédio, pelos vistos insistente, do «Vem por aqui», é, sem dúvida, um desses em que o intimismo e a dúvida do poeta cede psicologicamente à pressão do telúrico, das raízes da terra, deslizando pelo religioso, mas com uma força e violência tais, que nos parece ter afastado Régio de toda a sua religiosidade. Assim o entendemos na without hope da apoteose dos versos finais do célebre poema: Não sei por onde vou. / Não sei para onde vou. /Sei que não vou por aí. Contudo, é no desenvolvimento contextual dos primeiros versos do poema em causa, que se acentua a pressa do poeta de Vila do Conde. Pressa em se afastar do ponto de viragem, no qual o assediam a entrar e em cujo caminho quase o obrigam a seguir, usando olhares doces, segundo a crítica do Poeta: Quando me dizem «vem por aqui!» Eu olho-os com olhos lassos, (...) E cruzo os braços, E nunca vou por ali. Não há elipses na linguagem, nem tautologias, regressos ao princípio, nestes seus versos, repetições tais como em «Portalegre cidade do Alto Alentejo». Eles fogem às pressões que rodeavam o poeta, resistem ao chamamento de quantos pareciam ter moralidade e ciência bastantes para o aconselhar. Este poema é, sobretudo, um poema de fuga, e fuga em frente. E o rasto que deixa é um claro desafio aos homens e uma espécie de pugna com o Divino, como a luta de Jacob com o Anjo no Vau de Jaboque. A pressa da fuga, detectamô-la no oitavo verso, por uma categoria gramatical tão simples quanto o comum advérbio de lugar. Veja-se a distinção e o tempo a fluir, o tempo que não se compadece com indecisões, no momento preciso em que o chamam: Vem por aqui ( por este lado); mas Régio continua a afastar-se da proposta, seguindo o seu próprio caminho, não reconhecendo autoridade àqueles que o assediam, e afirma, já distante: E nunca vou por ali. Entre o «aqui» e o «ali» existem um universo e um tempo de coisas indizíveis. Ou apenas um minuto de permanente rebeldia poética. (c) J.T.Parreira in www.poetasalutor.blogspot.com |
sexta-feira, 30 de março de 2012
O CÃO, DE GIACOMETTI
Sou eu. Um dia me vi na rua assim. Um cão.Alberto Giacometti
O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas
O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo
O cão cabisbaixo, indiferente
a alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos
O corpo leva as patas joviais.
14/2/2009
J.T.Parreira
Túpac Amaru
Túpac Amaru
“Túpac Amaru, sol vencido,
tua glória desgarrada
sabe como o céu no mar
uma luz desaparecida.”
Pablo Neruda, Canto Geral
Neruda, cicatrizes nas alamedas de quartzo,
Um funeral nas pétalas
Funeral de insetos tugidos nas pétalas
Da flor de turmalina da árvore da vida
Sephirot
Tepidez, trovão, máscaras araucárias
Neruda, nunca beijei uma colombiana, quando
Prestes afogaram-me no Amazonas,
Meu obscuro Nilo
Eles vão sair, vão à missa na matriz
Formam um lindo casal
Como a noite e o punhal
Interpolação de asas, secreto voo,
Queda, Neruda, Neruda,
.
Pirata espanhol, pirata francês,
Duro pirata inglês
Pirata português e holandês
Queria dar-vos a morte
Em vosso berço, abrir
Com meu punhal noturno
Os ventres purulentos de tuas raparigas de leite
Romper o telhado sombreado
De vossas casas maternas
Mas são vocês que matam-nos em nosso berço de palha,
Vocês vêm para transformar-nos em Adão.
Neruda, Neruda,
Hoje eu planto coca
Para alinhavar a sanha dos piratas:
Vingo-nos sem alabardas:
Empalo
Seus sonhos em pedras
E linhas dilacerantes de pó.
quarta-feira, 28 de março de 2012
A história preliminar de José
Chamava-se
José
mais tarde do Egipto
Vivia dos sonhos mais profundos
que lhe subiam aos olhos
viveu em tendas e à beira
do poço pensou que os irmãos
o poupariam -
mas os sonhos de José incomodavam
José
olhava-se nos sonhos
como Narciso no seu espelho de água
E assim o silêncio do poço
o engoliu. Antes do Egipto
viveu
do ar e de gritos
que o céu apenas espelhava.
28/3/2012
Poema Inédito de J.T.Parreira
terça-feira, 27 de março de 2012
OUTRA JERUSALÉM
“Construam casas para nelas habitarem; plantem hortas e comam do seu fruto.”
Jeremias 29:5
disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem
disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria
e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém
26/03/12
Jeremias 29:5
disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem
disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria
e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém
26/03/12
EVA
Uma mulher
é sempre um ruído
um perder-se
uma solução
para nada
falsa fragilidade aracnocoisa
sorvedora
escuridão prendada aveludado
soco
maçã para quem preferia não ter fome
enviada
Sammis Reachers
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