Auschwitz, ainda
não se deve dizer
deve-se
não se pode dizer
deve-se
o que não se pode dizer
deve-se
ora eu
uivo
au au au
aus ausch ausz
aux aux aux
ainda não
não
nãonãonão
não que
nãoquenão
nocauteou
austchwitzainda
ainda(que) auschwitz
Tradução de Anderson Braga Horta
in Revista Brasileira #57. AQUI.
domingo, 11 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
A Reprodução
Inédito de J.T.Parreira
“Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda”
Murilo Mendes
Encostada, sem violência, na parede -
nem assistiu sequer à rudeza do prego
a Gioconda
com um mistério no fundo dos olhos
e o sorriso gasto pelo sol
e pelos tais ensaios sobre arte, a Gioconda
assiste à parte
às conversas que envelhecem na família.
às conversas que envelhecem na família.
8/3/2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
Século VII a.C.: Um poema de Alceu
A Espada e o Poeta
Eu coroarei de mirto a minha espada,
Como a de Harmódio honrada,
E como a de Aristógiton, o forte,
Quando ao sevo tirano deram morte,
E Atenas libertada
Foi à igualdade antiga restaurada.
Tu não morreste, Harmódio, oh não!tu gozas
Nessas ilhas ditosas
Serena vida cos heróis que aí moram,
E onde, cremos, demoram
Diomedes, o valente,
E Aquiles, o veloz, eternamente.
De mirto a minha espada
Trarei como Aristógiton c'roada,
E como Harmódio, o forte,
Que à vingança reserva,
Quando, nos sacrifícios de Minerva,
Ao tirano Hiparco deram morte.
Em prezada memória
Viverá para sempre, eternamente,
Harmódio, a tua glória,
E a tua, Aristógiton valente,
Que o tirano matastes
E à liberta cidade
O usurpado direito restaurastes
Da primeira igualdade.
Alceu (poeta e político grego do séc. VII A.C.)
Tradução de Almeida Garret
in O Livro de Ouro da Poesia Universal - Org. Ary de Mesquita (1988, Ediouro)
terça-feira, 6 de março de 2012
SEGREDO
“Uma árvore tem sempre esperança; mesmo que a cortem, brota de novo e não pára de produzir rebentos.”
Job 14:7
deixa-me contar-te,
criança velha,
o segredo da árvore
sempre de pé, mesmo quando
lhe deitam o tronco
e os ramos são separados do sol
mesmo quando suspendem
o abraço com o qual te consolavam
vegetal, e por isso
tão rente à terra
criança velha,
da árvore eis o segredo:
a raiz sempre permanece de pé,
apegada à fertilidade
do silêncio
6/03/12
segunda-feira, 5 de março de 2012
O Silêncio de Deus

Inédito de J.T.Parreira
O silêncio de Deus é ouro
nos céus, por vezes, aqui na terrapassamos pelo silêncio divino
como pelo escuro, passamos depressa
e não nos surpreende a claridade
das coisas onde Deus detém os olhos
levamos anos
a entender esse silêncio
por exemplo o que levou
minutos a cair do lado esquerdo do Seu Filho
o silêncio
que as pálpebras divinas, fechadas
demoraram, o silêncio de Deus
é como Deus, é como o papel de veludo
amarrotado dos altos oceanos.
5/3/2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Vladimir Maiakóvski: A SIERGUÉI IESSIÊNIN
A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Tradução de Haroldo de Campos
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto" -
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto" -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin.
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio!
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta!
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin.
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio!
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta!
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra";
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra";
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
quinta-feira, 1 de março de 2012
NEVA EM VARSÓVIA
(a propósito de uma cena do filme O Pianista de Roman Polanski)
neva em Varsóvia
enquanto o fugitivo passa
com pés de pluma sobre as teclas
do piano dedo a dedo
sobre a cabeça enegrecida
que o chapéu esconde,
o fugitivo ao de leve entre os bicos
dos corvos e o piano é
à cautela uma labareda
sobre a cabeça enegrecida
mas mais negra ainda é a neve
1/03/12
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