sábado, 21 de janeiro de 2012
Dois poemas da juventude
Equívocos
Perdi o poema que vinha
eu sangrei meu seio
supus primavera na esquina
era algazarra de um tiroteio
e eu lá de sonhos abertos
com os olhos intoxicados e quietos
na solidão central de seu meio
Apologia D'Eu
Eu também
vendo balas
na rua
eu também
finjo não saber nada
disso
eu abro uma guerra
com uma espada
em seu peito
eu fecho a guerra
com um único beijo
minha noite
tem mais lobos
Dois poemas 'recuperados' de antigas edições do Livro da Tribo
Sammis Reachers
Pastoral para a Greenwich Village

Crescendo como anjos sob os telhados
jovens anjos com a vitalidade
dos cinquenta anos, com a luz
dos seus poemas, da atmosfera da música
de jazz, os boémios da Village
os sem-abrigo da humanidade
ouvem as portas a fecharem-se
nas suas costas, e resignam-se à beleza
da sua solidão e se dobram o corpo
é pelo peso das próprias asas.
8/9/2011
(c) J.T.Parreira
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A vida íntima dos filósofos, por Pierre A. Riffard
Recentemente, Pierre A. Riffard publicou ensaios Les philosophes: vie intime [“Os filósofos: vida íntima”], 2004 ; Philosophie matin, midi et soir [“Filosofia manhã, tarde e noite”], 2006), na “Presses Universitaires de France”, consagrados ao modo de vida dos filósofos, de um ponto de vista psicológico e sociológico. Na obra Les philosophes: vie intime, chama a atenção sobre determinados traços humanos do filósofo, que geralmente passam em silêncio, de Thales a Sartre[7]:
- uma desvantagem: ser mulher Numa lista oficial de 305 filósofos clássicos, encontramos apenas uma mulher (Hannah Arendt) em 1991.
- uma ocasião: ser expatriado. Mais de 13% dos filósofos nasceram no estrangeiro, nas colónias. Mais de 54% dos filósofos viveram no estrangeiro. Aristóteles era imigrante da Macedônia.
- uma vantagem: ser órfão. 68% dos grandes filósofos são órfãos aos cinco anos.
- sem precocidade. Em média estatística, a primeira obra é publicada aos 27 anos, a obra-prima aos 42 anos. "Crítica da razão pura": Kant tem 57 anos.
- a aceitação da língua dominante a nível cultural. É necessário fazer-se entender numa língua erudita. 23% dos grandes filósofos falaram latim (até 1889), 21% grego e francês, 13% inglês (esta língua torna-se dominante).
- em alguns casos a recusa da religião ideologicamente dominante. Entramos na filosofia como na Máfia, através de um assassinato, o do deus da época, das crenças do momento. 51% dos grandes filósofos são cristãos, 27% não têm religião, 19% são pagãos.
- inaptidão para o amor A exaltação amorosa não entra num programa filosófico (excepto para Auguste Comte).
- riscos de loucura. Um bom filósofo domina as suas loucuras: melancolia de Heráclito, maníaco-depressão de Auguste Comte, ansiedade de Hegel, paranóia de Jean-Jacques Rousseau, meningoencefalite sifilítica de Nietzsche...
- sucessos sobre a doença. Muitos filósofos sofrem, mas ultrapassam a sua nefrite (Epicuro), os seus cálculos renais (Montaigne), a sua paralisia (Blaise Pascal, Feyerabend), a sua ambliopia (Demócrito,Plotino, Condillac, Cournot, Gonseth)...
- documentos de identidade obscuros. Os filósofos brincam muito com os nomes de autor, o anonimato, etc. Descartes e Kierkegaard caminham mascarados.
- documentos profissionais confusos. 43,7% dos filósofos foram professores, os restantes religiosos (20,9%), políticos (9,3%), sem profissão (4,9%), médicos (4%), advogados ou juristas (3,1%), editores ou jornalistas (3,1%), nenhum ou quase nenhum artesão (Henry David Thoreau) ou camponês (Gustave Thibon) ou marinheiro (Michel Serres).
- pés! Aristotélico = περιπατητικός, peripatético = caminhante. Nietzsche: “Só os pensamentos que surgem em movimento têm valor.” [8]
- uma cabeça, é claro (uma cabeça ou duas, ou três, se o filósofo muda de filosofia como Schelling, Wittgenstein, Carnap). Um grande filósofo evidencia-se no mundo por uma vasta memória semântica pessoal e uma obsessão metafísica universal.
- “A filosofia é como um quebra-nozes. Algumas pessoas só conseguem entalar os dedos, os profissionais manuseiam-no em todos os sentidos, e em seguida - ainda assim - encontramos pessoas que o utilizam para abrir estas maravilhosas nozes que são os pensamentos. Filosofar, é bom; filosofar-se a si próprio, é melhor. Filosofar-se a si próprio sobre o quotidiano, sobre o banal, todos os dias, é o melhor.”[9]
“A visão que Pierre Riffard tem do filósofo é a de um ser puxado por solicitações contrárias: análise e sintese, o singular e o universal, certeza e dúvida” (“La vision qu'a Pierre Riffard du philosophe est celle d'un être tiraillé par des sollicitations contraires : analyse et synthèse, le singulier et l'universel, certitude et doute”) -Thomas Régnier.[10]
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Cântico de Maria Madalena
Poema inédito de J.T.Parreira
Eu vi-te na flor da manhã
na luz dispersa pelas primeiras horas
de domingo
Naquele segundo a pedra
pareceu-me transparente, o ar
um espelho que reflectia anjos
Eu vi os lençóis
arrumados no vórtice imóvel
do sepulcro
quando ia pousar ramos
de incenso sobre o corpo.
19-1-2012
CONFISSÃO
passei sobre as árvores
fiz-me familiar
da nudez áspera dos picos
transpus os ares de ilharga fria
mordi nos lábios
o sangue turvado
estendi os braços e até estes
quase me abandonaram
passei pelas entranhas do pesadelo
deixando uma rasto de vento
que teimava
em se incrustar nos pés
passei, febril, ferido
por salteadores da noite
para ao cabo de tudo ao cabo do mar
no orvalho da espuma
te encontrar
17/09/11
William Butler Yeats: Velejando para Bizâncio
VIAJANDO PARA BIZÂNCIO
Tradução: Augusto de Campos
Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.
Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
em busca da cidade santa de Bizâncio.
Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.
Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa.
SAILING TO BYZANTIUM
Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.
Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa.
SAILING TO BYZANTIUM
That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees —
Those dying generations — at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.
An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.
O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.
1927
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Suicídio na Greenwich Village
Braços estendidos
mãos espalmadas contra o parapeito da janela
ela olha para baixo
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker
ela cai
eles levam-na com um Daily News no seu rosto
e um armazenista joga água quente na calçada
Gregory Corso
(Trad. J.T.Parreira)
mãos espalmadas contra o parapeito da janela
ela olha para baixo
pensa em Bartok, Van Gogh
e nas caricaturas do New Yorker
ela cai
eles levam-na com um Daily News no seu rosto
e um armazenista joga água quente na calçada
Gregory Corso
(Trad. J.T.Parreira)
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