Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Segundo Éden - A ambição de Caim


O Segundo Éden


 “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto, qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.” Gn 4.15

      O povo arisia possuía 36 palavras para ‘Paz’. Trinta e seis peças de rica sinonímia, e não eram essas aproximações chulas como em português poderíamos apor, por exemplo, ‘paz’ e ‘serenidade’. Eram como gradações, matizes, como especificações sutis do mesmo conceito poderoso, cores de um caudaloso arco-íris.
      A estranha existência de tantas palavras para a rara paz decorre do fato de que, de todos os povos da terra, mesmo entre os povos primordiais, os arisianos foram os que herdaram e lograram guardar com maior fidelidade e por mais tempo o idioma raaisiaar, o primeiro idioma humano, falado pelo pai Adão.
      Eram também, de toda a Dispersão anterior à torre de Babel, os que ficaram morando mais próximos do vácuo que outrora fora o Éden.
      Foram varridos da existência por Caim, pai do caos, durante as campanhas de cainização promovidas pelo primogênito do pai Adão. Campanhas essas onde ele exterminava todos os homens adultos e jovens das tribos e povoados que encontrava, bem como todas as crianças de ambos os sexos, e por fim copulava com todas as fêmeas em idade fértil disponíveis, deixando-as à própria sorte, muitas delas grávidas devido ao estupro. Pois o objetivo do ceifeiro do caos era criar uma raça imperial cainiana, exterminando a descendência de todos os seus demais irmãos. E deitar assim mais uma ofensa a Deus. Caim encontrara um formidável aliado, o primeiro Caim, ser espiritual que prometeu-lhe uma noite, no deserto de Azaar, compartilhar com ele o domínio do mundo, e disse-lhe que sua descendência alcançaria vastidão como a das estrelas do céu.

      O tempo foi propício a Caim; a marca em seu rosto livrava-o de seus inimigos, tal o horror que provocava. Ele ainda estava vivo para combater diretamente os bisnetos de seus irmãos mais jovens, atravessando gerações com seu ódio.
      Apenas seis arisianos haviam sobrevivido ao ataque dos chacais de Caim. Naquela noite do massacre, fugiram para Eridu e depois para Babilônia, terminando por fixarem-se em Shir, povoamento que depois deu origem a Larsa. Levavam consigo a sinistra invenção arisiana: o primeiro alfabeto, grafado no primeiro pergaminho.
      De Larsa rumaram para as montanhas de Elam, onde, por décadas, planejaram uma forma de refrear ou deter a insânia cainiana. Como os demais sob o céu, temiam profundamente a maldição que Caim levava por coroa, e ninguém, ainda que lhe fosse possível, ousava assassinar o Assassino.
      Levaram cem anos para conceber seu plano.
      Cinco sobreviventes espalharam-se pelo Orbe. Três tinham a missão de trazer sementes de toda boa planta que encontrassem, o que fizeram com fartura. Os outros dois foram encarregados de empresa mais sutil: deveriam ir em busca de plantas que gerassem frutos venenosos.
      Plantaram então, no vácuo do que fora Éden, um jardim. Muito menor que o original, e inferior em tudo ao primeiro; mas, no pequeno declive onde realizaram seu verdejante engodo, foi a maior beleza alcançada até ali por mãos de barro. Os homens conheciam a agricultura de subsistência, mas era a primeira vez depois do Éden que conheciam um jardim: uma ambientação não apenas utilitária, mas fundamentalmente estética, naquele exercício primevo de paisagismo.
      Aguardaram outras dezenas de anos; os homens viviam então satisfatoriamente, o tédio que mata tantos homens hoje era então apenas uma sombra, uma intuição.
      No propício tempo fizeram correr entre andarilhos e mercadores a lenda de que, a leste de Tigor, restara um verdejante resquício do Éden. E apenas para alguns seletos, deram a conhecer outro fato (lenda dentro da lenda): a Árvore da Vida subsistira em tal restolho do Jardim, e era agora guardada apenas por mãos de barro umidificado, mãos de homens.
      Luas depois um emissário de Caim e seu pequeno séquito foram dar pelas bordas daquele grande horto. Ao partir, o emissário levava uma auspiciosa confirmação, e um secreto convite para o segundo dos homens e o primeiro imperador.
      O líder dos arisianos, Zaeoun, era um homem de exceção. Sabia que o aliado de Caim, o Grão Satanaz, enxergava em quase todos os lugares, como que ao mesmo tempo, e fatalmente alertaria Caim sobre o engodo; aprouve-lhe então a temerária empresa de usar as armas de Satanaz contra Satanaz.
      No dia do encontro com Caim, circundando o imperador com sutilezas, alertou para que a posse da vida eterna despertaria ciúmes no príncipe deste Mundo. Caim espantara-se de que o ancião tivesse conhecimento da existência de Satanaz; pois um dos itens do tratado entre ele e Caim era que Caim jamais revelasse a sua existência, que deveria ser desacreditada por todos os meios entre os povos conquistados, e Caim até então julgava estar alcançando amplo sucesso em sua campanha de desinformação.
      Tal fato então contribuiu para a abertura das defesas de Caim, e o ancião cresceu em seu conceito.
      – Ele lhe dirá certamente que os frutos da árvore serão sem efeito; talvez diga que são venenosos, ou que é na verdade a árvore do conhecimento do Bem e do Mal; comê-lo, neste caso, será como errar duas vezes, e você será transformado num demônio, uma sombra, um sem-mãos como ele e os seus. Não importa o que ele dirá, é o príncipe da mentira e enganou teu pai Adão. Tentará demovê-lo de alcançar a vida eterna e tornar-se o Príncipe de Todas as Coisas Criadas, sobrepujando em poder até a ele mesmo.
      Mas o ancião temeu a maldição de Deus; precisava contar a verdade para o Assassino.
      – Comer os frutos da Árvore da Vida é certamente morrer; morrerás e a um tempo ressuscitarás. Renascido, não poderá nunca ser morto novamente, seja por homem, seja por anjo. A imortalidade que almejas, terá então sido alcançada, e não terá fim.
      O ancião sabia uma única coisa sobre a alma humana, um único basilar conhecimento, e tal conhecimento lhe bastava para conhecer e prever os homens em toda a sua sina: o sonho de todo homem é voltar ao Jardim. Ele os atrai como um seio ou um sol; os homens que sequer jamais ouviram falar que houve um dia um Jardim, um Lar, são-lhe igualmente escravos: onde e quando quer que nasçam, vivam, estejam, trazem em si a inadequação do estrangeiro, o horror surdo da alteridade; sabem que isto o que é, ou seja, a Realidade, simplesmente não-era-pra-ser. Não sabem por que, não sabem como ou para onde voltar, mas intuem que houve um lugar, um Porto-de-não-mares, Fixo, de onde ninguém deveria ter partido.
      Caim era só um homem.
      Dispuseram na mesa quatro frutos, oriundos dos ‘quatro cantos da terra’.
      – Estas são as quatro frutas que apressam a imortalidade; oriundas dos quatro braços da Árvore, recolhidas nos quatro cantos do grande Éden. Elas matam e fazem que não mais se morra.
      – Satanaz diz que morrerei e irei ter com o Deus de meu pai -, disse Caim.
      – Claro que terás com o Deus, pois assim como Satanaz, Caim será também um deus. E liberto serás da opressora subalternidade ao demônio. Tornando-se um seu igual, poderás compartilhar seu incandescente destino.
      Caim-O-Arguto, como também era conhecido, tornara-se um homem de rituais e encantos, aprendendo as artes negras que seu Mestre lhe insuflara. Assentado na mesa, o sedento e sagaz imperador fez um pedido, ou ordenou:
      – Exijo um sacrifício. Eis dispostos os quatro frutos sobre a mesa, vindos dos quatro braços ou formas da Árvore, sitos nos quatro cantos do grande Éden; eia, sacrifique-me quatro de seus homens, dispondo cada corpo numa das quatro direções, onde estão os quatro braços da grande Árvore.
      Os seis últimos arisianos vivos, cujo viver era conspirar pela morte do Imperador, entreolharam-se em pesaroso e tenso silêncio.  Todos abaixaram os olhos. Ainda um derradeiro sacrifício seria necessário.
      – Está bem – disse um dos arisianos. – Para que nosso Imperador viva, morreremos com prazer.
      Sem esperar por mais palavras, os quatro mais velhos abaixo do líder posicionaram-se ao redor da mesa, sob o olhar pesaroso do mais jovem. O ancião lhes fez um sinal com a mão direita, uma despedida. Sacaram suas adagas, e de um a um, autoimolaram-se.
      – Você possui homens de grande coragem, Zaeoun. Seriam bons generais em meu exército.
      – Sim, meu senhor. Eles compreendem perfeitamente a importância universal daquilo pelo que estão sacrificando-se, e é com prazer que deitam suas vidas na pira do holocausto.
      Entre os quatro cadáveres, Caim comeu com sofreguidão as quatro frutas. A Árvore que ele julgava perdida, do Jardim que ele julgava findo, ei-la mastigada, possuída, explodindo em sinistros sabores em sua boca.
      O Assassino caiu em estertores, e gritava e sorria, urrando como um chacal, morrendo para não mais morrer.
      O ancião observava-o, com olhar cansado, sem denotar alegria ou ira, tristeza ou mesmo paz. Era uma expressão de exaustão e algum horror.
      – Comeste das frutas do grande Éden, a grande terra que o Senhor nos confiou. Agora morres, e irás ter com teu Deus. E serás imortal para sempre, e arderás incendiado em luz, aprisionado nas chamas, aguardando o Juízo que há de vir sobre tudo.

*   *  *


      O paradeiro e destino do sexto e mais jovem dos arisianos (este é um dos que buscaram os venenosos frutos), nunca se soube, senão que partira tornando a ser navegante, ensinando as artes do mar por onde fosse, e silenciando sobre tudo que vivera. O ancião Zaeoun, o de tantos nomes e a quem em vindouros anos Abraão, no deserto, chamaria de Melquisedeque, persistiu em seu trabalho de Jardineiro, guardando a memória do único Deus.

Sammis Reachers


sexta-feira, 4 de março de 2016

A Segunda Vida de Gregor Samsa - Sammis Reachers

Mary Swanzy

A segunda vida de Gregor Samsa

      Não posso ver: tudo é sensação, para além ou de antes do visual, transcendência táctil: energias?
      Não me lembro completamente quem sou. Lembro trechos. Pedaços de rostos, cadeias de palavras que já não entendo e são música boa ou ruim.
      Estou nalguns braços. Alguém me move. Energias fluem, posso senti-las quase como odores. Atravessamos linhas de campos magnéticos. É magnífico este novo sentido, este meu único multisentido, seu caudal de silenciosa epifania.
      Lembro-me de destruir o jardim. Apanhei o taco e destruí as roseiras de alguém que não me lembro, alguém muito importante, alguém que importava. Destruí todas aquelas plantas de nomes débeis e frescos que não sei, aqueles nomes inúteis que sempre mantive aquém de mim.
      Espalhei as terras, derribei as pequenas contenções, como meios-fios, que delimitavam aquele inferninho verde. Estranho como disso me lembro bem. Cada movimento acertado.
      Parei de ser movimentado: sinto o vento, quentura. Ela é como uma canção. Suas ondas borrifam o que quer que sejam meus receptores, me deitam num torpor adocicado. Sou feliz.
      A pulsação que me movimentou aproxima-se, sinto seu avanço pelas linhas do campo magnético, ela deita água em meu pés. Não posso movê-los, nem tento: não anseio o movimento, anseio os movimentos que me vêm: flutuações do campo, comunicações que ainda não decodifico – mas o farei – a viscosidade do calor solar que banha-me, e este furor, esta fome consumindo meus pés: este fausto manjar de águas. Água. Água. Como nunca percebi? Como ela pode ser tão doce, e ter me passado incógnita, obscurecida? Para cada nova sensação faltam-me as palavras, conceitos de perfeito encaixe, mas tal abismo se avoluma ao toque da água. Fruição, tepidez... uma quase promiscuidade, coquetel de psicotrópicos conflitando e equalizando-se, a um só tempo, em meu corpo possuído. Agora percebo que o céu é feito de água, e para ela e para a luz é o meu desejo.
      Os campos magnéticos ondulam. O sol cintila. Meus pés alimentam-me. Dormi furioso ontem, não falei com Maria (agora me aflora tal nome), mal lavei as mãos sujas de terra, rolei como um diabo antes de conciliar o sono. Acordei dentro da paz.

      Sou planta. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[ Ficção Evangélica ] - O Pequeno Livro dos Mortos, livro de contos de Sammis Reachers


O Pequeno Livro dos Mortos (Contos). 
Editora Letras e Versos, 2015. 
96 Págs.

    Seja bem-vindo a esta pequena jornada, amigo leitor. Aqui o humor, o terror, o conto de espionagem, a ficção científica, a fantasia borgeana e a crônica (sub)urbana, com seu traçado agridoce e enlameado de poesia e violência, são os vagões, os gêneros desse comboio, desse trem de memória e invenção de que valho-me para visitar e emoldurar meus mortos. Ficção e realidade interpenetradas, perdição e redenção amalgamadas num caudal de cores de inusitada composição, para falar dos muitos mortos que perdi e ganhei, amigos e não-amigos, reais e imaginários, e suas mortes físicas mas algumas vezes também espirituais. Mortos que precisam de uma voz, prontos para revelar suas histórias de crueza e beleza, e de um como que encantado desencanto.
    
     Um passeio pelas horas da verdade: momentos de encontros com (ou retornos para) o Cristo, ressurreições, chamados cumpridos; mas também desencontros, desvios e desdita. E o trem tragicômico dos mortos e vivos avança: há provocações sutil ou escancaradamente acondicionadas em cada vagão, como passageiros clandestinos. Prontos para abraçar e inquietar, com seu amor ou seu aço, aqueles que se aproximarem...

      A morte é o fato inelutável, a certeza primeva de todo homem - e que por isso mesmo deve ser refletida e ruminada, jamais encoberta, ‘esquecida’ - uma premência filosófica que levou Heidegger, talvez o maior filósofo do século XX, a definir o homem fundamentalmente como ser-para-a-morte.

      Mas ao pensarmos na morte, precisamos atentar para seu caráter duplo, para o fato de que, se cremos na mensagem cristã, há duas mortes possíveis: uma carnal, inevitável neste aqui-e-agora que vivenciamos, e uma espiritual e eterna, representada pelo afastamento de Deus, afastamento este perfeitamente evitável. Cabe sempre lembrar das palavras de Deus em Deuteronômio 30:19: Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente...”. Sim, eis a boa-nova, a raiz e o fundamento do cristianismo: a todo homem está franqueada a esperança de não passar pela segunda e verdadeira morte, e galgar à eternidade re-unido com Deus, esperança radical advinda na pessoa e pelo sacrifício vicário do Homem-Deus de Nazaré, Jesus Cristo, expressa em João 11:25,26: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?”

      No mais, para além de religiosidades (Cristo é uma pessoa, nunca uma religião) e do tema algo lúgubre da morte, eis aqui apenas um livro de ficções, que expressa uma cosmovisão, sim, mas não tem objetivos proselitistas de qualquer monta: se ele puder entretê-lo, amigo leitor, ao lhe permitir devanear, sorrir ou assustar-se, se emocionar e solidarizar, ou talvez, ainda que por meros milímetros, expandir sua forma de perceber, terá cumprido seu humilde papel de livro.

O livro custa apenas R$ 20,00 , já com as despesas de envio (Correio) incluídas. Para saber como adquirir, escreva para:sammisreachers@ig.com.br

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Degelo, um conto de Sammis Reachers


Degelo

Sammis Reachers

      Por ser um Pregador da palavra, fui ressuscitado.

      Eles utilizam o termo ‘reiniciado’, mas tanto faz.

      Paretástase. O nome do problema. Não o meu: morri ou penso que morri em 2.057, num acidente num quartel militar da União Europeia, onde eu era capelão. Uma explosão: só me lembro disso. Eles me relataram o resto: fui congelado numa câmara criogênica à espera de ser revivido, quando pudessem recriar in vitro órgãos para substituir os meus que foram comprometidos pela explosão.   
      Décadas se passaram. E eu, juntamente com uma dezena de outros militares que haviam sido congelados, ficamos à deriva no Tempo, esquecidos num bunker subterrâneo, sub-vivos apenas pelo fato de o complexo ser autogerenciado energeticamente, o que garantia seu funcionamento sem a interferência humana.
      Mas voltemos à paretástase. Uma disfunção cromossômica, uma anomalia surgida no DNA alterado de toda uma cidade-estado. Efeito colateral causado por uma mutação induzida: para suportar as radiações gama, decorrentes da passagem do cometa Astianax C1b, em 2.129 o Naga Bei de Berlitz (um tipo de senhor feudal, comum nas cidades-estado e ligas citadinas surgidas na Europa depois do quase esfacelamento da civilização), resolveu alterar geneticamente toda a sua população, na época uns treze mil seres humanos, além de animais e híbridos. O objetivo era que eles suportassem as radiações sem a necessidade de trajes especiais, pois todo o tetra-amianto requerido para a fabricação de tais trajes estava alocado na China, e o Império Chinês, fragmentado e conturbado em seus próprios conflitos, não o vendia para ninguém. O pouco tetra-amianto que havia, era fruto de contrabando.
      O Naga Bei imaginava, além de garantir a sobrevivência de sua população fora dos edifícios e túneis, melhor capacitar suas tropas para atacar alguns adversários mais indefesos.
      O plano deu certo: as mutações mostraram-se eficazes, a radiação gama passou a ser de alguma maneira metabolizada pelos organismos. Mas apenas dois anos depois surgiram, como numa epidemia, os múltiplos casos de paretástase. As células mutantes passaram a rejeitar algumas monoaminas, substâncias/moléculas fundamentais para a manutenção da vida. Os cientistas do Bei não conseguiam reverter o processo inicial de mutação, e nem impedir o avanço da nova enfermidade.
      As Ligas Hanseáticas (a caricatura que restou de um organismo governante transnacional na Europa), cientes do problema, resolveram instalar uma ainsterdome, um tipo esquisito de domo ou barreira tecnobiológica, capaz de marcar, rastrear e eliminar (via biodrones) qualquer forma de vida. Neste caso, todos os habitantes de Berlitz foram marcados e isolados, impedidos de deixar o perímetro da cidade. A mutação era retransmitida de pais para filhos, e era de ordem das Ligas que ela não se espalhasse. Também não era do interesse das Ligas ajudar como fosse a população de Berlitz; seu líder era considerado persona non grata entre seus pares.
      Aos cidadãos cerceados de Berlitz, restou uma sinistra perspectiva: apenas aproveitar como pudessem os meses de vida restantes, enquanto eram aniquilados pela degenerescência genética.
      O Bei, homem antes pragmático e estrategista de excelência, estranhamente entregou-se a um soturno definhar: passou a viver uma vida de dissolução, gastando a metade de cada dia nas druggegs, os ‘ovos’ de realidade supra-virtual, onde o usuário poderia viver ‘outra vida’. Ao menos até lhe acabarem os créditos.
      Num dia menos cinzento, ocorreu a um de seus assistentes, burocrata com sanhas de erudição e agora inundado pela melancolia, falar-lhe do Rabi, do velho Rabi rejeitado por Israel. A princípio o Bei escarneceu do assistente, pois afinal isso era hora de ressuscitar as velhas religiões? Poderiam fazer algo por eles?
      Mas dois dias depois o mesmo assistente trouxe o Livro. O Bei assustou-se: era um livro de verdade, uma relíquia ainda feita de papel! Passou a lê-lo, a princípio com desdém, mas depois com certa contrafeita sofreguidão. Então era isso o cristianismo? Confuso por vezes, mas por vezes valorosamente simples. Passou a acessar os poucos textos e vídeos sobreviventes no Terminal. Não muitas coisas restaram, em termos de arquivos eletronicamente armazenados, após a detonação da Grande Bomba de Pulso Eletromagnético.
      O Bei achou as informações poucas. Mandou seu assistente procurar por mais livros de papel. Pesquisando por livros nos subterrâneos de Berlitz, o assistente encontrou o bunker. Pesquisando nos arquivos da câmara criogênica, ele encontrou algo que talvez surpreendesse o seu Bei: Não livros de papel ou arquivos eletromagnéticos ainda intactos, mas um pregador. Sim, um sacerdote ou shamã ou ministro cristão da corrente dita luterana, congelado logo abaixo deles, numa biocâmara (contra todas as probabilidades) ainda ativa.
      E assim, por ser um pregador do Evangelho, eu fui ressuscitado.

II

      A Bíblia de papel, ele deu-a para mim. Passei os seis primeiros dias isolado em sua fortaleza, apenas em contato com o próprio Bei, médicos e alguns de seu séquito.
      No curto e cansado tempo livre de minhas noites, quando já não precisava dar atenção ao Bei, dedicava-me à oração, e a assimilar informações sobre os feéricos e terríficos eventos históricos decorridos desde minha ‘morte’ em 2.057; também buscava estudar e compreender, na medida do possível, as novas tecnologias.
      Nunca iria imaginar, e tenho certeza de que nenhum de meus coetâneos, que a história do mundo seria tão atribulada, afigurando-se tão sobremaneira negra e sem sentido, àquela altura. Sempre acreditei que o Anticristo viria ainda no século XXI. Tudo estava tão encaminhado...
      Quanto ao Bei, não foi senão no quarto dia após minha ressurreição que o Espírito Santo arrebentou-lhe as muitas trancas do coração, e ele, crendo, fez a confissão pública de Cristo. No sétimo dia pôs-me a pregar para seus funcionários. De uns trezentos que ele reuniu num salão, mais de duzentos saíram logo nos primeiros vinte minutos. Os demais ficaram até o fim: preguei durante hora e meia. Fiz o apelo: trinta e nove mãos levantaram-se.
      No dia seguinte o Bei pôs-me para falar ao vivo nos waysies (os telefones neurais do futuro, ou melhor, de agora), para toda a população sitiada. Houve ampla rejeição; mas algumas boas dezenas de almas achegaram-se.
      Iniciei então uma pequena igreja. Nos derradeiros meses seguintes, muitos outros se juntaram ao Corpo de Cristo nascente.
      O Bei convertera-se realmente; para faci
litar-me o trabalho, deu-me acesso à omnirede, um tipo de rede social a partir de onde era possível conhecer em diversos detalhes a cada uma das pessoas da cidade, pois fui logado na conta do próprio Bei, ou seja, a conta do administrador. Tive algum receio quanto à ética disto; a omnirede permitia-me vivenciar até alguns sentimentos e emoções dos usuários. Mas as almas precisavam ser salvas, exortava-me o Bei; não havia tempo. Eu não repetiria o erro cometido tantas e tantas vezes pela Igreja, que tardava em utilizar as tecnologias nascentes para a propagação do Evangelho, deixando por largo tempo seu monopólio para Satanás. Deus me perdoe se errei.


III

      Neste mundo fundado na instabilidade, não sei por quem, muito menos onde e quando será lido este relato, se é que alcançará leitores. Mas creio ser sumamente necessário explanar um pouco sobre as tecnologias e o panorama histórico que encontrei em Berlitz, e no mundo que a abriga. Por onde começar?
      Talvez pelo mais significativo, a omnirede. A omnirede era um tipo de ciber-psico rede social, quase uma rede telepática, mas operada por implantes neurais. Esses implantes neurais eram os waysies, os ‘celulares’ implantados em cada pessoa, ao completar doze anos. Eles permitiam a comunicação por áudio, imagens e até rudimentos do que se poderia chamar de sentimentos das pessoas, possibilitando interessantíssimas trocas empáticas, de uma maneira que não sei ainda explicar.
      Trafegar com acesso de administrador na omnirede era algo assustador: sentia-me como Deus perscrutando as almas dos homens. E perdi o sono, e perdi a fome por dias seguidos; o embate ético era um tormento em meu coração... Mas o Naga Bei estava certo: aquelas almas precisavam de ajuda, conhecendo-as eu poderia compreendê-las em toda a sua cosmovisão, seus medos e terrores mais primais, e saberia contextualizar a mensagem redentora para cada qual. Elas não dispunham do tempo frouxo onde se desenlaçam as sutilezas. O Bei queria que eu pregasse como quem golpeia.
      De dia eu pregava o quanto podia; à noite investigava as almas, febril em minha imersão, minha pulsão amorosa de poder alcançar cada coração, cada uma daquelas ovelhas genética e pneumatologicamente despedaçadas. Eu vivia à base de supressores de sono, pois não havia muito tempo, pois o tempo de Deus é sempre hoje.
      O dinheiro em Berlitz não era totalmente eletrônico e individualizado, como em meu tempo; havia derivado (mas prefiro o termo involuído) para um tipo de cartão de dados, sem bio identificação e legalmente pertencente ao portador, os nastorasts, cujo valor titular era limitado. Não acedia a contas em bancos ou algo parecido, não era sequer um ‘cartão de crédito’ na acepção de meu tempo: cada cartão tinha os dados de valoração financeira inseridos ou ‘carregados’ em si, fixos e não reembolsáveis em caso de qualquer problema. Os valores poderiam ser inseridos em terminais situados na Casa Governamental, edifício onde se localizava não apenas o corpo governante da cidade, mas também muitos dos serviços públicos vitais. O Naga Bei atuava como ‘banqueiro’ ou controlador do sistema de cartões, que eram também aceites em outras cidades-estado circunvizinhas.
      Os híbridos eram seres humanos mutantes, a quem foram acrescidos genes de animais, aprimorando características que se queria ressaltar, como tamanho, força e acuidades sensitivas (tato, olfato, visão etc.). Sua criação e proliferação estavam proibidas na maioria dos países e cidades-estado civilizadas e até nos ajuntamentos que poderíamos considerar semi ou pós-civilizados. Os que havia em Berlitz eram refugiados, abrigados ali pela clemência e também pelo senso de oportunidade do Naga Bei, que usava alguns em seu exército.
      Quanto à História e sua sucessão de desgraças, por onde começar? Primeiramente, deu-se o que já em meu tempo se assinalava prestes a acontecer: o governo da Terra foi unificado nas mãos de um Governo Global.
      Mas entre todas as desditas que este mundo suportou desde meu congelamento até aqui, o mais tétrico e significativo é o fato de que houve uma Revolução Cultural Global, conhecida por O Alinhamento, promovida pelo Governo Mundial, e que assumiu características de guerra civil (armada em muitos casos, noutros apenas ‘cultural’) em diversos países (ou entes federados, como passaram a ser chamados desde que o mundo foi unificado em 2.071), apenas para varrer as religiões do mapa. O argumento do Corpo Governante era de que elas eram “fontes infinitas de conflitos, eterno freio ao progresso humano”.
      Entre mortos e mortos para sempre, a revolução saiu-se vencedora.
      Os resultados foram variados em cada ponto da aldeia global. As mais prejudicadas, dentre todas aquelas ditas grandes religiões, foram o hinduísmo, que foi extinto, e o cristianismo, que desapareceu não de países, mas de continentes inteiros. Incluindo, inacreditavelmente, a Europa, seu segundo berço e antigo bastião. O islã sofreu reveses em diversos países, sendo extinto da África. Mas persiste em partes da Ásia e Oceania, e em minúsculos bolsões isolados no norte europeu. O budismo, restrito a esparsos focos dispersos pelo centro e sudeste asiático, sobreviveu apenas em sua corrente il’jiyan, forma sincrética que funde elementos do budismo e do islã, e que sequer existia em meu tempo, ou melhor, no tempo de minha primeira vida.
      E o Governo Mundial por trás desta cruzada anti-religião colheu o que semeou: em menos de meio século a coesão mundial sob a égide de um único governo esfacelou-se, e guerras de independência pipocaram por todo o orbe, atingindo até as colônias espaciais.
      O preço pago foi um retorno da barbárie, cujo ápice negro deu-se com a detonação da Bomba de Pulso Eletromagnético de que já falei. Foi detonada por russos a partir da Lua, num último suspiro para tentar deter a avalanche atômica de que eram alvo por parte do Emirado da Chechênia, num dos eventos tardios da Guerra Transeuropeia, uma das muitas guerras que afloraram com a implosão do Governo Mundial. Mas a arma era potente demais; todo o planeta foi atingido. Em escala catastrófica, equipamentos foram inutilizados, informações armazenadas perderam-se. Num cenário já de décadas de hecatombe, impossível calcular quantos morreram apenas pelos eventos provocados pela detonação do aparato russo. Isto deu-se há seis anos atrás; neste momento em que me encontro, a humanidade está em pleno esforço de recuperação dos efeitos da bomba. E os embates bélicos generalizados ainda persistem, em macro e micro escalas, impossíveis de mapear num mundo nova e completamente fragmentado.


IV

      Ao cabo de seis meses, todos os humanos e híbridos de Berlitz morreram. Foi terrível acompanhar a morte de toda uma sitiada cidade; foi ainda mais horrível sobreviver. Devido à omnirede, eu conhecia de certo modo ‘pessoalmente’ a todas aquelas pessoas, como já disse. Preferia ter morrido no gelo criogênico a ter conhecido esta gigantesca desolação. Mas o que digo?! Senhor, perdoa-me. Se este foi o método assustador que lhe aprouve utilizar para recriar sua Igreja, quem sou eu para questionar?
      Vaguei por dias inteiros acompanhando os roboservs em sua busca por cadáveres para a cremação.
      Treze mil duzentas e doze pessoas e sessenta e seis híbridos. Cujas almas senti sendo deslogadas enquanto navegava pela omnirede.            
      Há dezenas de anos, todos os que eu conhecia morreram, enquanto eu permanecia no gelo, aprisionado entre a vida e a morte. Agora, mais uma vez em minha vida, todos os que eu conhecia morreram, e o que me contém é um vácuo, a amargura embriagada do absurdo, que sorri e me abraça.
      Estou só. Só contigo, meu Pai Silencioso.
      Há uma tecnologia em Berlitz que permite a inserção de metadados diretamente na pele, um tipo de ‘tatuagem’ nanoeletrônica. Você pode acessar os dados de qualquer dessas tatuagens de dados usando um tipo de aplicativo dos waysies. Peguei um dos equipamentos tatuadores numa loja abandonada, programei-o e o fiz tatuar o nome de todos eles em meu antebraço direito, o nome das treze mil duzentas e setenta e oito almas que o Senhor confiou em minhas mãos. Ovelhas transgênicas por quem darei um dia conta. E também os neuro-élans de todos eles, ou seja, o conjunto de informações sociais e vitais, sentimentos e ideias, um ‘resumo ontológico’ daquela pessoa, que a omnirede salvava ou fazia o backup quando da morte de um usuário. Meu Deus, como explicar isso? É como uma ‘fagulha’ de uma alma humana, um rascunho de imortalidade. Conforme a programação, a inserção feita pela máquina em minha pele assumiu o formato de um signo cruciforme, uma estilizada cruz.
      Entre salvos e condenados, tantas almas... Em meio a tanta tecnologia, almas mortas pela tecnologia. Tecnologia que prometera salvá-los. Mortas tão rápido. 

V

      E agora, o que fazer, Senhor? Pergunta retórica, pois sempre soube a resposta, ela foi descongelada comigo, e a bem da verdade foi ela mesma que me congelou e descongelou. Foi-me dada esta nova chance. Há um propósito e um tempo, seja um luminoso ou um maldito tempo, para todas as coisas debaixo do sol. Eis-me aqui, Senhor, no coração tecno-anárquico do caos, sob os olhares espantados da Morte-que-se-recusa-a-me-tocar, eis-me aqui... Esperava renascer num Milênio de gozo e paz junto a Ti, mas fui revivido num mundo apocalíptico, numa Europa tecnofeudal e arrasada. Não apenas num continente em ruínas, mas numa humanidade em ruínas.
      Sinto-me como o apóstolo Paulo, sou-lhe anuviado um tipo; a luz que ele viu no caminho de Damasco eu vi na explosão em nossa base militar; o Ananias que lhe abriu os olhos, eu encontrei no Bei. Os três anos que ele passou no deserto da Arábia, são os 70 anos que passei em êxtase criogênico.
      Recolho o que posso em nastorasts (os referidos cartões-dinheiro deles), alguns víveres, carrego as baterias de uma grande fluomoto e vou para fora. As barreiras das Ligas Hanseáticas terão que deixar-me passar, pois examinarão meus genes e ficará patente meu estado de ser humano ‘puro’, ou ‘base’, como eles dizem.
      Nesta Europa desolada, onde as perseguições islâmicas de fins do século XXI e as posteriores perseguições culturais globais anti-religião, somadas à Guerra Transeuropeia, destruíram até os edifícios e monumentos que remetiam ao cristianismo, nela segarei. Não há mais igrejas lá fora, ao menos não neste continente. A que fundei aqui, nasceu e morreu em seis meses. Sou a Ekklesia de um homem só. Como ekklesia, faço o que devo: vou para fora.


      Mas, porventura darão crédito à minha pregação?

domingo, 2 de agosto de 2015

AMPLITUDE, Revista Cristã de Literatura e Artes para download



AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas.
      Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/intelectual entre nossos irmãos.
Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf.
      AMPLITUDE, revista cristã de literatura e artes, nasce como um espaço inter ou não-denominacional aberto à criação daqueles que por tanto tempo foram silenciados pela visão oblíqua e deturpada do velho status quo que via nas expressões artísticas algo menor, indigno ou mesmo inútil ao cristão ou à igreja.  Um fórum para os que tem-se visto alienados de veículos de expressão, de formas de publicar/expor/comunicar, de interagir entre pares, e para além dos pares.
      Esta revista nasce com dois anos de atraso, desde a gestação da ideia de uma revista dedicada fundamentalmente à nossa literatura, em conversações com o poeta e escritor lusitano J.T.Parreira. Porém, projetos outros impediram naquele momento a concretização da ideia.
      Como a focalização de nossas lentes recai fundamentalmente sobre a ficção e a poesia, esta edição inaugural chega com força total: são oito contos. Na poesia, contamos com nomes consagrados como o próprio J.T.Parreira, Israel Belo de Azevedo, Joanyr de Oliveira, Gióia Júnior e outros, aliados a novos nomes de excelente produção.
      O anglicano George Herbert, uma das figuras centrais dos assim chamados poetas metafísicos ingleses, inaugura a seção Jardim dos Clássicos.
      Marcelo Bittencourt apresenta sua história em quadrinhos Pobre Maria, encantando com seu texto e sua arte.
      Na seção de entrevistas, iniciamos com Veronica Brendler, idealizadora do Festival Nacional de Cinema Cristão.
      As artes plásticas são contempladas na seção Galeria, que abre suas portas com a obra de Rafaela Senfft, que também comparece com o artigo A arte moderna e a cosmovisão cristã.
      E vamos aos contos: O saudoso Joanyr de Oliveira, verdadeiro patrono da (boa) literatura evangélica, faz-se presente com o conto A Catequese ou Feliz 1953, onde o autor revisita os porões da ditadura brasileira, inspirado em eventos autobiográficos. J.T.Parreira comparece relatando sobre as crises ontológicas de Pedro, em Os Pronomes; e ainda o fino humor de Judson Canto em Uma mensagem imprópria; um singelo conto de Rosa Jurandir Braz, Você aceita esta Flor?; Célia Costa com o brevíssimo O que poderia ter sido, sobre o que poderia ter sido naquele Jardim de possibilidades; Margarete Solange Moraes com o pungente Filhos da Pobreza; este humilde escriba comparece com um conto de ficção científica, Degelo, ambientado em futuro(s) distópico(s); e Hêzaro Viana, fechando a edição com um forte e terno conto, Por Amor, em 12 páginas de ótima prosa.
      Confira ainda as seções: Notas Culturais, com pequenos flashes sobre o que rola na cena cultural cristã (e fora dela); Hot Spots, abarcando a cada edição citações da obra de um grande autor; Parlatorium, com citações diversas de autores de ontem e de hoje; e Resenhas, abarcando livros, música, cinema et al.

Para baixar a revista pelo site 4Shared, CLIQUEAQUI.
Para ler online ou baixar a revista pelo site Scribd, CLIQUE AQUI.
Para ler online ou baixar a revista pelo site SlideShare, CLIQUE AQUI.
Para ler online ou baixar a revista pelo site Issuu, CLIQUE AQUI.

Caso não consiga realizar o download, solicite o envio por e-mail: sammisreachers@ig.com.br

sexta-feira, 14 de março de 2014

Segunda Guerra Mundial: Carta do pracinha Dirceu para a jovem Marília


XXXX, Itália, janeiro de 44

A noite, como a morte, é uma carta de trás para a frente, Marília, uma carta que não se entende até que amanheça.

Marília, hoje avançamos sobre o monte xxxx. Não adianta eu escrever nomes e datas, a censura suprimirá essas informações, que de mais a mais pouco importam a uma menina de 17 anos numa cidade tão bonita como Niterói.

Não sei se lhe escreverei mais cartas, se há um amanhã com meu nome na lista ao final da fila de ração. Então, perdoe-me pela estranheza e extensão destas linhas aqui transcritas. Foram escritas em dias espaçados, sob influências diversas – mas todas apenas dimensões, fragmentações de você.

E então eu agora abertamente digo que te amo, amiga. Amo-te mais que tudo em minha vida, os poemas, os sambas, o Bangu, meus cães e a filosofia. Amo-te desde o primeiro dia que lhe vi ao lado de Michaela, e eu que pensava amá-la, mas depois percebi que não, que nada, que tudo em minha vida e na história de meu coração era aio e ensaio até você. Pois o coração de toda a beleza que pulula no Universo-aqui, no espasmo-agora, é você, Marília.
Sei da galanteria que o Marco lhe faz; sei que seu pai, não tão secretamente quanto ele pensa, faz gosto de tê-lo como genro. E sei também que você se agrada. Agora ele está aí ao teu lado, pois pode ver-te todos os dias, e eu estou aqui na Velha Bota, na cega neve, na arruinada madona que o Duce deflagou. Nesta disputa, se disputa havia, já perdi; se eu morrer e eu vou morrer, morrerei para que você possa ser feliz. Morrerei para não suportar, além do próprio peso da vida, a impossibilidade de você.
Tinha sonhos contigo, sonhos de casamento e roça, três crianças de quem eu, em secreto, adivinhava já os traços das faces. Terminaria o curso de Filosofia e iria dar aulas em alguma cidade pacata do interior do estado. Madalena ou Campos dos Goytacazes, talvez. Hoje queimo estes sonhos no altar da Guerra.
Tenho um pedido apenas: se em algum dia de tua vida de luz, sentiste algum afeto por mim, para além de nossa firme amizade, lhe rogo que nomeie teu primeiro filho com o meu nome; deixa-me estar próximo à tua lembrança enquanto você viver, pois sei que de mim a Guerra tudo requisita, como uma noiva voraz que quer o seu prometido e todo o dote, e ela nada poupará em seu holocausto.
Sei que falo coisas tristes e confusas demais e adultas demais para teu coraçãozinho principesco, mas preciso comunicar a alguém esta minha calma angústia, e é a você que comunico, pois você é mais que a pessoa que amo, é o próprio Universo onde habito, minha deusa lar, particular.

Na última carta você referiu lembrar-se de minha expressão antes da Declaração de Guerra, da forma como eu, durante as lições que lhe dava em sua casa, segurava o mapa da Europa nas mãos e quedava absorto por minutos silenciosos, ‘como se eu soubesse’. Marília, a História é um pano roto onde uma bruxa de candomblé lança búzios, búzios que dão sempre o mesmo resultado. Desde a invasão da Rússia, eu já sabia que o Brasil ingressaria na Guerra, eu sabia que haveria uma convocatória. Eu já treinava disparos, eu já sabia para onde fugir de ti, eu já sabia onde finalmente encontrá-la para sempre.

Escrevo este trecho de xxx. Mas todas as cidades por onde passei, Nápoles e Modena e Livorno, chamam-se você, todas as cidades da terra e do sol nomeiam-se secretamente Marília.

Aqui abraço a morte como se abraçasse você, menina. Nomeio a imperatriz-meretriz Morte com teu nome epifânico, e ela ganha ternura e sonho, cresce em intimidade sem perder a realeza. Vida ou Morte, Destino ou Acaso, como um grande Brahman dos hindus, escolhi ter você em tudo e como tudo, e que tudo a seja, foi a forma que encontrei para não perdê-la.

Nesta neve de menos 2 graus, lembro-me de nosso passeio na praia de Icaraí, sob o poder do carro de Hórus, o Sol que existe apenas para lhe dar um pedestal, Marília... Minha amiga, minha irmã, naquele dia, quando paramos em frente à Pedra do Índio e imprudentemente segurei a tua mão, não foi senão por amor!, amor que requereu-me um resgate, resgate cujo objeto é esta guerra e talvez a minha vida. Seja; amei-te e amo-te, e o Fuhrer ou a ciumenta Morte não hão de abalar isto, macular este mármore; ainda que implodam todos os mármores e monumentos da Itália, ainda que despedacem o céu em meu encalço e desçam comigo ao Sheol.

Aqui combatemos com fuzis M1 Garand americanos. Paralisados em nosso avanço, numa missão que a censura não permite nomear, peguei minha faca e com sua lâmina virgem risquei na coronha de meu fuzil o seu nome. E passaram a ter mais paixão e alcance os meus disparos. E se algum dia este fuzil passar a outras mãos, aquele que o empunhar saberá que há uma Marília no mundo, e há ou houve alguém que a amou – e isso é um rascunho de eternidade. Mesmo que eu morra um fuzil chamado Marília combaterá para livrar o país de Marília, a cidade de Marília e o coração de Marília.

Enfurnado no fundo de uma trincheira não há muito em que pensar. Amanhã, quando for matar tedescos (na carta de dezembro já lhe expliquei que aqui, por influência dos italianos, nós chamamos os alemães de tedescos), penso se matarei algum descendente de Schopenhauer, Hegel ou Kant. E será estanho assassiná-los, como ainda me espanta ter que combatê-los. E penso em meus livros de filosofia alemã em francês, que fim terão se eu morrer. Mamãe os queimará ou deitará fora? Diga-lhe para vendê-los no alfarrábio do senhor turco.
Se você lesse em francês ou tivesse intenção de aprender a língua, por certo deixaria tudo para ti. Mas não lhe apraz o aprendizado de línguas estrangeiras, e bem faz: elas é que devem estropiar-se para compreendê-la, ó pequena luz de tudo.
Você é o meu portentoso deus, o objeto de eleição de minha fé, raio e circunferência da religião que criei; aquilo que arbitrariamente sacralizo, meu lancinante talho na aorta da Realidade – platônicanarquica faca tomando o lugar do cosmocorpo que ela mata; mas o estranho deus dos judeus, do qual você tanto fala na última carta, talvez seja o único que realmente exista.

Nunca voltarei. Seja feliz com o Marco.

Meu último poema. Se eu pudesse, enfeixá-lo-ia para compor um livro, com todos os demais poemas dos quais você é a musa. Mas você os tem: livro dentro de um livro. Pois ao fim e ao cabo, todo deus é uma biblioteca. Mas não quero confundi-la.
Como sempre, nada como seus amados Bilac e Oliveira, mas mais para os franceses de que lhe falei. 
Adeus.


Batalha para alcançar Marília (poema 32)

Tuas palavras caíam no chão ribombantes
como granadas de sândalo:
eu avançava nu como quem sonha

Teus olhos congelavam o entorno, deusa:
moscas, sonhos, oxigênio
tudo era teu
ó mínimo-coração-do-mundo

A metralha tedesca cantarolava
mas seus atiradores e balas eram sombras
apresadas e impotentes na caverna platônica

Pois tu(a) é a Guerra, Minerva:
Tua boca era a bandeira a capturar, Marília, Valkíria,
como a piscina de hidromel sita no coração de Valhala
samadhi nirvana aniquilação íris de cada um
dos mil olhos de Brahman


Sammis Reachers

Do livro Poemas da Guerra de Inverno, segunda edição 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Mosaico dos Raros - A jovem literatura amapaense reunida em livro de contos


Sob a batuta do escritor, poeta e ativista literário Marvin Cross, chega-nos, diretamente do Amapá, a antologia O Mosaico dos Raros. O livro, gratuito, reúne contos de jovens autores da literatura amapaense
Os bravos autores são: Tiago Quingosta, Marvin Cross, Prsni Nascimento, MK Santos, Rodrigo Mergulhão, Genniffer Moreira, Samila Lages, Lara Utzig e Rodrigo Ferreira.

Conforme texto de apresentação do organizador,

 "Um mosaico pode ser definido como várias peças unidas, que podem ser de diferentes materiais (pedras, plástico, papel etc.), a fim de formar um todo, uma figura, caracterizando-se, portanto, como uma obra mosaica. São diferentes pedaços que vão se embutindo uns aos outros a fim de formarem algo único.
Este livro é um mosaico. Sua proposta foi de abordar as diferentes expressões artísticas para servirem de pano de fundo a cada história aqui contada. Muitas dessas artes são mais do que pano de fundo, mas componentes cruciais nos contos reunidos neste e-book organizado por mim e com participação ilustre de escritores jovens da seara literária que vem explodindo no Amapá.
É um mosaico de textos raros, feitos sob encomenda (literalmente!!), obedecendo a um desafio proposto que consistia em cada autor ficar encarregado de uma arte específica, como o conto intrigante de MK Santos, que trata da arte arquitetônica, ou a surreal narrativa de Rodrigo Mergulhão, incumbido de elaborar um conto com o tema “Cinema”. Nas próximas páginas, você está convidado a se divertir, se emocionar, refletir e até mesmo se arrepiar com as obras carinhosamente preparadas para seu precioso momento de leitura. Ficamos honrados em contribuir com isso, muito mais se você curtir nossos textos e recomendar a seus amigos que façam o download deste material."

Você pode baixar o livro pelo site 4Shared, CLICANDO AQUI.
E pode ler o mesmo online, ou baixar pelo site Scribd, CLICANDO AQUI.

sábado, 27 de abril de 2013

Um Sonho Caro, conto de Otoniel Mota



Otoniel dos Campos Mota (1878 – 1951) foi contista, ensaísta, gramático, pastor evangélico, professor, diretor da Biblioteca Pública de SP, membro da Academia Paulista de Letras.

A título de resgate, tomamos a liberdade de transcrever este conto, oportuna amostra do rico estilo regionalista do autor, que exprimiu com humor causos (alguns rocambolescos) dos 'matutos' do interior paulista, neste e nos demais contos de seu livro Selvas e Choças (1922).


*  *  *


UM SONHO CARO

Otoniel Mota

     - Ahi, marvada! Tomô no sovaco! Mais ain­da não morreu! Eu tiro já teu bucho fóra! Lá vae obra!
     Assim exclamava Chico Pipoca, na salinha da frente de sua choupana, apenas barreada, como os demais compartimentos. Tinha na mão esquerda a pica-pau querida, e na destra a tira-prosa luzente, fina, aguçada. Fiado nesta ar­ma, certamente respeitável, é que Chico Pipoca estava a berrar aquelas valentias, aos pulos pa­ra diante e para trás, esfuracando a parede com ímpetos heroicos, quando Nha Faustina, a esposa, deixando a gordura aljofrante a chiar na caçarola, apresentou-se na porta da salinha e deitou água fria na fervura, pondo-se a mirar fixamente o seu homúnculo esportivo, como hoje se diria. Este, desapontado com se ver assim surpreendido, caiu dos píncaros, onde a glória já lhe sorria em toda a sua plenitude aover ele realizado, em espírito, o sonho constante da sua vida: chumbear uma onça pintada e depois cosê-la à faca para rematar a obra.
     - Tava cabando de impacotá ua pintada quando mecê pareceu, nha Fostina!
     Nha Faustina, sempre silenciosa, despregou um formidável pelo-signal, que foi do topete à cintura, virou as costas, arrepanhou a saia no quadril esquerdo e saiu gingando o corpanzil, a resmungar.
     - Ave Maria! Credo! Inté é mió a gente serri... O home virô maluco! Onde já se viu ua coisa ansim, diz que pulando dentro de casa que nem serelepe,  co’a faca na mão cutucando a parede... Ave Maria! Ave Maria!
     E já na cozinha persignou-se mais uma vez desabridamente, com a colher de pau desbeiçada a fazer cruzes no ar.

*
*  *

     Chico Pipoca era um caboclinho franzino, de canelas magras e peladas, já grisalho, com a boca chupada, pela falta dos saudosos dentes que esbrugavam outrora uma caiana roxa. Ti­nha os olhos saltados como os do sapo. Daí o nome Pipoca, que lhe dava guinas de espancar.
     Morava em bairro antigo, de uma vila dos tempos coloniais, no sul do Estado, uma povoação insulada, decadente, onde a população nunca ou­vira sequer o apito do "bicho de fogo" triunfante, onde a civilização permanecia pouco além do bangué e da espingarda fulminante. Os terrenos, esturrados pelo fogo, que lhes deitavam ano após ano, só brotavam sapé e assa-peixe, com alguns capões raros e ralos de capoeira baixa, ruça, de terra exausta. Por ali os milharais deitavam hastes escanifradas e espigas minguéras, retor­cidas como pés de crianças sifilíticas.
     Caçador de cotia, Pipoca possuía dois pevas sem raça alguma, magros e arrepiados, porque — dizia o dono — "cachorro gordo fica preguiça e perde o faro". E com esta filosofia venatória descarregava a sua consciência do jejum em que trazia os míseros cotieiros.

*
*  *

     Mas a imaginação de Pipoca era fértil, e aquele círculo estreito que traça a cotia na car­reira era por demais mesquinho para as suas am­bições de largo fôlego.
     Sentado à beira do caminho, a poucos pas­sos do carreiro, enquanto Rompe-ferro e Corta- vento ganiam na capoeira, à procura do rasto, o nosso homem parafusava grandes coisas: o ser­tão, a mata virgem, uma perrada valente, espin­garda Laporte, chumbo paula-sousa, faca lam­bendo, acuação de pintadas nas furnas pavorosas, e ele, ele mesmo, nho Chiquinho da Sirva, encafurnando-se aos berros, açulando os cães, enfren­tando, por fim, um macharrão a urrar de tremerem as grotas; e afinal ele, nho Chiquinho da Silva, por entre o retintin-ratantan dos ganidos afinados, a chegar, a fazer longa pontaria, a desfechar a Laporte uma, duas vezes, e a arrancar em se­guida a tira-prosa faiscante, porque o bicho, embora mal ferido, vinha pela fumaça atacá-lo com fúria desmedida.
     E eram então as cutiladas no barranco, e com tal entusiasmo que, de uma feita, a cotia passou sem que ele a pressentisse.
     Assim a ideia de conhecer o sertão se radica­va dia a dia no espírito do velho algoz das inofensivas cotias.
     Todavia, uma coisa incomodava o nosso Esaú pelado: era que, quando, passados aqueles momentos de rapto venatório, de cutiladas no bar­ranco ou na parede esburacada do casebre; quando, metido debaixo dos lençóis, altas ho­ras da noite, o espírito se lhe apoucava pelo temor das almas, dos sacis, das mulas-sem-cabeça, e ele se punha a pensar de novo naquela cena fi­gurada do macharrão a urrar no escuro da sarapilheira, — então, uma como bolinha de gelo lhe vinha rolando pela coluna dorsal abaixo, e a cafurina se lhe eriçava. Encolhido, com a ca­beça coberta, suando, Pipoca tinha nesse instan­te uns rasgos de louvável honestidade:
     — Quá! — dizia ele consigo mesmo — tô vendo que quando chegá a hora triste, este mardiçoado friu me vae pregá ua massada das dúzia!
     E lá do fundo de sua alma de cotieiro subia uma revolta sincera contra a bolinha de gelo des­astrada, que ameaçava reduzir a cinzas o sonho por tantos anos acalentado.
     Mas apenas nascia a claridade matutina e o sol, dissipando as trevas, dissipava também os mistérios, os bruxedos, de novo Chico Pipoca se considerava homem e a perspectiva do macharrão voltava a enfeitiçá-lo. Ah! que não daria ele para dizer aos caboclos da redondeza: — "Aqui está o couro de uma pintada, que matei em luta perigosa, sozinho, nas brenhas do sertão!"
     E então, olhando para as capoeiras de vassoura e de outros matinhos-pócas onde só se viam carreiros de cotias, e onde só se ouvia o piado dos xintans e xororós, um quase desespero lhe invadia a alma. Aquilo ali não era vida para um homem como Chiquinho da Sirva!

*
*  *

     Um dia de calor, em que o ar tremia como cordas de violão feridas, e no silêncio absoluto só se ouvia o piado triste do sem-fim nos cambarás carapentos do cerradão, estalou a porteirinha do sitieco, lá em cima, na boca da capoeira rala; e um cavaleiro surdiu, ao passo bamboado de uma besta ruana, com o picuá a agitar-se na garupa, como as asas de uma garça.
     Chico Pipoca, roceiro da gema que era, es­tava "tirando um corte" àquela hora, resupino, a sonhar com o macharrão na grota.
     Aos latidos dos cotieiros, nha Faustina foi até a porta, espalmou a mão na testa, espreitou longamente, e afinal reconheceu no cavaleiro o compadre Zeferino, que havia dez anos se retirara para umas terras distantes, nas margens do Tietê, dali a vinte léguas, onde fora abrir um sítio.
     Mal reconheceu o compadre, nha Faustina sururucou para dentro e foi acordar o bem-aventurado marido, que roncava já, no risco de perder a sua bem-aventurança com um grave pesadelo.
     Nha Faustina, desastradamente, pregou as unhas na barriga do esposo, justamente na hora em que o macharrão, chumbeado, mas de pé, com as fauces rubras escancaradas e a dentuça à mos­tra, firmava um bote certeiro sobre o caçador que, havendo tropeçado num toco, rolara por ter­ra, perdera a espingarda e debalde procurava coser a onça à faca, porque a lâmina se transfor­mara em barra de sabão!
     Resultado: ao bote de nha Faustina, corres­pondeu um berro e um prisco de Pipoca, que daquela feita espipocou os olhos desmesuradamente.
     Tá maluco? — perguntou nha Faustina.
     Ué! pois onde já se viu acordá um home unhando a barriga dele desse feitio!
     Corde é que é, su samoco! Cumpadre Ze­ferino tá aí.
     Quem?
     Compadre Zeferino, já disse.
     O que? devéra?
     De certo é mentira. . .
     Mas nisto as esporas do Zeferino resoaram no solo pisado da saleta e a voz amiga, que não se ouvia há dez anos, entrava com alvoroço nos corações saudosos.
     Foi um dia cheio para a pequenina choça.
     A prosa cerrada abrangia a todos e a tudo, minúcia por minúcia. A Tudinha, contava o Zeferino, que fora dali apenas com quatorze anos, já tinha uma ponta de seis filhos que eram uma boniteza! O Tonho andava para casar-se. Já tinha um sítio "de seu", com uma invernada ca­paz de engordar um esqueleto! Ainda agorinha mesmo ele havia mandado para lá o seu Brioso.
     O Brioso? Pois ainda veve aquele burro?
     Ora se veve! E forte que dá gosto! É o meu puxa-manjarra de todo dia.
     E Pombinho, o cotieiro?
     Ah! esse já morreu faz um secro. Uma pintada moeu a cabeça dele numa acuação.
     Os olhos de Pipoca brotaram das órbitas, mas a maldita bola de gelo rolou, sinistra, pelo fio do lombo.
     — Não cortando sua conversa — disse Pipo­ca — ainda hai muita pintada por aquela banda, compadre ?
     Agora não hai quage. Só de vez em quando remanesce uma passageira; não demora.
     Ah, compadre! Se vacê subesse a chianha que eu tenho de dá um panasio nua pintada, com­padre! Que vontade de vê mato, mais mataria braba de verdade! Tô cansado de vê estas porquêra de bassora que não tem fim. . .
     Pois é só arresorvê — atalhou o Zeferino. Arreie o Pilintra e bamo.
     O Pilintra morreu picado de cobra, mais porém tenho agora ua éua rusia que é uma tirania de boa.
     Pois soque fubá na rusia, compadre, e toquemo. Eu demoro por aqui uns oito dias. Dá tempo de introchá ela de fubá. Olhe que daqui lá é um pedaço de chão.
     Pipoca pôs-se a coçar a grenha.
     Como é, nha Fostina? Vô u não vô?
     Ué! eu não trapaio mecê. Qué? pois vá.
     Mais há de sê pra vortá, não é, comadre? - disse o Zeferino.
     Se quizé que fique tamem por lá. . . Eu sei como é que hi de fazê.
     E não é que nóis vae mermo, compadre? - exclamou o Pipoca.
     — Tá feito! — respondeu Zeferino.
     Durante o jantarzinho caipira, com o quarto de uma cotia afogadinho pela perícia de nha Faus­tina, não se falou senão na viagem, que era para o Pipoca uma lança em África.
     Vinte léguas! — monologava ele. Olhem lá que eram vinte vezes a distância do sitieco à vila, única viagem que ele, o Zé Curruira, seu pai, e o Quim Raposa, seu avô, haviam jamais empreendido. Era preciso ter pacuéra para aventurar-se a vinte léguas. Assim, só pensar naquilo já lhe causava tonturas. Grande recom­pensa para sua alma estava na convicção de que ele era capaz de um tal rasgo de coragem.

*
* *

     Quando no bairro do Quilombo correu a nova de que o Pipoca ia apinchar-se lá para os sertões do Zeferino, o assombro foi grande e os comentários intermináveis.
     Uma loucura, que até ali só coubera na cabe­ça do Zeferino, um homem que sempre fez as coi­sas de arrepio com o ramerrão daquela gente. E tão pessimistas foram esses comentários, que Pipoca esteve a pique de roer a corda e de perder a convicção de que era homem.

*
*  *

     Passou-se a semana, com o regalo da rosilha que tirou o ventre da miséria.
     Chegou a hora da partida. Nha Faustina não podia esconder as lágrimas, que ia enxugando na manga do paletó. Chico Pipoca arregalava os olhos e deglutia em seco, com um nó invencível na garganta.
     E lá se foram os dois cavaleiros, seguidos de Rompe-ferro e Corta-vento, entre nuvens de poei­ra erguidas pelos animais sofrivelmente cangiqueiros.
     A pica-pau de Pipoca, untada de fresco, lampejava ao sol.
     Os pousos eram mais ou menos de cinco em cinco léguas, de maneira que a viagem se fazia em quatro dias. Uma puxada braba! — dizia Pipoca ao cabo da primeira jornada, que o fez supor que este mundo não tem fim.
     Derreado, mas são e salvo, o esposo de nha Faustina apeou-se afinal no sitio do Zeferino, cercado de soberbas matas, o sonho de Pipoca. Olhando-as embevecido, ele exclamava de si para si: — Esta viage foi ua temeridade; mais valeu a pena! Só vê este mundo de matão enche o coração de ua criatura!

*
*  *

     Marcou-se logo para o outro dia a batida aos macucos encantados. Só a palavra macuco en­cerrava para o caçador de cotias um encanto inenarrável. Sim, era-lhe um sonho achar-se em mata de macuco. Acreditava morrer sem essa ventura infinita, e a realidade fazia com que a sua alma se desabrochasse numa prece de grati­dão, toda quente, muda, ainda que vaga, sem que ele próprio soubesse a quem ela se dirigia, se a Nossa Senhora da Aparecida ou se a S. Bento de Araraquara.
     Ouvindo o piar dos macucos ao entardecer, à hora do empoleirar, o gralhar das araras em bandos, o martelar festivo dos gaviões caans nas alvoradas sertanejas, Pipoca sentia vergonha de falar em cotias e outras "imundícias"; procu­rava a todo custo varrer do espírito a imagem ignominiosa do seu rancho, do vassoural, e tinha ímpetos de estrondar a cabeça do Rompe-ferro e do Corta-vento, rastos impagáveis, ali, da sua miséria ainda viva.
     E foi assim que ele penetrou na mataria fresca, a ostentar as amplas copas das figueiras brancas, cujas raízes, como para-ventos descomunais, abrigavam os caçadores de macuco.
     Pipoca media de alto a baixo, com os olhos cúpidos e extasiados, os troncos gigantescos, as frondes augustas, entestando com as nuvens, onde as arapongas rangiam e malhavam, desafiando- lhe a pica-pau.
     Zeferino tomou do pio e o primeiro piado, triste, foi morrendo pelas grutas. Momentos de­pois vinha a resposta.
Com ela, o coração do Pipoca pôs-se a pular-lhe papo acima.
     A respiração ofegante não lhe permitia es­conder a emoção que o esmagava. No pescoço pelancoso latejavam-lhe as veias em golfadas valentes.
     Novo piado; nova resposta, mais perto. Os dois matutos estendiam a vista por todas as frestas, à cata da presa arisca.
     Afinal, começaram a ouvir-se estalidos secos de folhas e gravetos. Com pouca demora, numa aberta, divisou-se o lindo pássaro, a menear a cabeça indagadora, em que luziam dois olhos líquidos e leais.
     Malhe fogo! — disse baixinho o Zeferino.
     Pum! — foi a resposta de Pipoca. A ave estrebuchou com a chumbada certeira.
     Não se descreve a alegria do cotieiro. So­pesando a soberba caça, o rosto lhe fuzilava e a voz saía-lhe aos trancos do peito opresso. E di­ga-se que não há felicidade na terra!

*
*  *

     Não era preciso continuar na selva. Podiam regressar. Para que mais tiros ou macucos? Voltaram. Pipoca não falava noutra coisa.
     Amanhã — disse ele — nóis vorta e leva otro bicho.
     Compadre, — respondeu Zeferino vacê tá em sua casa. Fique aqui o tempo que vacê quizé; mais eu já le vô aprivinindo que não le posso acumpanhá nas caçada. Tenho muito ser­viço atrasado que recrama agora trabaio.
     Pois sim, compadre, pois sim... Eu ve­nho só — obtemperou Pipoca; mas sentiu que a bolinha fria lhe foi rolando pelo espinhaço.
     Não obstante, o amor próprio, e o desejo de novos tiros e novas sensações aliadas à crença de que naquelas matas já não havia onça pintada, se não as passageiras de que falara o Zeferino, fizeram-no firmar-se na resolução de voltar.
     — Que sim; que iria só.
     E, de fato, no outro dia, lá foi ele entrando pela mata ainda orvalhada. E com tal felicidade, que topou uma jacutinga desgarrada, ave que há muito não se avistava por ali. Novo tiro e nova presa.
     Diante de uma tal sorte, Pipoca esqueceu-se de tudo, tudo; até de nha Faustina. O prazo que ela lhe marcara para a volta escorrera veloz sem que ele desse pela coisa. Para ele o tempo já não tinha divisões; não sabia mais ao certo o dia da semana em que se achavam, nem a quantos do mês rolava o mundo; tudo se lhe transformara num retalho da eternidade em que havia uma úni­ca bem-aventurança: entrar na selva e matar ma­cucos e jacutingas.
     Aos poucos foi-se orientando na mata, de mo­do que poderia internar-se sem perigo.
     Certo dia atingiu um capão de taquara, cer­rado e convidativo para a tocaia.
     Enfiou-se por ali, escondeu-se, deixou morrer o barulho de seus passos, e piou.
     Por muito tempo não se ouviu resposta, nem ruídos, até que afinal um baralhar de ramos chamou a atenção do cotieiro.
     Fixou a vista, abriu a boca, esfregou os olhos e reacendeu-os desmesuradamente. Que via? Uma oncinha pintada, um filhote assim já meio res­peitável.
     Atiro ou não atiro? — perguntou ele aos seus botões, trêmulo de comoção.  Haverá ou não haverá perigo?
     E enquanto esperava que o animalzinho lhe ficasse em posição favorável, dissiparam-se-lhe to­das as dúvidas.
     Atiro — respondeu por fim. Mato este bicho e despois posso contá que matei onça pinta­da. Não perciso dizê que era pequena.
     E sempre a tremer, ergueu a arma, fez longa pontaria e atirou rente com a paleta. A onci­nha rolou por terra, estorcendo-se e estalando nos dentes as taquaras que alcançava, no desespero da morte.
     Estaria quase realizado o sonho de Pipoca, se não começasse ele a ouvir, de um lado, ronco soturno, ameaçador. Era da onça-mãe, que por ali se achava e acudira a defender a cria.
     E Pipoca tinha a pica-pau descarregada!
     O terror que dele se apoderou excede à al­çada de uma descrição. O medo fê-lo resoluto, como sucede às vezes com o rato, que apertado entre quatro paredes e vendo-se agarrar por um bichano, atira-se-lhe ao focinho na ânsia de viver.
     O ronco ia rodeando o capão de taquara, apertando o círculo cada vez mais.
     Chico Pipoca, quando o círculo deveras se estreitava, sacudia um punhado de taquaras, cujo rumor fazia com que o animal atirasse um pulo e afrouxasse o assédio.
     Enquanto isso, o pobre cotieiro, quase morto de pavor, tratava de carregar a pica-pau, cometendo, porém, como era de esperar, vários enganos que lhe iam comprometendo a situação. Ora esquecia-se de colocar uma bucha, ora pu­nha chumbo do meio em vez de paula-sousa...  Ai, bola de gelo! bola de gelo!
     E o ronco a apertar o arrocho. O ronco, di­go, porque a fera não se deixava entrever.
     — Minha Nossa Senhora da Piadade! Meu S. Bento de Araraquara! — exclamava o nosso homúnculo quase a soluçar.
     Afinal conseguiu a carga desejada, e chega­ra a hora de um tiro arriscadíssimo.
     O círculo roncador fechou-se ainda uma vez, e por fim, numa aberta, as malhas negras, va­riando um fundo creme-claro, apresentaram-se aos olhos hiper-pipocados do Pipoca.
     Meu Santo Antonio, ajudai-me! Mando rezá dez missa pras arma do Purgatório!
     Pum! — partiu o formidável tiro, que por um triz não pôs em cacos a velha espingardinha cotieira. Mas o chumbo grosso varou o coração da fera, que reproduzia, em grande, a cena há pouco descrita com relação à oncinha: estorcia-se, arrancava arbustos com as unhas e estalava as taquaras na agonia.
     Pipoca atorou pelo mato como um veado.
     Respirava, vivia. Quando conseguiu sair na tiguera, sentou-se esbofado, em um tronco de peroba derribado, por cujos galhos secos trepava uma viçosa aboboreira. Era preciso compor fisionomia, de modo que não traísse o medo que curtira naquela moita de taquaras, onde acabava de passar o transe mais amargo de sua vida.
     Carregou a pica-pau, mirou-a longamente, apertou-a contra o seio, beijou-a, amimou-a ao lon­go de todo o cano e, depois, tocou para casa. Vinha estudando uns modos de chegar e de falar que dissimulassem completamente o que acabava de sofrer. Era fino, Chico Pipoca, isso lá era. Para engendrar uma fitinha, estava só!
     Ué, compadre, vortô sapatêro — pergun­tou o Zeferino.
     Caçadô véio não vorta sapatêro, compa­dre. Vim buscá vacêis pra me ajudá a tirá o côro de duas onça.
     Havéra de tê graça! — retrucou o Zefe­rino.
     Essas onça eu asso no dedo — acrescentou rindo a comadre Valentina.
     Não tô caçoando — prosseguiu Pipoca. Nunca se vi nesses apuro; mais porém caçado véio não se aperta. Eu tava piando macuco dentro de ua tocêra de taquara, quando de re­pente o mato garrô a mexê ansim nua baxada. Espiei e vi as maia de ua pintada. Não cuxilei. Preguei fogo! A bicha ainda tava se trocendo no chão, arrebentando tôco de taquara, quando senão quando remanesce, roncando, a onça gran­de. Eu coa espingarda descarregada! Vacês maginem só que apuro, minha gente! A bicha garrô rodeá o capão de taquara, e ia apertando o circo cada vez mais. Às vez ela passava tão rente comigo que eu. . . que eu. . . inté chegava a chuçá ela co'a ponta da espingarda, que era só prisco que ela dava. Palavra!
     Este "palavra" era sinal infalível de uma peta enxertada numa trama de verdades, sempre que Pipoca se punha a descrever um acontecimen­to mais ou menos cheio de peripécias emocionantes.
     A bicha — continuou ele — vortava de novo roncando nua toada. Home pra que hi de minti: quage que sinti uns arrepio no fio do lom­bo. . . coisa que nunca tive na minha vida.
     Afinar consegui corrê uns paula-sôsa nesta boniteza de espingarda (e deu um beijo na pica- pau) e tranquei fogo no bichão macota. Deixei ela ainda estrebuchando no mato... Há de tá lá...
     Ué! — observou o Zeferino — porque não esperô morrê?
     Aqui o Pipoca se viu atrapalhado para res­ponder, mas saiu-se com esta:
     É que eu fiquei cum medo que não désse tempo de tirá o côro hoje...
     Houve um silêncio indicador de que ninguém engolira aquela pílula, e na alma de Pipoca, des­ceu, fria e cortante, a convicção de que toda a sua fleuma postiça, estava comprometida para sempre. Cumprira-se o seu receio de que a maldita bola de gelo havia de sacrificá-lo na hora decisiva.

*
* *

         Pipoca voltou para o sitieco, acompanhado de Rompe-ferro e Corta-vento. Trazia os dois troféus de suas façanhas, com os quais encheu de prosa todo o bairro; mas guardava consigo, no âmago, indestrutíveis e minazes, como ferru­gem, duas convicções atrozes: a de que envelhe­cera alguns anos naqueles poucos dias, e a de que a bola de gelo, que rola pelo espinhaço de um mor­tal, é doença para que não há cura neste mundo. E esta foi a eterna amargura da sua alma.

Do livro Selvas e Choças
São Paulo: Imprensa Metodista, 1922

***Leia ou faça o download deste texto em pdf, pelo site Scribd. CLIQUE AQUI.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...