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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Natércia Sarander



Natércia Sarander

Despair. Desespero.
Próximo ao tornozelo direito.
Vermelhas.
Letras vermelhas tatuadas.

Era psicóloga do DEGASE, lotada no Instituto Padre Severino, reformatório para menores infratores localizado na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.
Meu primeiro contato com o sobrevivente Viktor Frankl foi através dela.

Não que ela fosse pedófila ou pervertida, nada disso.
Tudo calhou: sua separação, sua dor, minha detenção, minha dor, literatura, terapias, olhares de fome paradisíaca. Dois esfaimados de paraísos.

O beijo não foi iniciativa de ninguém. Simplesmente beijamo-nos, uma inevitabilidade assim como o nascer do sol ou a morte de uma mosca três dias depois de nascida. Ficaria bem se apenas nisso, mas fomos além. Dezessete anos, trinta e quatro anos.

Quando fiz dezoito e saí, ela reuniu coragem e levou-me para sua casa. Nada de crimes, Guil. Nada de crimes, Natércia.
Os vizinhos que se danem. Toleram o casal gay, nada podem dizer de nós, e você tem esse carão de homem mais velho, e já é de maior.

A casa sem ela nos dias de semana. Todos aqueles livros. Parava depois de doerem-me os olhos. Trinta minutos, me recuperava e voltava para aqueles homens cheios de histórias e sugestões.

Você precisa arrumar um emprego logo. Todos esses livros. Está lendo mais do que eu!

A vergonha foi do dia em que uma das vizinhas de andar perguntou se eu era filho dela. Velha escrota, sabia que não. Velha escrota, uma faca nessa glote ficava-lhe bem. Deus me perdoe, é preciso suportar, como Frankl. Pô, nada a ver. Mas é preciso suportar.

No segundo mês ficou difícil, estresse no Instituto, a mãe dela ficou sabendo, ‘sou liberal sim, mas isso é demais!’, ruim de conseguir emprego.

Janota pode me conseguir um emprego no ferro-velho. Nada de desmanche, longe disso. O ferro-velho é legalizado, trampo limpo. Se começar a aparecer peça roubada eu pulo fora. Cadeia não.

“Que história hein seu Guil! Então arrumou uma mulher e agora quer trabalhar de verdade? Seguinte: aqui o pau come. Não tem arrego não. Olha o Pedrão ali, é só fardo de papelão molhado e prensado, sacão de latinha de alumínio nas costas, ferro e o escambau. Mas você não caguetou ninguém quando rodou, então eu, como sujeito homem, tenho que te dar essa moral.”

Não demorou uma semana, cinco dias no máximo. Eu até que estava aguentando o tranco numa boa. O Queixinho apareceu com umas muambas. Entrou no escritório, conversou com Janota. Saiu e descarregou tudo no pátio. Pega isso aqui Pedrão, leva pra cima.
Depois perguntei ao Pedrão, que parada era aquela. Liga não Guil, são umas peças que o Queixinho arrumou.
Poxa Janota, cê falou que não rolava treta. Liga não Guil, parei mesmo, mas essa tava muito barato, e o Queixinho tava dependendo...

Sabe, o acaso, assim como o azar, não existe. Mas ambos armam ciladas. O esquema das peças era grande, o dia era mau, a casa caiu em cascata.
Queixinho era cunhado de Luizão, um PM safado lá do Batalhão de São Cristóvão. O PM arrumava as peças, elas eram simplesmente retiradas do depósito de carros apreendidos pela polícia, os carros que ficavam lá abandonados pelos donos, que não podiam mais arcar com as multas e taxas. Queixinho era um dos encarregados de se desfazerem das peças, revendendo-as onde desse.

O comandante do 4°BPM fora exonerado, e novo comandante do Batalhão de Luizão resolveu acabar com a farra, que já era de conhecimento de quase toda a hierarquia. As batidas da Civil e da Corregedoria da PM foram simultâneas em vários lugares.

Chegaram miseravelmente na hora do almoço, antes das 13h00. Eu sabia que era a bronca das peças. Só estávamos eu e o Pedrão no ferro-velho. Eu iria rodar no artigo 180, Receptação, e possivelmente no 288, Formação de Quadrilha. Isso não era nada. Mas a vergonha para Natércia, não, ela me salvara do abraço de todos os satanases deste e do outro inferno. Essa vergonha, essa decepção, nunca! Pulei do parapeito da janela, ainda com a boca cheia do frango da marmita. Entrei no carro de Janota, que tinha ido almoçar em casa, a pé. Essa vergonha ela não iria passar. Gritos, tiros, para-brisa traseiro detonado à bala. O azar não existe, mas arma ciladas. Entrei em casa, eles não estavam me perseguindo. Era sábado, ela estava em casa. Deveria estar em Irajá na casa da mãe, mas estava em casa. Mas eles estavam me perseguindo. Antes de eu começar a explicar, antes de eu conseguir colecionar em meu coração as palavras que ofereceria à mulher de minha vida, eles arrombaram a porta. Ela estava parada, com o telefone sem-fio na mão, me perguntando o que tinha acontecido, por que eu estava lívido. Ela deveria estar na casa da mãe. O primeiro que arrombou a porta disparou.

Depois alegou que confundiu o telefone com uma arma, olhou para os cabelos curtos dela e achou que era um homem, e estava armado. Disse que não teve opção.

*   *   *   *   *   *   *   *

Por um milagre, ou um encadeamento de milagres, escapei de ser preso. Já se passaram oito anos. Casei-me e tive um filho, Viktor, esse garotão aqui no meu colo. Estou aqui neste culto da Assembléia de Deus em Guadalupe, a pregação de hoje foi sobre Jó, seus amigos e o perdão, e eu lembrei-me de Natércia. “Sociedades se constroem com perdão”, era a frase com que ela iniciava e terminava as seções de terapia coletiva, era a  máxima e o mote da psicóloga que amei. E isso foi sendo fincado nas pedreiras dos corações de toda aquela molecada perdida, palavras na brita, mantra a puxar o comboio de tudo o mais que ela nos ensinou.

Até hoje esforço-me em realizar esta máxima. Agora que encontrei a Cristo, entendo a eficácia equalizadora do perdão.

Por vezes creio firmemente que perdoei, e tenho certeza e paz; mas por vezes meu coração recorda e endurece até a morte. Não me vinguei, mas fui fundo no rastro dos porcos, pus uma mão na maçaneta da portinhola do inferno: descobri até onde o policial morava, viciado de merda, tinha duas famílias, duas vadias que prestavam-se ao papel. Cheguei a apontar uma pistola na cabeça de Queixinho. E o traíra do Janota, quando rodou bateu pros meganhas que eu sabia e participava do esquema. Ia incendiar-lhe a casa, crianças, o cão e tudo, mas não me vinguei de ninguém, não matei nenhum deles.

Mas como disse, cheguei a dar meio giro na maçaneta da porta. Dois anos depois de perder Natércia, conheci uma menina, no mesmo dia em que ia matar o policial. A história é longa, sei que você está curioso. Aquele dia foi mesmo um filme. Mas o que importa é que ela deu-me alento, me carregou pra igreja, me fez voltar a estudar. A poucos metros de minha vingança, perdoei o homem que havia cancelado minha família, a única que tive, e um milagre, ou um encadeamento deles, levou-me (poucos metros adiante!) até aquela que seria uma outra família para um homem sem qualquer esperança e nada a perder, mas, ainda que renitentemente, disposto a acreditar no perdão.

Hoje eu tenho minha vida, meus livros, minha esposa e meu filho. Prestei vestibular pra Psicologia e Sociologia, passei em Sociologia, me formo este ano. Continuo com minha fome de paraíso, que hoje é silenciada pelas promessas de Cristo, meu do tesouro mapa e salvo-conduto para a Paz. Descobri (ou confirmei) que não existe acaso ou azar: há erros e acertos, há crimes e castigos, ação e reação. E há o perdão, a quebra dessas cadeias, a mão de Deus equalizando as coisas, a única forma de vencer.

Ela sabia.

Sammis Reachers

domingo, 27 de janeiro de 2013

O Paraguaio de Campina Grande



O Paraguaio de Campina Grande

Everaldo trazia muambas do Paraguai. Relógios especificamente. Era um paraibano branco, forte, de cabelos à la Rambo. Eu trabalhei para Everaldo de 2002 a 2003, numa banca de camelô em Alcântara, São Gonçalo. Vendia os mais finos medidores temporais de toda a cristandade, e além: era um harém da relojoaria universal, de todas as marcas, da Suíça a Tókio, passando por Paris e Nova Iorque, a 20% de comissão. Eu era um garotão viciado em quadrinhos, fliperamas e rock’n roll, e dava pra viver meus vícios sem passar fissura.

Hoje tem alguma graça, mas antes só me chocava o inusitado, o vão de tal morte: um caroço de azeitona.

Foi em 2003, na semana em que o então prefeito do Rio, César Maia, re-inaugurou o Pavilhão de São Cristóvão, a Feira Nordestina. Tomava, assentado numa roda de conterrâneos, uma cachaça vermelha, da terrinha, depois fui saber, dita ‘Santa Rita a Vermelha’. Estranho nome para uma santa, ou cachaça, mas dá na mesma, pensei na época. Engasgou com o tira-gosto, levantou-se já vermelho, deram-lhe socos nas costas, e tapas, e mais socos, muitos socos pelo que me disseram, mas não adiantou. Caiu ali, puseram-se a abaná-lo, mas já não havia ar, já não havia anima (espírito) naquele corpo.

Tinha na bolsa dez cordéis que me comprara, eu havia lhe encomendado. Eu adorava cordéis, como adorava os livrinhos de western, de bolso, que brasileiros escreviam com pseudônimos americanos. Pulp-fictions verde-e-amarelos. Não sei por que digo isso, não quero fugir do assunto, do Everaldo, mas sempre que me lembro dele penso nos cordéis, ‘João Cabrobró contra Satanás’, ‘A rixa do Carcará contra o Sapo-boi’, ‘Morte e Vida Severina’, e outras fugas da secura do sertão, da secura nonsense e repetitiva da vida, do nonsense seco e tedioso da morte.

Sammis Reachers
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