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sábado, 3 de fevereiro de 2018

LISBOA, 1494



Lisboa, 1494

Dois anos antes de 1496, dois anos antes do Rei Manuel I, bem intencionado filho comum da Idade das Trevas, expulsar os judeus de Portugal: Um sábio rabi, judeu lisboeta solitária e espontaneamente converso a Cristo, desejoso de auxiliar com sua sabedoria o avanço do Reino, ao iniciar de cada dia, assim orava a Sabaoth o Santíssimo:
- O que posso fazer hoje pelos que te servem?
E, no dia seguinte, divergia sua oração nest’outro sentido:
- O que posso fazer hoje pelos que te amam?

Pois, sem horror ou escândalo, sentimentos próprios das bestas e dos noviços, o sábio havia aprendido que nem todos que O amam O servem, e nem todos que O servem O amam. Com desprezo pelo paradoxo, o auto sacrifício perfeito de um sábio, resignava-se a soldado e cumpria o seu papel.

Sammis Reachers

domingo, 5 de novembro de 2017

Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus


Sahhir, o Perscrutador, encontra-se com Deus

      Mercadejando metais e breves víveres nas plagas da Mesopotâmia, umbigo-que-não-cicatriza do mundo, gastava-se o árabe criado por judeus, órfão agregado a rebeldes, Sahhir.
      Ironicamente referido como O Devorador de Papiros ou O Perscrutador pelo rude populacho dos mercados a quem servia, em certa e ditosa feita, enveredando sozinho entre o deserto de Syn e a gloriosa Madinat as-Salam, dita Bagdá (Bag, "deus", e dād, "dado"; "dado-por-Deus", no persa médio, sexta das línguas de Sahhir), encontrou-se o curioso mercante com o Anjo do Senhor.
      Prostrando-se em terra, clamou por seu pecados.
      - Que desejas, pequeno barro, semelhança do Altíssimo?
      Sahhir, locupletado de luz e horror, não confabulou curas ou joias, palácios ou patentes:
      - Sou pó e do pó lhe adoro, Deus de meus benfeitores, e sei que morrerei por lhe contemplar. Sabes bem, ó Onisciente, que desejo, com humildade, saber e apenas saber. Conte-me, rogo, como e para quê fizeste o Universo.
      - Tais questões fogem à capacidade que lhe dei, ó enxertado, como o voar está distante de Beemoth-a-baleia. No entanto, naquilo para o que a engendrei, vês como é deveras insuperável e poderosa?

      - Sei bem que não poderei entender, Senhor; a mim me basta o ser maravilhado. 

Sammis Reachers

domingo, 24 de setembro de 2017

Propiciação à Topofilia - Sammis Reachers

Jurujuba, Niterói, 2011. Sammis Reachers

Propiciação à Topofilia

“... espaços proibidos a forças adversas, espaços amados.”
Bachelard

espaços abertos
desertos
verdes semi-verdes
pelo vento municiados:

paraísos do possível

Éden desfeito ressonando fragmentário
ruído de fundo à espera no espaço
de quem lhe vibre à frequência:
um herdeiro para lugarizá-lo 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A Educação em 365 frases - Livro gratuito


A EDUCAÇÃO em 365 frases - Algumas das melhores definições 
e reflexões sobre a Educação de todos os tempos. 

Desde muito antes de Comenius e Herbart, “pais fundadores” das modernas didática e pedagogia, retrocedendo aos gregos e indo além, a educação ocupa importante papel na preocupação humana. Nascidos os mais impotentes e dependentes dos mamíferos, não é senão através de abnegado cuidado e instrução que aprendemos a ser e estar em nossa condição de seres sociais.
Vivemos num mundo onde o conhecimento, e logo a educação, assume definitivamente a posição preeminente no escopo dos anseios e objetivos humanos, adquirindo sua talvez maior valorização e democratização ao longo de toda a nossa história. No Brasil, mais e mais pessoas têm acesso ao ensino superior, e o principal: consciência de sua importância, e consciência de que é possível, independentemente de sua classe econômica e faixa etária, ter acesso e ter sucesso.
Este breve livro reúne uma seleção de definições e reflexões sobre a Educação, conforme o entendimento de autores e pensadores os mais diversificados; afinal já dizia Salomão em seus Provérbios: “Na multidão de conselhos há sabedoria”. Sim, damos voz a gregos e troianos: se a unanimidade não é burra, como dizia Nelson Rodrigues, ao menos é uma companhia que merece suspeita. E uma antologia de frases é assim, tece sua colcha de um mostruário de opiniões díspares, uma coleção de alteridades que a enriquecem.
Ao mesclarmos reflexões sobre a educação, o ato de educar(-se), o educador, a escola, nosso objetivo é prover conteúdo para a reflexão de educadores de todas as vertentes, e também para estudantes, pais, filhos e a qualquer interessado neste tema capital.
Como professor, minha esperança é, aqui neste livrinho e em tudo o mais, inspirar a quem aprende e inspirar a quem ensina, para que todos cheguem juntos à certeza de que ambos são na verdade um só, avançando numa mesma e única estrada.
Que este seja um porto propício e benfazejo para onde você sempre possa retornar, em busca de inspiração e renovo: este é nosso maior anseio e nossa recompensa, amigo(a) leitor(a).
No mais, este é um recurso gratuito; compartilhe-o livremente com seus contatos – seus alunos, professores, companheiros de vida e caminhada.
                                     

Sammis Reachers, organizador

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sábado, 8 de julho de 2017

MORCEGO & SINISTRO, um conto de Sammis Reachers


Morcego & Sinistro
                                                
      Não seria a Loucura, seja ela como for, genética ou casual, involuntária ou (in)voluntariamente auto-induzida, uma resposta, se não absoluta, absolutista ao Absurdo?

      Durante os anos de 1999 a 2004, eu trabalhei como cobrador de ônibus na linha 24, que fazia o trajeto do bairro Palmeiras até a praia de Gragoatá, em Niterói. O ponto final desta linha localizava-se num encontro de morros, pequenas ou medianas favelas, o que costumamos chamar de complexo.
Foram muitas as descobertas, espantos, amizades e inimizades que plantei e colhi, ou colhi mesmo sem plantar, ali.
      Mas escrevo para falar de dois moleques, melhor, dois jovens rapazes que sempre apanhavam meu ônibus para irem até a praia das Flechas, em Icaraí, ou a já referida praia de Gragoatá.
      Morcego era um daqueles que a literatura brasileira achou por bem ou por vício chamar, num de seus antigos chavões, de negro retinto. Tinha o rosto largo, e lábios grossos e vermelhos, contrastando com a pele muito negra. Um rapaz medroso, que ao contrário da maioria dos demais de sua idade, comunidade e contexto, jamais enveredaria pelo crime, apenas porque... era muito medroso. Simples assim.
      Sinistro... Sinistro era uma singularidade. Era um jovem baixo, de compleição um pouco forte, com peitoral de nadador sempre à mostra, independente do clima e das circunstâncias. Onde fosse, lá ia Sinistro, sem camisa e chinelos, apenas de bermuda ou chortão, com um sorriso indefectível nos lábios. Sim, Sinistro, invencível, sempre sorria. Era um zen, uma anomalia de paz transitando na favela, na cidade (quando aventurava-se), nas praias das Flexas e Gragoatá. Sinistro era deficiente mental, e meus nulos conhecimentos de psicologia impedem-me de referir o problema (a mim, anarco-cristão tardio, me pareceu sempre mais uma solução) que ele carregava. 
      Meu outro passageiro, o Morcego, era um refém da normalidade, um como eu e você, portador da velha cruz estacionária cujos quatro braços são a repetição, o enfado, a aceitação e o auto-engano.
      Por diversas vezes falei de Jesus para Morcego. “Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
      – E se um bandido levar um tiro e na hora que tiver morrendo invocar o nome do Senhor, ele vai pro céu?
      – Se ele crer que Jesus é Deus e morreu em seu lugar, para o perdoar e salvar, ele será salvo.
      – Assim é mole.
      – A salvação é um presente, Morcego. Se fôssemos comprá-la, nenhum homem poderia pagar o preço. Ela só poderia ser dada.
      Espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

      Mas agora voltemos a Sinistro, e ao fundamento deste relato. Sinistro não era de muita conversa. Ele vinha, pedia para passar por baixo da roleta, com seu sorriso impassível. Eu sorria de volta e dizia, “vai lá, Sinistro.” Sentava-se, colocava a cara na janela e não falava mais. Na volta me esperava (pois aprendera por tentativa e erro que comigo a carona era certa), e eu perguntava:
      – Como estava a praia, Sinistro?   
      – Boa – pois sempre estava boa.
      O Louco é um privilegiado dentro do Absurdo. Saco de pancadas, lixo do panteão reverso humano, a ele é concedida a salvação direta. Incapaz de avaliar, como seria julgado? Incapaz de crer ou plenamente capaz, pois são os dois extremos do mesmo e tensionado arco, não estará justificado, como as crianças pequeninas de que é feito o reino dos céus?
      Mas o trágico tece os homens, como fiandeiro da Realidade que é. Certo dia, retornando da praia em meu ônibus, Sinistro e Morcego descansavam os corpos cheios da tão carioca lombeira, exauridos e felizes em sua silenciosa fraternidade. Ônibus vazio. No ponto próximo ao Plaza Shopping, subiram seis camaradas, cinco ‘conhecidos’ da favela e um outro que eu jamais vira, talvez do morro do Estado, que fica ali nas adjacências, quase contíguo ao luxuoso Shopping, e é dominado pela mesma Facção que o bairro das Palmeiras. Bandidos, claro. Sentaram-se espalhados pelo carro, e tudo ia bem. Mas eis o trágico levantando impudicamente suas saias: um bloqueio policial, uma blitz na Alameda São Boaventura, a menos de um quilômetro do ponto final, logo antes de entrarmos no bairro. Foi tudo muito rápido, um dos malandros percebeu o bloqueio à frente, “e a bolsa, e a bolsa?!?”, perguntou para os demais. Colocaram-na sob o banco, no chão. Os policiais sinalizaram para o motorista, o ônibus encostou. Os caras desesperaram-se, um deles pegou a bolsa e jogou para Sinistro,
      – Segura aí menor, se perguntarem diz que é seu.
       Morcego esboçou uma reação, – não, não, segura aí vocês, querem ferrar a gente?
      – Segura aí menor, se piar vai apanhar na favela!
      Morcego silenciou. Eu percebi a cena, os malandros estavam tensos, olhos esbugalhados. Eu também silenciei.
      Os policiais vieram revistando um por um. Chegaram em Sinistro. Pediram-no para abrir a mochila, ele não conseguiu, apenas ria e silenciava, aquele silêncio de Jesus frente a Pilatos. O policial falou alguns palavrões, apanhou a bolsa, abriu, uma arma e muitos papelotes.
      – Isso é seu? Isso é seu???
      Sinistro sorria. O policial deu-lhe um murro na cara. Eu não suportei,
      – Ele é especial, é maluco. – Um dos malandros, que estava em pé, olhou-me de soslaio.
      – Eles estão com você? – perguntou a Sinistro.
     Sinistro abriu a boca para falar inocentemente a verdade:
      – Eles não. Tamo só eu e ele – e apontou para Morcego.
      Morcego passou a tremer e gaguejar, – eu não eu não eu não – mas não denunciou os marginais. A polícia desconfiou de algo, levou três dos malandros e mais Sinistro e Morcego. Outros três conseguiram se safar, fingindo, claro, estarem separados. O ônibus seguiu viagem.
      Minha covardia perdeu poder, eu não me contive.
      – Vocês são muito filhos-da-####, hein, ferraram o moleque, sabendo que ele é deficiente!
      Um deles sabia que eu era crente:
      – Que isso irmão, tá nervoso? Ele é de menor, vai sair hoje mesmo.

* * *

      Não tive mais notícias de toda aquela desgraça até dois dias depois.  Dois dias que o Espírito Santo fez com que fossem longos, distendidos dias de vergonha e arrependimento. Então encontrei Morcego na padaria, ponto final do ônibus.
      – Sinistro ficou agarrado, e os três caras também. Eu consegui sair.
      – Mas Sinistro não é de menor?
      – Não, ele já tinha dezoito anos.
      Dissolvido em sua alienação, sequer tivera tempo de envelhecer: aparentava quinze anos.
      Nos dias seguintes tudo se esclareceu: os policiais não acreditaram em Morcego, mas o liberaram, pois possuía apenas dezesseis, e os marginais resolveram ‘inocentá-lo’. Sinistro não teve a mesma sorte: eles precisavam de um bode, de um bucha. Atestada sua demência, Sinistro foi transferido para o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, em Niterói.
      Com uma semana que Sinistro havia sido preso, e três dias depois de transferido para o hospício, sua família foi visitá-lo. Morcego quis ir junto.
      Ao retornar, Morcego trazia transtornos e constatações em suas fragilizadas asas. Transtornos por ver o amigo, a própria encarnação da paz, ferido e sedado, transfeito de sorridente monge zen em patético e pálido zumbi. E a constatação maior, geral: era possível resgatá-lo. A segurança era baixa, nada comparado à cadeia de verdade.
      Nos dias seguintes, o covarde Morcego iniciou uma cruzada na favela. O objetivo de sua pregação: convencer o ‘dono’ do morro, Simiano, que não gostara de saber o que seus subordinados haviam feito, a resgatar Sinistro. Isso mesmo: o covarde Morcego, que temia tiros e pancadas da polícia, tinha um plano e buscava homens de verdade para realizá-lo.
      Um dia ele veio falar comigo. Falou dos sofrimentos de Sinistro. Em seus olhos de culpa, espelhei minha culpa: seu silêncio no momento capital fora também meu silêncio, sua lendária covardia não fora menor que a minha, eu, o muito crente e muito homem e muito culto cobrador do carro 110 da linha 24, que não abaixava a cabeça pra ninguém. Mentalmente eu vislumbrava o sorriso de Sinistro, eu contemplava a sua paz, e eu senti então, aos vinte e cinco anos, o que Judas sentiu depois do beijo. Eu me ofereci para tomar parte no resgate, ofereci meu braço, minha mente. “Perdoe-me, Jesus. Eu preciso desfazer a merda que eu fiz.”
      Um dia depois Morcego intimou-me: o patrão sabia que eu desejava tomar parte na empreitada, e ‘mandava’ que eu fosse ao morro, após largar do serviço. Trabalhava no turno da tarde, das 12:00 às 19:00. Às 20:00, estava no alto do morro, onde nunca havia subido. A mãe de Sinistro também estava lá. Tive estranhas sensações, não sabia se orava ou se me rebelava, mesmo que numa micro-rebelião, tentando inútil e miseravelmente deixar Deus ‘de fora’ daquilo.
      No dia seguinte, Sammis, o branco com cara de bobo ou de cidadão respeitável iria ao hospício, avaliar o cenário. Quem suspeitaria?

* * *

      No dia da ação, todos iriam armados. Ainda segundo o plano traçado no alto do morro, utilizaríamos três carros (certamente roubados; eu já não queria saber ou me informar, como se minha falseada inocência fosse diminuir-me a pena na contagem de meus pecados). O teatro da ação seria uma das áreas mais nobres de Niterói. O próprio hospício ficava defronte ao mar. Localizado no bairro de Charitas, ladeado pelos bairros de São Francisco, de um lado, e Jurujuba do outro, que é um bairro sem saída, estendido sobre o mar em forma de istmo. Fugiríamos então via São Francisco. Faríamos uma troca de veículos dentro do túnel Raúl Veiga, que por sua vez liga o bairro de São Francisco a Icaraí, por onde se daria nossa fuga em direção ao bairro das Palmeiras.
A ideia da troca de veículo foi minha, era fácil fechar o túnel ou armar barreiras do outro lado, em caso de alguém alertar a polícia. E do outro lado do túnel, a míseros quatrocentos metros, estava exatamente a 77º DP. Próximo ao Hospício ficava a 79º DP. A realizar-se o pior, teríamos um terrível cenário, digno daqueles ridículos filmes de ação americanos e suas batalhas assimétricas, de um contra cem, um contra mil, pois seriam muitos policiais mobilizados em curto espaço de tempo. Só que, ao contrário dos filmes, ali as balas seriam letais, fundidas no rude metal da realidade, e a garra do destino estaria em nossos pescoços. Satanás sorria enquanto varria o salão para o grande baile, feliz em saber da presença de um convidado especial, um ‘crente’ se não desviado de direito, já desviado de fato. Ou já prestes.

      No dia decidido eu e mais dois rapazes da boca entramos no hospício, a título de levar uma doação para os internos. Eu e minhas malditas ideias. Não era hora de visitações, mas a mãe de Sinistro já estava lá: a estória era que ela estava com câncer, com prognóstico de poucos meses de vida, e precisava ver o filho antes de uma cirurgia arriscada. Sim, eu tinha imaginação. Ela se encarregaria de levá-lo para fora do edifício, para o pátio, onde conversaria com ele. Nós simplesmente renderíamos os dois guardas do portão, e faríamos a extração do paciente, para a van que aguardava do lado de fora. Morcego estava no calçadão da praia, quase em frente à 79º DP, para vigiar a movimentação policial. Jô, um dos enviados de Simiano, estava próximo à 77º DP, onde aguardava o momento de fechar com um carro a estreita rua Dr. Carlos Halfeld, que fica ao lado da 77º, dificultando assim o acesso dos policiais à Rua Roberto Silveira, por onde dar-se-ia nossa fuga. Os policiais não seriam impedidos, mas ao menos atrasados. Embora a rua fosse tão próxima que poderiam simplesmente ir a pé. Mas a ideia era atrasar seus veículos, em caso de perseguição.

      Como já referi, Sinistro só andava sem camisa. Sol quente ou dia frio, lá ia ele, de peito nu impávido como um andorinhão. No hospício foi obrigado a andar no padrão, uniforme de bermuda longa e uma camisa verde de grosso tecido.
      Ao ganharmos a rua, a primeira coisa que ele fez (acreditei que só então entendendo e assimilando a libertação em processo), foi arrancar a camisa. Como um Adão que, em sublime transcendência, tornasse à inocência, ao estado de luminoso torpor que é a graça.
      De acordo com a cosmovisão de cada homem, ou a corcunda que cada um traz no entendimento, ele poderia ser visto como um deficiente, um sub-humano, um indivíduo sempre carente de cuidados; para outros entendimentos, dissonantes do massivo coro, era um super-cara, um liberto sem luta e sem trauma, um pacificado, ou numa melhor palavra, um transcendente. Li livros demais em minha vida; se não pudesse reconhecer um transcendente, e se não estivesse apto para reconhecer uma causa, um motivo, um sentido, não seria um cristão.

      Quando prestes a entrarmos na van, os tiros caíram sobre nós. Um dos caras da boca, que segurava aberta a porta para que entrássemos no veículo, foi o primeiro alvejado. Os tiros vinham de dentro do hospício: algum segurança interno miseravelmente percebera a ação. Talvez passasse próximo à portaria no momento. O outro rapaz sacou a arma e começou a disparar. Um carro da polícia vinha trafegando em direção aonde fugiríamos; ouviram o som dos disparos. Ligaram a sirene. Do outro lado da rua, na calçada do canteiro central, em posição à boa distância por trás da viatura, Morcego sacou a pistola com que nunca atirara e começou a disparar contra o veículo. O outro rapaz da boca disparava contra o segurança do hospício, enquanto eu me dividia entre colocar o rapaz ferido dentro da van e tentar impedir o que atirava, pois havia diversas pessoas no pátio. Ao perceber que, mesmo à distância, a polícia começara a disparar, o terceiro elemento, ao volante da van, simplesmente acelerou e partiu com o veículo. Cão. O segurança do hospício parou de disparar, seu 38 deve ter ficado sem balas. A viatura, agora parada há alguns metros na estrada, disparava contra Morcego e contra nós. Morcego, atingido, largou a pistola, atravessando a rua e correndo em direção à praia.
      Sinistro, que até então ficara estático, sem entender a violência célere dos acontecimentos, ao ouvir o grito de seu amigo e vê-lo fugindo, correu atrás dele. Foi somente então que saquei a arma que me fora emprestada no morro. Disparei contra os policiais da viatura, para cobrir a fuga de Morcego e Sinistro em direção ao mar. Estávamos em campo aberto, o rapaz que ficara comigo gritava:
      – Babou, babou irmão, a casa caiu, vombora!
      Correu em direção contrária, me deixando só, como um dos alvos dos disparos da polícia, que fazia fogo também contra as costas de dois anjos de pó que fugiam sem saber de que, sem saber para onde.
      É assustador, e se Deus não estava ali, foi a pura eficácia do mal: atingi dois dos três policiais, enquanto o terceiro ficou em posição inalcançável, atrás da viatura. Com o tiroteio, o trânsito nas duas mãos da via havia parado, mas outra viatura se aproximava, dessa vez da Polícia Civil, avançando dividida entre a calçada e o acostamento. Quem mandou bolar um resgate a quinhentos metros de uma delegacia? Corri em direção à outra mão, em direção ao mar. Outros policiais, esses militares, vinham já correndo pelo calçadão em direção a Morcego e Sinistro, que entraram na água. Os policiais dispararam. Disparei contra eles, a 14ª e última bala da pistola se foi sem encontrar carne alguma. Não havia carregador sobressalente, não pensamos que seria necessário. Atiraram contra mim, abaixei-me, levantei as mãos, estava cercado pelos dois lados.
      Pude ver quando um deles, disparando sem parar, atingiu Sinistro, pois ele imediatamente afundou. Morcego, ferido no ombro, já havia sumido no mar calmo da praia de Charitas.

      Depois de receber o soco na cara e os chutes, fui colocado numa viatura, a mesma que ajudara a perfurar com minhas balas, balas certeiras demais para um amador.  Atingira um na mão, e ele agora, em pé ao lado da viatura, me olhava com olhos prenhes de ódio; o outro estava vivo, mas estendido no chão.
      Suado, sozinho, ferido e empapado pelo sangue que meu nariz vertia, como Bonhoeffer conspirando para matar Hitler, fiz-me a pergunta retórica fundamental, por isso talvez não-retórica: os fins justificam os meios? Não, a não ser que seja pelo bem supremo. E a Redenção é o fim, o bem supremo, a equalização do caos.
Sinistro alcançou o fim pelo qual tudo no Universo digladia-se, de quarks até galáxias, passando pelo Homem de pó: Redenção. Pois redenção é o amor em ação, é a sua perfeita práxis.

      Adeus, Sinistro. Primeiramente teu é o Reino dos céus.

      Confúcio diz que virtude é realização. Amigos até a morte, que, impotente para separá-los, uniu-os, ambos afogaram-se na virtude, realizaram-se.

      De Morcego, espero que ele tenha invocado o Senhor no momento propício.

* * *


      Hoje estou preso na carceragem da 76º DP, em Neves, São Gonçalo. Há irmãos aqui, fazemos cultos, dou aulas de rudimentos de teologia, filosofia, história, repasso o que acumulei.
      Outro dia um dos irmãos, Aloísio, viu-me rabiscando algo na página de guarda de um livro. É um homem humilde, mas entendeu que tratava-se de uma rota, um plano. Depois, durante o banho de sol ele se aproximou e bastante sem jeito me perguntou se eu iria fugir.
      - Lutei para desfazer uma injustiça, que os homens e as circunstâncias jamais desfariam a tempo; não tenho parte com leis injustas. Se há um maquinário, um sistema disposto a oprimir, de minha parte estou disposto a resistir-lhe, a ir contra a chibata. Sim, pretendo sair daqui.
      Estávamos sentados no chão, de cabeças baixas, recostados numa parede cuja umidade o calor do sol, com toda a sua inclemência e seu chicotear, era impotente para eliminar. Aloísio abaixou ainda mais a cabeça, entre escandalizado e confuso.      Observando o espanto incrédulo por trás de sua face humilde, um flash obscuro me fez pensar se eu estaria ensandecido. Mas, espasmo de luz que era, desfez-se.   

      Ficamos em silêncio; ele ruminaria as informações que se contradiziam em sua cosmovisão, sua corcunda. Agora era ele e Deus. Não sei qual foi seu crime, em quais linhas do destino ele embaraçou-se ou foi embaraçado. Mas se for inocente, o levarei comigo na fuga. Deus proverá.

De O Pequeno Livro dos Mortos (Ed. Letras e Versos, 2015). Para adquirir seu exemplar, escreva para: sreachers@gmail.com

domingo, 4 de junho de 2017

Fundação, um poema do amor


Fundação

Eu fugia, sátiro por corsários
Amotinados
                        Mutilado
A entrelaçadora, a Escuridão
Me cirandava esfaqueava e enfim deitava
Às paredes do labirinto
                               Que me nascia:

O frio me desnudava
Vazio após vazio e vazio
Eclipsava no infinito, falsa
Crisálida que leva de processo
A processo, sem final em seu cio

Esperei pelo levita,
O escriba e o sacerdote
(e Lutero não trans
tornou a Terra num orbe de sacerdotes?)

Por fim, o samaritano:
Passou ao largo, ocupado o mui coitado
Em fazer guerra ao judeu (e quem nunca?)
Que os tempos primam pelo mal

E ela apareceu, descendo com a noite
mínima ninfa solitária

Sobre cada uma
                   Minha
    Cicatriz
Ela deitou uma flor, freira das heras
Pródiga em unguentos e emplastros
Karma & cura
Para minha colectânea de feras
           
E unimunimo-nos de nós:
A flora e a fauna
                Dum planeta erradio,
Pais fundadores de nossa imprópria

Raça de seres milifelizes.

Sammis Reachers

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Segundo Éden - A ambição de Caim


O Segundo Éden


 “O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto, qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.” Gn 4.15

      O povo arisia possuía 36 palavras para ‘Paz’. Trinta e seis peças de rica sinonímia, e não eram essas aproximações chulas como em português poderíamos apor, por exemplo, ‘paz’ e ‘serenidade’. Eram como gradações, matizes, como especificações sutis do mesmo conceito poderoso, cores de um caudaloso arco-íris.
      A estranha existência de tantas palavras para a rara paz decorre do fato de que, de todos os povos da terra, mesmo entre os povos primordiais, os arisianos foram os que herdaram e lograram guardar com maior fidelidade e por mais tempo o idioma raaisiaar, o primeiro idioma humano, falado pelo pai Adão.
      Eram também, de toda a Dispersão anterior à torre de Babel, os que ficaram morando mais próximos do vácuo que outrora fora o Éden.
      Foram varridos da existência por Caim, pai do caos, durante as campanhas de cainização promovidas pelo primogênito do pai Adão. Campanhas essas onde ele exterminava todos os homens adultos e jovens das tribos e povoados que encontrava, bem como todas as crianças de ambos os sexos, e por fim copulava com todas as fêmeas em idade fértil disponíveis, deixando-as à própria sorte, muitas delas grávidas devido ao estupro. Pois o objetivo do ceifeiro do caos era criar uma raça imperial cainiana, exterminando a descendência de todos os seus demais irmãos. E deitar assim mais uma ofensa a Deus. Caim encontrara um formidável aliado, o primeiro Caim, ser espiritual que prometeu-lhe uma noite, no deserto de Azaar, compartilhar com ele o domínio do mundo, e disse-lhe que sua descendência alcançaria vastidão como a das estrelas do céu.

      O tempo foi propício a Caim; a marca em seu rosto livrava-o de seus inimigos, tal o horror que provocava. Ele ainda estava vivo para combater diretamente os bisnetos de seus irmãos mais jovens, atravessando gerações com seu ódio.
      Apenas seis arisianos haviam sobrevivido ao ataque dos chacais de Caim. Naquela noite do massacre, fugiram para Eridu e depois para Babilônia, terminando por fixarem-se em Shir, povoamento que depois deu origem a Larsa. Levavam consigo a sinistra invenção arisiana: o primeiro alfabeto, grafado no primeiro pergaminho.
      De Larsa rumaram para as montanhas de Elam, onde, por décadas, planejaram uma forma de refrear ou deter a insânia cainiana. Como os demais sob o céu, temiam profundamente a maldição que Caim levava por coroa, e ninguém, ainda que lhe fosse possível, ousava assassinar o Assassino.
      Levaram cem anos para conceber seu plano.
      Cinco sobreviventes espalharam-se pelo Orbe. Três tinham a missão de trazer sementes de toda boa planta que encontrassem, o que fizeram com fartura. Os outros dois foram encarregados de empresa mais sutil: deveriam ir em busca de plantas que gerassem frutos venenosos.
      Plantaram então, no vácuo do que fora Éden, um jardim. Muito menor que o original, e inferior em tudo ao primeiro; mas, no pequeno declive onde realizaram seu verdejante engodo, foi a maior beleza alcançada até ali por mãos de barro. Os homens conheciam a agricultura de subsistência, mas era a primeira vez depois do Éden que conheciam um jardim: uma ambientação não apenas utilitária, mas fundamentalmente estética, naquele exercício primevo de paisagismo.
      Aguardaram outras dezenas de anos; os homens viviam então satisfatoriamente, o tédio que mata tantos homens hoje era então apenas uma sombra, uma intuição.
      No propício tempo fizeram correr entre andarilhos e mercadores a lenda de que, a leste de Tigor, restara um verdejante resquício do Éden. E apenas para alguns seletos, deram a conhecer outro fato (lenda dentro da lenda): a Árvore da Vida subsistira em tal restolho do Jardim, e era agora guardada apenas por mãos de barro umidificado, mãos de homens.
      Luas depois um emissário de Caim e seu pequeno séquito foram dar pelas bordas daquele grande horto. Ao partir, o emissário levava uma auspiciosa confirmação, e um secreto convite para o segundo dos homens e o primeiro imperador.
      O líder dos arisianos, Zaeoun, era um homem de exceção. Sabia que o aliado de Caim, o Grão Satanaz, enxergava em quase todos os lugares, como que ao mesmo tempo, e fatalmente alertaria Caim sobre o engodo; aprouve-lhe então a temerária empresa de usar as armas de Satanaz contra Satanaz.
      No dia do encontro com Caim, circundando o imperador com sutilezas, alertou para que a posse da vida eterna despertaria ciúmes no príncipe deste Mundo. Caim espantara-se de que o ancião tivesse conhecimento da existência de Satanaz; pois um dos itens do tratado entre ele e Caim era que Caim jamais revelasse a sua existência, que deveria ser desacreditada por todos os meios entre os povos conquistados, e Caim até então julgava estar alcançando amplo sucesso em sua campanha de desinformação.
      Tal fato então contribuiu para a abertura das defesas de Caim, e o ancião cresceu em seu conceito.
      – Ele lhe dirá certamente que os frutos da árvore serão sem efeito; talvez diga que são venenosos, ou que é na verdade a árvore do conhecimento do Bem e do Mal; comê-lo, neste caso, será como errar duas vezes, e você será transformado num demônio, uma sombra, um sem-mãos como ele e os seus. Não importa o que ele dirá, é o príncipe da mentira e enganou teu pai Adão. Tentará demovê-lo de alcançar a vida eterna e tornar-se o Príncipe de Todas as Coisas Criadas, sobrepujando em poder até a ele mesmo.
      Mas o ancião temeu a maldição de Deus; precisava contar a verdade para o Assassino.
      – Comer os frutos da Árvore da Vida é certamente morrer; morrerás e a um tempo ressuscitarás. Renascido, não poderá nunca ser morto novamente, seja por homem, seja por anjo. A imortalidade que almejas, terá então sido alcançada, e não terá fim.
      O ancião sabia uma única coisa sobre a alma humana, um único basilar conhecimento, e tal conhecimento lhe bastava para conhecer e prever os homens em toda a sua sina: o sonho de todo homem é voltar ao Jardim. Ele os atrai como um seio ou um sol; os homens que sequer jamais ouviram falar que houve um dia um Jardim, um Lar, são-lhe igualmente escravos: onde e quando quer que nasçam, vivam, estejam, trazem em si a inadequação do estrangeiro, o horror surdo da alteridade; sabem que isto o que é, ou seja, a Realidade, simplesmente não-era-pra-ser. Não sabem por que, não sabem como ou para onde voltar, mas intuem que houve um lugar, um Porto-de-não-mares, Fixo, de onde ninguém deveria ter partido.
      Caim era só um homem.
      Dispuseram na mesa quatro frutos, oriundos dos ‘quatro cantos da terra’.
      – Estas são as quatro frutas que apressam a imortalidade; oriundas dos quatro braços da Árvore, recolhidas nos quatro cantos do grande Éden. Elas matam e fazem que não mais se morra.
      – Satanaz diz que morrerei e irei ter com o Deus de meu pai -, disse Caim.
      – Claro que terás com o Deus, pois assim como Satanaz, Caim será também um deus. E liberto serás da opressora subalternidade ao demônio. Tornando-se um seu igual, poderás compartilhar seu incandescente destino.
      Caim-O-Arguto, como também era conhecido, tornara-se um homem de rituais e encantos, aprendendo as artes negras que seu Mestre lhe insuflara. Assentado na mesa, o sedento e sagaz imperador fez um pedido, ou ordenou:
      – Exijo um sacrifício. Eis dispostos os quatro frutos sobre a mesa, vindos dos quatro braços ou formas da Árvore, sitos nos quatro cantos do grande Éden; eia, sacrifique-me quatro de seus homens, dispondo cada corpo numa das quatro direções, onde estão os quatro braços da grande Árvore.
      Os seis últimos arisianos vivos, cujo viver era conspirar pela morte do Imperador, entreolharam-se em pesaroso e tenso silêncio.  Todos abaixaram os olhos. Ainda um derradeiro sacrifício seria necessário.
      – Está bem – disse um dos arisianos. – Para que nosso Imperador viva, morreremos com prazer.
      Sem esperar por mais palavras, os quatro mais velhos abaixo do líder posicionaram-se ao redor da mesa, sob o olhar pesaroso do mais jovem. O ancião lhes fez um sinal com a mão direita, uma despedida. Sacaram suas adagas, e de um a um, autoimolaram-se.
      – Você possui homens de grande coragem, Zaeoun. Seriam bons generais em meu exército.
      – Sim, meu senhor. Eles compreendem perfeitamente a importância universal daquilo pelo que estão sacrificando-se, e é com prazer que deitam suas vidas na pira do holocausto.
      Entre os quatro cadáveres, Caim comeu com sofreguidão as quatro frutas. A Árvore que ele julgava perdida, do Jardim que ele julgava findo, ei-la mastigada, possuída, explodindo em sinistros sabores em sua boca.
      O Assassino caiu em estertores, e gritava e sorria, urrando como um chacal, morrendo para não mais morrer.
      O ancião observava-o, com olhar cansado, sem denotar alegria ou ira, tristeza ou mesmo paz. Era uma expressão de exaustão e algum horror.
      – Comeste das frutas do grande Éden, a grande terra que o Senhor nos confiou. Agora morres, e irás ter com teu Deus. E serás imortal para sempre, e arderás incendiado em luz, aprisionado nas chamas, aguardando o Juízo que há de vir sobre tudo.

*   *  *


      O paradeiro e destino do sexto e mais jovem dos arisianos (este é um dos que buscaram os venenosos frutos), nunca se soube, senão que partira tornando a ser navegante, ensinando as artes do mar por onde fosse, e silenciando sobre tudo que vivera. O ancião Zaeoun, o de tantos nomes e a quem em vindouros anos Abraão, no deserto, chamaria de Melquisedeque, persistiu em seu trabalho de Jardineiro, guardando a memória do único Deus.

Sammis Reachers


quinta-feira, 21 de abril de 2016

A Siesta


A Siesta
É uma alegria para mim ouvir soar o relógio: Eu vejo que passou mais uma hora de minha vida, eu acredito que estou um pouco mais perto de ver Deus.” - Teresa de Ávila

Tive um sonho esta tarde. Meus sonhos da siesta, 
do após o almoço, são sempre tristes, materialistas,
renitentes lembranças exageradas de problemas
nos quais desejo não pensar.
Mas esse foi diferente:
Eu assistia, num desses cemitérios de subúrbio,
a um funeral, o meu próprio.
Seguia avançando com o féretro, uma mãe chorando &
duas dúzias de pessoas cansadas do dia, e tudo era paz
e algum tédio, mas ao chegar à sepultura
choquei-me com o que li escrito em minha lápide:

Lançado para além da muralha.”

Foi a coisa mais linda e perfeita que já li na morte ou na vida,
o sonho de maior completude que já pude.

sexta-feira, 4 de março de 2016

A Segunda Vida de Gregor Samsa - Sammis Reachers

Mary Swanzy

A segunda vida de Gregor Samsa

      Não posso ver: tudo é sensação, para além ou de antes do visual, transcendência táctil: energias?
      Não me lembro completamente quem sou. Lembro trechos. Pedaços de rostos, cadeias de palavras que já não entendo e são música boa ou ruim.
      Estou nalguns braços. Alguém me move. Energias fluem, posso senti-las quase como odores. Atravessamos linhas de campos magnéticos. É magnífico este novo sentido, este meu único multisentido, seu caudal de silenciosa epifania.
      Lembro-me de destruir o jardim. Apanhei o taco e destruí as roseiras de alguém que não me lembro, alguém muito importante, alguém que importava. Destruí todas aquelas plantas de nomes débeis e frescos que não sei, aqueles nomes inúteis que sempre mantive aquém de mim.
      Espalhei as terras, derribei as pequenas contenções, como meios-fios, que delimitavam aquele inferninho verde. Estranho como disso me lembro bem. Cada movimento acertado.
      Parei de ser movimentado: sinto o vento, quentura. Ela é como uma canção. Suas ondas borrifam o que quer que sejam meus receptores, me deitam num torpor adocicado. Sou feliz.
      A pulsação que me movimentou aproxima-se, sinto seu avanço pelas linhas do campo magnético, ela deita água em meu pés. Não posso movê-los, nem tento: não anseio o movimento, anseio os movimentos que me vêm: flutuações do campo, comunicações que ainda não decodifico – mas o farei – a viscosidade do calor solar que banha-me, e este furor, esta fome consumindo meus pés: este fausto manjar de águas. Água. Água. Como nunca percebi? Como ela pode ser tão doce, e ter me passado incógnita, obscurecida? Para cada nova sensação faltam-me as palavras, conceitos de perfeito encaixe, mas tal abismo se avoluma ao toque da água. Fruição, tepidez... uma quase promiscuidade, coquetel de psicotrópicos conflitando e equalizando-se, a um só tempo, em meu corpo possuído. Agora percebo que o céu é feito de água, e para ela e para a luz é o meu desejo.
      Os campos magnéticos ondulam. O sol cintila. Meus pés alimentam-me. Dormi furioso ontem, não falei com Maria (agora me aflora tal nome), mal lavei as mãos sujas de terra, rolei como um diabo antes de conciliar o sono. Acordei dentro da paz.

      Sou planta. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[ Ficção Evangélica ] - O Pequeno Livro dos Mortos, livro de contos de Sammis Reachers


O Pequeno Livro dos Mortos (Contos). 
Editora Letras e Versos, 2015. 
96 Págs.

    Seja bem-vindo a esta pequena jornada, amigo leitor. Aqui o humor, o terror, o conto de espionagem, a ficção científica, a fantasia borgeana e a crônica (sub)urbana, com seu traçado agridoce e enlameado de poesia e violência, são os vagões, os gêneros desse comboio, desse trem de memória e invenção de que valho-me para visitar e emoldurar meus mortos. Ficção e realidade interpenetradas, perdição e redenção amalgamadas num caudal de cores de inusitada composição, para falar dos muitos mortos que perdi e ganhei, amigos e não-amigos, reais e imaginários, e suas mortes físicas mas algumas vezes também espirituais. Mortos que precisam de uma voz, prontos para revelar suas histórias de crueza e beleza, e de um como que encantado desencanto.
    
     Um passeio pelas horas da verdade: momentos de encontros com (ou retornos para) o Cristo, ressurreições, chamados cumpridos; mas também desencontros, desvios e desdita. E o trem tragicômico dos mortos e vivos avança: há provocações sutil ou escancaradamente acondicionadas em cada vagão, como passageiros clandestinos. Prontos para abraçar e inquietar, com seu amor ou seu aço, aqueles que se aproximarem...

      A morte é o fato inelutável, a certeza primeva de todo homem - e que por isso mesmo deve ser refletida e ruminada, jamais encoberta, ‘esquecida’ - uma premência filosófica que levou Heidegger, talvez o maior filósofo do século XX, a definir o homem fundamentalmente como ser-para-a-morte.

      Mas ao pensarmos na morte, precisamos atentar para seu caráter duplo, para o fato de que, se cremos na mensagem cristã, há duas mortes possíveis: uma carnal, inevitável neste aqui-e-agora que vivenciamos, e uma espiritual e eterna, representada pelo afastamento de Deus, afastamento este perfeitamente evitável. Cabe sempre lembrar das palavras de Deus em Deuteronômio 30:19: Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente...”. Sim, eis a boa-nova, a raiz e o fundamento do cristianismo: a todo homem está franqueada a esperança de não passar pela segunda e verdadeira morte, e galgar à eternidade re-unido com Deus, esperança radical advinda na pessoa e pelo sacrifício vicário do Homem-Deus de Nazaré, Jesus Cristo, expressa em João 11:25,26: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?”

      No mais, para além de religiosidades (Cristo é uma pessoa, nunca uma religião) e do tema algo lúgubre da morte, eis aqui apenas um livro de ficções, que expressa uma cosmovisão, sim, mas não tem objetivos proselitistas de qualquer monta: se ele puder entretê-lo, amigo leitor, ao lhe permitir devanear, sorrir ou assustar-se, se emocionar e solidarizar, ou talvez, ainda que por meros milímetros, expandir sua forma de perceber, terá cumprido seu humilde papel de livro.

O livro custa apenas R$ 20,00 , já com as despesas de envio (Correio) incluídas. Para saber como adquirir, escreva para:sammisreachers@ig.com.br
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