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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mia Couto: A Escrita Exige Sempre a Poesia



Sou escritor e cientista. Vejo as duas atividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura. 

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo. 

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano. 

Mia Couto, in 'Pensatempos.' 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

AS PESSOAS NUM POETA NEO-REALISTA




Quarenta figuras humanas perpassam, ou melhor habitam, na poesia de Manuel da Fonseca. Quem fez o inventário foi o escritor e crítico ilhavense Mário Sacramento, no seu quase clássico “Há uma estética Neo-Realista?(1968:80).
Enquanto que palavras recorrentes na poesia de um autor se consubstanciam semântica e metaforicamente, vocábulos que vêm da matéria e do que é imaterial, ilidindo mesmo sujeito e objecto, por exemplo os da poética de Eugénio de Andrade, outros poetas informam sobre pessoas com nomes e existência concreta.

Podemos enumerar uma breve lista de palavras eugenianas: 
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada. (vd. “As mesmas teclas de Eugénio de Andrade”, in Blog Poeta Salutor (2010: 11/3)

Vejamos, por outro lado,  o que concerne ao poeta e romancista do neo-realismo e do “Novo Cancioneiro”, Manuel da Fonseca.
E por aqui eis-nos chegados à dialética da personagem, do sujeito poético, do nome, da actividade, do local de origem, das figuras humanas que estão nos Poemas Completos do poeta de Santiago do Cacém, falecido em 1993.

Maria Campaniça, Jacinto Baleizão, Zé Cardo, Toino, Rosa Charneca, Francisco Charrua, Zé Jacinto, Marianita, Zé Gaio, Julinho da ourivesaria, Zé Limão, Manuel da Água, e Mariazinha Santos;  malteses, vagabundos, mendigos, campaniços, guardas,  o coro de empregados da Câmara, António Valmorim, a Nena de Montes  Velhos,  o Terceiro Oficial de Finanças, entre outros nomes e vidas.

No poemário “Planície”, de 1941, no início da década fértil para a poesia neo-realista, embora o poeta José Gomes Ferreira tenha afirmado que “o social não era a característica principal da poesia do Novo Cancioneiro” (a Memória das Palavras), a verdade é que MdF traduz essa particularidade representativa das problemáticas humanas e sociais, do campesinato e da urbanidade, da seara e da fábrica, logo para o início daquele volume de poemas.

Um local: Cerromaior, que é também título do primeiro romance do poeta, é um lugar inventado que contém, no entanto, as realidades e as gentes, doutros lugares autênticos do vasto Baixo Alentejo – e.g. Cercal -, área predominante, senão mesmo exclusiva na poética do autor.
Depois, o lugar começa a revelar particularismos da vila, como tipicamente alentejana, o “Largo” de onde partem todos os “caminhos”, o “Largo” que era “o centro do mundo”, onde estão os “guardas” com a lei, mais adiante o “montado” genuíno, o “vagabundo rasgado”; ou a aldeia com “nove casas, / duas ruas, / no meio das ruas / um largo”, o “monte”. O tópos é fundamental na poética de Fonseca, como os Alentejo, “Beja, Cercal. Em alguns casos, especificamente, noutros como metonímia.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de “Seara de Vento” é também recorrente na dimensão, por vezes, trágica dos nomes.

Na poesia ( como na prosa: conto e romance), “Manuel da Fonseca continua a existir com a sua frescura inicial e a sua energia, a sua capacidade de comover e seduzir” – escreveu  Mário Dionísio, há quase cinquenta anos.


30-08-2016


© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

CARTA DE ALFORRIA


vai, escravo buscar a carta da tua alforria
o teu passo ainda hesita, estará a carta pronta, quem
a assinará? quantas folhas a compõem? de que árvore?
vai o pensamento à frente e o passo

vai confessante as palavras depositadas no selo
escarlate que identifica o senhor
é a garantia do que a mão espera apreender:
a carta
lustral que torna eficaz a alforria
a declara inscrita nos céus, riscada por um cometa
escarlate do sangue do escravo

o teu sangue, escravo, com ele
for riscado um tapete
que os teus pés pisam
e os fere em brasa
como se fosse uma punição
por uma culpa qualquer que é só tua
a culpa de querer a alforria

mas fizeram-te a promessa,
e esse escarlate é agora
os sapatos da corrida
que tu encetas, pois acelera, vai,
cessa de prender o passo no chão
das hesitações
para trás das costas ficaram os chicotes
vai, escravo, transpostos os estratos do sonho
vai de cabeça alta e pernas firmes
como cedro do Líbano
buscar a carta da tua alforria

Rui Miguel Duarte
12/01/2016

domingo, 29 de novembro de 2015

Retorno a Porto das Caixas


Retorno a Porto das Caixas

Sou um escritor,
Um escandalizado pela palavra
E eles querem que eu seja claro e fluídico
E lhes traga paz

Sou um escritor,
Um amputado de útero
E eles esperam que eu corra,
Corra para apontar-lhes o caminho

Sou um escritor,
Um pretenso mestre do entalhe a frio em papel
Que entalha as dúvidas antes que elas me empalem, crucifiquem
E eles, os fiéis da fome, esperam que eu lhes traga os pães frescos das respostas

Sou um escritor,
Um capturado-enquanto-fugia
Pelo frio lá fora
E eles, ternos,
Esperam que eu os aqueça

Os não-escandalizados, os não-mutilados, os que não duvidam:


Eles, os que escaparam do frio.

Sammis Rechers

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

REGRESSO A OLISSIPO


“Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage…”

Joachim du Bellay (1522-1560)



Terá Ulisses visto fumegar a carne assando

subir acima das nuvens que submergiam a visão?

Por onde navegou ele entre Circe a a dormência



das ondas, que o embalavam para um lado e outro?

aspirava rever da aldeia a sombra

da casa que os seus maiores construíram

e cada onda empurrando a balsa



é um tijolo que refaz a memória da casa

do azul incandescente surgem aves

das bandas da ribeira, canto trazem a notícia



da morte das sereias, já não precisa o herói

de segredos de ser amarrado ao mastro

para aprender que o sonho é a realidade



a sabedoria e o amor, que Penélope

já não está encerrada em casa de mãos presas

ao tear, o dorso vergado ao sol



que nasce e se põe em cada dia

já não há sombra nem esperança

eis Olissipo que se eleva da claridade do rio



Rui Miguel Duarte

19/11/2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Brasil na Segunda Guerra: Três poemas de Nelson de Godoy Costa


EXPEDICIONÁRIO

Eu tenho de você, pracinha brasileiro,
Tamanho orgulho que não cabe no meu peito,
Por isto se extravasa nestes versos.

Preciso confessar-lhe uma fraqueza.
Essa fraqueza é minha imensa glória.
Eu tive inveja de você!

Eu que nunca invejei coisa alguma no mundo;
Que desprezei a fama, a glória literária,
Que nunca dei sequer a menor importância
Às riquezas do mundo e às vaidades da vida,
Eu tive inveja de você!

De você que eu não sei como se chama!

Nem me importa saber seu nome de família,
Se eu leio com os olhos marejados
De orgulho e de emoção em sua braçadeira
O seu nome: - Brasil
Eu quis partir como você partiu!

E a mágoa de ficar, apenas foi curada
Pela consciência do dever que estou cumprindo.

Eu, também, legionário brasileiro,
No sacerdócio santo a que entreguei a vida
Sou soldado de um exército invencível!

Minha existência a todo o instante é oferecida
Em holocausto ao grande ideal. E eu sinto
A glória de lutar, de viver, de morrer
Cada dia em favor da grande causa.

Eu também sou soldado brasileiro,
Como você, expedicionário, vitorioso!
E tenho me empenhado a fundo na batalha
Para vencida a guerra alicerçar a paz.

Glória a você, meu grande irmão! Meu bravo!
Meu grande herói! Extraordinário herói!
Soldado brasileiro!



SOLDADO CAMPINEIRO

Este poema, homenagem do autor, então pastor em Campinas, ao expedicionário campineiro foi lido pelos locutores de rádio várias vezes e muito declamado por jovens campineiras nos salões em festa.

Quando você partiu entre lágrimas quentes
De saudade, de orgulho e de emoção,
Eu bem sei que através da névoa de seus olhos
Brilhou, encantadora, a esplêndida visão
Da volta triunfal
À cidade natal.

Você partiu levando no seu peito
O grande ideal do moço brasileiro.
E sob o céu distante de outras terras
Mostrou ao mundo inteiro
Que o Brasil não é ninho de cobardes,
Mas é pátria de heróis.

Que toda a sua História
Bem se pode narrar numa palavra apenas,
E essa palavra é Glória!

Por isso é que você regressou triunfante!

E se custou chegar o dia da partida
Para os campos da luta, onde, valente,
Você deu tudo quanto tinha pela pátria,
E para onde teve pressa de partir,
Com que custo, depois do Dia da Vitória
Alvoreceu o instante do regresso,
Da volta triunfal
À cidade natal!

Gigantescos transportes sobre o oceano
Conduziram-no à pátria vitoriosa,
À pátria que você glorificou.

Rio de Janeiro! Paulicéia engalanada
Multidões em delírio ovacionando
O filho herói que volta à grande pátria.
E através de seus olhos marejados
Você teve a visão esplendorosa
Da cidade natal,
De onde partiu soldado,
Para voltar glorificado
Extraordinário herói em volta triunfal.

Os mesmos braços que o abraçaram na partida
Hão de abraçá-lo ardentes na chegada.
Os mesmos olhos que choraram de tristeza
Hão de chorar agora de alegria.
E o mesmo coração o coração de sempre,
O coração que não cessou de amar
Continuará pulsando venturoso.
E há de estreitá-lo carinhosamente,
Soldado campineiro,
Quando você chegar
À terra campineira,
Ao seu querido lar.


O SOLDADO BRASILEIRO QUE FICOU

(Para que a Pátria viva, ele morreu)

Num cemitério silencioso de Pistóia
Você ficou sonhando eternamente
Seu grande sonho de imortalidade.
É cemitério de uma pátria irmã,
Por isto, embora nossa dor seja tamanha,
Não o deixamos numa terra estranha.

No supremo esplendor de sua mocidade,
Quando a Vida acenava as mais lindas promessas,
E você era todo intensa vibração
De espírito, de cérebro, de músculos,
Você imolou-se em prol da Pátria grande e livre!

Por isto mesmo a Pátria-mãe jamais o esquece!
Ajoelha-se e soluça compungida,
- Olhos em pranto, coração em prece, -
Porque você não era apenas uma vida,
Mas expressava na existência esplendorosa,
A vida eterna de milhões de brasileiros!

O cemitério silencioso de Pistóia
Em cada sepultura encerra um monumento!
Cada túmulo fala! E, à eloquência suprema
Os próprios céus se curvam para ouvir
Da grandeza, do ideal, do amor e da bravura,
Com que você, soldado brasileiro
Mostrou ao mundo inteiro
A sua envergadura
E o valor sem igual da terra onde nasceu!

Se é certo que você não veio juntamente
Não marchou lado a lado
Com seus irmãos heróis, mas ficou sepultado
Sob outros céus, sobre outras terras de além mar,
Seu sepulcro sagrado é o maior desafio
Às gargantas da morte e às potências do mal!
E mais do que soldado hoje você é herói!
Mais que herói, é imortal!


Do livro Vida (São Paulo: Imprensa Metodista, 1952).

sábado, 18 de julho de 2015

Mia Couto: Dois poemas


IDENTIDADE

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

SOLIDÃO
Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O QUARTO





um quarto, um pequeno quadrado
do mundo, uma cama, uma mesa,
o vazio
fundo de duas cadeiras, detalhes
do silêncio contra a luz externa
da janela. invisível o cheiro
das tintas com que traz
para casa o sol dos girassóis.
Um quarto muito pequeno, em algum lugar
cabe a alma de Van Gogh.

25-06-2015
© João Tomaz Parreira

domingo, 14 de junho de 2015

A RESPIGADORA NUM POEMA DO VELHO TESTAMENTO

     
 

Ao contrário do que escreve o poeta John Keats (1795-1821), na célebre Ode a
um Rouxinol sobre Rute, atribuindo-lhe um coração triste “quando recordava o
seu lar e chorava diante das searas dum país estrangeiro”,  a verdade é que
esse pathos nostálgico da saudade se transformou em ânimo para aceitar a
vida nova em terra estranha e um trabalho humilde que, aparentemente, a
secundarizava.

No livro bíblico de Rute, canonicamente colocado entre Juízes e os I e II livros
de Samuel, o profeta que poderia ter sido rei numa teocracia, a diegese é um
relato que tem a força da emocionalidade e do profético, da beleza dos
 sentimentos à necessiadade da afirmação messiânica no meio de um povo
 israelita,   governado por Deus através de juízes, que o próprio Senhor suscitou ( Juízes, 2,16)
 Em síntese, escreve um comentarista da Bíblia Sagrada JFA, da Editora Vida
 Nova, “O livro de Rute descreve a direcção providencial de Deus na vida de
 uma família israelita.”

Tal narrativa de vida não deixa de ter a poética – no sentido aristotélico que
 determina que sentimos deleite perante o que lemos - a valorizar os
 acontecimentos e a conferir-lhe uma estética que é o Belo na vida de Rute e o
 que esta representa na genealogia do rei teocrático David, cuja linhagem vai
 até Jesus.

OS VERSOS DA ODE DE JOHN KEATS

A celebrada Ode tão cheia de melancolia do canto do rouxinol, que o poeta
 romântico inglês escreveu em 1820,  traduz uma visão da vida humana
transitória não isenta de sofrimento e de amargura, em contraste com o alegre
 e despreocupado canto do rouxinol.
 Esse  canto “pleno e calmo” da ave de Keats, no espaço textual da ode,
 aparece com uma equiparação, que o embeleza pelo oposto,  entre a tristeza
 do poeta perante a velhice, a mortalidade, o desejo de voar para fora do mundo
 e a imaginada tristeza que o poeta inglês pensa ver no semblante e na alma de
 Rute. Ele supõe que esta mulher da Bíblia, ao encontrar-se perante uma gente
 e uma terra estranhas, sofre da melancolia da saudade.

Os versos, repetindo-os, são os seguintes: “O espírito triste de Ruth, quando
 recordava o seu lar / e chorava diante das searas dum país estrangeiro.”
 (“Poesia Romântica Inglesa (Byron,Shelley,Keats)”, Inova, 1977, pág.88)
 A expressão da natural tristeza e saudade que acompanha quem sai da sua
 terra para outra estranha, no caso de Rute, não é contudo mostrada como tal
 nas Belas-Artes do Clássico e do Barroco. Por exemplo nas telas a óleo de
 Nicolas Poussin (1664) e de Barent Fabricius (1660), ambas revelando o
 encontro feliz entre Boaz e Rute.

O DEVASTADOR CAPÍTULO 1 DO LIVRO

O que se iniciou como  tragédia, não era senão o começo do Plano divino.A
 partir de um simples e pequeno núcleo familiar,  sem importância social aos
 olhos humanos, Deus iria agir universalmente na História.
 É, literariamente, uma saga familiar cuja narrativa se exprime num estilo
 poético, dolorosamente poético, apontando de igual modo para uma história de
 idealidade e de nobreza de carácter.
 “Não me instes para que te deixe, e me afaste de ao pé de ti; porque aonde
 quer que tu fores irei eu”( 1,16).
 A dialogia (a estrutura de diálogo) que se percebe  nesta resposta de Rute à
 sua sogra Noemi, desenvolve-se com qualidade visivelmente de poesia:  “ e
 onde quer que pousares à noite ali pousarei eu”; como a própria menção do
 estado converso de Rute ao Deus de Israel, é feita numa frase lapidar,
 metacultural, metahistórica, numa expressividade idiomática antiga: “o teu povo
 é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.

A narrativa descritiva da chegada de Noemi e Rute a Belém é em si mesma um
quadro em que a fraternidade, a alegria do reencontro fraterno resolve o
 problema da saudade que estaria nos olhos interiores dos familiares e vizinhos,
 que agora eclodia em alegria comovida: “ entrando elas em Belém, toda a
 cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi?”, (1,19)
 Noemi, que é ainda a figura central da diegese, ciente do drama que vivera,
 usa uma metáfora entre a imaginação e a realidade, ao declarar: “Não me
 chameis Noemi (i.é. agradável); chamai-me Mara; porque grande amargura me
 tem dado o Todo-poderoso”, (1,20)
 
A CENTRALIDADE DE UMA PERSONAGEM REAL

O facto de se considerar um livro canónico, integrando as Sagradas Escrituras
 veterotestamentárias, de ser mesmo um livro da liturgia judaica durante a festa
 do Pentecostes, tal não invalida que possa ser tratado como uma das mais
 belas peças literárias da Bíblia Sagrada.
 Assim, Rute é uma heroína em consequência da tragédia inicial que reverte em
 beleza e bênção.

Rute diante do que parece ser uma adversidade, adopta, pragmaticamente,
um modo de sobrevivência que só pode ser o sentimento e o bálsamo de Deus
a trabalhar no seu espírito.
No nosso século, com os instrumentos de análise do texto literário, lemos as
expressões do pensamento do puro amor -.ágape,  / sem sexismo ou
machismo prevalecente, uma antecipação  do romantismo, como um valor
imortal  no remotíssimo século XIII a.C.
Deixa-me colher espigas” disse Rute a Boaz. Este responde:”Não ouves filha
minha? Não vás colher a outro campo, nem tão pouco passes daqui.(…)Os
teus olhos estarão atentos no campo que segarem(…), não dei ordem aos
moços, que te não toquem? Tendo tu sede, vai aos vasos, e bebe do que os
moços tirarem” ( 2, 8-9)
Então ela caiu sobre o seu rosto, e se inclinou à terra” (2,10). Baixou os olhos,
por certo ruborizada. É poesia porque tem estrutura de verso e é simbólico de
uma atitude de respeito bem oriental. “Por que achei graça aos teus olhos”. Por
seu lado, é um expressivo exemplo de lirismo que embeleza a humildade, não
a subserviência.  Um dos grandes poetas evangélicos clássicos brasileiros,
Jonathas Braga, escreve em “O Milagre do Amor” (poema longo sobre o livro
de Rute, de 1969): “Quem é essa criatura angelical que cisma / e a luz do seu
olhar sobre outro olhar abisma?”
Assim é o Livro bíblico de Rute: um quadro luminoso da gratidão, do apego aos
mais velhos e do amor com A maiúsculo. 
                                                                                         © João Tomaz Parreira
                                                                                                                                                           








quinta-feira, 21 de maio de 2015

NOTÍCIA DO CERCO DE BIZÂNCIO



Assim foi que, estando a cidade sitiada,
Mais do que os baluartes guarnecidos,
Era urgente distinguir o sexo
Dos anjos, a forma exuberante
Das suas asas, se o seu corpo
É o da mulher jovem com um busto fresco
Ou o do mancebo com músculos rectilíneos.
Assim foi
Quando era preciso que rezassem com os joelhos
Dobrados, os monges discutiam
Com a harpa do sexo escondida nas cabeças.

20-05-2015

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 20 de maio de 2015

GRÃNADAS - Livro de Sammis Reachers


Este é um livro sobre nada, sobre (grã)nadas. Um livro inócuo, zoação, caleidoscópico construto de pueris provocações. Exercícios imag(in)éticos, artesanias de sampling, repetições do que há um século já foi novo debaixo do sol. Vilanias com versos, vilanias por versos. Conversos, perversos: cordatos estupros. 

Minha última iniciativa em poesia experimental foi no livrinho CONTÉM: ARMAS PESADAS, no já distante ano de 2012. Este(as) Grãnadas é uma retomada da inquietação criativa, com seus pequenos exercícios anti-tédio, balões de ensaio sem maiores pretensões além de romper a estática que por vezes domina seja o poeta, seja o ato poético e a poesia. Um livro eminentemente visual, feito de fotos, concretismos, colagens e samplings os mais diversos. Nada para ser explicado: apenas visto. Desde o índice até as diversas folhas de rosto (e títulos/autores), temos aqui uma brincadeira com o conceito de livro, uma libertinagem.

Para ler online ou realizar o download pelo site Scribd, CLIQUE AQUI.
Para realizar o download pelo site 4Shared, CLIQUE AQUI.

*Por tratar-se de um livro composto por muitas imagens, o arquivo possui 30 megas.

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